ERA UMA VEZ (Era uma vez, 2008, Conspiração Filmes/Globo Filmes,
117min) Direção: Breno Silveira. Roteiro: Patricia Andrade. Fotografia:
Dudu Miranda, Paulo Souza. Montagem: Eduardo Hartung. Música: Berna
Ceppas. Figurino: Cláudia Kopke. Direção de arte/cenários: Rafael
Ronconi. Produção executiva: Pedro Guimarães, Leonardo Monteiro de
Barros, Luiz Noronha, Eliana Soárez. Produção: Pedro Buarque de Holanda,
Breno Silveira. Elenco: Thiago Martins, Vitória Frate, Rocco Pitanga,
Paulo César Grande, Cyria Coentro. Estreia: 25/7/08
Depois do sucesso sem precedentes de "Cidade de Deus" - elogiado pela critica, prestigiado pelo público e reconhecido internacionalmente com quatro indicações ao Oscar - um novo filão foi descoberto pelos produtores brasileiros. De 2002 em diante o que não faltou na programação das salas de cinema foram filmes passados nas favelas do Rio de Janeiro, tratando da desigualdade social da cidade maravilhosa e suas trágicas consequências. Tendo isso em vista não chegou a ser surpreendente quando Breno Silveira - que assinou o bem-sucedido comercialmente "Dois filhos de Francisco" - anunciou que seu filme seguinte seria uma versão moderna e adaptada do clássico "Romeu e Julieta" tendo como protagonista um casal de classes sociais díspares que precisa lidar com a violência dos morros e o preconceito (nada velado) de suas famílias. "Era uma vez" - o produto final - não teve a mesma repercussão nem da obra-prima de Fernando Meirelles nem da história de Zezé di Camargo & Luciano, mas é um drama romântico honesto, sensível e realista capaz de emocionar sem apelar para excessos de nenhum tipo.
O protagonista da história é André (vivido por Thiago Martins, um ator criado na favela que demonstra um conhecimento de causa aliado ao talento). Traumatizado pela morte violenta do irmão mais velho, que testemunhou ainda criança, André vive com a mãe no morro do Cantagalo, trabalha em um quiosque de cachorro-quente no calçadão de Ipanema e convive com a ausência de outro irmão (Rocco Pitanga), preso injustamente. Honesto e de boa índole, André é apaixonado por Nina (Vitória Frate), uma bela, loura e rica menina de condomínio que frequenta a praia diante de seu quiosque. O que poderia ser um sonho impossível torna-se realidade quando ele consegue conquistá-la apesar de suas diferenças e os dois iniciam um belo e idílico romance - que tem como pano de fundo as lindas praias cariocas e a vista exuberante dos morros e como trilha sonora o samba e os bailes funk. A paz entre os dois começa a ser ameaçada, porém, quando o pai de Nina, um executivo falido (interpretado por Paulo Cesar Grande), passa a implicar com o namoro, que também não é visto com simpatia pela mãe do rapaz (Cyria Coentro). A saída do irmão de André da cadeia - e sua subsequente ascensão no tráfico de drogas no morro onde vivem - acelera a tragédia.
Especialista em contar suas histórias de forma a envolver o público, Breno Silveira narra seu "Era uma vez" sem firulas estilísticas, preferindo ater-se basicamente à trama, que, se não apresenta novidades em seu roteiro, ao menos trata com respeito seus personagens e o público. Centrando sua força no destino chocante e previsível de seu par romântico - cujo desfecho é preparado lentamente até o terço final, quando o suspense assume o comando - o filme conquista a audiência ao apresentar uma história simples e direta, que toca o coração justamente por ser despretensioso e por retratar uma realidade familiar a qualquer brasileiro com um mínimo de informação. Ainda que por vezes resvale em clichês - fato inevitável quando se fala em releituras do clássico shakespereano - a obra de Silveira acerta no que há de mais importante: a emoção.
Boa parte do sucesso de "Era uma vez" em ser um filme honesto, porém, vem da atuação de Thiago Martins, que transmite em medidas exatas todos os tons de seu André. Por vezes ingênuo, por vezes portador de uma raiva contida, e em muitos momentos romântico e batalhador, André é um personagem escrito sob medida para o jovem ator, que faz jus à confiança do diretor em um trabalho impecável. É graças principalmente ao carisma de Thiago - que tem uma boa química com a delicada Vitória Frate - que a plateia se deixa seduzir por um drama nitidamente realizado para emocionar. "Era uma vez" é um belo e simples filme de amor que cumpre o que promete - objetivo que muitos filmes bem mais ambiciosos falham em atingir.
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quinta-feira
quarta-feira
NOITES DE TORMENTA
NOITES DE TORMENTA (Nights in Rodanthe, 2008, Warner Bros, 97min) Direção: George C. Wolfe. Roteiro: Ann Peacock, John
Romano, romance de Nicholas Sparks. Fotografia: Affonso Beato.
Montagem: Brian A. Kates. Música: Jeanine Tesori. Figurino: Victoria
Farrell. Direção de arte/cenários: Patrizia von Brandenstein/James
Edward Ferrell Jr. Produção executiva: Bruce Berman, Doug Claybourne,
Dana Goldberg, Alison Greenspan. Produção: Denise Di Novi. Elenco:
Richard Gere, Diane Lane, Christopher Meloni, Viola Davis, Scott Glenn,
James Franco. Estreia: 26/9/08
Um dos mais populares escritores românticos americanos, Nicholas Sparks nem se dá ao trabalho de mudar a fórmula de seus livros, alterando, quando muito, a faixa etária de seus protagonistas - ou, no caso de "Diário de uma paixão", alternar duas tramas paralelas com casais de gerações diferentes. Seguindo a linha de suas narrativas mais maduras, o drama "Noites de tormenta" reune a dupla Richard Gere e Diane Lane (do polêmico "Infidelidade") em mais um romance açucarado e previsível - que, no entanto, é valorizado pela presença carismática da dupla, que consegue dar dignidade até mesmo ao amontoado de clichês dos quais a direção inexperiente de George C. Wolfe - acostumado com especiais de televisão - não se desvia.
A trama de Sparks já começa com um clichê básico: Adrienne Willis (Diane Lane, boa atriz relegada aos mesmos personagens desde que foi indicada ao Oscar por "Infidelidade") é uma mulher separada que recebe do ex-marido (Christopher Meloni, da série "Oz") a proposta de uma reconciliação justamente quando está saindo em viagem para cuidar da pousada de uma amiga (Viola Davis), que vai tirar um fim-de-semana de folga com o namorado. Isolada na pousada - que fica em uma idílica cidade litorânea da Carolina do Norte - Adrienne tem a companhia apenas de um único hóspede, o médico Paul Flanner (Richard Gere, canastrão como sempre, mas incapaz de decepcionar às fãs mais ardorosas), que está na cidade com o objetivo de desculpar-se com o viúvo de uma antiga paciente, que morreu em suas mãos. Não é preciso ser gênio para adivinhar que os dois irão começar a se entender maravilhosamente, irão se apaixonar e, depois que precisarem retomar suas vidas, o destino irá aprontar das suas.
Apesar de seguir completamente as regras do jogo de Sparks - que incluem cenários de sonho, romances proibidos, finais lacrimosos e personagens sem muita profundidade dramática - "Noites de tormenta" não chega a ofender os neurônios da plateia, oferecendo exatamente o que ela procura. Não interessa aos fãs da obra do autor nenhum tipo de elocubração psicológica ou complexidade narrativa, o que faz com que os filmes baseados nela sejam sistematicamente planos e quase maniqueístas. Esse detalhe, porém, não deve incomodar à audiência, que não deixa de inundar as salas de exibição com lágrimas sentidas - ainda que a bilheteria de "Noites de tormenta" não tenha sido o estouro esperado.
Em resumo, "Noites de tormenta" é um veículo para Lane e Gere desfilarem seu charme em um cenário interessante e presentearem seus fãs com personagens feitos sob medida para duas horas de entretenimento sem compromisso. Não é bom, mas passa longe de ser ruim.
Um dos mais populares escritores românticos americanos, Nicholas Sparks nem se dá ao trabalho de mudar a fórmula de seus livros, alterando, quando muito, a faixa etária de seus protagonistas - ou, no caso de "Diário de uma paixão", alternar duas tramas paralelas com casais de gerações diferentes. Seguindo a linha de suas narrativas mais maduras, o drama "Noites de tormenta" reune a dupla Richard Gere e Diane Lane (do polêmico "Infidelidade") em mais um romance açucarado e previsível - que, no entanto, é valorizado pela presença carismática da dupla, que consegue dar dignidade até mesmo ao amontoado de clichês dos quais a direção inexperiente de George C. Wolfe - acostumado com especiais de televisão - não se desvia.
A trama de Sparks já começa com um clichê básico: Adrienne Willis (Diane Lane, boa atriz relegada aos mesmos personagens desde que foi indicada ao Oscar por "Infidelidade") é uma mulher separada que recebe do ex-marido (Christopher Meloni, da série "Oz") a proposta de uma reconciliação justamente quando está saindo em viagem para cuidar da pousada de uma amiga (Viola Davis), que vai tirar um fim-de-semana de folga com o namorado. Isolada na pousada - que fica em uma idílica cidade litorânea da Carolina do Norte - Adrienne tem a companhia apenas de um único hóspede, o médico Paul Flanner (Richard Gere, canastrão como sempre, mas incapaz de decepcionar às fãs mais ardorosas), que está na cidade com o objetivo de desculpar-se com o viúvo de uma antiga paciente, que morreu em suas mãos. Não é preciso ser gênio para adivinhar que os dois irão começar a se entender maravilhosamente, irão se apaixonar e, depois que precisarem retomar suas vidas, o destino irá aprontar das suas.
Apesar de seguir completamente as regras do jogo de Sparks - que incluem cenários de sonho, romances proibidos, finais lacrimosos e personagens sem muita profundidade dramática - "Noites de tormenta" não chega a ofender os neurônios da plateia, oferecendo exatamente o que ela procura. Não interessa aos fãs da obra do autor nenhum tipo de elocubração psicológica ou complexidade narrativa, o que faz com que os filmes baseados nela sejam sistematicamente planos e quase maniqueístas. Esse detalhe, porém, não deve incomodar à audiência, que não deixa de inundar as salas de exibição com lágrimas sentidas - ainda que a bilheteria de "Noites de tormenta" não tenha sido o estouro esperado.
Em resumo, "Noites de tormenta" é um veículo para Lane e Gere desfilarem seu charme em um cenário interessante e presentearem seus fãs com personagens feitos sob medida para duas horas de entretenimento sem compromisso. Não é bom, mas passa longe de ser ruim.
terça-feira
O SUSPEITO
O SUSPEITO (Rendition, 2007, New Line Cinema, 122min) Direção: Gavin Hood. Roteiro: Kelley Sane. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Megan Gill. Música: Paul Hepker, Mark Kilian. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Barry Robison/Jille Azis. Produção executiva: Toby Emmerich, Keith Goldberg, David Kanter, Edward Milstein, Keith Redmon, Paul Schwake, Michael Sugar, Bill Todman Jr.. Produção: Steve Golin, Marcus Viscidi. Elenco: Reese Witherspoon, Meryl Streep, Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Alan Arkin, J.K. Simmons, Omar Metwally, Igal Naor. Estreia: 07/9/07 (Festival de Toronto)
Tido como um dos prováveis candidatos ao Oscar 2008 desde que estreou no Festival de Toronto em setembro de 2007, o drama político "O suspeito" viu suas expectativas frustradas quando foi solenemente ignorado quando a lista de indicações foi divulgada, quatro meses mais tarde. Talvez devido a seu tema incendiário e polêmico - os métodos pouco ortodoxos da CIA de interrogar suspeitos de terrorismo mesmo sem evidências sólidas - o filme do sul-africano Gavin Hood tampouco encontrou seu público, passando batido nas bilheterias americanas (seu principal alvo) e sendo pouco comentado no resto do mundo. Seu relativo fracasso, porém, não deixa de ser injusto: na tradição dos thrillers políticos do grego Costa-Gavras, "O suspeito" é um filme forte, inteligente e bem realizado, com muito mais a dizer do que se poderia esperar de uma produção hollywoodiana - mesmo que envolto em um pacote comercialmente atraente.
