quarta-feira

CONTOS DE NOVA YORK


CONTOS DE NOVA YORK (New York Stories, 1989, Touchstone Pictures, 124min) Estreia: 01/3/89

"Lições de vida" (Life lessons) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Richard Price. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Thelma Schoonmaker. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Nina F. Ramsey. Casting: Ellen Lewis. Produção: Barbara DeFina. Elenco: Nick Nolte, Rosanna Arquette, Steve Buscemi

"A vida sem Zoe" (Life without Zoe") Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola & Sofia Coppola. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Barry Malkin. Música: Carmine Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George DeTitta Jr. Casting: Aleta Chappelle. Produção executiva: Produção: Fred Fuchs, Fred Roos. Elenco: Heather McComb, Talia Shire, Giancarlo Giannini

"Édipo arrasado" (Oedipus wrecks) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Julie Kavner, Mae Questel


A ideia parecia genial e infalível: reunir 3 dos maiores cineastas americanos em atividade no mesmo filme, cada um contando uma história curta passada no mesmo cenário natural preferido por 10 entre 10 diretores, a bela Nova York. No entanto, mesmo com o talento inegável dos escolhidos para a empreitada, "Contos de Nova York" sofre do mesmo mal de quase todos os filmes do mesmo formato: irregularidade. E se Francis Ford Copolla e Martin Scorsese tiveram a coragem de afastar-se dos estilos pelos quais ficaram consagrados, é Woody Allen quem se sai melhor, justamente por apresentar mais do mesmo de maneira engraçada e refrescante.


O filme começa bem, com a belíssima canção "A whiter shade of pale", do grupo Procol Harum, tocando durante os créditos de abertura de "Lições de vida", orquestrado por Scorsese. Dessa vez, o nova-iorquino que mostra o lado obscuro da Grande Maçã conta uma história de amor e criatividade: o pintor Lionel Dobie (vivido com garra por Nick Nolte) não consegue superar o fim de seu relacionamento com a aprendiz e assistente (Rosanna Arquette), que o abandonou para ficar com um performer (o ótimo Steve Buscemi). Ainda dividindo com ela o enorme loft que habita, ele trabalha furiosamente como forma de sublimar o despeito e o sofrimento. Contando com a ajuda de uma caprichada trilha sonora (que inclui Rolling Stones, entre outros), Scorsese deixa de lado a violência e a vida marginal de seus protagonistas anteriores para mergulhar na mente de um homem talentoso mas um tanto auto-destrutivo, que vê no amor sua maior inspiração. Apesar da forma elegante com que o diretor conta sua história, no entanto, ela não consegue seduzir a audiência, em parte pela falta de carisma de Lionel Dobie, um anti-herói romântico, que busca conquistar a amada da maneira menos adequada possível. Também não ajuda a quase apatia de Rosanna Arquette, insípida como sempre. É um Scorsese com qualidades, mas bastante aquém do esperado.




Coppola, por sua vez, apela para um tom infanto-juvenil em seu segmento. Em seu roteiro, "A vida sem Zoe", co-escrito por sua filha Sofia - que levaria um Oscar quinze anos depois por "Encontros e desencontros" - ele utiliza elementos de fábula ao contar a história da pré-adolescente Zoe (Heather McComb), que vive confortavelmente em um hotel de Manhattan enquanto seus ocupados e milionários pais - um flautista internacional e uma fotógrafa - vivem em constantes viagens. Quando faz amizade com um novo colega de escola - mais rico ainda do que ela -, Zoe tem a oportunidade de salvar o casamento dos pais. Simplista e quase raso, o desenvolver da trama é sonolento, prejudicado por uma protagonista sem carisma e uma trama sem maiores interesses. O visual também não é exatamente atraente, o que deixa no público a sensação de que falta alguma coisa, quando finalmente os créditos finais aparecem. É, das três histórias a menos bem-sucedida, ainda que não deixe de ser simpática, em certos momentos.

E chegamos a Woody Allen e seu "Édipo arrasado". Desde o início, com os créditos inconfundíveis de seus filmes, percebe-se que Allen não quis inovar em absolutamente nada: temática, elenco e equipe técnicas de seus trabalhos anteriores comparecem fielmente e dão à plateia os melhores momentos do longa. A trama busca o surreal, mas ainda assim, o estilo claro do diretor é facilmente percebível. O próprio Allen interpreta o protagonista, um advogado relativamente bem-sucedido que no entanto não consegue livrar-se do assédio exagerado da mãe (Mae Questel), uma típica mãe judia que o super-protege e lhe causa extremos embaraços. Um dia, em um programa familiar com ela, sua nova namorada (Mia Farrow) e os filhos pequenos desta, ele vê seus sonhos se realizarem: sua mãe desaparece durante um truque de mágica. Mas como nada é perfeito, ela reaparece, nos céus de Nova York, falando com ele e quem quiser ouvir, além de mostrar fotos e contar histórias vergonhosas de sua infância. Só quem parece poder lhe ajudar é uma confusa esotérica (Julie Kavner). Às vésperas de lançar "Crimes e pecados", uma de suas obras-primas um tanto pessimistas, Allen brinca com sua persona cinematográfica, levando a plateia ao riso fácil e descompromissado do início de sua carreira, e dando à ótima Julie Kavner a oportunidade de demonstrar seu grande talento (como já havia feito em "A era do rádio").

No final das contas, "Contos de Nova York" não é exatamente um filme genial, a despeito de seus créditos. Mas é sempre interessante perceber que até mesmo os mais talentosos cineastas do mundo conseguem ser simples e delicados.

sábado

LIGAÇÕES PERIGOSAS


LIGAÇÕES PERIGOSAS (Dangerous liaisons, 1988, Warner Bros, 119min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Christopher Hampton, romance de Choderlos de Laclos, peça teatral de Christopher Hampton. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Mick Audsley. Música: George Fenton. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Gérard James. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção: Norma Heyman, Hank Moonjean. Elenco: Glenn Close, John Malkovich, Michelle Pfeiffer, Uma Thurman, Keanu Reeves, Swoosie Kurtz, Mildred Natwick. Estreia: 21/12/88

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Glenn Close), Atriz Coadjuvante (Michelle Pfeiffer), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor de 3 Oscar: Roteiro Adaptado, Figurino, Direção de arte/cenários


"Crueldade" é a palavra preferida da Marquesa de Merteuil. Uma mulher em um mundo dominado por homens, ela vê na sua possibilidade de manipular aqueles a quem considera inferiores sua vingança contra a humanidade em geral. Com o rosto de Glenn Close, ela é a personificação do mal em "Ligações perigosas", brilhante adaptação do romance epistolar de Choderlos de Laclos dirigida pelo inglês Stephen Frears e que concorreu a merecidos 7 Oscar em 1988. Escrito pelo mesmo Christopher Hampton que fez a transição do livro para os palcos londrinos, o roteiro excepcional (vencedor de uma estatueta dourada) consegue transpor para a tela, com perfeição, a futilidade, a maldade e a falta de escrúpulos de nobres franceses entediados que se divertem às custas do sofrimento alheio.

