sábado

VIAGEM MALDITA

 
VIAGEM MALDITA (The hills have eyes, 2006, Fox Searchlight Pictures, 107min) Direção: Alexandre Aja. Roteiro: Alexandre Aja, Gregory Levasseur, roteiro original de Wes Craven. Fotografia: Maxime Alexandre. Montagem: Baxter. Música: tomandandy. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Joseph C. Nemec III/Alessandra Querzola. Produção executiva: Frank Hildebrand. Produção: Peter Locke, Marianne Maddalena, Wes Craven. Elenco: Aaron Stanford, Kathleen Quinlan, Ted Levine, Vinessa Shaw, Dan Byrd, Emilie De Ravin, Desmond Askew. Estreia: 10/3/06

Primeiro foi a onda de remakes de produtos orientais - que teve seu auge com "O chamado" e desapontou com o fraco "O grito". E depois veio a moda de refilmagem de "clássicos" do terror setentista, que começou com o surpreendentemente bom "O massacre da serra elétrica" - e que continuou com esse "Viagem maldita", revisão do apavorante "Quadrilha de sádicos", que Wes Craven dirigiu em 1977. Craven - que depois ficou rico com as séries "A hora do pesadelo" e "Pânico" - é um dos produtores dessa versão século XXI de seu filme, o que lhe dá, no mínimo, credibilidade. Mas o melhor mesmo é saber que o jovem Alexandre Aja (nascido em 1978) conseguiu dar cara e sangue novo (literalmente) ao original sem perder a sua essência cruel e violenta. "Viagem maldita" é um filmaço de terror que não deve nada à sua origem.

A maior diferença entre o filme de Craven e o remake de Aja - que escreveu o novo roteiro ao lado do amigo Gregory Levasseur - diz respeito à origem dos vilões da trama, que, de canibais no filme de 1977, tornaram-se vítimas dos testes radiativos realizados no  deserto do Novo México - fato real cujas consequências podem ser medidas pelas angustiantes fotos reais exibidas nos créditos iniciais.  São as pessoas deformadas e mentalmente perturbadas que irão aterrorizar uma família tradicional ianque durante as duas horas seguintes, grudando o espectador na cadeira até seu minuto final. Ajudado por uma maquiagem espetacular e uma edição de som fantástica, Aja constroi um suspense crescente que não poupa o público de sequências fortes - e lhe dá a oportunidade cada vez mais rara de se importar por seus protagonistas.



Aaron Stanford - o Piro de "X-Men" - é quem acaba assumindo a protagonização de "Viagem maldita", ecoando o Dustin Hoffman de "Sob o domínio do medo", um homem comum e aparentemente frágil que encontra forças desconhecidas dentro de si quando vê a si mesmo e à sua família ameaçados. Ele vive Doug Bukowski, que acompanha a viagem dos pais da esposa, que reuniram a família em uma viagem para comemorar suas bodas de prata. O detetive aposentado Bob Carter (Ted Levine) e sua esposa Ethel (Kathleen Quinlan) mantém uma relação saudável e, junto dos três filhos, do genro e da neta recém-nascida, pensam em chegar à California e curtir alguns dias de paz e sossego. Tudo começa a mudar, porém, depois que seu trailer tem os pneus furados em pleno deserto. A família se divide para procurar ajuda e passa, então, a ser brutalizada e assediada por um grupo de homens deformados e sádicos que vivem nas montanhas.

Quem nunca assistiu a "Quadrilha de sádicos" tem a seu favor o sabor de novidade, que permite mais sustos e choques. Mas é inegável que o roteiro dos jovens fãs do original não se furta a apresentar novos elementos e aprofundar-se no terror gráfico e psicológico. Ao eleger como protagonistas uma família saudável e amorosa - mas que mesmo assim demonstra discretos pecadilhos, como o tesão reprimido de Doug pela cunhada (Emilie De Ravin) - Aja os aproxima do público, que não apenas assiste ao filme, mas também sente-se parte integrante do clã, roendo as unhas e se torcendo na poltrona de medo e terror. A escolha do diretor em não fugir do desagradável - só a cena do estupro é muito mais chocante do que boa parte de toda a série "Jogos mortais" - também é certeira, refletindo o espírito de sua época, em que filmes de terror exploram muito mais o visual do que o subjetivo. No entanto, além de assustar, "Viagem maldita" também funciona dramaticamente como poucos filmes do gênero.

Contando com nomes consagrados em seu elenco - Kathleen Quinlan já concorreu ao Oscar e Ted Levine sempre será lembrado pelo antológico vilão de "O silêncio dos inocentes" - "Viagem maldita" apresenta personagens críveis, que vão se desenvolvendo conforme a história acontece, sempre de forma orgânica e verossímil. Esse pé na realidade - equilibrado pelo visual grotesco dos agressores - é talvez a maior qualidade do filme e o que o coloca como um exemplar acima da média. Para se ver com as luzes apagadas e no silêncio absoluto!


sexta-feira

MATCH POINT - PONTO FINAL


MATCH POINT, PONTO FINAL (Match point, 2005, BBC Films, 124min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Caroline Smith. Produção executiva: Stephen Tenenbaum. Produção: Letty Aronson, Lucy Darwin, Gareth Wiley. Elenco: Jonathan Rhys-Meyers, Scarlett Johansson, Emily Mortimer, Brian Cox, Matthew Goode, Penelope Wilton, Ewen Bremner. Estreia: 28/12/05

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Que Woody Allen é fã de Dostoievsky - em especial de sua obra-prima "Crime e castigo" - não é novidade para ninguém. Afinal de contas, um de seus melhores trabalhos, "Crimes e pecados" (de 1989) deixa isso bem claro e explícito. Mas poucas vezes o cineasta nova-iorquino chegou tão perto de uma homenagem quanto em "Match point, ponto final", sintomaticamente considerado por ele mesmo como seu melhor filme. Ao utilizar o pontapé inicial do romance - um brutal assassinato com vítimas inocentes como efeitos colaterais - Allen criou um drama de suspense que prende o espectador na cadeira até os créditos finais.

Que não se espere, porém, um filme de suspense ao estilo hollywoodiano, afinal estamos falando de Woody Allen - deixando sua Manhattan de lado para localizar a trama na Inglaterra. Mesmo prejudicado por um fraquíssimo ator central que não convence em todas as nuances do papel (Jonathan Rhys-Meyers, de "Velvet goldmine"), "Match point" é um filmaço, com um roteiro redondinho e uma edição impecável que nunca deixa antever as suas reviravoltas - todas elas orgânicas, coerentes e irônicas na medida certa. Sem o característico senso de humor de seus trabalhos mais conhecidos, Allen demonstra (se é que ainda precisasse disso) um domínio invejável de narrativa - a ponto de, assim como o fez Hitchcock em "Psicose", eliminar uma personagem vital na metade da projeção sem deixar o interesse se esvair.