Apesar de ter seu elenco liderado por Reese Witherspoon em seu primeiro papel pós-Oscar - e de ela ser basicamente uma atriz de filmes menos sérios - "O suspeito" não tem nada de leve ou fácil, ainda que provavelmente tenha retratado de forma bem atenuada muito da crueldade a qual são submetidas as pessoas que tem o azar de cair na suspeita dos paranoicos agentes da CIA pós-11 de setembro. Apesar das cenas de tortura serem dirigidas de maneira a não chocar o grande público, é difícil não se deixar envolver com a angústia transmitida pela direção segura de Hood - que também assinou "Infância roubada", vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2005 - tanto nas sequências fisicamente violentas quanto nas potentes cenas dramáticas, que extraem o melhor de seus atores, todos do mais alto gabarito (a ponto de Meryl Streep ter um papel relativamente pequeno, ainda que crucial à história contada pelo complexo roteiro de Kelley Sane.
Quando o filme começa, o egípcio Anwar El-Ibrahimi (Omar Metwally) está a caminho dos EUA para reencontrar a esposa, Isabella (Reese Witherspoon) -prestes a dar à luz - o filho pequeno e a mãe, depois de uma viagem de negócios à África. Assim que chega ao país, porém, ele é imediatamente sequestrado por um grupo de agentes da CIA, acusado de ligações com um terrorista suspeito de um atentado com vítimas americanas. Mantido sob custódia do governo em um local secreto - graças a ordens da senadora linha-dura Corrine Whitman (Meryl Streep) - Anwar passa a ser violentamente torturado por Abasi Fawal (Yigal Naor), apesar das tentativas do jovem analista político Douglas Freeman (Jake Gyllenhaal) de diminuir o estrago. Assumindo o cargo de liderar a operação depois da morte de um colega, Freeman busca o diálogo como forma de entendimento, mas não consegue impedir os absurdos da situação. Enquanto isso, Isabella, desesperada com a situação, procura um antigo colega de faculdade, Alan Smith (Peter Sarsgaard), que é assistente de um senador (Alan Arkin), buscando a localização do marido.
A teia de dramas criada por Sane também tem desdobramentos em outro nível que não o familiar e o político, o que lhe dá um sabor extra: no decorrer da busca de Isabella pelo paradeiro do marido - trama que remete imediatamente ao clássico "Missing", estrelado por Sissy Spacek e Jack Lemmon - o público é também testemunha da história de amor entre dois jovens, Fatima (Zineb Oukach), filha de Abasi, e Khalid (Moa Khouas), um rapaz muçulmano com um trágico passado de violência familiar que o faz odiar o pai da namorada. Essa trama paralela - que talvez confunda o espectador em um primeiro momento - se revela de suma importância no desfecho do filme, comprovando o talento de Hood em manipular a atenção de seu público em várias frentes. Sob seu comando, o que poderia parecer um desvio de foco acaba se tornando uma surpresa chocante.
Mesmo que não tenha sido o sucesso que deveria, "O suspeito" é um dos mais interessantes filmes americanos a discutir a política de segurança americana depois dos atentados às Torres Gêmeas. E é também um belo exemplo de como cineastas estrangeiros à Hollywood podem se adequar à indústria sem perder sua sensibilidade e identidade próprias.
Tido como um dos prováveis candidatos ao Oscar 2008 desde que estreou no Festival de Toronto em setembro de 2007, o drama político "O suspeito" viu suas expectativas frustradas quando foi solenemente ignorado quando a lista de indicações foi divulgada, quatro meses mais tarde. Talvez devido a seu tema incendiário e polêmico - os métodos pouco ortodoxos da CIA de interrogar suspeitos de terrorismo mesmo sem evidências sólidas - o filme do sul-africano Gavin Hood tampouco encontrou seu público, passando batido nas bilheterias americanas (seu principal alvo) e sendo pouco comentado no resto do mundo. Seu relativo fracasso, porém, não deixa de ser injusto: na tradição dos thrillers políticos do grego Costa-Gavras, "O suspeito" é um filme forte, inteligente e bem realizado, com muito mais a dizer do que se poderia esperar de uma produção hollywoodiana - mesmo que envolto em um pacote comercialmente atraente.
Apesar de ter seu elenco liderado por Reese Witherspoon em seu primeiro papel pós-Oscar - e de ela ser basicamente uma atriz de filmes menos sérios - "O suspeito" não tem nada de leve ou fácil, ainda que provavelmente tenha retratado de forma bem atenuada muito da crueldade a qual são submetidas as pessoas que tem o azar de cair na suspeita dos paranoicos agentes da CIA pós-11 de setembro. Apesar das cenas de tortura serem dirigidas de maneira a não chocar o grande público, é difícil não se deixar envolver com a angústia transmitida pela direção segura de Hood - que também assinou "Infância roubada", vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2005 - tanto nas sequências fisicamente violentas quanto nas potentes cenas dramáticas, que extraem o melhor de seus atores, todos do mais alto gabarito (a ponto de Meryl Streep ter um papel relativamente pequeno, ainda que crucial à história contada pelo complexo roteiro de Kelley Sane.
A teia de dramas criada por Sane também tem desdobramentos em outro nível que não o familiar e o político, o que lhe dá um sabor extra: no decorrer da busca de Isabella pelo paradeiro do marido - trama que remete imediatamente ao clássico "Missing", estrelado por Sissy Spacek e Jack Lemmon - o público é também testemunha da história de amor entre dois jovens, Fatima (Zineb Oukach), filha de Abasi, e Khalid (Moa Khouas), um rapaz muçulmano com um trágico passado de violência familiar que o faz odiar o pai da namorada. Essa trama paralela - que talvez confunda o espectador em um primeiro momento - se revela de suma importância no desfecho do filme, comprovando o talento de Hood em manipular a atenção de seu público em várias frentes. Sob seu comando, o que poderia parecer um desvio de foco acaba se tornando uma surpresa chocante.
Mesmo que não tenha sido o sucesso que deveria, "O suspeito" é um dos mais interessantes filmes americanos a discutir a política de segurança americana depois dos atentados às Torres Gêmeas. E é também um belo exemplo de como cineastas estrangeiros à Hollywood podem se adequar à indústria sem perder sua sensibilidade e identidade próprias.
sexta-feira
O ORFANATO
O ORFANATO (El orfanato, 2007, Grupo Rodar, 105min) Direção: J. A. Bayona. Roteiro: Sérgio G. Sanchez. Fotografia: Óscar Faura. Montagem: Elena Ruiz. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Maria Reyes. Direção de arte/cenários: Josep Rosell/Iñigo Navarro. Produção executiva: Guillermo Del Toro. Produção: Álvaro Augustín, Joaquín Padró, Mar Targarona. Elenco: Belén Rueda, Fernando Cayo, Roger Príncep, Geraldine Chaplin, Mabel Rivera, Montserrat Carulla, Edgar Vivar. Estreia: 20/5/07 (Festival de Cannes)
Desde que "O sexto sentido" e "Os outros" fizeram a festa dos produtores, filmes de terror com temática adulta e séria, que dispensam piadas infames e sátiras ao gênero, voltaram a ser respeitadas pela crítica e pelo público, sedento por momentos de tensão na poltrona do cinema. E nem só Hollywood embarcou nessa retomada. Produzido por Guillermo Del Toro e dirigido pelo espanhol J. A. Bayona, o aterrador "O orfanato" estreou no Festival de Cannes de 2007, obteve uma ovação em pé por dez minutos e mostrou que não é preciso tradição para arrepiar a plateia, quando se tem uma boa história e talento para realizá-la.
"O orfanato" é um filme de terror nos moldes clássicos, espalhando pela tela elementos conhecidos dos fãs do gênero, como uma mansão aparentemente assombrada, idosas assustadoras, crianças com sensibilidade paranormal e uma heroína disposta a qualquer sacrifício para manter a sanidade física e mental. O que poderia ser um festival de clichês, no entanto, torna-se uma produção elegante e sóbria graças a um roteiro que não busca o susto fácil, preferindo - para deleite da audiência - o caminho menos previsível para contar sua história. A confiança de Bayona no roteiro enxuto de Sérgio G. Sanchez é tanta que o cineasta prescinde até mesmo de um clímax barulhento: tudo é resolvido placidamente, sem gritos e sem a sanguinolência que caracterizou o gênero nos anos 80. Mérito da trama bem desenvolvida, da direção firme e da atuação da incrível Belén Rueda, que carrega o filme nas costas com um trabalho nunca aquém de fabuloso.
Quando o filme começa, Laura, a personagem de Rueda, retorna ao orfanato onde viveu durante a infância com o objetivo de reativá-lo e ter um lugar tranquilo para criar o pequeno Simon (Roger Príncep), que é portador do virus da AIDS e desconhece sua condição de filho adotivo. Casada com Carlos (Fernando Cayo), um médico com quem mantém uma relação saudável e amorosa, Laura tenciona oferecer a crianças órfãs um lar como o que ela mesma teve em seu passado, mas o desaparecimento misterioso de Simon no dia da inauguração do orfanato destroi radicalmente seus planos. Abalada com o sumiço do menino, Laura passa a desconfiar que os amigos imaginários do seu filho podem estar envolvidos, bem como a misteriosa Benigna (Montserrat Carulla), antiga funcionária da mansão que esconde um apavorante passado relacionado às crianças. Desesperada, ela entra em contato com a poderosa médium Aurora (Geraldine Chaplin), que vê na casa uma atmosfera densa e aterrorizante.
Utilizando com maestria o desenho de som e a direção de arte - que contribuem para o clima de constante tensão da narrativa - "O orfanato" aposta na inteligência do espectador para assustar e deixar os nervos em frangalhos. Atinge todos os seus objetivos e ainda consegue emocionar com um final coerente e melancólico. Uma pequena obra-prima!
Desde que "O sexto sentido" e "Os outros" fizeram a festa dos produtores, filmes de terror com temática adulta e séria, que dispensam piadas infames e sátiras ao gênero, voltaram a ser respeitadas pela crítica e pelo público, sedento por momentos de tensão na poltrona do cinema. E nem só Hollywood embarcou nessa retomada. Produzido por Guillermo Del Toro e dirigido pelo espanhol J. A. Bayona, o aterrador "O orfanato" estreou no Festival de Cannes de 2007, obteve uma ovação em pé por dez minutos e mostrou que não é preciso tradição para arrepiar a plateia, quando se tem uma boa história e talento para realizá-la.
"O orfanato" é um filme de terror nos moldes clássicos, espalhando pela tela elementos conhecidos dos fãs do gênero, como uma mansão aparentemente assombrada, idosas assustadoras, crianças com sensibilidade paranormal e uma heroína disposta a qualquer sacrifício para manter a sanidade física e mental. O que poderia ser um festival de clichês, no entanto, torna-se uma produção elegante e sóbria graças a um roteiro que não busca o susto fácil, preferindo - para deleite da audiência - o caminho menos previsível para contar sua história. A confiança de Bayona no roteiro enxuto de Sérgio G. Sanchez é tanta que o cineasta prescinde até mesmo de um clímax barulhento: tudo é resolvido placidamente, sem gritos e sem a sanguinolência que caracterizou o gênero nos anos 80. Mérito da trama bem desenvolvida, da direção firme e da atuação da incrível Belén Rueda, que carrega o filme nas costas com um trabalho nunca aquém de fabuloso.