Na interpretação mais espantosa de sua carreira, Close interpreta uma venal Marquesa que, sentindo-se traída em seus brios por um antigo amante, propõe a seu colega de egocentrismo e vaidade Visconde de Valmont (John Malkovich) um jogo de sedução que ele quase descarta como sendo "fácil demais": levar para a cama a inocente e virginal Cécile de Volanges (Uma Thurman, em um papel para o qual foram testadas Drew Barrymore e Sarah Jessica Parker), que está de casamento marcado com um homem que não apenas abandonou a Marquesa como traiu-a com uma amante do Visconde. Para recuperar sua fama de conquistador, o cínico aristocrata concorda com o plano, mas também se dedica a uma sedução muito mais desafiadora. Encorajado por Merteuil - que lhe promete uma tórrida noite caso ele seja bem-sucedido em seus intentos - ele ambiciona levar para sua alcova a virtuosa Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer), uma mulher casada e religiosa.



Praticamente ao mesmo tempo em que "Ligações perigosas", uma outra versão da obra de Laclos também chegou aos cinemas. Dirigido pelo tcheco Milos Forman, "Valmont" não teve a mesma repercussão que o filme de Stephen Frears, apesar do elenco mais jovem (Annette Bening e Colin Firth foram os protagonistas, sendo que Bening substituiu Michelle Pfeiffer, que acertadamente preferiu viver outra personagem da história e foi indicada ao Oscar de coadjuvante por isso). Mas é certo que, mesmo com suas qualidades, a versão de Forman não tem o mesmo peso e a mesma qualidade quase literária e teatral da visão de Frears, injustamente deixado de lado na corrida ao Oscar de direção.

Apesar do roteiro de Hampton (inteligente e sagaz, mas nunca deixando de ser extremamente sexy) ser o sonho de qualquer cineasta que se preze, devido a suas inúmeras possibilidades, é Frears quem conduz com sutileza e elegância uma história calcada basicamente em sexo e suas consequências - quando foi publicado, em 1782, o romance que deu origem ao filme era considerado tão escandaloso que Maria Antonieta o lia às escondidas, com uma capa falsa. Esse conteúdo "picante" de "Ligações perigosas" é que faz, no entanto, que o filme seja tão, mas tão bom que deu origem a um filhote: sua versão modernizada, "Segundas intenções", com elenco adolescente, estreou em 1999 e fez grande sucesso junto a seu público alvo.

"Ligações perigosas" também pode se vangloriar de outras qualidades indispensáveis a um filme com suas pretensões artísticas - e essas qualidades também foram devidamente recompensadas com as estatuetas oferecidas pela Academia. A reconstituição de época é primorosa, tanto em termos visuais quanto quando se trata do comportamento da alta sociedade francesa pré-revolução. O cuidado de Frears em utilizar esses elementos para contribuir com a intrincada trama proposta pelo roteiro faz com que a plateia mergulhe intensamente nos sentimentos dos protagonistas, todos eles enredados em uma teia de luxúria e paixão desesperada.

Mas seria inútil um roteiro coeso e denso e um visual caprichado se Frears não tivesse escalado um elenco tão forte quanto o que escalou. Com exceção de um jovem Keanu Reeves que já mostrava a extrema fragilidade de seus dotes dramáticos, cada ator que surge em cena é de uma excelência a toda prova. Uma Thurman, jovial e ainda bela, apresenta a inocência de sua personagem com delicadeza e sensibilidade. Michelle Pfeiffer, linda como sempre, constrói a decadência amorosa de sua Madame de Tourvel com a firmeza de uma veterana e John Malkovich equilibra com maestria todas as nuances de um Visconde de Valmont venal, ególatra e até mesmo apaixonado. Sua ausência na lista dos indicados ao Oscar de melhor ator do ano ecoa a ausência de Frears na categoria de diretor. Mas é Glenn Close quem rouba descaradamente para si o filme todo, em uma atuação fascinante.

Depois de ter encarnado a psicótica Alex Forrest de "Atração fatal" e ter sido duramente criticada pelo exagero em sua interpretação - apesar da indicação ao Oscar - Close entrega, como a Marquesa de Merteuil uma atuação contida, discreta, quase silenciosa. Seu olhar de ódio, aliado a um tom de voz sussurrante e modos delicados enquanto maquina horrores em sua mente diabólica deram à atriz um dos papéis mais interessantes da história e ela não perde a oportunidade de mostrar seu talento. Em uma das cenais finais, em que ela simplesmente tropeça no salto do sapato diz mais - sem nenhuma palavra - do que páginas e páginas de diálogos seriam capazes. Suas conversas com Malkovich são, sem exagero nenhum, algumas das mais fascinantes que as telas de cinema mostraram ao público.

"Ligações perigosas" é uma aula de como contar uma história utilizando classe, inteligência e sutileza. É o melhor filme de Stephen Frears e injustamente foi preterido no Oscar pelo correto mas não ousado "Rain Man".

sexta-feira

UMA SECRETÁRIA DE FUTURO


UMA SECRETÁRIA DE FUTURO (Working girl, 1988, 20th Century Fox, 113min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Kevin Wade. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Sam O'Steen. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/George DeTitta. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut, Laurence Mark. Produção: Douglas Wick. Elenco: Melanie Griffith, Harrison Ford, Sigourney Weaver, Joan Cusack, Alec Baldwin, Kevin Spacey, Philip Bosco, Oliver Platt, Olympia Dukakis, David Duchovny. Estreia: 20/12/88

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mike Nichols), Atriz (Melanie Griffith), Atriz Coadjuvante (Joan Cusack, Sigourney Weaver), Canção ("Let the river run")
Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original ("Let the river run")
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Melanie Griffith), Atriz Coadjuvante (Sigourney Weaver), Canção Original ("Let the river run")


Tess McGill é uma trintona que mora em Nova Jersey e trabalha como secretária na ilha de Manhattan. Com dificuldades de manter-se nos empregos que arruma, ela vive um romance fogo brando com o seu eterno namorado Mick (Alec Baldwin) e passa suas noites frequentando festinhas suburbanas ao lado da melhor amiga, Cyn (Joan Cusack). No entanto, sua sorte muda quando ela começa a trabalhar no escritório de Kathryn Parker (Sigourney Weaver), que divide com ela a ambição de subir na vida. Tess McGill não é um exemplo ético. Tess McGill é a protagonista de "Uma secretária de futuro", a mais bem-sucedida comédia romântica do diretor Mike Nichols desde "A primeira noite de um homem". Cotada para ser vivida por Michelle Pfeiffer, Geena Davis, Carrie Fisher, Kim Basinger, Kathleen Turner, Debra Winger, Diane Lane e Sarah Jessica Parker, ela acabou nas mãos de Melanie Griffith, que aproveitou a chance com tudo e acabou finalista ao Oscar de melhor atriz.