O protagonista de "Match point" é Chris Wilton (vivido sem muito entusiasmo pelo fraquinho Jonathan Rhys-Meyers), um jovem professor de tênis irlandês que, assim que chega a Londres arruma trabalho como instrutor do milionário Tom Hewitt (Matthew Goode) e, fazendo amizade com ele, conquista o amor de sua irmã, Chloe (Emily Mortimer) e a admiração de toda a família, que lhe arruma uma posição de destaque em sua empresa. O que poderia ser uma vida tranquila sofre um sobressalto quando Chris se apaixona perdidamente por Nola Rice (Scarlett Johansson), noiva de Tom, uma aspirante a atriz, e arrisca seu casamento e seu emprego por essa paixão avassaladora.

Quanto menos se souber do desenrolar de "Match point", melhor. Allen dá um passo de cada vez em seu roteiro, construindo seu suspense aos poucos, deixando com que o público se acostume aos poucos com suas personagens, seus anseios e seus atos. Quando a história realmente começa - e ela começa de maneira a deixar qualquer um estarrecido com as viradas - é impressionante como cada cena, cada diálogo e cada ângulo de câmera parecem colaborar para contá-la de forma a torná-la inesquecível. Poucas vezes o cinema de Woody Allen teve tanto espaço para o erotismo - com tórridas cenas de sexo entre Rhys-Meyers e Scarlett Johansson - e uma certa dose de violência - mesmo que disfarçada com a habitual sofisticação do diretor. O final, então, é de uma fina ironia capaz de devolver a qualquer espectador a fé no bom cinema.

Obra-prima indiscutível, "Match point, ponto final" conquista até mesmo o público avesso às obras mais tradicionais de Woody Allen. Sexy, inteligente e surpreendente, é um dos melhores filmes da temporada 2005, injustamente relegado a apenas uma indicação ao Oscar de roteiro original. Idiossincrasias da Academia no mesmo ano em que premiou o hipócrita "Crash, no limite".

quinta-feira

DIZEM POR AÍ


DIZEM POR AÍ (Rumor has it, 2005, Warner Bros, 97min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: T.M.Griffin. Roteiro: Peter Deming. Montagem: Robert Leighton. Música: Marc Shaiman. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Jay R. Hart. Produção executiva: Len Amato, Bruce Berman, George Clooney, Jennifer Fox, Robert Kirby, Michael Rachmil, Steven Soderbergh. Produção: Ben Cosgrove, Paula Weinstein. Elenco: Jennifer Aniston, Kevin Costner, Mark Ruffalo, Shirley MacLaine, Richard Jenkins, Kathy Bates, Mena Suvari. Estreia: 25/12/05

Publicado em 1963, o romance "The graduate", escrito por Charles Webb chegou às telas dos cinemas em 1967, sob a direção premiada com o Oscar de Mike Nichols. Com o título nacional de "A primeira noite de um homem", o filme de Nichols e estrelado por Dustin Hoffman e Anne Bancroft em atuações consagradoras tornou-se imediato sucesso e ícone de uma geração. Quase quarenta anos depois, um filme que especula sobre até que ponto a história contada no livro era realmente fictícia comprova que charme não é algo que se pode forjar. Por mais talentosos que sejam os atores e o diretor de "Dizem por aí", falta ao filme o que dava um molho especial ao original: sutileza e relevância.

A protagonista de "Dizem por aí" é Sarah Huttinger (Jennifer Aniston, linda e boa atriz), uma jornalista que acaba de ficar noiva do amoroso advogado Jeff (Mark Ruffalo), com quem mantém uma relação carinhosa mas longe de apaixonada. Voltando à casa da família em Pasadena para o casamento da irmã caçula (Mena Suvari), ela reencontra o pai (Richard Jenkins) e a exuberante avó, Katharine Richelieu (Shirley MacLaine). Durante sua estada na cidade, porém, ela acaba, sem querer, ouvindo boatos de que o romance "A primeira noite de um homem" - e consequentemente o filme inspirado nele - é a descrição exata da história do triângulo amoroso que envolveu sua falecida mãe, sua avó e o sedutor Beau Burroughs (Kevin Costner). Apavorada com a possibilidade de não ser filha legítima de seu pai - a quem adora - ela procura o escritor e acaba se envolvendo com ele após ter certeza de que não é sua filha.



Levado em tom de comédia romântica contemporânea pelo diretor Rob Reiner - que assinou aquela que é a quintessência do gênero, "Harry & Sally, feitos um para o outro" - essa continuação informal do filme de Mike Nichols não tem outra intenção senão entreter sua plateia. Não existe nele nenhum tipo de tentativa de retratar sua época e seus jovens nem tampouco ambições secretas. Tudo é claro e um tanto óbvio no roteiro, excluindo a dubiedade e o quase cinismo do produto original. Mesmo que por vezes seja bem divertida - responsabilidade da atuação inspirada de Shirley MacLaine - a trama não se sustenta em seus momentos dramáticos, principalmente por causa das atitudes duvidosas de sua protagonista, um problema que nem mesmo o carisma de Jennifer Aniston consegue resolver. E Mark Ruffalo, coitado, não tem muito o que fazer, se tornando um coadjuvante de luxo logo que Kevin Costner entra em cena.

Aliás, é pertinente assumir que o trabalho de Costner é uma das melhores surpresas do filme de Reiner. Deixando de lado a persona megalomaníaca que quase enterrou sua carreira, o ex-maior astro de Hollywood no início dos anos 90 entrega um trabalho leve, charmoso e sedutor, tornando crível sua relação tanto com MacLaine quanto com Aniston. É ele um dos maiores destaques do filme e, assim como fez em "A outra face da raiva", agarra com as duas mãos uma dos papéis mais interessantes a surgir em sua frente depois de seus deslizes comerciais. Quando ele e MacLaine finalmente contracenam - já no final da projeção - faíscas saltam e ao público resta apenas lamentar que o encontro não tenha acontecido antes.

quarta-feira

MUNIQUE


MUNIQUE (Munich, 2005, DreamWorks SKG/Universal Pictures/Amblin Entertainment, 164min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Tony Kushner, Eric Roth, livro "Vengeance: the true story of an israeli counter-terrorist team", de George Jonas. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/John Bush. Produção: Kathleen Kennedy, Barry Mendel, Steven Spielberg, Colin Wilson. Elenco: Eric Bana, Geoffrey Rush, Daniel Craig, Matthieu Kassovitz, Ciaran Hinds, Lynn Cohen, Hanns Zischler, Michael Lonsdale, Mathieuu Almaric, Moritz Bleibetreu, Mathieu Amalric, Niels Arestrup. Estreia: 23/12/05

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original

Ninguém tem dúvidas de que quando quer Steven Spielberg sabe muito bem como falar sério. Foi assim que ele conquistou seus dois Oscar de melhor diretor, por "A lista de Schindler" (93) e "O resgate do soldado Ryan" (98). E, não fosse Ang Lee e seu belo "O segredo de Brokeback Mountain" talvez o diretor mais bem-sucedido da história tivesse embolsado uma terceira estatueta por aquele que é seu filme  mais polêmico e provavelmente o mais desprovido de sentimentalismos: "Munique", a recriação de uma das vinganças mais chocantes da história política contemporânea. Ao recriar o triste episódio que foi consequência do famigerado "setembro negro", Spielberg deixou de lado a parcialidade e entregou um suspense aterrador, capaz de deixar a plateia roendo as unhas de tensão. E o melhor ainda: conseguiu equilibrar tudo com um roteiro coeso e espaço para discussões e dramas pessoais do protagonista, vivido com garra e emoção pelo ótimo Eric Bana.