Quando o filme começa, Laura, a personagem de Rueda, retorna ao orfanato onde viveu durante a infância com o objetivo de reativá-lo e ter um lugar tranquilo para criar o pequeno Simon (Roger Príncep), que é portador do virus da AIDS e desconhece sua condição de filho adotivo. Casada com Carlos (Fernando Cayo), um médico com quem mantém uma relação saudável e amorosa, Laura tenciona oferecer a crianças órfãs um lar como o que ela mesma teve em seu passado, mas o desaparecimento misterioso de Simon no dia da inauguração do orfanato destroi radicalmente seus planos. Abalada com o sumiço do menino, Laura passa a desconfiar que os amigos imaginários do seu filho podem estar envolvidos, bem como a misteriosa Benigna (Montserrat Carulla), antiga funcionária da mansão que esconde um apavorante passado relacionado às crianças. Desesperada, ela entra em contato com a poderosa médium Aurora (Geraldine Chaplin), que vê na casa uma atmosfera densa e aterrorizante.
Utilizando com maestria o desenho de som e a direção de arte - que contribuem para o clima de constante tensão da narrativa - "O orfanato" aposta na inteligência do espectador para assustar e deixar os nervos em frangalhos. Atinge todos os seus objetivos e ainda consegue emocionar com um final coerente e melancólico. Uma pequena obra-prima!
quinta-feira
JOGO DE CENA
JOGO DE CENA (Jogo de cena, 2007, Matizar/VideoFilmes, 100min) Direção: Eduardo Coutinho. Fotografia: Jacques Heuiche. Montagem: Jordana Berg. Produção executiva: Guilherme Cezar Coelho, João Moreira Salles, Mauricio Andrade Ramos. Produção: Bia Almeida, Raquel Freire Zangrandi. Elenco: Andrea Beltrão, Fernanda Torres, Marília Pera. Estreia: 09/11/07
A trágica e inesperada morte de Eduardo Coutinho no último dia 02 de fevereiro calou uma das mais instigantes e brilhantes vozes do documentário brasileiro. Coutinho, que assinou a direção do clássico "Cabra marcado para morrer" sempre pautou sua obra pelo carinho com seus entrevistados, pelo respeito pelas histórias contadas e principalmente pela inteligência com que conduzia suas entrevistas, repletas de calor humano e sinceridade. Se em "Edifício Master" ele deu um passo à frente em sua obra - focando sua atenção para pessoas aparentemente comuns - foi com "Jogo de cena", fascinante estudo sobre a arte do ator e o estoicismo humano que ele atingiu seu ponto máximo. Embaralhando as cartas da ficção com as da realidade, o mestre Coutinho construiu uma das mais fabulosas obras de sua genial filmografia.
A ideia do documentário em si já é instigante: 83 mulheres, habitantes do Rio de Janeiro, responderam a um anúncio de jornal para que se encontrassem com a produção para contar alguma história de sua vida. As histórias selecionadas foram gravadas pelas próprias mulheres diante das câmeras de Coutinho e em seguida, atrizes consagradas (Fernanda Torres, Marilia Pera, Andrea Beltrão) contavam essas mesmas histórias como se fossem delas. Pronto. A base é essa. O que surpreende, encanta e comove é a forma com que o diretor explora essa dualidade entre a realidade e sua imitação sem fazer nada mais do que simplesmente deixar que as histórias - quase todas de forte impacto emocional - falem por si mesmas, ora disfarçadas por um oportuno senso de humor, ora sublinhadas por sentidas lágrimas de tristeza ou emoção. É hipnotizante a forma com que a edição do filme intercala a verdade (as pessoas "reais") com seu arremedo (as atrizes, buscando atingir as notas da vida real), mostrando ao público tanto a vida como ela é quanto um ensaio genial sobre os bastidores da criação artística - mesmo que as personagens não sejam exatamente personagens.
Sendo assim, Coutinho apresenta à plateia a triste história de uma jovem mãe que se vê diante da perda do filho recém-nascido (e depois representada por uma comovida Andrea Beltrão) e uma mulher com dificuldades de relacionamento com a filha que mora nos EUA (posteriormente interpretada por Marilia Pera), assim como nubla a divisão entre real/fictício com a narrativa de uma jovem atriz negra que superou as dificuldades raciais e econômicas graças ao teatro e com o toque de mestre de apresentar uma história final contada por uma atriz desconhecida do grande público e por uma mulher comum: quem é quem é a grande questão que faz com que "Jogo de cena" se transforme de um filme em uma experiência rica e avassaladora.
Um mergulho na alma feminina e nas técnicas de interpretação de grandes atrizes, "Jogo de cena" é um dos mais apaixonantes filmes nacionais da história, ao revelar à plateia as entranhas de suas "personagens" sem nenhum tipo de julgamento ou manipulação. E é também fascinante para qualquer fã de cinema, teatro ou seres humanos com todas as suas imperfeições. Absolutamente impecável!
A trágica e inesperada morte de Eduardo Coutinho no último dia 02 de fevereiro calou uma das mais instigantes e brilhantes vozes do documentário brasileiro. Coutinho, que assinou a direção do clássico "Cabra marcado para morrer" sempre pautou sua obra pelo carinho com seus entrevistados, pelo respeito pelas histórias contadas e principalmente pela inteligência com que conduzia suas entrevistas, repletas de calor humano e sinceridade. Se em "Edifício Master" ele deu um passo à frente em sua obra - focando sua atenção para pessoas aparentemente comuns - foi com "Jogo de cena", fascinante estudo sobre a arte do ator e o estoicismo humano que ele atingiu seu ponto máximo. Embaralhando as cartas da ficção com as da realidade, o mestre Coutinho construiu uma das mais fabulosas obras de sua genial filmografia.
A ideia do documentário em si já é instigante: 83 mulheres, habitantes do Rio de Janeiro, responderam a um anúncio de jornal para que se encontrassem com a produção para contar alguma história de sua vida. As histórias selecionadas foram gravadas pelas próprias mulheres diante das câmeras de Coutinho e em seguida, atrizes consagradas (Fernanda Torres, Marilia Pera, Andrea Beltrão) contavam essas mesmas histórias como se fossem delas. Pronto. A base é essa. O que surpreende, encanta e comove é a forma com que o diretor explora essa dualidade entre a realidade e sua imitação sem fazer nada mais do que simplesmente deixar que as histórias - quase todas de forte impacto emocional - falem por si mesmas, ora disfarçadas por um oportuno senso de humor, ora sublinhadas por sentidas lágrimas de tristeza ou emoção. É hipnotizante a forma com que a edição do filme intercala a verdade (as pessoas "reais") com seu arremedo (as atrizes, buscando atingir as notas da vida real), mostrando ao público tanto a vida como ela é quanto um ensaio genial sobre os bastidores da criação artística - mesmo que as personagens não sejam exatamente personagens.
Sendo assim, Coutinho apresenta à plateia a triste história de uma jovem mãe que se vê diante da perda do filho recém-nascido (e depois representada por uma comovida Andrea Beltrão) e uma mulher com dificuldades de relacionamento com a filha que mora nos EUA (posteriormente interpretada por Marilia Pera), assim como nubla a divisão entre real/fictício com a narrativa de uma jovem atriz negra que superou as dificuldades raciais e econômicas graças ao teatro e com o toque de mestre de apresentar uma história final contada por uma atriz desconhecida do grande público e por uma mulher comum: quem é quem é a grande questão que faz com que "Jogo de cena" se transforme de um filme em uma experiência rica e avassaladora.
Um mergulho na alma feminina e nas técnicas de interpretação de grandes atrizes, "Jogo de cena" é um dos mais apaixonantes filmes nacionais da história, ao revelar à plateia as entranhas de suas "personagens" sem nenhum tipo de julgamento ou manipulação. E é também fascinante para qualquer fã de cinema, teatro ou seres humanos com todas as suas imperfeições. Absolutamente impecável!
quarta-feira
O ULTIMATO BOURNE
O ULTIMATO BOURNE (The Bourne ultimatum, 2007, Universal Pictures, 115min) Direção: Paul Greengrass. Roteiro: Tony Gilroy, Scott Z. Burns, George Nolfi. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Christopher Rouse. Música: John Powell. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Peter Wenham/Tina Jones. Produção executiva: Doug Liman, Henry Morrison, Jeffrey M. Weiner. Produção: Patrick Crowley, Frank Marshall, Paul L. Sandberg. Elenco: Matt Damon, Joan Allen, David Straithairn, Julia Stiles, Paddy Considine, Albert Finney, Scott Glenn, Daniel Bruhl. Estreia: 25/7/07
Vencedor de 3 Oscar: Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Caso raro dentro da indústria dos filmes de ação hollywoodianos, a trilogia Bourne, inspirada na série de livros do escritor Robert Ludlum conseguiu uma façanha e tanto: não apenas manteve o interesse do público por seus três filmes (interesse que inclusive aumentava a cada lançamento) como superou toda e qualquer expectativa em termos de qualidade narrativa e técnica. Um exemplo perfeito dessa afirmação é "O ultimato Bourne", seu capítulo final, que não apenas rendeu mais de 220 milhões de dólares nas bilheterias americanas como agradou em cheio à crítica, à audiência e até mesmo à Academia, que lhe ofereceu em troca 3 estatuetas do Oscar, que sublinharam suas qualidades técnicas impressionantes. Se os dois primeiros filmes já eram sensacionais, o terceiro é absolutamente impecável.
Dessa vez, o agente secreto Jason Bourne (interpretado a cada filme com mais intensidade por um Matt Damon que nunca esquece, mesmo em momentos de quebradeira, que é um ator sério e talentoso) é tirado de seu anonimato graças às investigações do repórter investigativo inglês Simon Ross (Paddy Considine), que tenta trazer à tona os segredos de uma operação secreta da CIA, o Projeto Blackbriar - que vem a ser um passo à frente da antiga missão de Bourne, a Operação Treadstone. A busca de Ross pela verdade coincide com uma falsa acusação de traição contra Bourne, que, na tentativa de provar sua inocência e descobrir a verdade sobre seu passado (que continua vindo em lembranças intermitentes), conta com a ajuda inesperada de Pam Landy (Joan Allen), diretora da agência, que deseja manter a integridade do órgão de segurança.
Equilibrando cenas de tensão constante - em especial uma perseguição de tirar o fôlego sobre telhados e a tentativa de Bourne em salvar a vida de Simon Ross em meio à multidão que frequenta as estações de Londres - com momentos dramáticos importantes para o desfecho da trilogia (como o encontro com o irmão de Marie (Franka Potente), "O ultimato Bourne" atinge sua excelência por atingir a perfeita mistura entre um roteiro inteligente, atuações seguras de um elenco de feras (Damon, Joan Allen, David Straithairn) e uma técnica invejável. A edição espetacular de Christopher Rouse - premiada com um Oscar justíssimo - não dá folga ao espectador, praticamente jogando-o no meio das eletrizantes sequências de luta, coreografadas de forma a impressionar a audiência sem precisar de efeitos especiais mirabolantes. Seu realismo é um ponto mais do que positivo, por destacar o tom seco e direto da direção de Paul Greengrass - que usa e abusa de câmeras na mão e de sua experiência em filmes de estilo semi-documental para criar uma atmosfera claustrofóbica e tensa mesmo em espaços vastos e planos abertos.
No final das contas, "O ultimato Bourne" encerra com chave de ouro uma série cinematográfica que devolveu ao público o prazer de acompanhar uma boa história recheada de cenas extraordinárias de ação sem que seja preciso abdicar do cérebro. E Jason Bourne, é, com toda certeza, um dos mais fascinantes personagens do cinema de ação vindo de Hollywood. Vai deixar saudades.