Quando "Uma secretária de futuro" começa, Tess McGill está saindo de um emprego insatisfatório e começando a trabalhar como secretária de Kathryn, uma mulher linda e bem-sucedida que não hesita em roubar descaradamente uma ideia de Tess, envolvendo a compra de uma emissora de rádio. Ao descobrir a traição da chefe - quando ela fica fora da cidade devido a um acidente de esqui - a ambiciosa secretária resolve dar a volta por cima. Passando-se por executiva, ela conta com a ajuda do atraente Jack Trainer(Harrison Ford) para conquistar seu lugar ao sol. Sua farsa, no entanto, corre o risco de ser desmascarada quando ela descobre que justamente que o homem por quem está perdidamente apaixonada é também amante de sua patroa.


"Uma secretária de futuro" não é exatamente um filme brilhante, como alguns dos filmes assinados por Mike Nichols (em especial "A primeira noite" e "Closer, perto demais"). Mas tem um charme oitentista que conquista desde os créditos de abertura (ao som da canção de Carly Simon vencedora do Oscar) até o visual exagerado tanto da protagonista em suas primeiras cenas quanto das coadjuvantes - é engraçado reparar na clara divisão entre o kitsch anos 80 do figurino e dos penteados das suburbanas secretárias e do requinte clean da classe "superior". Sigourney Weaver, em especial, esbanja beleza e classe, metida em vestidos caríssimos e vivendo em um apartamento chique, enquanto Tess e suas amigas habitam um mundo quase escuro - matizado apenas pela maquiagem sempre acima do básico.

"Uma secretária de futuro" é também o auge da carreira de Melanie Griffith, uma atriz sem maiores talentos dramáticos que, depois de uma vida regada a drogas e álcool, se reergueu artisticamente aqui. Depois de algumas escolhas equivocadas posteriores - a saber "A fogueira das vaidades", de Brian de Palma e "Uma luz na escuridão", ao lado de Michael Douglas - ela voltou a seu quase anonimato, sendo notícia quase sempre devido a seu casamento com o ator espanhol Antonio Banderas. Na pele de Tess, no entanto, Griffith - filha da atriz Tippi Hedren, de "Os pássaros" - brilha, em uma atuação discreta, eficiente e envolvente. Por incrível que pareça é ela que dá luz ao filme, mesmo dividindo cenas com as sensacionais Weaver e Joan Cusack - ambas indicadas ao Oscar de coadjuvante.

"Uma secretária de futuro" é a cara de seu tempo, pro bem e pro mal. Lançado em um momento em que as mulheres buscavam desesperadamente seu espaço no mercado de trabalho e o movimento yuppie estava em seu apogeu - é dessa época a famosa frase de Gordon Gekko em "Wall Street" que dizia que "ganância é bom!" -, foi o filme certo no momento certo. Daí talvez sua reputação um tanto exagerada - inclusive como finalista ao Oscar de melhor filme. É uma comédia romântica interessante - ainda que não seja exatamente uma comédia rasgada - e que retrata com ironia e condescendência um importante momento social e econômico americano, sem apelar para lições de moral. Divertido e simpático! O que mais se espera de um filme assim?

PS - E de quebra, "Uma secretária de futuro" conta com uma participação pequena de Kevin Spacey, no início de uma brilhante carreira.

segunda-feira

RAIN MAN


RAIN MAN (Rain Man, 1988, United Artists, 133min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Ronald Bass, Barry Morrow. Fotografia: John Seale. Montagem: Stu Linder. Música: Hans Zimmer. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: Ida Random/Linda DeScenna. Casting: Louis DiGiaimo. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Mark Johnson. Elenco: Dustin Hoffman, Tom Cruise, Valeria Golino, Bonnie Hunt. Estreia: 16/12/88

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Barry Levinson), Ator (Dustin Hoffman), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte/cenários
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Barry Levinson), Ator (Dustin Hoffman), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Dustin Hoffman)


Pródiga que é em lançar filmes sobre doenças fatais e/ou raras, Hollywood conta sempre com o apoio da Academia, que adora premiar com seus ambicionados Oscar histórias lacrimosas de superação e dor - se o filme em questão ainda tiver uma mensagem do tipo "DESCOBRI O VERDADEIRO SENTIDO DA VIDA E ME TORNEI UMA PESSOA MELHOR", então a festa está completa. É este o caso de "Rain Man", grande vencedor da cerimônia de 1988. Vitorioso em 4 categorias importantíssimas - filme, direção, ator e roteiro original - o filme de Barry Levinson tem todas as características que seduzem os eleitores da Academia... e por conseguinte a platéia cativa que obras do gênero possuem. A única coisa que difere "Rain Man" das dezenas de outros títulos que movimentam o mercado de lenços de papel é Dustin Hoffman. Na pele do protagonista Raymond Babbit, Hoffman entrega um dos momentos mais marcantes de sua brilhante carreira, merecidamente premiado com sua segunda estatueta dourada de Melhor Ator.

"Rain Man" começa quando o jovem empresário Charlie Babbitt (Tom Cruise em mais um passo rumo a ser levado a sério como ator) fica sabendo da morte de seu pai, um milionário aparentemente seco e desprovido de maiores afetos por ele. Endividado até a raiz dos cabelos, Charlie espera receber uma polpuda herança, que o aliviaria de seus problemas financeiros. No entanto, para seu choque, descobre que herdou apenas um automóvel raro e algumas roseiras. O restante do patrimônio de sua família, ele descobre estarrecido, ficou para um irmão mais velho que ele sequer sabia existir. Raymond, seu irmão mais velho, vive em um hospital psiquiátrico por ser autista - uma rara condição que faz com que viva em um mundo particular, com regras rígidas e imutáveis. Com a intenção de obrigar a justiça a lhe pagar o que deve, Charlie praticamente sequestra Raymond e no caminho, descobre que ele tem uma inteligência rara, capaz de fazer cálculos complicadíssimos de cabeça, ao mesmo tempo que desconhece por completo (e por pura ironia!) o valor do dinheiro.