Bana - coadjuvante que roubou a cena em "Tróia" e "Falcão negro em perigo" - foi a escolha perfeita de Spielberg para ser o protagonista de "Munique". Na pele de Avner, o jovem recrutado pela primeira-ministra Golda Meir (Lynn Cohen, a Magda da série de TV "Sex and the city" em caracterização excepcional), o ator transmite em igual intensidade medo, raiva, angústia, solidão e desespero, jamais permitindo que sua personagem caia na superficialidade. Ao focar sua trama não apenas nos violentos atos de vingança do governo israelense contra os responsáveis pelo massacre dos atletas judeus nas Olimpíadas de Munique em 1972 mas também nos conflitos éticos e religiosos de seu protagonista, o diretor atinge um ponto alto em sua carreira - que infelizmente não encontrou seu público.



Realizado em tempo recorde e sem maiores alardes, "Munique" se apresenta como um estupendo thriller político, magistralmente fotografado e editado e dono de um roteiro espetacular, baseado no livro do jornalista George Jonas. Ao contrário do que fez em "A lista de Schindler" - onde revestiu a violência com a poética fotografia em preto-e-branco de Janusz Kaminski - e em "O resgate do soldado Ryan" - onde a fotografia granulada jogava o espectador no meio da guerra - Spielberg não teve medo de explicitar a violência em "Munique". Mesmo que sejam visualmente deslumbrantes, as cenas de assassinato do filme são de uma crueza e de uma força jamais vista na obra do cineasta, que não hesita em mostrar a violêmcia como ela é, em especial nas sequências que descrevem as mortes dos atletas - espalhadas pelo filme como uma lembrança do ponto de partida da trama.

Mas se a chacina das Olimpíadas é o empurrão para a trama - afinal é ela que precisa ser vingada por Avner e seus companheiros de missão - não o é para os conflitos que são discutidos veemente durante a projeção. Em um ato de coragem e inteligência, Spielberg não toma partido - como nas ocasiões anteriores - e deixa que suas personagens e seus atos falem por si. É exemplar, por exemplo, a cena em que inimigos se encontram em uma casa abandonada e discutem sobre a situação política e religiosa de seus países: ninguém está certo, ninguém está errado, e o diretor conduz a sequência com uma neutralidade impressionante para quem assinou clássicos da manipulação sentimental como "A cor púrpura" e "Império do sol" (grandes filmes, sem dúvida, mas desprovidos de imparcialidade emocional).

"Munique" é, talvez, o grande filme de Steven Spielberg. Forte, contundente, chocante e tecnicamente perfeito - além de possibilitar grandes voos de interpretação de seu protagonista e de coadjuvantes de peso como Geoffrey Rush, Daniel Craig e Mathieu Kassovitz - é também um de seus mais subestimados trabalhos. Azar de quem perdeu um dos grandes suspenses políticos de todos os tempos.

terça-feira

TUDO EM FAMÍLIA


TUDO EM FAMÍLIA (The family Stone, 2005, Fox 2000 Pictures, 103min) Direção e roteiro: Thomas Bezucha. Fotografia: Jonathan Brown. Montagem: Jeffrey Ford. Música: Michael Giacchino. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Matt Callahan. Produção executiva: Jennifer Odgen. Produção: Michael London. Elenco: Sarah Jessica Parker, Diane Keaton, Claire Danes, Dermot Mulroney, Luke Wilson, Rachel McAdams, Craig T. Nelson. Estreia: 16/12/05

 Multipremiada, famosa e milionária com a série "Sex and the city", a atriz Sarah Jessica Parker ainda precisava provar que poderia encarar uma carreira no cinema independente do sucesso de sua Carrie Bradshaw. Um dos primeiros passos nessa direção foi "Tudo em família", uma comédia dramática com toques de romance que, apesar de não ter sido um estouro de bilheteria teve uma arrecadação boa o suficiente para provar que ela não era atriz de uma personagem só. Mesmo que sua Meredith Morton ainda carregue alguns dos maneirismos de sua mais famosa criação, Parker foi indicada ao Golden Globe por seu trabalho no filme do desconhecido Thomas Bezucha.

Dando seguimento aos tradicionais filmes natalinos que os americanos tanto aplaudem, "Tudo em família" consegue, por outro lado, fugir do que se espera de um produto do gênero. Ao invés de famílias desfuncionais que aproveitam os feriados para lavar a roupa suja e botar pra fora todo tipo de mágoa e trauma, o que se vê no filme de Bezucha é um núcleo familiar amoroso e coeso que vê a chegada de um novo membro como uma ameaça a sua integridade - mesmo que esse temor seja injustificado ou explicado apenas superficialmente pelo roteiro. A família em questão é o clã Stone. Liderado por Sybill (Diane Keaton) e Kelly (Craig T. Nelson), o grupo familiar é o oposto do que se vê em dramas similares.

Afetuosos e apaixonados, eles tem na vasta ninhada seu motivo maior de orgulho: Thad (Ty Giordano) é surdo-mudo e vê sua família aprovar e incentivar seu relacionamento homossexual com Patrick (Brian White); a doce Susannah (Elizabeth Reaser) está em vias de dar à luz; a caçula Amy (Rachel McAdams) é linda e inteligente; o meigo Ben (Luke Wilson) não dá trabalho nenhum e o mais velho, Everett (Dermot Mulroney) é o preferido da mãe. E é justamente Everett, que mora em Nova York, que é o responsável pela bomba jogada no seio familiar quando chega para o Natal acompanhado da noiva, Meredith (Sarah Jessica Parker), com quem todos implicam de imediato. Sentindo-se rejeitada (e coberta de razão), ela apela para a irmã mais nova, Julie (Claire Danes), que chega para ajudá-la e se apaixona por Everett. Para complicar ainda mais as coisas, Ben se encanta por Meredith.



O maior mérito do roteiro de Bezucha é equilibrar a contento o romance, a comédia e o dramalhão - sim, uma doença fatal se impõe sobre todos, obrigando a uma nova visão a respeito de tudo. Mesmo que soe superficial em algumas resoluções - ninguém entende o motivo pela rejeição absoluta a Meredith apesar de seus constantes foras - a trama consegue atingir a audiência por tratar de forma leve temas polêmicos como homossexualidade e racismo. É notável também a segurança com que o cineasta mantém uniforme um elenco tão heterogêneo e dá chance a todos de brilharem. Diane Keaton e Craig T. Nelson estão à vontade em seus papéis de patriarcas como há muito tempo não tinham a oportunidade. Rachel McAdams e Claire Danes mostram que juventude não significa falta de talento. E Sarah Jessica Parker mostra que, com uma direção mais firme pode ser uma atriz respeitada em outros papéis que não o de Carrie Bradshaw.