Vencedor de 3 Oscar: Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Caso raro dentro da indústria dos filmes de ação hollywoodianos, a trilogia Bourne, inspirada na série de livros do escritor Robert Ludlum conseguiu uma façanha e tanto: não apenas manteve o interesse do público por seus três filmes (interesse que inclusive aumentava a cada lançamento) como superou toda e qualquer expectativa em termos de qualidade narrativa e técnica. Um exemplo perfeito dessa afirmação é "O ultimato Bourne", seu capítulo final, que não apenas rendeu mais de 220 milhões de dólares nas bilheterias americanas como agradou em cheio à crítica, à audiência e até mesmo à Academia, que lhe ofereceu em troca 3 estatuetas do Oscar, que sublinharam suas qualidades técnicas impressionantes. Se os dois primeiros filmes já eram sensacionais, o terceiro é absolutamente impecável.
Dessa vez, o agente secreto Jason Bourne (interpretado a cada filme com mais intensidade por um Matt Damon que nunca esquece, mesmo em momentos de quebradeira, que é um ator sério e talentoso) é tirado de seu anonimato graças às investigações do repórter investigativo inglês Simon Ross (Paddy Considine), que tenta trazer à tona os segredos de uma operação secreta da CIA, o Projeto Blackbriar - que vem a ser um passo à frente da antiga missão de Bourne, a Operação Treadstone. A busca de Ross pela verdade coincide com uma falsa acusação de traição contra Bourne, que, na tentativa de provar sua inocência e descobrir a verdade sobre seu passado (que continua vindo em lembranças intermitentes), conta com a ajuda inesperada de Pam Landy (Joan Allen), diretora da agência, que deseja manter a integridade do órgão de segurança.
Equilibrando cenas de tensão constante - em especial uma perseguição de tirar o fôlego sobre telhados e a tentativa de Bourne em salvar a vida de Simon Ross em meio à multidão que frequenta as estações de Londres - com momentos dramáticos importantes para o desfecho da trilogia (como o encontro com o irmão de Marie (Franka Potente), "O ultimato Bourne" atinge sua excelência por atingir a perfeita mistura entre um roteiro inteligente, atuações seguras de um elenco de feras (Damon, Joan Allen, David Straithairn) e uma técnica invejável. A edição espetacular de Christopher Rouse - premiada com um Oscar justíssimo - não dá folga ao espectador, praticamente jogando-o no meio das eletrizantes sequências de luta, coreografadas de forma a impressionar a audiência sem precisar de efeitos especiais mirabolantes. Seu realismo é um ponto mais do que positivo, por destacar o tom seco e direto da direção de Paul Greengrass - que usa e abusa de câmeras na mão e de sua experiência em filmes de estilo semi-documental para criar uma atmosfera claustrofóbica e tensa mesmo em espaços vastos e planos abertos.
No final das contas, "O ultimato Bourne" encerra com chave de ouro uma série cinematográfica que devolveu ao público o prazer de acompanhar uma boa história recheada de cenas extraordinárias de ação sem que seja preciso abdicar do cérebro. E Jason Bourne, é, com toda certeza, um dos mais fascinantes personagens do cinema de ação vindo de Hollywood. Vai deixar saudades.
terça-feira
ALPHA DOG
ALPHA DOG (Alpha dog, 2006, Sidney Kimmel Entertainment, 122min) Direção e roteiro: Nick Cassavetes. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: Alan Heim. Música: Aaron Zigman. Figurino: Sarah Jane Slotnick. Direção de arte/cenários: Dominic Watkins/Faince MacCarthy. Produção executiva: Robert Geringer, Marina Grasic, Andreas Grosch, Avram Butch Kaplan, Jan Korbelin, Steve Markoff. Produção: Sidney Kimmel, Chuck Pacheco. Elenco: Bruce Willis, Sharon Stone, Emile Hirsch, Justin Timberlake, Ben Foster, Shawn Hatosy, Anton Yelchin, Dominique Swain, Amanda Seyfried, Harry Dean Stanton, Lukas Haas. Estreia: 27/01/06 (Festival de Sundance)
Em 1994, Larry Clark tornou-se um nome quente dentro de Hollywood graças ao controverso "Kids", que narrava o estilo de vida de um grupo de adolescentes que passava os dias às voltas com drogas pesadas e sexo promíscuo. O filme - que lançou as carreiras de Rosario Dawson e Chloe Sevigny - chocou o público e despertou acaloradas discussões, mas falhava flagrantemente em ser bom cinema, talvez pela vocação de seu diretor, mais propenso ao escândalo do que a uma boa história. Reprovado no teste do tempo, "Kids" é, hoje em dia, no máximo o retrato cru de uma geração perdida. Em oposição a essa sua fragilidade narrativa, outro filme com temática semelhante - e lançado mais de uma década depois - consegue ser muito mais eficaz e impactante: "Alpha dog", escrito e dirigido por Nick Cassavetes, é contundente e tocante na mesma medida, proporcionando ao público tanto um filme policial angustiante quanto um drama familiar potente e dramaticamente sólido.
Baseado em um fato real - do qual Cassavetes foi obrigado a fazer pequenas alterações por motivos judiciais - "Alpha dog" é uma denúncia de grande impacto, sem nunca transformar-se, porém, em uma obra panfletária e vazia. Excepcional diretor de atores (herança de seu pai, o ator e diretor John Cassavetes), Nick arranca de seu elenco - tanto o veterano quanto o jovem - interpretações de grande intensidade, devido em parte ao roteiro realista e repleto de cenas que dão espaço a belos trabalhos de construção de personagens. Ben Foster, por exemplo, brilha como Jake Mazursky, jovem viciado em drogas explosivo e violento que acaba sendo o catalisador da tragédia ao dever dinheiro - e um tanto de respeito - ao traficante Johnny Truelove (Emile Hirsch, sensacional), filho de uma família de classe média desacostumado a ter seus caprichos negados. Furioso com a dívida e com as agressões de Mazursky, Truelove resolve, em um impulso inconsequente, sequestrar seu irmão caçula, Zach (Anton Yelchin, na medida exata de ingenuidade e docilidade), de apenas 15 anos. Enquanto a família do rapaz entra em desespero com seu desaparecimento, o traficante confia a seu melhor amigo, Frankie (Justin Timberlake), a posse do menino. Zach, um garotão virgem e em conflito com a mãe superprotetora (Sharon Stone), vê em Frankie e seu grupo - cercado de belas garotas e uma liberdade com que apenas sonha em sua casa - uma nova forma de vida e nem de longe percebe que, quanto mais o tempo passa, menores ficam suas chances de ser libertado.
Abrindo seu filme com vídeos caseiros de seus atores jovens ao som de "Over the rainbow" - e encerrando com a bela "Wild is the wind", na voz de David Bowie - Nick Cassavetes tem a sensibilidade ideal para contar uma história sufocante, que constrói sua tensão passo a passo, que permite à audiência entender os atos de seus protagonistas por mais equivocados que eles estejam. É certo que a simpatia da plateia fica com Zach, o inocente útil pego no meio de um furacão, mas o carisma de Justin Timberlake e Emile Hirsch consegue amenizar a falta de caráter de seus personagens - em especial de Frankie, criado por Timberlake com um misto de insegurança e compaixão que quase lhe transforma em mais uma vítima da violência que ele mesmo causa - voluntariamente ou não. E é fascinante a maneira como Cassavetes extrai de Sharon Stone seu melhor desempenho desde sua indicação ao Oscar por "Cassino", realizado onze anos antes: a entrevista de sua personagem no desfecho do filme é, provavelmente, uma das cenas mais emocionalmente brutais do cinema americano independente dos últimos anos.
"Alpha dog" é violento, é triste, é chocante. Conquista o público com personagens amorais e pouco simpáticos justamente por sua neutralidade ao falar de um estilo de vida irresponsável e cínico, capaz de destruir vidas sem grandes remorsos. E é o melhor trabalho de um cineasta que gosta de atores e de personagens de carne-e-osso, coisa rara na robotizada Hollywood das grandes bilheterias.
Em 1994, Larry Clark tornou-se um nome quente dentro de Hollywood graças ao controverso "Kids", que narrava o estilo de vida de um grupo de adolescentes que passava os dias às voltas com drogas pesadas e sexo promíscuo. O filme - que lançou as carreiras de Rosario Dawson e Chloe Sevigny - chocou o público e despertou acaloradas discussões, mas falhava flagrantemente em ser bom cinema, talvez pela vocação de seu diretor, mais propenso ao escândalo do que a uma boa história. Reprovado no teste do tempo, "Kids" é, hoje em dia, no máximo o retrato cru de uma geração perdida. Em oposição a essa sua fragilidade narrativa, outro filme com temática semelhante - e lançado mais de uma década depois - consegue ser muito mais eficaz e impactante: "Alpha dog", escrito e dirigido por Nick Cassavetes, é contundente e tocante na mesma medida, proporcionando ao público tanto um filme policial angustiante quanto um drama familiar potente e dramaticamente sólido.
Baseado em um fato real - do qual Cassavetes foi obrigado a fazer pequenas alterações por motivos judiciais - "Alpha dog" é uma denúncia de grande impacto, sem nunca transformar-se, porém, em uma obra panfletária e vazia. Excepcional diretor de atores (herança de seu pai, o ator e diretor John Cassavetes), Nick arranca de seu elenco - tanto o veterano quanto o jovem - interpretações de grande intensidade, devido em parte ao roteiro realista e repleto de cenas que dão espaço a belos trabalhos de construção de personagens. Ben Foster, por exemplo, brilha como Jake Mazursky, jovem viciado em drogas explosivo e violento que acaba sendo o catalisador da tragédia ao dever dinheiro - e um tanto de respeito - ao traficante Johnny Truelove (Emile Hirsch, sensacional), filho de uma família de classe média desacostumado a ter seus caprichos negados. Furioso com a dívida e com as agressões de Mazursky, Truelove resolve, em um impulso inconsequente, sequestrar seu irmão caçula, Zach (Anton Yelchin, na medida exata de ingenuidade e docilidade), de apenas 15 anos. Enquanto a família do rapaz entra em desespero com seu desaparecimento, o traficante confia a seu melhor amigo, Frankie (Justin Timberlake), a posse do menino. Zach, um garotão virgem e em conflito com a mãe superprotetora (Sharon Stone), vê em Frankie e seu grupo - cercado de belas garotas e uma liberdade com que apenas sonha em sua casa - uma nova forma de vida e nem de longe percebe que, quanto mais o tempo passa, menores ficam suas chances de ser libertado.
Abrindo seu filme com vídeos caseiros de seus atores jovens ao som de "Over the rainbow" - e encerrando com a bela "Wild is the wind", na voz de David Bowie - Nick Cassavetes tem a sensibilidade ideal para contar uma história sufocante, que constrói sua tensão passo a passo, que permite à audiência entender os atos de seus protagonistas por mais equivocados que eles estejam. É certo que a simpatia da plateia fica com Zach, o inocente útil pego no meio de um furacão, mas o carisma de Justin Timberlake e Emile Hirsch consegue amenizar a falta de caráter de seus personagens - em especial de Frankie, criado por Timberlake com um misto de insegurança e compaixão que quase lhe transforma em mais uma vítima da violência que ele mesmo causa - voluntariamente ou não. E é fascinante a maneira como Cassavetes extrai de Sharon Stone seu melhor desempenho desde sua indicação ao Oscar por "Cassino", realizado onze anos antes: a entrevista de sua personagem no desfecho do filme é, provavelmente, uma das cenas mais emocionalmente brutais do cinema americano independente dos últimos anos.