Logicamente, no decorrer do filme (que torna-se uma espécie de road movie graças ao terror que Raymond tem de voar) Charlie torna-se uma pessoa melhor, mais humana e menos fria. O convívio com o irmão mais velho faz com que o rapaz redescubra a ternura e o carinho, aproximando-o inclusive da namorada, Susanna (a péssima Valeria Golino). Mesmo que tente fugir dos clichês e do sentimentalismo barato - acrescentando uma bem-vinda dose de bom humor aos diálogos - o roteiro de Ronald Bass e Barry Morrow nem sempre é bem-sucedido em sua empreitada. Em alguns momentos há a séria ameaça de tornar-se extremamente piegas, e é aí que o trabalho fenomenal de Hoffman emerge glorioso.

Em uma composição minuciosa de voz e corpo, Dustin consegue fazer de seu Raymond Babbit não um doente engraçadinho e cativante (como o primeiro esboço do roteiro, recusado por ele, o apresentava) mas como um homem enervante, quase insuportável na rigidez de sua rotina. Escalado para viver Charlie em um primeiro tratamento do projeto (em que os irmãos teriam uma diferença bem menos considerável de idade), Hoffman apaixonou-se pelo papel de Raymond e passou dois anos convivendo com autistas para compor sua personagem, sugerindo modificações no roteiro e realizando exaustivos ensaios com Cruise (que não se sai mal como escada para seu brilho). Para sua sorte, Steven Spielberg, que esteve para dirigir o filme em uma ocasião, o deixou de lado para realizar "Indiana Jones e a última cruzada", caso contrário, a dose de sacarina provavelmente seria bem maior e talvez nem mesmo ele salvasse "Rain Man" de ser mais um exemplar corriqueiro de drama médico/familiar.

Um dos filmes preferidos da Princesa Diana, "Rain Man" emociona, faz rir e ainda consegue ser um bom filme. Não era o melhor filme do ano, mas cumpre o que promete. E tem Dustin Hoffman.

domingo

OS SAFADOS


OS SAFADOS (Dirty rotten scoundrels, 1988, Orion Pictures, 110min) Direção: Frank Oz. Roteiro: Dale Launer, Stanley Shapiro, Paul Henning. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Stephen A. Rotter, William Scharf. Música: Miles Goodman. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Roy Walker/Rosalind Shingleton. Casting: Donna Isaacson, John Lyons. Produção executiva: Charles Hirschlorn, Dale Launer. Produção: Bernard Williams. Elenco: Steve Martin, Michael Caine, Glenne Headley, Anton Rodgers, Barbara Harris, Dana Ivey. Estreia: 14/12/88

Uma coisa é certa: para que uma comédia funcione de verdade (o que significa permanecer engraçada mesmo depois de um primeiro contato) é necessário que seu roteiro seja realmente interessante ou que a química entre seus atores esteja além do estritamente corriqueiro. Quando esses dois fatores acontecem simultaneamente, não tem erro: diversão garantida para a plateia. E é exatamente isso que acontece com "Os safados". Dirigida por Frank Oz, essa refilmagem de "Dois farristas irresistíveis", estrelado em 1964 por Marlon Brando e David Niven consegue o feito de ser tão hilariante hoje quanto à época de seu lançamento. Tudo responsabilidade do roteiro impecável e de sua dupla de protagonistas. Juntos pela primeira e até agora única vez, Michael Caine e Steve Martin encantam a audiência da primeira à última cena.

A trama de "Os safados" se passa em um Beaumont Sur Mer, uma paradisíaca cidade litorânea da Riviera francesa. É lá que o inglês Lawrence Jamieson (Michael Caine, se divertindo claramente em cena) vive confortavelmente, às custas dos inúmeros golpes que aplica em milionárias carentes. Seu reinado e sua paz passam a ser ameaçados quando entra em cena Freddy Benson (Steve Martin), um escroque americano nem um pouco sofisticado que chega à cidade para buscar novas vítimas para suas armações. A princípio inimigos declarados, logo eles mudam de status: Benson pede a Jamieson que o ensine a ser mais sofisticado, sutil e elegante. Quando chega à cidade a "Rainha do Sabonete", Janet Colgate (Glenne Headly), eles tem a ideia perfeita para resolver sua rivalidade: uma aposta. Quem conseguir arrancar 50 mil dólares da milionária obriga o outro a ir embora para sempre.

A partir daí, o filme transforma-se em um show de seus protagonistas. Enquanto Michael Caine usa e abusa da fleuma britânica, Steve Martin mostra porque era o ator cômico mais festejado dos anos 80. O choque entre a elegância de Jamieson e a gaiatice de Benson, no entanto, é apenas uma das várias razões que fazem de "Os safados" uma das melhores comédias da década. A essa união entre dois tipos de humor une-se um roteiro inteligente, uma paisagem charmosa e cenas que buscam a graça mais nas situações do que em escatologia ou piadas regadas a sexo ou fluidos corpóreos. Politicamente incorreto, o roteiro brinca com doenças mentais, desigualdades sociais e invalidez física com a mesma desenvoltura com que cativa sua audiência fazendo-a se apaixonar por dois protagonistas totalmente sem caráter.

E talvez seja justamente a absoluta falta de caráter das personagens centrais que faz com que "Os safados" brilhe mais do que seus congêneres (tanto comédias quanto "filmes de golpistas"). A plateia se mantém concentrada em cada minuto da projeção, esperando os novos golpes que fazem com que Jamieson e Benson nunca sejam completamente vítimas ou totalmente vencedores. As incríveis - e surpreendentes - reviravoltas são a cereja de um bolo saboroso, capaz de botar um sorriso no rosto até mesmo dos mais exigentes espectadores.

Planejado para promover o encontro cinematográfico entre Mick Jagger e David Bowie, "Os safados" acabou se beneficiando muito da escalação de seus dois atores centrais. Dificilmente ele seria tão bom e tão memorável com qualquer outro elenco.

quinta-feira

MISSISSIPI EM CHAMAS


MISSISSIPI EM CHAMAS (Mississippi burning, 1988, Orion Pictures, 128min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Chris Gerolmo. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Gerry Hambling. Música: Trevor Jones. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Philip Harrison, Geoffrey Kirkland/Jim Erickson. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção: Robert F. Colesberry, Frederick Zollo. Elenco: Gene Hackman, Willem Dafoe, Frances McDormand, Brad Dourif, R. Lee Ermey, Stephen Tobolowski, Michael Rooker, Pruitt Taylor Vince, Tobin Bell. Estreia: 09/12/88

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alan Parker), Ator (Gene Hackman), Atriz Coadjuvante (Frances McDormand), Fotografia, Montagem, Som
Vencedor do Oscar de Fotografia


Alan Parker não é de brincar em serviço. O inglês que chocou o mundo com "O expresso da meia-noite" e depois transformou Robert DeNiro no demônio encarnado, em "Coração satânico" mostra mais uma vez, em "Mississipi em chamas", porque contundência é uma das características mais marcantes de seu trabalho como cineasta. Inspirado em fatos reais - disfarçados ou, como preferem os puristas, distorcidos -, o roteiro de Chris Gerolmo é forte o suficiente para transformar-se em matéria-prima ideal para um diretor inquieto e feroz. Ao tocar o dedo na profunda ferida do racismo no sul dos EUA em plenos efervescentes anos 60, Parker assinou um de seus filmes mais radicais e elogiados, merecidamente indicado a sete Oscar - inclusive filme e diretor.