Feito para emocionar e rir, "Tudo em família" cumpre o que promete sem subestimar a inteligência do espectador. É um drama romântico e cômico de fácil comunicação com o público e que foge do clichê. E um filme assim sempre é bem-vindo, mesmo que frustre àqueles que procuram o tradicional final feliz.

segunda-feira

MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA


MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA (Memoirs of a geisha, 2005, Dreamworks SKG, 145min) Direção: Rob Marshall. Roteiro: Robin Swicord, romance de Arthur Golden. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Pietro Scalia. Música: John Williams. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: John Myhre/Gretchen Rau. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum, Bobby Cohen, Patricia Whitcher. Produção: Lucy Fisher, Steven Spielberg, Douglas Wick. Elenco: Ziyi Zhang, Michelle Yeoh, Ken Watanabe, Gong Li, Ted Levine. Estreia: 06/12/05

6 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Edição de Som
Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários


Publicado em 1997 e imediatamente comprado pelos produtores Douglas Wick e Lucy Fisher, o romance "Memórias de uma gueixa" sempre interessou ao cineasta Steven Spielberg, que via nele todos os ingredientes capazes de emocionar a plateia ocidental. Anos se passaram, porém, antes que o premiado diretor finalmente jogasse a toalha, impedido de realizar o filme por inúmeros outros compromissos profissionais. Depois que nomes tão díspares quanto Brett Ratner ("Dragão vermelho" e "A hora do rush"), Kimberly Peirce ("Meninos não choram") e até Spike Jonze ("Quero ser John Malkovich" e "Adaptação") estiveram cotados para comandar a missão, no entanto, foi Rob Marshall, fresquinho do sucesso acachapante de "Chicago" quem ficou com o emprego. Extremamente cuidadoso com o visual de seus trabalhos, Marshall imprimiu ao filme uma força pictória que até disfarça seu maior pecado: o pouco caso com a nacionalidade de seu elenco.

Para os produtores de Hollywood - ao menos é a nítida impressão que seus filmes passam - não importa se as gueixas fazem parte da cultura japonesa ou de qualquer outro país da Ásia. Só isso explica a escalação das atrizes chinesas Ziyi Zhang e Gong Li e da malaia Michelle Yeoh para viverem as protagonistas de uma história que, em tese, deveria esclarecer à audiência a respeito de uma das tradições mais importantes do Japão. Somado ao fato de ser falado em inglês - que ajudou na bilheteria mas prejudicou ainda mais sua credibilidade - esse erro talvez não tenha incomodado o público médio, mas, especialmente depois da ousadia de "A paixão de Cristo" em ser falado em seu idioma original, soou superficial e pasteurizado. Sorte que Rob Marshall sabe o que faz em termos estéticos e transformou "Memórias de uma gueixa" em um espetáculo brilhante em termos visuais.



O filme começa em 1929, quando a pequena Chiyo é vendida para uma casa de gueixas e separada de sua irmã, também criança. Sofrendo com a situação - e com os maus-tratos impostos pela dona da casa e pela principal gueixa do local, a bela Hatsumoto (Gong Li) - ela, aos poucos começa a crescer e revelar uma beleza estonteante. Contando com o apoio da veterana Mameha (Michelle Yeoh), ela decide se tornar uma gueixa - mesmo que seja para conquistar o amor do homem que lhe deu carinho em sua infância, um poderoso político que, com a eclosão da II Guerra vai lhe ajudar a sobreviver.

É impossível negar a beleza que desfila diante dos olhos dos espectadores de "Memórias de uma gueixa". A fotografia deslumbrante de Dion Beebe encontra eco nos espetaculares figurinos e na caprichada direção de arte (não foi por acaso que o filme saiu premiado com os Oscar nessas três categorias) e a trilha sonora do veterano John Williams é contida até ser chamada à ação, emocionando na medida certa. E, apesar de não ser a escolha mais adequada para o papel central - por questões geográficas - Ziyi Zhang consegue transmitir toda a angústia de sua personagem e tornar-se absolutamente linda quando necessário, mesmo quando está ao lado da estonteante Gong Li - em uma atuação igualmente inspirada. São elas - e Michelle Yeoh, sutil e discreta em sua interpretação - que fazem com que o filme seja assistido mesmo com seu grotesco equívoco idiomático e cultural.

TRANSAMÉRICA

TRANSAMÉRICA (Transamerica, 2005, Belladonna Productions, 103min) Direção e roteiro: Duncan Tucker. Fotografia: Stephen Kazmierski. Montagem: Pam Wise. Música: David Mansfield. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Mark White/Lisa Crivelli Scoppa. Produção executiva: William H. Macy. Produção: René Bastian, Sebastian Dungan, Linda Moran. Elenco: Felicity Huffman, Kevin Zegers, Fionnula Flanagan, Graham Greene, Burt Young, Elizabeth Peña, Carrie Preston. Estreia: 24/4/05 (Tribeca Film Festival)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Felicity Huffman), Canção Original ("Travellin' thru")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Felicity Huffman)

Certo dia o roteirista e cineasta Duncan Tucker estava conversando com a atriz Katherine Connella, com quem havia dividido um apartamento por quatro meses, e ficou absolutamente chocado com a revelação de que ela na verdade havia nascido e sido criada como homem. Atordoado com o fato, ele manteve a ideia na cabeça e eis que, tempos depois, em seu primeiro longa-metragem, "Transamérica", a personagem central era justamente um transexual às vésperas de sua cirurgia que finalmente lhe daria o corpo que sua alma sempre buscou. Aclamado pela crítica e estrelado por uma avassaladora Felicity Huffman, o filme de Tucker equilibra com precisão um drama contundente com um senso de humor afiado que lembra bastante o estilo do espanhol Pedro Almodovar.

Em uma atuação consagradora - que perdeu injustamente o Oscar para Reese Witherspoon - Huffman (mais conhecida pela série de TV "Desperate housewives") interpreta uma das personagens mais interessantes e complexas da temporada 2005 de forma magistral. Bree Osbourne é um transexual que está a apenas um passo de realizar seu sonho de passar por uma cirurgia que finalmente a fará a mulher que sempre foi em seu íntimo. Às vésperas da cirurgia, porém, o destino arma das suas e ela descobre que, como resultado de um relacionamento fugaz nos tempos em que tentava se enquadrar na heterossexualidade, tem um filho adolescente. O rapaz, Toby (Kevin Zegers, ótimo), é um garoto de programa viciado em drogas e rebelde, que, em sua mente fantasiosa, imagina seu pai como um orgulhoso descendente indígena. Ao encontrar o jovem - porém sem revelar sua identidade real - Bree fica tocada com seu modo de vida e, pressionada também pela chantagem de sua psicóloga (Elizabeth Peña) - que se recusa a assinar o documento autorizando a cirurgia antes que a situação entre eles se resolva - resolve se aproximar dele e tentar encaminhá-lo decentemente.