"Alpha dog" é violento, é triste, é chocante. Conquista o público com personagens amorais e pouco simpáticos justamente por sua neutralidade ao falar de um estilo de vida irresponsável e cínico, capaz de destruir vidas sem grandes remorsos. E é o melhor trabalho de um cineasta que gosta de atores e de personagens de carne-e-osso, coisa rara na robotizada Hollywood das grandes bilheterias.
segunda-feira
PARIS, TE AMO
PARIS, TE AMO (Paris, je t'aime, 2006, Victoires International, 120min) Direção: Olivier Assayas, Frédéric Auburtin, Emmanuel Benbihy, Gurinder Chadha, Sylvain Chomet, Ethan Coen, Joel Coen, Isabel Coixet, Wes Craven, Alfonso Cuaron, Gerard Depardieu, Christopher Doyle, Richard LaGravenese, Vincenzo Natali, Alexander Payne, Bruno Podalydès, Walter Salles, Oliver Schmitz, Nobuhiro Suwa, Daniela Thomas, Tom Tykwer, Gus Van Sant. Roteiro: Emmanuel Benbihy, Bruno Polalydès, Paul Mayeda Berges, Gurinder Chada, Gus Van Sant, Joel & Ethan Coen, Walter Salles & Daniella Thomas, Christopher Doyle & Rain Li & Gabrielle Keng, Isabel Coixet, Nobuhiro Suwa, Sylvain Chomet, Alfonso Cuarón, Olivier Assayas, Oliver Schmitz, Richard LaGravenese, Vincenzo Natali, Wes Craven, Tom Tykwer, Gena Rowlands, Alexander Payne & Nadine Eid. Fotografia: Maxime Alexandre, Michel Amathieu, Pierre Aim, Bruno Delbonnel, Eric Gautier, Frank Griebe, Eric Guichard, Jean-Claude Larrieu, Denis Lenoir, Rain Li, Pascal Marti, Tetsuo Nagata, Matthieu-Poirot Delpech, David Quesemand, Pascal Rabaud, Michael Seresin, Gérard Sterin. Montagem: Luc Barnier, Mathilde Bonnefoy, Stan Collet, Simon Jacquet, Anne Klotz, Isabel Meier, Alex Rodriguez, Hisako Suwa. Música: Pierre Adenot, Michael Andrews, Reinhold Heil, Johnny Klimek, Tom Tykwer. Figurino: Olivier Bériot. Direção de arte/cenários: Bettina von den Steinen/Hélène Dubreuil, Sébastien Monteux-Halleur. Produção executiva: Chris Bolzli, Gilles Caussade, Rafi Chaudry, Sam Englebardt, Ara Katz, Maria Kopf, Frank Moss, Chad Troutwine. Produção: Emmanuel Benbihy, Claudie Ossard. Elenco: Gaspard Ulliel, Steve Buscemi, Catalina Sandino Moreno, Miranda Richardson, Sergio Castelitto, Leonor Watling, Javier Camara, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Nick Nolte, Maggie Gyllenhaal, Fanny Ardant, Bob Hoskins, Elijah Wood, Emily Mortimer, Olga Kurylenko, Rufus Sewell, Natalie Portman, Gena Rowlands, Ben Gazzarra, Gerard Depardieu, Margo Martindale. Estreia: 18/5/06 (Festival de Cannes)
Que Paris é uma das cidades mais românticas e belas do mundo não há dúvida. Cenário natural de dezenas de filmes - sejam eles franceses, hollywoodianos ou de outros países com menor tradição na indústria do cinema - a cidade-luz teve a sua grande chance de transformar-se de pano de fundo em protagonista em "Paris, te amo", primeiro de uma série que continuou com Nova York e tem no Rio de Janeiro seu terceiro capítulo. Produção coletiva que apresenta uma equipe invejável de cineastas e atores das mais diversas nacionalidades, o filme, como sempre acontece com obras do tipo, é irregular, mas ainda assim tem a seu favor a inventividade, a imprevisibilidade e a delicadeza de todos os segmentos. É impossível não se apaixonar por ele.
Logicamente nem todas as histórias são marcantes, e algumas até mesmo soam bobas, mas é inegável que a maioria esmagadora dos diretores estava em dias inspirados. Diante do espectador desfilam tramas sobre amores perdidos, amores encontrados, vampiros, mímicos, solitários, escritores mortos e todo tipo de gente em busca da felicidade. Fotografado com carinho e um bom-gosto que deixa no espectador uma impressão onírica das mais fascinantes, "Paris, te amo" é, além de tudo, um conjunto de bons roteiros, bons diretores e bons atores, em um conjunto que deixa tudo ainda mais irresistível - em especial em alguns segmentos, que são tão inteligentes e interessantes que poderiam tranquilamente ultrapassar as limitações de um curta.
O primeiro segmento digno de destaque é "Quais de sene", dirigido por Gurinder Chadha, que acompanha o início da relação entre o estudante François (Cyril Descours) e a muçulmana Zarka (Leila Bekhti), em uma história que surpreende por não se deixar cair na armadilha fácil do conflito religioso. "Les Marais", de Gus Van Sant, mostra a tentativa de um jovem (Gaspard Ulliel, de "Eterno amor") em convencer um outro rapaz (Elias McConnell) a lhe telefonar para marcar um encontro. "Tuileuries", dos irmãos Coen - um dos episódios mais visuais e criativos - mostra as desventuras de um turista americano (o ótimo Steve Buscemi) quando encontra, à espera do metrô, um casal francês disfuncional. Os brasileiros Walter Salles e Daniella Thomas acompanham a jovem Ana (Catalina Sandino Moreno) em sua árdua rotina de trabalho como babá no singelo "Loin du 16e". Isabel Coixet se destaca magistralmente com a belíssima história de um homem (Sergio Castelitto) que se apaixona novamente pela esposa (Miranda Richardson) quando descobre que ela está morrendo de câncer. O extraordinário "Place des Victoires", de Nobuhiro Suwa, mostra o desespero de uma mãe (Juliette Binoche) que acaba de perder o filho.
Ainda chamam a atenção os segmento "Tour Eiffel", de Sylvain Chomet, que segue um mímico em seu dia-a-dia com extrema criatividade, "Quartier de La Madeleine", de Vincenzo Natali, que mostra um jovem, vivido por Elijah Wood, se apaixonando pela vampira Olga Kurylenko sob um visual deslumbrante e a história de amor entre um rapaz cego (Melchior Beslon) e uma atriz de cinema (Natalie Portman) contada pelo alemão Tom Tykwer em "Faubourg Saint-Denis" com uma edição ágil e empolgante - sua marca registrada desde o sucesso de "Corra Lola, corra". O episódio final, "14e arrondissement", de Alexander Payne, também merece destaque por, no mínimo, permitir que a sensacional atriz Margo Martindale, sempre coadjuvante, assuma um papel de protagonista e comprove seu enorme talento - mesmo quando está em silêncio.
Mesmo que algumas histórias não sejam tão fascinantes quanto as outras - situação corriqueira em filmes episódicos - "Paris, te amo" tem uma regularidade impressionante, mantendo a plateia deslumbrada desde seus primeiros minutos até seu final quase apoteótico, quando todas as tramas voltam à tela para uma despedida emocionante. É, sem dúvida, uma bela homenagem à grande cidade dos amantes.
Que Paris é uma das cidades mais românticas e belas do mundo não há dúvida. Cenário natural de dezenas de filmes - sejam eles franceses, hollywoodianos ou de outros países com menor tradição na indústria do cinema - a cidade-luz teve a sua grande chance de transformar-se de pano de fundo em protagonista em "Paris, te amo", primeiro de uma série que continuou com Nova York e tem no Rio de Janeiro seu terceiro capítulo. Produção coletiva que apresenta uma equipe invejável de cineastas e atores das mais diversas nacionalidades, o filme, como sempre acontece com obras do tipo, é irregular, mas ainda assim tem a seu favor a inventividade, a imprevisibilidade e a delicadeza de todos os segmentos. É impossível não se apaixonar por ele.
Logicamente nem todas as histórias são marcantes, e algumas até mesmo soam bobas, mas é inegável que a maioria esmagadora dos diretores estava em dias inspirados. Diante do espectador desfilam tramas sobre amores perdidos, amores encontrados, vampiros, mímicos, solitários, escritores mortos e todo tipo de gente em busca da felicidade. Fotografado com carinho e um bom-gosto que deixa no espectador uma impressão onírica das mais fascinantes, "Paris, te amo" é, além de tudo, um conjunto de bons roteiros, bons diretores e bons atores, em um conjunto que deixa tudo ainda mais irresistível - em especial em alguns segmentos, que são tão inteligentes e interessantes que poderiam tranquilamente ultrapassar as limitações de um curta.
O primeiro segmento digno de destaque é "Quais de sene", dirigido por Gurinder Chadha, que acompanha o início da relação entre o estudante François (Cyril Descours) e a muçulmana Zarka (Leila Bekhti), em uma história que surpreende por não se deixar cair na armadilha fácil do conflito religioso. "Les Marais", de Gus Van Sant, mostra a tentativa de um jovem (Gaspard Ulliel, de "Eterno amor") em convencer um outro rapaz (Elias McConnell) a lhe telefonar para marcar um encontro. "Tuileuries", dos irmãos Coen - um dos episódios mais visuais e criativos - mostra as desventuras de um turista americano (o ótimo Steve Buscemi) quando encontra, à espera do metrô, um casal francês disfuncional. Os brasileiros Walter Salles e Daniella Thomas acompanham a jovem Ana (Catalina Sandino Moreno) em sua árdua rotina de trabalho como babá no singelo "Loin du 16e". Isabel Coixet se destaca magistralmente com a belíssima história de um homem (Sergio Castelitto) que se apaixona novamente pela esposa (Miranda Richardson) quando descobre que ela está morrendo de câncer. O extraordinário "Place des Victoires", de Nobuhiro Suwa, mostra o desespero de uma mãe (Juliette Binoche) que acaba de perder o filho.
Ainda chamam a atenção os segmento "Tour Eiffel", de Sylvain Chomet, que segue um mímico em seu dia-a-dia com extrema criatividade, "Quartier de La Madeleine", de Vincenzo Natali, que mostra um jovem, vivido por Elijah Wood, se apaixonando pela vampira Olga Kurylenko sob um visual deslumbrante e a história de amor entre um rapaz cego (Melchior Beslon) e uma atriz de cinema (Natalie Portman) contada pelo alemão Tom Tykwer em "Faubourg Saint-Denis" com uma edição ágil e empolgante - sua marca registrada desde o sucesso de "Corra Lola, corra". O episódio final, "14e arrondissement", de Alexander Payne, também merece destaque por, no mínimo, permitir que a sensacional atriz Margo Martindale, sempre coadjuvante, assuma um papel de protagonista e comprove seu enorme talento - mesmo quando está em silêncio.
Mesmo que algumas histórias não sejam tão fascinantes quanto as outras - situação corriqueira em filmes episódicos - "Paris, te amo" tem uma regularidade impressionante, mantendo a plateia deslumbrada desde seus primeiros minutos até seu final quase apoteótico, quando todas as tramas voltam à tela para uma despedida emocionante. É, sem dúvida, uma bela homenagem à grande cidade dos amantes.
sexta-feira
ABC DO AMOR
ABC DO AMOR (Little Manhattan, 2005, New Regency Pictures, 84min) Direção: Mark Levin. Roteiro: Jennifer Flackett. Fotografia: Tim Orr. Montagem: Alan Edward Bell. Música: Chad Fischer. Figurino: Kasia Walicka-Maimone. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Diane Lederman. Produção executiva: Vivian Cannon, Kara Francis. Produção: Gavin Polone. Elenco: Josh Hutcherson, Charlie Ray, Bradley Whitford, Cynthia Nixon. Estreia: 26/9/05 (Festival de Cinema do Rio de Janeiro)
A trama de "ABC do amor" segue o padrão do gênero: rapaz se apaixona perdidamente por uma colega de karatê, tenta conquistá-la, vive momentos inesquecíveis a seu lado, fica inseguro quando um outro homem surge no caminho de seu relacionamento e sofre com todas as agonias que o amor acarreta. O que diferencia o filme de Mark Levin dos demais exemplares das comédias românticas, então? O fato simples de que Gabe, o protagonista, tem apenas 10 anos de idade e está experimentando uma paixão avassaladora pela pequena Rosemary Telesco, o primeiro amor de sua vida. Com roteiro escrito por sua mulher, Jennifer Flackett, Levin criou uma pequena obra-prima de delicadeza, sensibilidade e bom-humor conduzido pela interpretação encantadora de Josh Hutcherson - que posteriormente faria sucesso como um dos protagonistas da série de filmes "Jogos vorazes".