A trama do filme se passa em 1964 e começa quando três jovens ativistas dos direitos civis - um deles negro - são violentamente assassinados em uma pequena cidade do Mississipi. Tidos como desaparecidos, eles chamam a atenção do FBI, que manda para a localidade dois agentes com diferentes métodos de trabalho. Alan Ward (Willem Dafoe, em papel desejado por Don Johnson) é relativamente jovem, idealista e crente na aproximação pacífica e civilizada. Anderson (Gene Hackman, genial), criado na região e bem mais cínico e experiente, acredita na força física e não dá muita importância a coisas como ética. Tão logo chegam ao local das investigações, os dois policiais passam a testemunhar o aumento exponencial das atividades da Ku Klux Klan, cuja violência é não apenas vista com condescêndia pelas autoridades locais, mas incentivada. Não demora muito para que Ward autorize Anderson a trabalhar como sabe, o que os envolve em uma guerra declarada.



A fotografia de Peter Biziou, vencedora do Oscar, é um primor. Quente e sólida, ela colabora para passar a sensação de claustrofobia almejada pela história contada sem meio-tons por Gerolmo e Parker. A violência do racismo não é enfeitada ou amenizada pelo diretor, que faz questão de esfregar na cara da plateia a fealdade do preconceito - a começar pela eficaz imagem de abertura do filme, que mostra bebedouros diferenciados para brancos e negros. Não faz parte das ideias do cineasta fugir muito do maniqueísmo, ainda que a forma com que Anderson lida com sua missão esteja longe de ser exemplar. No mundo retratado em "Mississipi em chamas", os vilões tem cara de vilões, falam com tal e não hesitam em espancar as próprias esposas (Frances McDormand concorreu a seu primeiro Oscar na pele da mulher do delegado da cidade, vivido por um eficiente Brad Dourif, cujo embate com Hackman em uma barbearia chega a ser quase antológica).

A história de "Mississipi em chamas" pode até não ter sido exatamente como narrada no filme de Alan Parker. Mas sua força reside mais no que ele quer denunciar do que em verdades absolutas, e assim sendo, é construído como um libelo contra o racismo. Como tal, beira a perfeição.

CAMILLE CLAUDEL


CAMILLE CLAUDEL (Camille Claudel, 1988, 158min) Direção: Bruno Nuytten. Roteiro: Bruno Nuytten, Marilyn Goldin, livro de Reine-Marie Paris. Fotografia: Pierre Lhomme. Montagem: Joelle Hache, Jeanne Kef. Música: Gabriel Yared. Figurino: Dominique Borg. Direção de arte: Bernard Vézat. Casting: Shula Siegfried. Produção: Isabelle Adjani, Christian Fechner. Elenco: Isabelle Adjani, Gérard Depardieu, Laurent Grévill, Alain Cuny, Madeleine Robinson, Maxime Leroux. Estreia: 07/12/88

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Atriz (Isabelle Adjani)
Melhor Atriz no Festival de Berlim


"Camille Claudel" é um filme sobre paixão. A paixão desesperada de uma mulher por um homem. E a paixão de uma artista por seu trabalho, por seu dom. É um filme intenso, passional e feito com o amor necessário para se contar uma história de loucura, perda e talento. Uma história real, inacreditável e triste, como toda boa história de amor. E absolutamente verdadeira.

No início de 1885, a jovem aspirante a escultora Camille Claudel (Isabelle Adjani) é aceita como aprendiz pelo célebre Auguste Rodin (Gerard Depardieu). Famoso por seu temperamento forte e pela beleza de seu trabalho, Rodin também é conhecido como um notório sedutor e não demora muito para que sua nova aluna caia de amores por ele. Envolvidos em um escandaloso romance - o mestre é casado e mais velho do que ela - os dois passam a ser objeto de fofocas por toda Paris, principalmente porque Camille frequenta círculos ilustres - é irmã do escritor Paul Claudel e amiga do compositor Paul Debussy, por exemplo. Quando seu relacionamento com Rodin acaba, a bela escultora, ainda apaixonada por ele, começa a entrar em um perigoso declínio psicológico. Paranoica e agressiva, ela passa a acusar o ex-amante de querer acabar com sua carreira artística.


Como bom todo filme francês pré-Amélie Poulain, "Camille Claudel" tem um ritmo próprio - leia-se um tanto lento -, contando sua história sem pressa, aprofundando-se no contexto histórico da trama (é citada, por exemplo, a morte do escritor Victor Hugo) e fugindo da edição veloz típica do cinema americano. Se perde em agilidade, no entanto, o filme de Bruno Nuytten (na época casado com Adjani) ganha em coerência, em honestidade e no cuidado com os detalhes (a reconstituição de época é deslumbrante, assim como a obra de sua protagonista). Mas é no trabalho de Isabelle Adjani que "Camille Claudel" se sustenta.

Já acostumada a papéis fortes de mulheres enlouquecidas de amor (vide seu trabalho em "A história de Adele H.", de François Truffaut), Adjani apresenta aqui sua interpretação mais passional, entregue absolutamente à sua personagem. Os closes do rosto de porcelana da atriz sujos de barro, seus olhos azuis suplicando amor e o desespero que suas belas feições transmitem são a alma de "Camille Claudel". Merecidamente indicada ao Oscar por sua atuação, a atriz francesa mais destacada da década de 90 demonstra claramente porque amealhou milhares de fãs pelo mundo.

quarta-feira

CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ


CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ (The naked gun, 1988, Paramount Pictures, 85min) Direção: David Zucker. Roteiro: Jerry Zucker, David Zucker, Jim Abrahams, Pat Proft. Fotografia: Robert Stevens. Montagem: Michael Jablow. Música: Ira Newborn. Figurino: Mary E. Vogt. Direção de arte/cenários: John J. Lloyd/Rick T. Gentz. Casting: Pamela Basker, Fern Champion. Produção executiva: Jerry Zucker, David Zucker, Jim Abrahams. Produção: Robert K. Weiss. Elenco: Leslie Nielsen, Priscilla Presley, Ricardo Montalban, George Kennedy, O.J. Simpson. Estreia: 02/12/88

Tudo bem que comédias inteligentes, com roteiros repletos de diálogos irônicos e humor sutil fazem a glória do gênero, como bem o sabem fãs de gente como Billy Wilder e Woody Allen. Mas nada como uma grandiosa bobagem para que o público esqueça por uma hora e meia o cérebro e gargalhe à vontade. E é exatamente esse o objetivo de “Corra que a polícia vem aí”, um dos filmes mais engraçados da história do cinema.