O roteiro de Tucker é um primor de ritmo e de cenas destinadas a antológicas - em especial por contar com a excelente química entre seus atores centrais. Intercalando cenas de um humor insuspeito com momentos de forte carga dramática (ainda que longe de piegas), a trama acompanha a evolução do relacionamento entre Bree e seu filho através de um recurso batido - road movie - que funciona à perfeição. Os diálogos entre os dois (bastante improvisados com incentivo do diretor) fluem naturalmente e conduzem a ação a sequências fabulosas - é especialmente inteligente a maneira com que Tucker apresenta Toby ao universo de Bree quando eles param em uma festa particular frequentada quase unicamente por transexuais. E é emocionante também o encontro de Bree com o caminhoneiro Calvin (Graham Greene), em que ela demonstra seu lado feminino com mais propriedade - em cenas que lembram Fernanda Montenegro e Othon Bastos em "Central do Brasil".

E se não fosse o bastante o banho de interpretação de Felicity Huffman - perfeita em cada entonação, em cada movimento físico - "Transamérica" ainda deixa para seu ato final a participação mais do que especial da grande Fionula Flanagan, que quase rouba a cena no papel da mãe de Bree, que não aceita o novo "estilo de vida" da filha/filho e é responsável por alguns dos momentos mais tensos do filme - momentos ainda assim dono de um estilo único de humor negro que alivia até mesmo a densidade que se anuncia perto de seu final. Defendidas por um elenco impecável, as personagens criadas pelo roteirista/diretor chegam a extremos que somente atores do porte de Huffman e Flanagan conseguem tornar críveis e dignas de empatia. Aplausos a Tucker por permitir que eles brilhem intensamente, tornando a experiência de se assistir a seu filme inesquecível.

"Transamérica" é mais do que um filme direcionado ao público GLBT. É um drama com toques cômicos que fala de gente, de famílias, de amor incondicional e da busca pela felicidade. E é absolutamente imperdível!

domingo

SYRIANA

SYRIANA, A INDÚSTRIA DO PETRÓLEO (Syriana, 2005, Warner Bros, 128min) Direção: Stephen Gaghan. Roteiro: Stephen Gaghan, livro "See no evil", de Robert Baer. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Tim Squyres. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Dan Weil. Produção executiva: George Clooney, Ben Cosgrove, Jeff Skoll, Steven Soderbergh. Produção: Jennifer Fox, Georgia Kacandes, Michael Nozik. Elenco: George Clooney, Matt Damon, Jeffrey Wright, Christopher Plummer, Chris Cooper, Amanda Peet, William Hurt. Estreia: 23/11/05

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (George Clooney), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (George Clooney)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (George Clooney)

O ano de 2005 foi particularmente feliz para a carreira de George Clooney: o ator,  revelado como o sedutor doutor Ross na série "Plantão médico" não apenas deixou pra trás a imagem de galã como tornou-se ainda mais respeitado pela indústria e pela crítica, lançando seu segundo filme como cineasta - o ótimo "Boa noite, e boa sorte", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de diretor - e faturando a estatueta de ator coadjuvante por seu papel no polêmico "Syriana". Dirigido por Stephen Gaghan (roteirista oscarizado por "Traffic"), Clooney abdicou da vaidade e aceitou um papel secundário (ainda que essencial) em um projeto complexo, de importância política e pouco comercial. O resultado final, mesmo que não tenha sido tão explosivo quanto poderia, serviu ao menos para provar seu bom gosto na hora de escolher seus trabalhos: "Syriana" é um filme muito mais importante do que a grande maioria das produções hollywoodianas de sua época.

 Dono de um roteiro bastante complexo - adaptado de um livro de Robert Baer, mas inexplicavelmente indicado ao Oscar como original - que conta várias histórias simultaneamente para ligá-las no ato final, "Syriana" não atinge o mesmo nível de "Traffic" especialmente por tratar de um assunto que exige muito mais conhecimento prévio do público. Mesmo assim, é difícil ficar incólume à forma ágil com que a edição de Tim Squyres joga suas tramas ao público, equilibrando intrigas palacianas no governo árabe com problemas familiares e um intrigante suspense policial que joga Bob Barnes (George Clooney mais gordo especialmente para o papel), agente da CIA, em uma perigosa teia de interesses escusos da qual faz parte inclusive o governo americano - daí a polêmica envolvendo o filme, lançado em um período em que as relações entre EUA e Oriente Médio estavam mais uma vez bastante estremecidas.

 

"Syriana" não se concentra em nenhuma trama específica em seus dois terços iniciais, apresentando suas personagens de maneira quase didática. É assim que somos apresentados a Bob Barnes - em crise com sua ex-mulher e seu filho adolescente e que se descobre descartado pelos colegas da CIA justo em um momento crucial de sua carreira -, ao analista de mercado de petróleo Bryan Woodman (Matt Damon) - que vê sua família desmoronar depois de uma tragedia que lhe faz prescrutar com outros olhos o ambiente em que vive -, ao xeique Nasir Al-Subaai (Alexander Siddig) - cujas ideias reformistas não exatamente agradam os americanos -, ao advogado Dean Whiting (Christopher Plummer) - envolvido na fusão de indústrias petrolíferas - e a um jovem muçulmano que vê no terrorismo islâmico a chance de se tornar importante a seu país. Depois que todos eles são apresentados, Gaghan parte para a partida, ligando-os de maneira sutil mas orgânica, mostrando - como fez com sucesso em "Traffic" - que um pequeno ato pode atingir inúmeras vidas (e países).

Mesmo que muitas vezes confunda o espectador com tantos nomes e personagens - nem todos interessantes, mas todos suficientemente bem desenvolvidos pelo roteiro - "Syriana" é admirável porque trata de um assunto relevante de forma quase completamente acessível. Mas, ao mesmo tempo que tenta transmitir suas ideias esbarra na inexperiência de seu diretor, que não tem o domínio da narrativa que seria imprescindível em tal situação. Ainda assim, é forte e politicamente imperdível.

sábado

V DE VINGANÇA

V DE VINGANÇA (V for Vendetta, 2005, Warner Bros, 132min) Direção: James McTeigue. Roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski, HQ de David Lloyd. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Martin Walsh. Música: Dario Marianelli. Figurino: Sammy Sheldon. Direção de arte/cenários: Owen Paterson/Peter Walpole. Produção executiva: Benjamin Waisbren. Produção: Grant Hill, Joel Silver, Andy Wachowski, Larry Wachowski. Elenco: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, John Hurt, Stephen Fry, Rupert Graves, Sinead Cusack. Estreia: 11/12/05

Em 1999, os irmãos Wachowski mudaram o cenário dos filmes de ficção científica com o megasucesso "Matrix", que rendeu duas continuações e colocou seu nome na estratosfera da indústria hollywoodiana. Demorou seis anos, porém, para que eles voltassem a chamar a atenção do público e da crítica, dessa vez como roteiristas. Ao adaptar para as telas a graphic novel "V for Vendetta", de David Lloyd, os irmãos mais esquisitos do cinema americano entregaram a direção nas mãos dao australiano James McTeigue, estreando na função. Não é preciso ser muito esperto para perceber, no entanto, que, apesar do nome de McTeigue estar na cadeira de diretor é a concepção dos Wachowski que predomina nessa fascinante crítica ao fascismo - que chegou a ser proibida na China devido a seu conteúdo "subversivo".

