terça-feira

BAR DOCE LAR


BAR DOCE LAR (The tender bar, 2021, Amazon Studios, 106min) Direção: George Clooney. Roteiro: William Monahan, livro de J.R. Moehringer. Fotografia: Martin Ruhe. Montagem: Tanya M. Swerling. Música: Dara Taylor. Figurino: Jenny Eagan. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Melissa M. Levander. Produção executiva: Barbara A. Hall, Ibrahim Hamdan, J. R. Moehringer. Produção: George Clooney, Grant Heslov, Ted Hope. Elenco: Tye Sheridan, Ben Affleck, Lily Rabe, Christopher Lloyd, Daniel Ranieri, Briana Middleton. Estreia: 10/10/2021 (BFI London Festival)

Não deixa de ser triste perceber que George Clooney, anteriormente conhecido por escolher projetos de interesses político e social para sua carreira como cineasta, tenha entrado em um período pouco relevante. Filmes como "Confissões de uma mente perigosa" (2002), "Boa noite, e boa sorte" (2005) e "Tudo pelo poder" (2011) parecem ter ficado para trás, diante de produções esquecíveis ou simplesmente medíocres, como "Caçadores de obras-primas" (2014) e "Suburbicon: bem-vindos ao paraíso" (2017). Infelizmente seu projeto mais recente, "Bar doce lar", volta a não entusiasmar, apesar de algumas qualidades perceptíveis. Baseado em um livro de memórias de J.R. Moehringer, o filme é apenas mais uma história pouco original de amadurecimento, prejudicada por personagens pouco interessantes e por um roteiro irritantemente convencional - uma surpresa quando se sabe que seu autor é William Monahan, vencedor do Oscar por "Os infiltrados" (2006), uma obra-prima de estrutura e concisão.

O filme de Clooney conta a história de J.R., desde sua infância (quando é interpretado pelo encantador Daniel Ranieri) até a juventude (quando passa a ser vivido pelo promissor Tye Sheridan). Filho de uma batalhadora mãe solteira (Lily Rabe) e um pai radialista que só dá as caras esporadicamente e não faz a menor questão de um relacionamento mais profundo com ele, o menino não demora a estabelecer um vínculo emocional com o tio, Charlie (Ben Affleck), dono de um bar que assume, sem hesitar, a figura paterna para o sobrinho. É com Charlie que o pequeno J.R. aprende valores, dicas de sobrevivência emocional, macetes sociais e é a partir de suas conversas que surge nele o amor pelos livros e o desejo de tornar-se escritor. Sobrevivendo em meio a um quase caos - a casa do avô é frequentemente povoada por inúmeros tios e primos barulhentos -, J.R. cresce e, em busca de realizar seu sonho de escrever - e o de sua mãe, de que ele faça uma faculdade -, descobre um mundo que nem sempre é hospitaleiro e gentil. Apaixonado por uma colega, Sidney (Briana Middleton), ele entra também no mundo dos amores complicados.

 

Sem apresentar nada do que já tenha sido visto em vários outros filmes do gênero, "Bar doce lar" peca por sua narrativa morna e sem grandes momentos memoráveis. A cada cena um pouco mais interessante - o avô do menino salvando a comemoração de Dia dos Pais na escola do neto, o confronto de J.R. com os esnobes pais de Sidney, a melancólica espera do menino por um pai que nunca chega para levá-lo a um jogo - segue-se inúmeras outras repetitivas e que não despertam no espectador nada além de uma sensação de dèjà-vu constante. Para isso contribui muito o fato de que a história de Moheringer não é, a rigor, nem um pouco empolgante, e seu personagem principal tampouco cativa por uma personalidade marcante, apresentando, na maior parte do tempo, uma passividade que torna quase impossível ao público importar-se de verdade com seu destino. Nem mesmo o talento do jovem Tye Sheridan consegue dar profundidade suficiente para disfarçar a fragilidade da estrutura do roteiro de Monahan e a direção mecânica de Clooney. Quem de certa forma se destaca é Ben Affleck, que mesmo sem apresentar nada de novo em sua atuação, recebeu indicações ao Golden Globe e ao SAG Awards na categoria de ator coadjuvante - apesar de ser o primeiro nome nos créditos.

