O
REINO DE DEUS (God's own country, 2017, BFI/Creative England/MetFilm
Production, 104min) Direção e roteiro: Francis Lee. Fotografia: Joshua
James Richards. Montagem: Chris Wyatt. Figurino: Sian Jenkins. Direção
de arte: Stéphane Collonge. Produção executiva: Cavan Ash, Mary Burke,
Anna Dufield, Celine Haddad, Richard Holmes, Emma Jouannet, Diarmid
Scrimshaw, Paul Webster, Christopher Granier-Deferre. Produção: Manon
Ardisson, Jack Tarling. Elenco: Josh O'Connor, Alec Secareanu, Gemma
Jones, Ian Hart. Estreia: 23/01/2017 (Festival de Sundance)
É praticamente impossível não lembrar-se de "O segredo de Brokeback Mountain" (2005) ao assistir-se ao belo "O reino de Deus". Se não pela temática homossexual, ao menos sua desconstrução da masculinidade em ambientes francamente viris, seu uso sensível dos cenários naturais como personagens de vital importância e sua história de amor que contraria os preconceitos remetem diretamente à obra-prima do diretor Ang Lee. Ao contrário do sucesso do filme estrelado por Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, porém, o trabalho do diretor Francis Lee não chegou a ser abraçado tão entusiasticamente pelas plateias e ficou restrito ao carinho de seu público-alvo e de uma parcela bem menos barulhenta de espectadores: aqueles que acompanham festivais de cinema e buscam alternativas ao cinema comercial de Hollywood. Sorte de quem se arriscou: "O reino de Deus" não é um filme de emoções pausterizadas, mas sim um belo conto sobre como o amor pode ser o motor de uma existência previamente sem sentido.
Estrelado por Josh O'Connor muito antes de o ator virar um queridinho do público e da crítica - o que aconteceu ao intercalar produções independentes e projetos comerciais, quase uma década depois -, "O reino de Deus" tem, em sua origem, as memórias do diretor e roteirista Francis Lee de seu período como trabalhador rural em uma fazenda no interior do Reino Unido. Homossexual, Lee via em sua rotina um empecilho quase intransponível a seus desejos de seguir uma carreira no teatro. Seu protagonista, o jovem Johnny Saxby (interpretado com uma sutileza palpável por O'Connor) também lida com a repressão a seus instintos: morando em uma fazenda no interior do país e ajudando o pai doente, Martin (Ian Hart, de "Os cinco rapazes de Liverpool") e a avó pouco dada a afetos, Deirdre (Gemma Jones), o rapaz dribla a solidão em encontros fortuitos e efêmeros em bares e feiras agrícolas. Sem maiores expectativas na vida, ele passa os dias bebendo e trabalhando - muitas vezes sem o devido reconhecimento de seus familiares. As coisas mudam quando, para ajudar no período em que as ovelhas do rebanho dão cria, seu pai contrata o imigrante romeno Gheorghe (Alec Secareanu): experiente e dedicado, o jovem acaba por derrubar as barreiras impostas por Johnny a sua chegada e, depois de um começo conturbado, os dois acabam se apaixonando. Mas Johnny não é uma pessoa fácil - resiste bravamente a qualquer aproximação menos casuais - e sua personalidade arredia, somada aos preconceitos em relação à sua sexualidade são uma ameaça ao relacionamento.
Filmado em ordem cronológica em Yorkshire - terra natal do diretor Francis Lee -, "O reino de Deus" chama a atenção também pela veracidade que circunda toda a produção. Suas cenas extremamente gráficas ao retratar a vida rural do interior britânico (com direito a partos bastante sangrentos filmados sem uso de dublês ou qualquer outro artifício) aproximam o espectador da trama e do universo de seu protagonista de forma quase asfixiante. A fotografia de Joshua James Richards comenta a ação de maneira discreta, utilizando os cenários naturais como tela para um panorama de emoções represadas - é exemplar o modo como a luz forte das primeiras tomadas vai se tornando mais quente conforme a relação entre Johnny e Gheorghe progride. Da mesma forma, até mesmo elementos discretos como o uso de tempero na comida serve como metáfora para a revolução de que um amor (por mais complexo) é capaz. Tais detalhes visuais (nada óbvios, mas bastante eficientes) demonstram o talento de Lee em equilibrar o visual com o emocional, amparado em uma direção de atores das mais inteligentes. Josh O'Connor se destaca com seu olhar triste e expressivo, mas é sua química com o romeno Al Secareanu que transforma "O reino de Deus" em uma produção especial e acima da média, celebrada em diversos festivais de cinema, como Berlim e Sundance: ao contrário da maioria dos filmes do gênero, que privilegiam histórias assépticas e rasas, o trabalho de Francis Lee parte em busca de uma história de amor que mergulha o público em uma espiral de angústia e fluidos corporais - que podem ou não resultar em um final feliz.
Inspirado no cinema dos irmãos Dardenne e de Jacques Audiard - segundo declarações do próprio diretor Francis Lee - e proibido no Oriente Médio e em vários países da Europa Oriental devido à temática homossexual (foi exibido apenas na Romênia, graças à participação do ator Alec Secareanu), "O reino de Deus" busca a conexão com seu público através da emoção, da sensibilidade e da identificação com temas universais, como o amor, a solidão e o medo de um um mundo hostil a qualquer diferença. Talvez por isso comova e seja mais consistente do que muitos congêneres que se contentam apenas com a superfície. Com silêncios mais loquazes do que seus diálogos, é uma produção que permanece com o espectador mesmo depois dos créditos finais.


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