Passado em uma Grã-Bretanha distópica que vive sob um governo fascista, "V de vingança"não tem medo de descrever uma tirania violenta e arbitrária, capaz de prender e torturar cidadãos sem o menor pudor - desmandos nada estranhos a quem já passou por ditaduras sangrentas. O público é jogado na trama sob o ponto de vista da jovem Eve (Natalie Portman pegando o papel cobiçado por Scarlett Johansson e Keira Knightley), que é salva de um estupro por um misterioso mascarado que a leva para casa e revela a ela um plano mirabolante para uma revolução popular. A princípio chocada e temerosa a respeito de seu anfitrião - que a aprisiona e chega a lhe raspar o cabelo - Eve aos poucos passa a simpatizar com sua causa, principalmente quando entra em contato com histórias tenebrosas a respeito do regime. Em pouco tempo, ela se alia ao estranho V (Hugo Weaving) e torna-se militante ativa da revolução.



É difícil resumir "V de vingança", um filme que tem como seu maior atrativo o clima de desesperança transformado em combustível para o levante popular - o que certamente incomodou o governo de países em situação similar. Criado com um visual que equilibra a escuridão do regime com a busca por uma luz no fim do túnel - que tem em sua sequência final o clímax absoluto - o filme de McTeigue também não deixa de lado a construção psicológica de suas personagens, dando a Portman e Weaving oportunidades enormes para o brilho. Enquanto o ator - que atingiu o ápice da carreira como o vilão Mr. Smith da série "Matrix" e assumiu o papel central depois da demissão de James Purefoy - convence plenamente como V mesmo sem tirar sua máscara em momento algum, Portman atinge outro ponto alto da carreira, mesclando docilidade, revolta e dor na medida exata. E seria injusto louvar também a maneira com que o roteiro dá igual espaço a cenas de ação e violência e à delicadeza da história de amor entre duas mulheres - que empurra Eve definitivamente para o lado da oposição ao governo: é uma trama paralela forte e comovente que serve também para conquistar de vez a audiência.

Em um período em que filmes de ação servem unicamente como diversão escapista que sacrifica o cérebro do espectador, "V de vingança" consegue fazer pensar ao mesmo tempo em que entretém. Mesmo que em determinados momentos o ritmo caia - talvez devido à inexperiência do diretor - o resultado final é forte, impactante e memorável. Um dos mais importantes filmes de sua época!

sexta-feira

O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN

O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN (Brokeback Mountain, 2005, Focus Features, 134min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Larry McMurtry, Diana Ossana, conto de Anne Proulx. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Geraldine Peroni, Dylan Tichenor. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Patricia Cuccia, Catherine Davis. Produção executiva: Michael Hausman, Larry McMurtry, William Pohlad. Produção: Diana Ossana, James Schamus. Elenco: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams, Anne Hathaway, Randy Quaid, Linda Cardelini, Anna Faris, David Harbour, Kate Mara. Estreia: 02/9/05 (Festival de Veneza)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ang Lee), Ator (Heath Ledger), Ator Coadjuvante (Jake Gyllenhaal), Atriz Coadjuvante (Michelle Williams), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (Ang Lee), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Ang Lee), Roteiro, Canção ("A love that will never grow old")
Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza

Para meu Yodinha....

A lista de prêmios que "O segredo de Brokeback Mountain" arrebatou em todo e qualquer segmento crítico na temporada 2006 só deixa ainda mais explícito o que qualquer fã de cinema com um mínimo de discernimento enxerga de longe: não há outra explicação para que a obra-prima de Ang Lee não tenha levado também o Oscar de Melhor Filme senão puro e simples preconceito. Seria demais pedir que os veteranos membros da Academia de Hollywood - tão arraigados a valores antigos e defasados - abraçassem a causa de um filme que, mesmo falando do mais nobre dos sentimentos (o amor), o faz colocando como protagonistas não um casal considerado "apropriado" ao consumo de massa que não ameaça a tradição e sim dois homens viris, fortes e cientes de sua masculinidade que, mesmo assim, não resistem ao apelo de seus desejos e de sua paixão. Como resultado, a estatueta de melhor filme do ano foi parar nas mãos do medíocre "Crash, no limite" - que brincava de ser corajoso com sua temática anti-racismo e provavelmente virará apenas nota de rodapé da história do cinema com seu amontoado de clichês.

Ao contrário disso, "O segredo de Brokeback Mountain" é cinema em estado puro, é poesia em celulóide, é drama tão real como a vida. Independente da orientação sexual de seu espectador, é difícil não se deixar emocionar com a história do conto da escritora Anne Proulx, publicado em 1997 pela revista New Yorker. Depois de despertar o interesse de cineastas como Joel Schumacher e Gus Van Sant - ambos homossexuais assumidos, o que talvez desse um tom mais panfletário e menos sutil à narrativa - o roteiro finalmente chegou às mãos de Ang Lee, conhecido por injetar humanismo mesmo em projetos comerciais como a adaptação de "Hulk" para os cinemas (cujo fracasso talvez tenha vindo justamente dessa tendência ao drama pessoal ao invés do espetáculo). Autor de obras consagradas pela critica como "Razão e sensibilidade", "Tempestade de gelo" e "O tigre e o dragão" - que, sem exceção, tinham na força das personagens seu maior destaque - Lee deu às palavras de Proulx a profundidade que somente seu talento em vislumbrar a alma humana poderia conseguir. E para isso teve também a sorte de contar com um elenco nunca aquém de espetacular.



Vindo de filmes que oscilavam entre o bobo - "10 coisas que eu odeio em você" - e o pretensamente épico - "O patriota" - o australiano Heath Ledger deu um salto fenomenal em sua carreira na pele de Ennis Del Mar, que lhe rendeu elogios rasgados e uma indicação ao Oscar de melhor ator. Seu trabalho é intenso, forte e perturbador, como um homem que luta contra os próprios instintos por não ter a capacidade de lutar contra si mesmo - a ponto de usar da violência física como arma de autodestruição. Como Jack Twist, o jovem Jake Gyllenhaal também atingiu o auge de sua carreira - que incluía o sombrio "Donnie Darko" e o elogiado "Soldado anônimo": seu trabalho como o lado romântico e idealista do casal é delicado na medida certa, nunca escapando para o afetado ou o exagerado. Sua indicação ao Oscar na categoria de coadjuvante, porém, é questionável, uma vez que é tão protagonista quanto Ledger. E se os protagonistas são excepcionais, o mesmo pode-se dizer de suas companheiras de cena: Anne Hathaway e Michelle Williams nunca estiveram tão bem quanto em suas interpretações das esposas relegadas a um melancólico segundo plano na vida de seus maridos. Williams em especial merece aplausos por suas cenas encharcadas de tensão e tristeza - é antológico o momento em que flagra o apaixonado beijo entre seu marido e o melhor amigo.