Tendo como base a série de TV “Esquadrão de Polícia”, que não vingou nos EUA, o trio ZAZ (responsável também pelos hilários “Apertem os cintos, o piloto sumiu” e “Top secret”) criou uma sucessão de piadas infames, normalmente visuais mas também verbais (o que a tradução por vezes acaba perdendo). O herói (se é que pode ser chamado assim) é o Tenente Frank Drebin (um impagável Leslie Nielsen, no papel de sua vida), que recebe a missão de proteger a Rainha Elizabeth da Inglaterra quando ela chega aos EUA. O que talvez parecesse razoavelmente fácil torna-se complicado quando Drebin descobre um plano para assassinar a monarca durante uma partida de beisebol. Para piorar o policial se apaixona por Jane (Priscilla Presley, a viúva de Elvis, rejuvenescida e igualmente hilária), namorada do mentor do plano (Ricardo Montalban, da “Ilha da Fantasia”).


Em menos de hora e meia de filme, o diretor David Zucker consegue destruir dezenas de clichês que povoam os filmes policiais americanos, mal dando tempo para o público se recuperar de uma gargalhada e logo partindo para outra piada. São tantas bobagens acontencendo, às vezes ao mesmo tempo, que fica difícil sacar todas, o que faz a experiência de rever o filme tão divertida quanto assistí-lo pela primeira vez. Engraçado como poucos, “Corra que a polícia vem aí” é imperdível para quem deseja relaxar e dar boas risadas. E, pro bem e pro mal, marcou indelevelmente a carreira de Leslie Nielsen.

terça-feira

A OUTRA


A OUTRA (Another woman, 1988, Orion Pictures, 81min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Gena Rowlands, Mia Farrow, Ian Holm, Gene Hackman, Blythe Danner Martha Plimpton, Frances Conroy, Sandy Dennis, Philip Bosco, Betty Buckley. Estreia: 18/11/88

Emulando mais uma vez Ingmar Bergman, um de seus ídolos máximos (de quem conseguiu inclusive o diretor de fotografia Sven Nykvist), Woody Allen entrega, em “A outra” um de seus mais interessantes trabalhos de sua fase “séria”. Deixando de lado seu humor paranóico-judeu, o cineasta nova-iorquino criou uma pequena obra-prima (e pequena também é sua duração – meros 81 minutos, pouco menos de duas sessões de tearapia).

É justamente sobre terapia seu filme. A protagonista é Marion Post (uma sensacional Gena Rowlands), uma especialista em filosofia, que vive um segundo casamento estável e leva uma vida tranqüila e sem maiores sobressaltos. Para escrever seu novo livro, ela aluga um pequeno apartamento em uma rua tranqüila de Nova York. Para sua surpresa, no entanto, pelo aparelho de ventilação do apartamento, ela consegue ouvir todas as consultas do psicanalista que trabalha ao lado. A princípio incomodada com o fato, ela logo muda de idéia quando começa a ouvir o trabalho do médico com uma jovem grávida (Mia Farrow, que não poderia faltar), cujos problemas refletem aqueles que ela mesma tem e deixa guardados em seu inconsciente. A partir daí, Marion começa a examinar sua vida atual e pregressa, tentando resolver sua relação com o irmão, com o ex-marido, o pai e principalmente revendo seu casamento e seu acabado caso de amor com o melhor amigo de seu marido (em participação pequena mas marcante de Gene Hackman).

Allen consegue, em menos de hora e meia, levar o espectador para dentro da mente da personagem de Rowlands (ajudado, é claro pela performance espetacular da atriz), utilizando de idéias criativas, como uma peça de teatro e idas e vindas no tempo, bem ao gosto de seu mentor Bergman. Pode parecer difícil e pesado. Certamente, leve e divertido como a maioria dos trabalhos do diretor não é. Mas “A outra” tem uma qualidade redentora, além de seu roteiro brilhante e de seu elenco perfeito – é inteligente, faz pensar e não sai da mente do espectador por um bom tempo, como uma boa consulta ao terapeuta.

segunda-feira

CINEMA PARADISO


CINEMA PARADISO (Nuovo Cinema Paradiso, 1988, Miramax Films, 124min) Direção e roteiro: Giuseppe Tornatore. Fotografia: Blasco Giurato. Montagem: Mario Morra. Música: Ennio Morricone. Figurino: Beatrice Bordone. Direção de arte: Andrea Crisanti. Produção: Franco Cristaldi, Giovanna Romagnoli. Elenco: Phillipe Noiret, Salvatore Cascio, Marco Leonardi, Pupella Maggio, Agnese Nano, Jacques Perrin. Estreia: 17/11/88

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro


Enquanto “A rosa púrpura do Cairo”, de Woody Allen, era uma homenagem ao poder do cinema de deixar a vida menos dolorosa, este “Cinema Paradiso”, do italiano Giuseppe Tornatore e merecido vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, fala da sétima arte como o que ela realmente é: inspiração, arte e emoção.

E emoção é o que não falta na história contada por Tornatore, também autor do roteiro, belo, engraçado e comovente como poucos. O filme começa quando um bem-sucedido cineasta italiano (vivido por Jacques Perrin) recebe a notícia da morte de um velho amigo, do tempo em que morava em Giancaldo, um pequeno vilarejo siciliano. Sentindo-se triste e comprometido com seu passado, ele retorna a sua cidade e relembra momentos marcantes de sua vida ao lado deste amigo, Alfredo (o sempre ótimo Phillipe Noiret), que era o projecionista do único cinema de sua infância, o Cinema Paradiso.

Ainda chamado de Totó (e vivido pelo inesquecível Salvatore Cascio), quando criança o cineasta via no programa de ir ao cinema o único escape para sua vida de pobreza ao lado da mãe que esperava a volta do marido da segunda guerra. Capaz de usar o dinheiro das compras para assistir aos filmes, censurados rigidamente pelo pároco local, Totó logo faz amizade com Alfredo, que mesmo contra a vontade, o ensina os macetes da profissão. Quando um incêndio destrói o cinema, Alfredo fica cego e impossibilitado de praticar sua função. No momento em que um morador da cidade, ganhador da loteria, resolve inaugurar um novo Cinema Paradiso, sobra para o pequeno fã de filmes a responsabilidade de divertir seus conterrâneos e dessa vez sem os cortes impostos pela Igreja. Finalmente depois de anos, a população de Giancaldo vê um beijo nas telas e se apaixona por gente como Brigitte Bardot e Claudia Cardinale. Quando torna-se adolescente, Totó (na pele de Marco Leonardi) é apresentado ao primeiro amor, na figura da bela Elena.