Hutcherson interpreta Gabe - o filho único de um casal de pais separados que ainda moram no mesmo apartamento em Nova York - com carisma de gente grande. É graças a seu encanto que o público embarca sem reservas na sua dramática/engraçada/lírica história de amor com Rosemary (Charlie Ray), uma colega de jardim-de-infância que ele reencontra depois de um tempo e por quem se apaixona perdidamente. Através de Gabe e seus dramas e paranoias- adequadamente exagerados por serem vistos pelos olhos de uma criança - a audiência revive um momento no tempo em que amar é a única coisa que existe. O sorriso de Gabe ao sentir os braços da amada ao redor de seu corpo, suas lágrimas sentidas quando prevê a separação (que pode ou não ocorrer), a angústia do ciúme e o sentimento de impotência diante de situações imprevistas são postas sob uma lente de aumento, retratando uma espécie de amor que, querendo ou não, a plateia anseia reviver na maturidade.
Vendido como um filme infanto-juvenil, "ABC do amor" é, na verdade, uma obra que pode - e deve - ser vista como um romance qualquer, com a diferença de que é muito superior à boa parte das comédias que são lançadas a granel pelos estúdios. Mesmo que não ultrapasse um inocente primeiro beijo e deixe de lado as elocubrações erótico/desesperadas da maioria de seus congêneres, o filme de Levin ganha pontos ao proporcionar ao público uma espécie de nostalgia sentimental normalmente tida como sentimentaloide pelos críticos de plantão. A docilidade do amor de Gabe por Rosemary - refletida em sua liberdade pelas ruas que frequenta com propriedade a bordo de seu patinete - não é tratada com condescendência irresponsável, e sim com o carinho que somente sobreviventes de um primeiro amor conseguem retratar. E é praticamente impossível não sorrir diante das desventuras amorosas de um personagem como Gabe.
Apresentando também um senso de humor bastante engraçado - e apropriadamente puro, como a relação entre seus protagonistas - "ABC do amor" é um filme sem contra-indicações, exceto, é claro, para aqueles cínicos e fãs de piadas grosseiras e histórias violentas e desprovidas de poesia. O filme de Mark Levin é poesia juvenil, cheia de bons sentimentos e um elenco impecável que inclui Cynthia Nixon - a Miranda da série "Sex and the city" - e Bradley Whitford, um dos atores mais subaproveitados de Hollywood. É um exemplo de sessão da tarde das mais competentes e fascinantes.
A trama de "ABC do amor" segue o padrão do gênero: rapaz se apaixona perdidamente por uma colega de karatê, tenta conquistá-la, vive momentos inesquecíveis a seu lado, fica inseguro quando um outro homem surge no caminho de seu relacionamento e sofre com todas as agonias que o amor acarreta. O que diferencia o filme de Mark Levin dos demais exemplares das comédias românticas, então? O fato simples de que Gabe, o protagonista, tem apenas 10 anos de idade e está experimentando uma paixão avassaladora pela pequena Rosemary Telesco, o primeiro amor de sua vida. Com roteiro escrito por sua mulher, Jennifer Flackett, Levin criou uma pequena obra-prima de delicadeza, sensibilidade e bom-humor conduzido pela interpretação encantadora de Josh Hutcherson - que posteriormente faria sucesso como um dos protagonistas da série de filmes "Jogos vorazes".
Hutcherson interpreta Gabe - o filho único de um casal de pais separados que ainda moram no mesmo apartamento em Nova York - com carisma de gente grande. É graças a seu encanto que o público embarca sem reservas na sua dramática/engraçada/lírica história de amor com Rosemary (Charlie Ray), uma colega de jardim-de-infância que ele reencontra depois de um tempo e por quem se apaixona perdidamente. Através de Gabe e seus dramas e paranoias- adequadamente exagerados por serem vistos pelos olhos de uma criança - a audiência revive um momento no tempo em que amar é a única coisa que existe. O sorriso de Gabe ao sentir os braços da amada ao redor de seu corpo, suas lágrimas sentidas quando prevê a separação (que pode ou não ocorrer), a angústia do ciúme e o sentimento de impotência diante de situações imprevistas são postas sob uma lente de aumento, retratando uma espécie de amor que, querendo ou não, a plateia anseia reviver na maturidade.
Vendido como um filme infanto-juvenil, "ABC do amor" é, na verdade, uma obra que pode - e deve - ser vista como um romance qualquer, com a diferença de que é muito superior à boa parte das comédias que são lançadas a granel pelos estúdios. Mesmo que não ultrapasse um inocente primeiro beijo e deixe de lado as elocubrações erótico/desesperadas da maioria de seus congêneres, o filme de Levin ganha pontos ao proporcionar ao público uma espécie de nostalgia sentimental normalmente tida como sentimentaloide pelos críticos de plantão. A docilidade do amor de Gabe por Rosemary - refletida em sua liberdade pelas ruas que frequenta com propriedade a bordo de seu patinete - não é tratada com condescendência irresponsável, e sim com o carinho que somente sobreviventes de um primeiro amor conseguem retratar. E é praticamente impossível não sorrir diante das desventuras amorosas de um personagem como Gabe.
Apresentando também um senso de humor bastante engraçado - e apropriadamente puro, como a relação entre seus protagonistas - "ABC do amor" é um filme sem contra-indicações, exceto, é claro, para aqueles cínicos e fãs de piadas grosseiras e histórias violentas e desprovidas de poesia. O filme de Mark Levin é poesia juvenil, cheia de bons sentimentos e um elenco impecável que inclui Cynthia Nixon - a Miranda da série "Sex and the city" - e Bradley Whitford, um dos atores mais subaproveitados de Hollywood. É um exemplo de sessão da tarde das mais competentes e fascinantes.
quinta-feira
AUSTIN POWERS EM "O HOMEM DO MEMBRO DE OURO"
AUSTIN POWERS EM "O HOMEM DO MEMBRO DE OURO" (Austin Powers in Goldmember, 2002, New Line Cinema, 94min) Direção: Jay Roach. Roteiro: Mike Meyers, Michael McCullers. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Greg Hayden, Jon Poll. Música: George S. Clinton. Figurino: Deena Appel. Direção de arte/cenários: Rusty Smith/Sara Andrews-Ingrassia. Produção executiva: Richard Brener, Toby Emmerich. Produção: John Lyons, Eric McLeod, Demi Moore, Mike Meyers, Jennifer Todd, Suzanne Todd. Elenco: Mike Meyers, Michael Caine, Beyoncé Knowles, Seth Green, Michael York, Robert Wagner, Fred Savage. Estreia: 22/7/02
Em 1997, uma despretensiosa comédia feita com meros 17 milhões de dólares de orçamento e a verve besteirol do ator Mike Meyers "Austin Powers" pegou Hollywood de surpresa e rendeu quase 60 milhões somente no mercado doméstico. Dois anos depois, entusiasmados com a receptividade do agente secreto britânico metido a conquistador que, congelado nos anos 60, chega à década de 90 e tenta adequar-se a ela enquanto luta com seu nêmesis, o temível Dr. Evil, os executivos da New Line Cinema abriram os cofres. Com um custo de 33 milhões, "Austin Powers e o espião 'bond' cama" se deu ainda melhor nas bilheterias, com uma renda interna de mais de 200 milhões. Não foi nenhuma surpresa, portanto, que um terceiro capítulo chegasse às telas. "Austin Powers em 'O Homem do Membro de Ouro'" - novamente dirigido pelo mesmo Jay Roach que comandou a trilogia inteira - foi o mais caro da série (custou mais que a renda do primeiro filme), mas novamente ultrapassou a barreira dos 200 milhões e finalizou as aventuras de Powers com chave de ouro - a ponto de até hoje o público ansiar por um novo projeto.
Voltando a debochar dos clichês que infestam os filmes de espionagem, "O homem do membro de ouro" - cujo título já é uma explícita brincadeira com os filmes de James Bond - tem uma história banal, que serve apenas para uma sucessão de piadas dos mais variados níveis e estilos. Tudo começa quando o pai de Austin, o também espião Nigel Powers (em um trabalho caprichado de ironia de Michael Caine) é sequestrado pelo maior inimigo do herói, o maquiavélico Dr. Evil (também interpretado por Meyers), que planeja mais uma vez dominar o mundo, dessa vez contando com a ajuda do misterioso Goldmember (mais uma vez Meyers). Para resgatar seu pai - com quem tem uma relação tumultuada desde a infância - Powers precisa voltar ao ano de 1975, onde reencontra sua antiga paixão Foxxy Cleopatra (a cantora Beyoncé Knowles, estreando como atriz), uma agente do FBI que trabalha disfarçada de cantora disco.
A trama é apenas uma desculpa para que Meyers dispare sua metralhadora giratória, com um humor que tanto pode agradar quanto despertar críticas. Ao mesmo tempo em que faz piadas visuais engraçadíssimas - que ecoam sequências dos outros filmes - a direção de Roach peca em algumas gags que apelam para a escatologia pura e simples. Essa tática é inteligente em sua tentativa de conquistar os variados tipos de audiência, mas acaba prejudicando o ritmo do filme com um todo. A cada momento de humor sarcástico - que tira partido das diferenças culturais entre americanos/ingleses e temporais - o filme cresce, demonstrando o talento aparentemente infinito de Meyers em fazer rir das situações mais variadas, contando com a ajuda da sensacional equipe de maquiadores, que o transformam em nada menos que quatro personagens - além dos já citados há ainda Fat Bastard, que já vem do segundo capítulo.
E como não poderia deixar de ser, "O homem do membro de ouro" conta também com personagens já comprovadamente bem-sucedidos nos filmes anteriores da série. É o caso de Scott Evil, filho do vilão, interpretado por Seth Green, e o imbatível Mini-mim, a versão em tamanho compacto de Dr. Evil, responsável por duas das mais engraçadas cenas do filme. Junto a eles, nomes consagrados como Michael Caine explorando seu timing cômico e Michael York se divertem tanto quanto o público, que já começa o entretenimento na sequência de abertura, que conta com participações muito especiais de Tom Cruise, Kevin Spacey, Gwyneth Paltrow, Steven Spielberg e Britney Spears - o que demonstra o prestígio de Meyers dentro da indústria. Pro bem ou pro mal, o filme é a sua cara. Cabe à audiência decidir se é de seu gosto ou não.
Em 1997, uma despretensiosa comédia feita com meros 17 milhões de dólares de orçamento e a verve besteirol do ator Mike Meyers "Austin Powers" pegou Hollywood de surpresa e rendeu quase 60 milhões somente no mercado doméstico. Dois anos depois, entusiasmados com a receptividade do agente secreto britânico metido a conquistador que, congelado nos anos 60, chega à década de 90 e tenta adequar-se a ela enquanto luta com seu nêmesis, o temível Dr. Evil, os executivos da New Line Cinema abriram os cofres. Com um custo de 33 milhões, "Austin Powers e o espião 'bond' cama" se deu ainda melhor nas bilheterias, com uma renda interna de mais de 200 milhões. Não foi nenhuma surpresa, portanto, que um terceiro capítulo chegasse às telas. "Austin Powers em 'O Homem do Membro de Ouro'" - novamente dirigido pelo mesmo Jay Roach que comandou a trilogia inteira - foi o mais caro da série (custou mais que a renda do primeiro filme), mas novamente ultrapassou a barreira dos 200 milhões e finalizou as aventuras de Powers com chave de ouro - a ponto de até hoje o público ansiar por um novo projeto.