Fotografado magistralmente e ilustrado com uma trilha sonora de deixar qualquer um arrepiado, "O segredo de Brokeback Mountain" é um filme raro, daqueles que só acontecem quando todas as estrelas estão alinhadas. Não fala apenas de um casal gay: fala de solidão, de tolerância, de preconceito, de autoaceitação. Mas fala principalmente sobre amor, mesmo que ele traga dor e angústia. É provavelmente a mais importante história de amor da década. Quem precisa de um Oscar?

quinta-feira

JOHNNY & JUNE


JOHNNY & JUNE (Walk the line, 2005, 20th Century Fox, 136min) Direção: James Mangold. Roteiro: Gil Dennis, James Mangold, livros "Cash, the autobiography" e "Man in black", de Johnny Cash. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Michael McCusker. Música: T Bone Burnett. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: David J. Bomba/Carla Curry. Produção executiva: Alan C. Blomquist, John Carter Cash. Produção: James Keash, Cathy Conrad. Elenco: Joaquin Phoenix, Reese Witherspoon, Ginnifer Goodwin, Robert Patrick, Dallas Roberts. Estreia: 04/9/05 (Telluride Festival)

5 indicações ao Oscar: Ator (Joaquin Phoenix), Atriz (Reese Witherspoon), Montagem, Figurino, Edição de Som
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Reese Witherspoon)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Joaquin Phoenix), Atriz Comédia/Musical (Reese Witherspoon)

Depois de flertar com o drama psicológico ("Garota, interrompida"), com a comédia romântica ("Kate & Leopold"), com o policial ("Copland") e com o suspense ("Identidade") o cineasta James Mangold riscou outro gênero de sua lista com a cinebiografia musical "Johnny & June", que conta a trajetória do cantor Johnny Cash e seu relacionamento com o grande amor de sua vida, a também cantora June Carter. Mas, apesar do título nacional - que dá a ideia de um filme centrado na história do romance - o filme de Mangold se dedica principalmente à controversa carreira do músico, começando em sua traumática infância e atravessando todo o conturbado período de sua vida que culminou na sua luta contra as drogas.

Seguindo a cartilha das cinebiografias musicais que também deu ao cinema o bem-sucedido "Ray" um ano antes, "Johnny & June" começa mostrando o pequeno Johnny ao lado da família - liderada por um severo pai vivido por Robert Patrick exercitando seu lado cruel e quase sádico. Esse prelúdio já dá a base de toda a vida futura do cantor, que jamais deixará pra trás essa busca constante de aprovação paterna. E também serve para mostrar que Mangold não está para brincadeira e quer emocionar o público com uma história que, apesar das tristezas, tem um final feliz (ainda que deixe um gostinho amargo na boca). Depois do início barra-pesada, a história dá um pulo e mostra Cash em sua vida de casado com Vivian (Ginnifer Goodwin) e tentando a sorte na carreira de músico. Depois de convencer o dono do estúdio a gravar suas canções - nas quais foi treinado na infância, quando entoava música religiosa ao lado do irmão - ele assina um contrato para uma turnê com um grupo de jovens talentos que inclui Jerry Lee Lewis (Waylon Malloy Payne), Elvis Presley (Tyler Hilton) e aquela que será o amor de sua vida, June Carter (Reese Witherspoon) - que, em seus tempos de cantora mirim o encantava em seus dias difíceis.



A partir do encontro entre Cash e Carter - que acontece somente aos trinta minutos de projeção - o filme muda de rumo, concentrando-se na relação complexa e repleta de idas e vindas entre o casal. Ambos casados e com filhos pequenos, os cantores viveram uma história de amor proibida (vale lembrar que a história se passa predominantemente na puritana década de 60) e tornada ainda mais difícil graças ao vício em drogas de Cash. O roteiro não se deixa intimidar pelo assunto e, se não se aprofunda no tema (também por não ser o enfoque da trama) ao menos não o ignora nem tampouco faz de seu protagonista um herói simpático: não há benevolência no roteiro baseado em duas autobiografias do músico, que é retratado com todos os seus inúmeros defeitos. Para sorte do público, porém, todas as suas ambivalências encontram em Joaquin Phoenix o intérprete ideal.

Esquisito fisicamente e dono de uma personalidade muito própria que lhe distingue da grande maioria dos astros hollywoodianos, Joaquin - irmão do promissor River, morto em 1993 - conquistou reconhecimento mundial como o vilão do épico "Gladiador", pelo qual concorreu ao Oscar de coadjuvante e por seu trabalho em "Johnny & June" voltou a ser finalista do prêmio da Academia (dessa vez na categoria principal).  Sem apelar para playbacks e encarando de frente o desafio de interpretar um ídolo ainda bastante presente na memória do público, ele se entrega notavelmente ao papel, tanto nas cenas musicais quanto nas sequências extremamente dramáticas propostas pelo roteiro. O mais surpreendente, porém, é que ele encontra, em Reese Witherspoon - até então relegada a comédias bobas mas milionárias - uma parceira de cena à altura.

Demonstrando um talento dramático pouco explorado até a data, Witherspoon não se intimida diante da força da atuação de Phoenix, construindo uma June Carter complexa e adulta, que não se restringe a ser a coadjuvante a que muitas vezes o roteiro a transforma. Tanto em seus momentos como pessoa pública - uma cantora infantil transformada em ídolo maduro e que vive em seu íntimo dramas pessoais que a fama não revela - quanto em suas cenas mais duras, a menina revelada em "No mundo da lua" mostra que não era fogo de palha e que tem muito mais talento do que aparentava. Se merecia o Oscar no mesmo ano em que Felicity Huffman brilhou em "Transamérica" é outra conversa, mas é inegável que sua química com Joaquin Phoenix é explosiva e impecável.

Dando continuidade às cinebiografias de qualidade produzidas por Hollywood no início do século XXI, "Johnny & June" é superior à média, capaz de despertar o interesse até mesmo de quem não é exatamente fã de seus protagonistas.

quarta-feira

TERAPIA DO AMOR

TERAPIA DO AMOR (Prime, 2005, Universal Pictures, 105min) Direção e roteiro: Ben Younger. Fotografia: William Rexer. Montagem: Kristina Boden. Música: Ryan Shore. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Carol Silverman. Produção executiva: Mark Gordon, Bob Yari. Produção: Jennifer Todd, Suzanne Todd. Elenco: Meryl Streep, Uma Thurman, Bryan Greenberg, Jon Abrahams. Estreia: 21/9/05 (Festival de San Diego)

A trama central é tão genial em sua simplicidade e em suas sacadas que é difícil acreditar que "Terapia do amor" demorou tanto tempo para ser realizado: uma mulher de trinta e poucos anos, recém divorciada, se apaixona por um rapaz bem mais jovem e é incentivada por sua terapeuta, uma judia fervorosa, que lhe empurra para os braços do rapaz que, sem que nenhuma das duas saiba, é seu filho. Com essa premissa aparentemente comum, o roteirista e diretor Ben Younger conseguiu um fato raro: dar a Meryl Streep um papel cômico. E não é preciso dizer que a veterana atriz tira de letra o desafio, roubando o filme todo para si apesar dos esforços da real protagonista, Uma Thurman.