A primeira metade de “Cinema Paradiso” é uma obra-prima, inspirada descaradamente no neo-realismo italiano, capaz de cenas enternecedoras e divertidíssimas. O ritmo cai um pouco na segunda parte, quando Totó, já um jovem adulto se apaixona e tenta conquistar sua amada, contando com a ajuda de um Alfredo cego e desiludido. Mesmo assim, Tornatore mantém a atenção, com diálogos inteligentes e sensíveis, além de contar uma história de interesse universal. A bela homenagem prestada pelo cineasta à sétima arte é de enternecer, fazendo com que "Cinema Paradiso" tenha um lugar cativo na lista dos fãs de cinema.

No entanto, nada supera os momentos finais de seu filme, quando um presente de Alfredo a seu antigo pupilo consegue emocionar qualquer pessoa com um coração. Não vale a pena contar para quem nunca assistiu (o que para fãs de cinema é imperdoável), mas ficar impassível durante os minutos derradeiros de “Cinema Paradiso”, ao som da inesquecível trilha sonora do mestre Enio Morricone é tarefa das mais difíceis.

Para quem gosta de cinema como diversão ou como obra de arte, “Cinema Paradiso” não é apenas recomendável. É obrigatório!

sábado

ACUSADOS


ACUSADOS (The accused, 1988, Paramount Pictures, 111min) Direção: Jonathan Kaplan. Roteiro: Tom Topor. Fotografia: Ralf Bode. Montagem: O. Nicholas Brown, Jerry Greenberg. Música: Brad Fiedel. Figurino: Trish Keating. Direção de arte/cenários: Richard Kent Wilcox/Barry W. Brolly. Casting: Sally Dennison, Julie Selzer. Produção: Stanley R. Jaffe, Sherry Lansing. Elenco: Jodie Foster, Kelly McGillis, Bernie Coulson, Carmen Argenziano, Leo Rossi, Ann Hearn. Estreia: 14/10/88

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Jodie Foster)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jodie Foster)


Quando assistiu a "Acusados" pela primeira vez, Jodie Foster achou sua atuação tão ruim que considerou seriamente abandonar Hollywood e dedicar-se à carreira acadêmica. Quando, alguns meses depois, ela ganhou o Oscar de melhor atriz por seu trabalho, felizmente mudou de ideia. E até mesmo quem considerava que Glenn Close era imbatível na categoria, por "Ligações perigosas" é obrigado a admitir que Foster é a melhor coisa do filme. Sorte de Foster - que em pouco tempo estrearia como diretora e levaria uma segunda estatueta, por "O silêncio dos inocentes", sorte dos fãs de cinema e sorte principalmente do filme em si, um drama de tribunal formulaico e, não fosse por ela, esquecível. Sem maiores arroubos de criatividade no roteiro e uma direção anêmica, "Acusados" poderia facilmente ser classificado como um telefilme, tamanha é sua falta de energia. Mas Jodie, definitivamente, faz toda a diferença.

A personagem de Foster é Sarah Tobias, uma garçonete de boca suja, chegada em fumar um baseado de vez em quando e sem grandes pudores. Uma noite, ela vai parar em um bar onde trabalha uma amiga. Tencionando um flerte de leve para provocar o namorado, com quem acabou de brigar, ela acaba sendo violentamente estuprada por três homens, enquanto outros os incitavam e encorajavam com aplausos e gritos de incentivo. Humilhada e machucada, ela conta com a ajuda da advogada Kathryn Murphy (Kelly McGillis) para colocar seus agressores atrás das grades. As coisas não correm conforme o esperado e eles são absolvidos depois de um acordo judiciário. Sentindo-se traída, Sarah desconta a raiva na advogada, que, tocada em seus brios de mulher e profissional, tem a idéia de processar os homens que testemunharam o ato de violência.


E é só isso. O filme não faz muito além de contar sua história, sem desenvolver as suas personagens principais, tão frágeis quanto o roteiro, superficial a ponto de não se aprofundar em nenhuma das inúmeras questões que poderia suscitar. O relacionamento e a solidariedade entre as protagonistas principais, por exemplo, não é discutido a contento, nem muito menos o machismo que as leva a unirem-se mesmo quando seu futuro não aponta para algo muito feliz. Kelly McGillis se deixa levar pela apatia de sua personagem e nem está particularmente bela como em “Top Gun” e “A testemunha”, seus dois filmes mais conhecidos - e isso que ela mesma foi vítima de estupro, em 1982, o que a fez trocar, ao menos na tela, o papel de vítima pelo de advogada. Jonathan Kaplan, o diretor, em alguns anos trocaria o cinema pela TV, dirigindo vários episódios de "Plantão médico".

É somente Jodie Foster, com seu imenso talento que faz sua Sarah Tobias tornar-se maior que o roteiro e a direção e salvar “Acusados” da total mediocridade. E isso que foi apenas a quarta opção para o papel... Como diria Alanis Morissette, isn't ironic??

sexta-feira

A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO


A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (The last temptation of Christ, 1988, Universal Pictures, 164min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader, romance de Nikos Kazantzakis. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Peter Gabriel. Figurino: Jean-Pierre Delifer. Direção de arte/cenários: John Beard/Giorgio Desideri. Casting: Cis Corman. Produção executiva: Harry Ufland. Produção: Barbara De Fina. Elenco: Willem Dafoe, Harvey Keitel, Barbara Hershey, Paul Greco, Verna Bloom, Harry Dean Stanton, David Bowie. Estreia: 12/8/88

Indicado ao Oscar de Diretor (Martin Scorsese)

O cineasta Martin Scorsese foi criado como católico e chegou a freqüentar um seminário, quando teve intenção de tornar-se padre. Talvez esse background inusitado para um diretor de cinema tão chegado a filmes tão violentos e pesados como “Taxi driver” e “Touro indomável” tenha sido o responsável pela gritaria em torno de “A última tentação de Cristo”, adaptação cinematográfica de Scorsese do polêmico livro escrito pelo grego Nikos Kazantzakis, que basicamente criou celeuma ao dar um enfoque humano ao filho de Deus. Anos antes de Mel Gibson encher os bolsos de dinheiro com sua violenta versão da história, em "A paixão de Cristo", Scorsese sofreu para levar às telas a visão filosófico/espiritual de Jesus, que ele compartilhava com o escritor. Tendo lido o livro em 1972 - presente da atriz Barbara Hershey - ele levou mais de quinze anos para finalmente fazê-lo chegar aos cinemas. E ser praticamente apedrejado por isso.