Voltando a debochar dos clichês que infestam os filmes de espionagem, "O homem do membro de ouro" - cujo título já é uma explícita brincadeira com os filmes de James Bond - tem uma história banal, que serve apenas para uma sucessão de piadas dos mais variados níveis e estilos. Tudo começa quando o pai de Austin, o também espião Nigel Powers (em um trabalho caprichado de ironia de Michael Caine) é sequestrado pelo maior inimigo do herói, o maquiavélico Dr. Evil (também interpretado por Meyers), que planeja mais uma vez dominar o mundo, dessa vez contando com a ajuda do misterioso Goldmember (mais uma vez Meyers). Para resgatar seu pai - com quem tem uma relação tumultuada desde a infância - Powers precisa voltar ao ano de 1975, onde reencontra sua antiga paixão Foxxy Cleopatra (a cantora Beyoncé Knowles, estreando como atriz), uma agente do FBI que trabalha disfarçada de cantora disco.
A trama é apenas uma desculpa para que Meyers dispare sua metralhadora giratória, com um humor que tanto pode agradar quanto despertar críticas. Ao mesmo tempo em que faz piadas visuais engraçadíssimas - que ecoam sequências dos outros filmes - a direção de Roach peca em algumas gags que apelam para a escatologia pura e simples. Essa tática é inteligente em sua tentativa de conquistar os variados tipos de audiência, mas acaba prejudicando o ritmo do filme com um todo. A cada momento de humor sarcástico - que tira partido das diferenças culturais entre americanos/ingleses e temporais - o filme cresce, demonstrando o talento aparentemente infinito de Meyers em fazer rir das situações mais variadas, contando com a ajuda da sensacional equipe de maquiadores, que o transformam em nada menos que quatro personagens - além dos já citados há ainda Fat Bastard, que já vem do segundo capítulo.
E como não poderia deixar de ser, "O homem do membro de ouro" conta também com personagens já comprovadamente bem-sucedidos nos filmes anteriores da série. É o caso de Scott Evil, filho do vilão, interpretado por Seth Green, e o imbatível Mini-mim, a versão em tamanho compacto de Dr. Evil, responsável por duas das mais engraçadas cenas do filme. Junto a eles, nomes consagrados como Michael Caine explorando seu timing cômico e Michael York se divertem tanto quanto o público, que já começa o entretenimento na sequência de abertura, que conta com participações muito especiais de Tom Cruise, Kevin Spacey, Gwyneth Paltrow, Steven Spielberg e Britney Spears - o que demonstra o prestígio de Meyers dentro da indústria. Pro bem ou pro mal, o filme é a sua cara. Cabe à audiência decidir se é de seu gosto ou não.
quarta-feira
ENCONTRO DE AMOR
ENCONTRO DE AMOR (Maid in Manhattan, 2002, Revolution Studios, 105min ) Direção: Wayne Wang. Roteiro: Kevin Wade, estória de Edmond Dantès (pseudônimo de John Hughes). Fotografia: Karl Walter Lindelaub. Montagem: Craig McKay. Música: Alan Silvestri. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Susan Tyson. Produção executiva: Benny Medina, Charles Newirth. Produção: Elaine Goldsmith-Thomas, Paul Schiff, Deborah Schindler. Elenco: Jennifer Lopez, Ralph Fiennes, Stanley Tucci, Bob Hoskins, Natasha Richardson, Tyler Posey, Frances Conroy. Estreia: 13/12/02
Famoso por seus clássicos adolescentes dos anos 80, como "A garota de rosa-shocking", "Gatinhas e gatões" e "Clube dos cinco", o cineasta John Hughes escreveu, no final dos anos 90, um roteiro inspirado na história real do filho do governador Nelson Rockefeller, que se casou com a camareira de um de seus vários hoteis em 1959. Adaptado para se passar na Chigado dos anos 20, o filme seria estrelado por Hilary Swank, mas conforme o tempo foi passando, as coisas iam mudando. Depois que Hughes resolveu apenas produzir, nomes como Sandra Bullock e Julia Roberts foram cotadas para o papel principal e o cineasta Wayne Wang - nascido em Hong Kong e diretor de pequenos grandes filmes como "Cortina de fumaça" e "Clube da felicidade e da sorte" - assumiu o comando do projeto. Quando o filme finalmente viu a luz dos refletores, no final de 2002, com a cantora Jennifer Lopez na liderança do elenco, pouco restava do script de Hughes, que pediu para ter seu nome removido dos créditos. Dessa vez passado na Nova York de 2001, "Encontro de amor" conquistou às plateias românticas, os fãs de J-Lo e ao estúdio, que não se decepcionou com a renda doméstica que beirou os 100 milhões de dólares de arrecadação.
No entanto, o sucesso de bilheteria tem mais ver com o poder de Lopez em atingir seu público do que com as qualidades do filme. Mesmo que seja leve, visualmente agradável e bem interpretado - especialmente pelo sempre confiável Ralph Fiennes - "Encontro de amor" é apenas mais um drama romântico, sem nada que o diferencie de dezenas de outras produções do gênero. Frustra quem procura mais do que isso, mas agrada em cheio ao público (especialmente o feminino) com um trama ingênua e fantasiosa que mistura tudo aquilo que pode: identidades trocadas, crianças adoráveis, sofisticação e uma dupla central atraente. Com isso em mãos, a chance de erro era mínima, e não seria Wang, um cineasta sensível e atento às idiossincrasias humanas, que poria tudo a perder.
Lopez, que não é uma grande atriz, mas tem presença de cena, é linda e carismática, interpreta Marisa Ventura , uma das dezenas de camareiras de um imponente hotel de Nova York, que frequentemente passa em branco por seus sofisticados clientes - que muitas vezes nem lembram seu nome ou rosto. Criando praticamente sozinha seu filho pequeno, que tem uma curiosa admiração por grandes oradores políticos, Marisa sonha em tornar-se subgerente do hotel, como forma de levar uma vida menos sacrificante. Sua grande chance de atingir seu objetivo acontece, porém, na mesma época em que, por uma ironia do destino, ela passa a ser confundida com uma hóspede milionária justamente por Christopher Marshall (Ralph Fiennes), candidato ao Senado americano. Sem desconfiar de suas origens humildes, Marshall se sente irremediavelmente atraído por ela, que corresponde o sentimento mesmo sabendo que o romance tem data marcada para acabar.
Pontuado por uma trilha sonora que inclui duas belas canções de Norah Jones, "Encontro de amor" oferece ao espectador exatamente o que promete. Não muda a história do cinema e nem ao menos de seu gênero. Não irá para a lista dos favoritos de ninguém que leve o cinema a sério, e tampouco entrará na lista dos melhores do estilo. Mas é uma sessão da tarde competente, que utiliza de todos os clichês das comédias românticas a seu favor.
Famoso por seus clássicos adolescentes dos anos 80, como "A garota de rosa-shocking", "Gatinhas e gatões" e "Clube dos cinco", o cineasta John Hughes escreveu, no final dos anos 90, um roteiro inspirado na história real do filho do governador Nelson Rockefeller, que se casou com a camareira de um de seus vários hoteis em 1959. Adaptado para se passar na Chigado dos anos 20, o filme seria estrelado por Hilary Swank, mas conforme o tempo foi passando, as coisas iam mudando. Depois que Hughes resolveu apenas produzir, nomes como Sandra Bullock e Julia Roberts foram cotadas para o papel principal e o cineasta Wayne Wang - nascido em Hong Kong e diretor de pequenos grandes filmes como "Cortina de fumaça" e "Clube da felicidade e da sorte" - assumiu o comando do projeto. Quando o filme finalmente viu a luz dos refletores, no final de 2002, com a cantora Jennifer Lopez na liderança do elenco, pouco restava do script de Hughes, que pediu para ter seu nome removido dos créditos. Dessa vez passado na Nova York de 2001, "Encontro de amor" conquistou às plateias românticas, os fãs de J-Lo e ao estúdio, que não se decepcionou com a renda doméstica que beirou os 100 milhões de dólares de arrecadação.
No entanto, o sucesso de bilheteria tem mais ver com o poder de Lopez em atingir seu público do que com as qualidades do filme. Mesmo que seja leve, visualmente agradável e bem interpretado - especialmente pelo sempre confiável Ralph Fiennes - "Encontro de amor" é apenas mais um drama romântico, sem nada que o diferencie de dezenas de outras produções do gênero. Frustra quem procura mais do que isso, mas agrada em cheio ao público (especialmente o feminino) com um trama ingênua e fantasiosa que mistura tudo aquilo que pode: identidades trocadas, crianças adoráveis, sofisticação e uma dupla central atraente. Com isso em mãos, a chance de erro era mínima, e não seria Wang, um cineasta sensível e atento às idiossincrasias humanas, que poria tudo a perder.
Lopez, que não é uma grande atriz, mas tem presença de cena, é linda e carismática, interpreta Marisa Ventura , uma das dezenas de camareiras de um imponente hotel de Nova York, que frequentemente passa em branco por seus sofisticados clientes - que muitas vezes nem lembram seu nome ou rosto. Criando praticamente sozinha seu filho pequeno, que tem uma curiosa admiração por grandes oradores políticos, Marisa sonha em tornar-se subgerente do hotel, como forma de levar uma vida menos sacrificante. Sua grande chance de atingir seu objetivo acontece, porém, na mesma época em que, por uma ironia do destino, ela passa a ser confundida com uma hóspede milionária justamente por Christopher Marshall (Ralph Fiennes), candidato ao Senado americano. Sem desconfiar de suas origens humildes, Marshall se sente irremediavelmente atraído por ela, que corresponde o sentimento mesmo sabendo que o romance tem data marcada para acabar.
Pontuado por uma trilha sonora que inclui duas belas canções de Norah Jones, "Encontro de amor" oferece ao espectador exatamente o que promete. Não muda a história do cinema e nem ao menos de seu gênero. Não irá para a lista dos favoritos de ninguém que leve o cinema a sério, e tampouco entrará na lista dos melhores do estilo. Mas é uma sessão da tarde competente, que utiliza de todos os clichês das comédias românticas a seu favor.
terça-feira
O QUARTO DO FILHO
O QUARTO DO FILHO (La stanza del figlio, 2001, Rai Cinemafiction, 99min) Direção: Nanni Moretti. Roteiro: Nanni Moretti, Heidrun Schleef, Linda Ferri. Fotografia: Giuseppe Lanci. Montagem: Esmeralda Calabria. Música: Nicola Piovani. Figurino: Maria Rita Barbera. Direção de arte/cenários: Giancarlo Basili. Produção: Angelo Barbagallo, Federico Fabrizio, Vincenzo Galluzzo, Lorenzo Luccarini, Nanni Moretti. Elenco: Nanni Moretti, Laura Morante, Jasmine Trinca, Giuseppe Sanfelice, Stefano Accorsi. Estreia: 09/3/01
Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes
Quando um filme americano trata de perdas familiares, o público já sabe o que esperar: cenas catárticas, lágrimas em profusão e atores lutando por destaque - e quiçá uma lembrança dos membros da Academia. Quando a produção vem da Europa, porém, a coisa é bastante diferente, ainda que o tema seja o mesmo. Um exemplo claro dessa afirmação é "O quarto do filho", que saiu de Cannes em 2001 com a Palma de Ouro de Melhor Filme mesmo diferindo radicalmente das obras normalmente laureadas no festival - em outras palavras, é um drama simples e direto, sem firulas estilísticas ou arroubos artificiais de criatividade forçada. Ao investigar as consequências da morte de um adolescente em sua família, o diretor/roteirista/produtor/ator Nanni Moretti criou um singelo estudo sobre a perda que foge do dramalhão simplista e acena com um otimismo comovente.