Thurman - que substituiu Sandra Bullock na última hora depois que as mudanças no roteiro impostas pela atriz não foram aceitas - está á vontade como em poucas vezes em sua carreira na pele de Rafi Gardet, uma produtora fotográfica de 37 anos recém-divorciada que se apaixona perdidamente pelo jovem David Bloomberg (Bryan Greenberg), que sonha em tornar-se pintor profissional mas que é sufocado por uma família judia que o trata como uma criança - em especial sua mãe, a bem-sucedida terapeuta Lisa Metzger (Meryl Streep), que sonha em vê-lo casado com uma mulher de sua religião e com um trabalho mais formal. O que nem Rafi nem Lisa sabem é que Bryan é filho da médica que tanto encoraja sua paciente a encontrar um novo amor, mesmo que seja mais jovem. Quando a verdade vem à tona, decisões precisam ser tomadas e é aí que idade e fé mostram suas reais importâncias.



O maior mérito do filme do estreante Ben Younger - que escreveu o roteiro inspirado muito em sua própria vivência como um jovem judeu de Nova York - é tratar de assuntos delicados de forma irônica e engraçada sem nunca cair na sátira vazia ou no desrespeito. Tanto a abordagem das doutrinas judaicas - que dão origem a muitas e engraçadíssimas piadas - quanto a do relacionamento ameaçado pela diferença de idade são extremamente felizes. Nem mesmo quando deixa de lado o humor para concentrar-se no romance o filme de Younger perde seu foco, contando com a química entre Thurman e Greenberg como arma secreta quando Streep torna-se coadjuvante. Antes que isso aconteça, porém, o show é, mais uma vez, da veterana atriz.

Poucas vezes explorada pelas comédias até então, Meryl Streep mostra mais uma vez porque é a atriz das atrizes. Não é preciso muito tempo em cena para que ela roube descaradamente o filme, construindo uma supermãe judaica e uma terapeuta profissional com equilíbrio e um timing cômico preciso. A cena em que ela descobre que seu filhinho amado está de romance com uma mulher mais velha, gentia e divorciada é simplesmente genial principalmente por sua causa: nem é preciso diálogos para que seu desespero seja transmitido à plateia - da forma mais sutilmente engraçada possível. Dando humanidade à sua personagem, Streep impede que ela seja apenas um empecilho para a consumação do romance entre os protagonistas, tornando-se uma personagem tão rica quanto eles.

Valorizado ainda pelo final agridoce e realista, "Terapia do amor" é uma comédia romântica que foge do lugar-comum ao retratar não apenas uma história de amor, mas também seus reveses e suas alegrias. Engraçado, triste e capaz de despertar discussões - ainda que sem maiores profundidades - é um belo passatempo.

terça-feira

JOGOS MORTAIS II


JOGOS MORTAIS II (Saw II, 2005, Twisted Pictures, 93min) Direção: Darren Lynn Bousman. Roteiro: Leigh Whannell, Darren Lynn Bousman. Fotografia: David A. Armstrong. Montagem: Kevin Greutert. Música: Charlie Clouser. Figurino: Alex Kavanagh. Direção de arte/cenários: David Hackl/Lies Deslauriers. Produção executiva: Peter Block, Jason Constantine, Stacey Testro, James Wan, Leigh Whannell. Produção: Mark Burg, Greg Hoffman, Oren Koules. Elenco: Donnie Wahlberg, Tobin Bell, Dina Meyer, Shawnee Smith, Erik Knudsen, Franky G., Glenn Plummer, Emmanuelle Vaugier. Estreia: 28/10/05

E alguém duvidava que o filme de terror de maior sucesso do início do século teria uma continuação? Realizado com pouco mais de um milhão de dólares, o filme criado pelos amigos Leigh Whanell e James Wan rendeu mais de 100 milhões pelo mundo afora, tornando-se uma das franquias mais poderosas de seu tempo. Como a ganância dos executivos tem pressa, porém, não demorou mais de um ano para que sua sequência chegasse às telas americanas. Com um orçamento um pouquinho maior (mas ainda assim irrisório diante dos gastos inacreditáveis cometidos na capital do cinema) e com um ator relativamente conhecido no elenco - Donnie Whalberg, ex-New Kids on the Block, irmão de Mark e o paciente assustado de Bruce Willis na primeira cena de "O sexto sentido" - "Jogos mortais 2" fez ainda mais sucesso e a boa notícia é que consegue ser tão aflitivo e competente quanto ele.

Confiantes de que seu público aceitaria ainda mais violência e tensão, os roteiristas originais diminuíram em sua continuação o clima claustrofóbico do primeiro filme para jogar com um roteiro mais complexo, que equilibra novamente a tensão física com o terror psicológico. O protagonista agora é o policial Eric Matthews (Donnie Wahlberg), que tem seu filho adolescente sequestrado pelo doentio John Kramer (Tobin Bell), que, extremamente doente, ainda insiste em oferecer "lições de vida" a pessoas a quem julga merecedores de tal honra. Suas lições - que envolvem valorizar a vida quando estão prestes a perdê-la - dessa vez não tem como alvo apenas o jovem Daniel (Erik Knudsen) e sim um grupo de pessoas aparentemente distintas e sem nada em comum que são aprisionadas em uma casa hermeticamente fechada. Para saírem do local com vida, elas precisam cumprir uma série de desafios violentos e dolorosos - enquanto o detetive de polícia tenta descobrir o endereço da casa e salvar a vida do filho.




Tenso do início ao fim, "Jogos mortais II" tem a seu favor a inteligência de seus criadores em não deixar que a sequência se tornasse apenas um mero caça-níqueis. Ainda que o objetivo final do estúdio tenha sido realmente encher os cofres graças à curiosidade mórbida da audiência em testemunhar assassinatos com requintes de crueldade - que são mostrados graficamente - o texto de Whanell e Wan consegue, mesmo sem muito esforço, ser bem mais interessante do que o da maioria de seus congêneres. A relação complicada entre o policial e seu filho, por exemplo, não é a mais criativa do mundo, mas funciona que é uma beleza, em especial quando a audiência descobre que o que reune todas as vítimas tem a ver com o pai do rapaz - o que aumenta consideravelmente o suspense.

Repleto de cenas que pegam o espectador em seus medos mais profundos - medos de agulha, de fogo - e com um roteiro que mantém o ritmo da ação em constante evolução, "Jogos mortais II" é um representante digno das exceções à regra que diz que sequências nunca são tão boas quanto os originais.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...