Piquetes em frente aos cinemas, ameaças da Igreja Católica e discussões ao redor do mundo fizeram no entanto que seu filme atingisse uma glória que provavelmente não era de seu interesse. O que o cineasta, um dos mais brilhantes de sua geração, diga-se de passagem, queria – e consegue, a despeito de toda a confusão que desviou do foco principal da produção – era fazer uma obra acima de religiões, teologias e divisões entre crenças. Scorsese queria fazer um filme para reafirmar sua fé e a de quem pudesse ser atingido por sua obra. E saiu-se vitorioso. Há muito que Hollywood devia um filme tão inflamado e apaixonado quanto “A última tentação de Cristo”.


Muito da extrema qualidade do filme vem da energia e da paixão de seus criadores. Indo muito além das belas palavras de Kazantzakis, o roteiro, de autoria do colaborador habitual do diretor, Paul Schrader apresenta, sem ordem cronológica linear, fatos importantes da vida de Jesus Cristo (em uma atuação corajosa de Willem Dafoe) até o momento de Sua crucificação, onde tem a visão do que seria Sua vida se tivesse uma vida de ser humano normal, em um relacionamento carnal com Maria Madalena (Barbara Hershey, bela e sexy),uma família convencional e, heresia das heresias, amantes - sim, no filme Cristo se divide entre duas irmãs, depois da morte da esposa. Justamente esse terço final do filme, o que vem a ser literalmente sua última tentação foi o que incomodou aqueles que têm as Escrituras ao pé da letra e que nem de longe percebeu que, no fim de tudo, ao optar pelo auto-sacríficio, Jesus provou seu amor de forma indelével e salvou a humanidade.

Apesar da beleza de seus momentos finais, onde até o mais renitente cínico pode se emocionar, “A última tentação” é, acima de tudo, cinema da mais alta qualidade. Desde a fotografia de Michael Ballhaus até a trilha sonora de Peter Gabriel, tudo funciona da maneira esperada, inclusive um surpreendente David Bowie como Pilatos - surpreendentemente quem não foi muito feliz em cena foi o veterano Harvey Keitel, que não encontrou o tom certo de seu Judas Iscariotes, dono de algumas das mais emocionais cenas do longa, inclusive o poderoso confronto entre "traidor e traído" na parte final do filme.

Ao contrário de seus detratores mal-informados, a obra de Scorsese devia figurar como obrigatória no ensino de Religião pelos quatro cantos do planeta. Suas discussões legítimas e pertinentes, aliadas ao talento de sua equipe artística - que trabalhou com um orçamento de apenas 7 milhões de dólares - faz de "A última tentação" um dos pontos altos da carreira de seu diretor, que em seguida lançaria um de seus trabalhos mais populares, o suspense "Cabo do medo", feito para agradar à Universal Pictures e que provaria, de forma indubitável que, não importa o gênero, Scorsese é um gênio.

quinta-feira

UM PEIXE CHAMADO WANDA


UM PEIXE CHAMADO WANDA (A fish called Wanda, 1988, MGM Pictures, 108min) Direção: Charles Crichton. Roteiro: John Cleese, história de John Cleese e Charles Crichton. Fotografia: Alan Hume. Montagem: John Jympson. Música: John Du Prez. Figurino: Hazel Pethig. Direção de arte/cenários: Roger Murray-Leach/Stephanie McMillan. Casting: Priscilla John. Produção executiva: Steve Abbott, John Cleese. Produção: Michael Shamberg. Elenco: John Cleese, Jamie Lee Curtis, Kevin Kline, Michael Palin, Maria Aitken. Estreia: 07/7/88

3 indicações ao Oscar: Diretor (Charles Crichton), Ator Coadjuvante (Kevin Kline), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Kevin Kline)


Nada como um time de gênios ingleses para criar uma comédia inteligente e que não apela para palavrões, adolescentes tarados e mulheres nuas. Boa parte da equipe dos enlouquecidos membros do Monthy Phyton esté por trás de “Um peixe chamado Wanda”, uma das mais espetaculares comédias de todos os tempos. E não, não existe um único adolescente em todos os 108 minutos de projeção.

O filme começa com um aparentemente bem-sucedido roubo a uma joalheria. Aparentemente porque o mentor do crime, o inglês almofadinha George Thomason acaba preso, delatado por sua amante, a bela e sexy americana Wanda (Jamie Lee Curtis, deitando e rolando com sua personagem amoral). Wanda na verdade tem um tórrido caso amoroso com Otto (Kevin Kline), que ela mente ser seu irmão, e quer o produto do roubo, uma carga de diamantes só pra eles. O problema é que a única pessoa que pode saber onde estão as jóias é o advogado do mandante, o rígido e desajeitado Archie Leach (o hilariante John Cleese). Aproveitando-se do fascínio que desperta no advogado, Wanda resolve seduzi-lo, para desespero do ciumento Otto, que tem a missão de vigiar o outro integrante do grupo, o gago Kevin (Michael Palin).


O humor de "Um peixe chamado Wanda" é inteligente mas nunca hermético. É anarquista mas nunca político. É sexy, mas nunca vulgar. E é, acima de tudo, uma vitória do humor inglês, sempre sarcástico e irônico. Seja na relação complicada entre Wanda e Archie, com seus encontros desastrados, seja na conduta incoerente de Otto, que lê Nietzsche mas não entende o essencial, seja nas tentativas frustradas de Kevin de eliminar a principal testemunha ocular do roubo, todas as subtramas do roteiro de John Cleese (perfeito em seu constrangimento tipicamente britânico) confluem para uma coesão rara no gênero.

É difícil dizer o que funciona melhor nessa verdadeira obra-prima do humor. O roteiro, impecável, aproveita todas as brechas possíveis para fazer rir, seja nas gritantes diferenças culturais entre americanos e ingleses, seja nas inúmeras reviravoltas que a históra sofre, sempre levando a trama para um final pouco óbvio e absurdo. O elenco beira a perfeição: se os integrantes do Monthy Phyton há muito tempo não precisam provar que sabem fazer humor como poucos são os americanos Jamie Lee Curtis e Kevin Kline que surpreendem. Jamie usa e abusa dos recursos que sua personagem, distante anos-luz de sua baby-sitter de “Halloween”, lhe proporciona e Kline, um respeitado ator canadense de teatro brinca com a própria imagem de sedutor e acabou levando o merecido Oscar de ator coadjuvante, batendo nomes como Alec Guiness e Martin Landau.

O único problema de “Um peixe chamado Wanda” é que, quando ele acaba fica-se com a sensação de que todas as outras comédias que Hollywood insiste em produzir são extremamente sensaboronas.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...