O psicanalista Giovanni Sermonti (vivido pelo próprio Moretti) leva uma vida feliz e harmoniosa com a mulher Paola (Laura Morante) e o casal de filhos adolescentes, Irene (Jasmine Trinca) e Andrea (Giuseppe Sanfelice) até que, em um acidente de mergulho, o rapaz acaba morrendo - enquanto ele está atendendo um paciente à domicílio. A tragédia acaba empurrando-o em direção a remorsos e questionamentos, prejudicando sua carreira e seu casamento até então inabalável. Tentando lidar com a terrível perda, a família encontra um sopro de esperança quando descobre uma namorada desconhecida do rapaz.
Evitando ao máximo cenas lacrimosas, o filme de Moretti trata com elegância e discrição um tema difícil e compreensivelmente depressivo. Fugindo dos exageros que se poderia esperar de um filme italiano, ele prefere investir em cenas de impacto visual sutil, refletindo o vazio da família Sermonti através de olhares e da bela música de Nicola Piovani. Equilibrando com maestria o drama do protagonista com as consultas dos pacientes de Giovanni - incluindo um viciado em sexo interpretado por Stefano Accorsi em vias de tornar-se um dos atores mais populares do cinema italiano do início do século XXI - o roteiro deixa o espectador respirar diante de tanta dor sem nunca fugir de sua premissa central, um mérito inquestionável que fortalece o drama sem pesar a mão.
E é justamente essa a maior qualidade de "O quarto do filho": nunca pesar a mão. Apesar do assunto não ser nada agradável, Nanni Moretti consegue ser o mais leve possível, optando em mostrar como um lar devastado pela tristeza pode levantar-se e seguir adiante. Com um elenco homogêneo e uma direção firme, ele fez jus a seu prêmio em Cannes com uma obra madura e exemplar que contrapõe a felicidade talvez ignorada do cotidiano ao vazio avassalador de uma perda.
Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes
Quando um filme americano trata de perdas familiares, o público já sabe o que esperar: cenas catárticas, lágrimas em profusão e atores lutando por destaque - e quiçá uma lembrança dos membros da Academia. Quando a produção vem da Europa, porém, a coisa é bastante diferente, ainda que o tema seja o mesmo. Um exemplo claro dessa afirmação é "O quarto do filho", que saiu de Cannes em 2001 com a Palma de Ouro de Melhor Filme mesmo diferindo radicalmente das obras normalmente laureadas no festival - em outras palavras, é um drama simples e direto, sem firulas estilísticas ou arroubos artificiais de criatividade forçada. Ao investigar as consequências da morte de um adolescente em sua família, o diretor/roteirista/produtor/ator Nanni Moretti criou um singelo estudo sobre a perda que foge do dramalhão simplista e acena com um otimismo comovente.
O psicanalista Giovanni Sermonti (vivido pelo próprio Moretti) leva uma vida feliz e harmoniosa com a mulher Paola (Laura Morante) e o casal de filhos adolescentes, Irene (Jasmine Trinca) e Andrea (Giuseppe Sanfelice) até que, em um acidente de mergulho, o rapaz acaba morrendo - enquanto ele está atendendo um paciente à domicílio. A tragédia acaba empurrando-o em direção a remorsos e questionamentos, prejudicando sua carreira e seu casamento até então inabalável. Tentando lidar com a terrível perda, a família encontra um sopro de esperança quando descobre uma namorada desconhecida do rapaz.
Evitando ao máximo cenas lacrimosas, o filme de Moretti trata com elegância e discrição um tema difícil e compreensivelmente depressivo. Fugindo dos exageros que se poderia esperar de um filme italiano, ele prefere investir em cenas de impacto visual sutil, refletindo o vazio da família Sermonti através de olhares e da bela música de Nicola Piovani. Equilibrando com maestria o drama do protagonista com as consultas dos pacientes de Giovanni - incluindo um viciado em sexo interpretado por Stefano Accorsi em vias de tornar-se um dos atores mais populares do cinema italiano do início do século XXI - o roteiro deixa o espectador respirar diante de tanta dor sem nunca fugir de sua premissa central, um mérito inquestionável que fortalece o drama sem pesar a mão.
E é justamente essa a maior qualidade de "O quarto do filho": nunca pesar a mão. Apesar do assunto não ser nada agradável, Nanni Moretti consegue ser o mais leve possível, optando em mostrar como um lar devastado pela tristeza pode levantar-se e seguir adiante. Com um elenco homogêneo e uma direção firme, ele fez jus a seu prêmio em Cannes com uma obra madura e exemplar que contrapõe a felicidade talvez ignorada do cotidiano ao vazio avassalador de uma perda.
segunda-feira
UMA LIÇÃO DE AMOR
UMA LIÇÃO DE AMOR (I am Sam, 2001, New Line Cinema, 132min) Direção: Jessie Nelson. Roteiro: Jessie Nelson, Kristine Johnson. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Richard Chew. Música: John Powell. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: Aaron Osborne/Jennifer M. Gentile, Garrett Lewis. Produção executiva: Michael De Luca, Claire Rudnick Polstein, David Rubin. Produção: Marshall Herskovitz, Jessie Nelson, Richard Solomon, Edward Zwick. Elenco: Sean Penn, Michelle Pfeiffer Dakota Fanning, Dianne Wiest, Laura Dern, Richard Schiff, Doug Hutchinson. Estreia: 03/12/01
Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Sean Penn)
Em "Trovão tropical", de 2008, o ator interpretado por Ben Stiller (também diretor do filme) sofria com o fracasso de sua atuação como um jovem com problemas mentais - que ele julgava ser o caminho mais fácil para um Oscar. É difícil não pensar na comédia de Stiller quando se assiste à "Uma lição de amor", drama lacrimoso pelo qual Sean Penn - sem a menor dúvida um dos maiores atores de sua geração - foi indicado a uma estatueta da Academia. Carregando nas tintas de sua interpretação, Penn chega perto da caricatura como Sam Dawson, um homem com a idade mental de um criança de sete anos que vai aos tribunais para garantir a guarda da pequena Lucy (Dakota Fanning), de quem cuida desde seu nascimento - e que, segundo a justiça, precisa de uma família capaz de mantê-la em segurança e estabilidade financeira.
Dirigido sem o menor traço de sutileza, "Uma lição de amor" força a lágrima do espectador sem dó nem piedade, ainda que justamente o exagero de sentimentalismo possa surtir efeito contrário ao público menos propenso a manipulações emocionais. Sam, o personagem encarnado por Penn, pode até ser amoroso e dedicado à pequena Lucy (estreia da sensacional Dakota Fanning), mas, a despeito de seus bons sentimentos, é incapaz de proporcionar a ela mais do que isso. A maneira com que o roteiro conduz a situação - Sam é um homem sem defeito algum, exceto sua deficiência mental, enquanto todos os outros são poços de insensibilidade - é maniqueísta ao extremo, chegando ao cúmulo de fazer com que sua advogada, a bem-sucedida Rita Harrison (Michelle Pfeiffer, sempre linda e carismática), repense sua própria vida e sua relação com o filho pequeno. Clichês às vezes fazem bem a um filme. Uma coleção deles, portanto, enfraquece o resultado final.
Além do fato de não explicar de forma satisfatória como Sam - que é incapaz de coisas básicas do dia-a-dia - conseguiu tornar-se pai, o roteiro de "Uma lição de amor" apela constantemente para cenas lacrimosas, com golpes baixos em busca da reação desejada. Se Dakota Fanning rouba a cena com sua madura Lucy - responsável pelos raros bons momentos do filme - e Michelle Pfeiffer tem pouco a fazer com sua advogada fria transformada em um ser humano melhor pelo poder do amor, o elenco coadjuvante tenta dar dignidade a diálogos de novela das nove. Dianne Wiest, por exemplo, está soberba como sempre como a vizinha de Sam, que tem na cena de seu depoimento no tribunal uma chance de mostrar porque é uma das atrizes preferidas de Woody Allen. E Laura Dern faz o que pode para sobreviver à sua personagem, a mãe adotiva de Lucy que entra em conflito com Sam e sua advogada.
Mas não resta dúvidas de que, à parte Dakota e seu talento inverso a seu tamanho, o que existe de melhor em "Uma lição de amor" é sua trilha sonora. Composta por canções dos Beatles - ídolos do protagonista, que tem a capacidade de divagar sobre eles por horas a fio - interpretadas por artistas contemporâneos com Sheryl Crow, Rufus Weinright e Eddie Vedder, ela dá um interesse extra ao projeto, deixando as mais de duas horas de projeção menos pesadas. No entanto, o que fica é a conclusão definitiva de que Penn é muito melhor do que o filme, apesar do equívoco de sua atuação.
Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Sean Penn)
Em "Trovão tropical", de 2008, o ator interpretado por Ben Stiller (também diretor do filme) sofria com o fracasso de sua atuação como um jovem com problemas mentais - que ele julgava ser o caminho mais fácil para um Oscar. É difícil não pensar na comédia de Stiller quando se assiste à "Uma lição de amor", drama lacrimoso pelo qual Sean Penn - sem a menor dúvida um dos maiores atores de sua geração - foi indicado a uma estatueta da Academia. Carregando nas tintas de sua interpretação, Penn chega perto da caricatura como Sam Dawson, um homem com a idade mental de um criança de sete anos que vai aos tribunais para garantir a guarda da pequena Lucy (Dakota Fanning), de quem cuida desde seu nascimento - e que, segundo a justiça, precisa de uma família capaz de mantê-la em segurança e estabilidade financeira.
Dirigido sem o menor traço de sutileza, "Uma lição de amor" força a lágrima do espectador sem dó nem piedade, ainda que justamente o exagero de sentimentalismo possa surtir efeito contrário ao público menos propenso a manipulações emocionais. Sam, o personagem encarnado por Penn, pode até ser amoroso e dedicado à pequena Lucy (estreia da sensacional Dakota Fanning), mas, a despeito de seus bons sentimentos, é incapaz de proporcionar a ela mais do que isso. A maneira com que o roteiro conduz a situação - Sam é um homem sem defeito algum, exceto sua deficiência mental, enquanto todos os outros são poços de insensibilidade - é maniqueísta ao extremo, chegando ao cúmulo de fazer com que sua advogada, a bem-sucedida Rita Harrison (Michelle Pfeiffer, sempre linda e carismática), repense sua própria vida e sua relação com o filho pequeno. Clichês às vezes fazem bem a um filme. Uma coleção deles, portanto, enfraquece o resultado final.
Além do fato de não explicar de forma satisfatória como Sam - que é incapaz de coisas básicas do dia-a-dia - conseguiu tornar-se pai, o roteiro de "Uma lição de amor" apela constantemente para cenas lacrimosas, com golpes baixos em busca da reação desejada. Se Dakota Fanning rouba a cena com sua madura Lucy - responsável pelos raros bons momentos do filme - e Michelle Pfeiffer tem pouco a fazer com sua advogada fria transformada em um ser humano melhor pelo poder do amor, o elenco coadjuvante tenta dar dignidade a diálogos de novela das nove. Dianne Wiest, por exemplo, está soberba como sempre como a vizinha de Sam, que tem na cena de seu depoimento no tribunal uma chance de mostrar porque é uma das atrizes preferidas de Woody Allen. E Laura Dern faz o que pode para sobreviver à sua personagem, a mãe adotiva de Lucy que entra em conflito com Sam e sua advogada.
Mas não resta dúvidas de que, à parte Dakota e seu talento inverso a seu tamanho, o que existe de melhor em "Uma lição de amor" é sua trilha sonora. Composta por canções dos Beatles - ídolos do protagonista, que tem a capacidade de divagar sobre eles por horas a fio - interpretadas por artistas contemporâneos com Sheryl Crow, Rufus Weinright e Eddie Vedder, ela dá um interesse extra ao projeto, deixando as mais de duas horas de projeção menos pesadas. No entanto, o que fica é a conclusão definitiva de que Penn é muito melhor do que o filme, apesar do equívoco de sua atuação.
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