Dizer que "Bar doce lar" é um filme ruim é exagerar, já que tem uma produção cuidadosa, uma trilha sonora deliciosa e um elenco que se esforça ao máximo para extrair o melhor de cada momento. Porém, com o currículo acumulado por George Clooney atrás das câmeras, era de se esperar algo menos óbvio e tão pouco ambicioso. Falta de ambição nem sempre é defeito - muitas vezes, inclusive, pode ser uma grande qualidade -, mas dessa vez tal característica deixa no ar a sensação de oportunidade perdida: o cineasta poderia ter assinado uma produção emocional e nostálgica mas ficou muito aquém de suas expectativas. O resultado é uma produção correta mas passa longe de atingir o mesmo nível dos melhores filmes do diretor. Uma pena!

segunda-feira

PEARL

 

PEARL (Pearl, 2022, A24, 103min) Direção: Ti West. Roteiro: Ti West, Mia Goth, personagens criados por Ti West. Fotografia: Elliot Rockett. Montagem: Ti West. Música: Tyler Bates, Tim Williams. Figurino: Malgosia Turzanska. Direção de arte/cenários: Tom Hammock/Thomas Salpietro. Produção executiva: Kim Cudi, Dennis Cummings, Mia Goth, Ashley Levinson, Sam Levinson, Karina Manashil, Peter Phok. Produção: Jacob Jaffke, Kevin Turen, Ti West. Elenco: Mia Goth, David Corenswet, Tandi Wright, Matthew Sutherland, Emma Jenkins-Purro, Alistair Sewell. Estreia: 03/9/2022 (Festival de Veneza)

Não é nenhuma novidade o fato de filmes de sucesso darem origem a continuações - mesmo quando a fonte aparentemente secou. O caso de "Pearl" é diferente. Não apenas é uma prequel - tendência que vem se firmando há alguns anos como forma de expandir o universo de deterrminadas produções  -, mas é, também, uma prequel realizada concomitantemente com seu filme original - o terror "X: A marca da morte" - e uma aposta arriscada da produtora A24, que deu sinal verde ao projeto antes mesmo de saber do resultado comercial e crítico do primeiro filme. Filmado em segredo enquanto o diretor Ti West também conduzia "X" (com a mesma atriz, Mia Goth, em papel duplo), "Pearl" foi lançado seis meses depois da estreia de seu original e, para surpresa de todos, agradou ainda mais ao evitar o rótulo de slasher e, aprofundando a personalidade doentia de sua protagonista, atingir bons momentos de um suspense psicológico, valorizado pela presença da excepcional Goth , que não apenas coassinou o roteiro com West mas também descolou um crédito como produtora executiva. Neta da atriz brasileira Maria Gladys, Goth é uma revelação, que faz do filme uma gratíssima surpresa no gênero justamente no momento em que ele começa a se reinventar - em boa parte graças a produções da mesma A24.

Se "X já demonstrava acima de qualquer dúvida o talento de Ti West em manipular as regras dos filmes de terror a seu favor - enfatizando suas qualidades e disfarçando seus pecados com um visual atraente e referências que soam orgânicas e não apenas exibicionismo barato -, "Pearl" consegue ir ainda mais longe, ao oferecer requintes de produção surpreendentes em relação ao orçamento e um roteiro que dribla os clichês, fundamenta boa parte dos acontecimentos do primeiro filme (que ocorre décadas mais tarde) e ainda por cima homenageia o cinema em si. Com citações (óbvias ou nem tanto) a produções como "O que terá acontecido a Baby Jane?" (1962), "O mágico de Oz" (1939), musicais clássicos e até ao quase obscuro "A free ride" (1915) - considerado uma das primeiras produções pornográficas da história e cuja autoria ainda causa polêmicas -, West constrói, de maneira gradual e inteligente, uma das personalidades mais sombrias dos últimos anos, a da aparentemente doce Pearl - que, por trás da aparência dócil e submissa, esconde um monstro prestes a destroçar qualquer vestígio de civilidade.


 

A trama se passa em 1918, em uma fazenda no interior do Texas - a mesma fazenda que irá servir de cenário para os atores que a alugam em "X": é nessa fazenda, afastada da civilização, que mora a jovem Pearl (Mia Goth) e seus pais, imigrantes alemães com quem mantém uma relação conturbada. Seu pai vive em uma cadeira de rodas e sua mãe, rígida e pouco afeita a carinhos, tampouco lhe oferece qualquer tipo de apoio emocional. Casada com Howard, um soldado que está no front da I Guerra, Pearl esconde da família o seu sonho de tornar-se uma estrela de cinema - desejo que se torna ainda maior quando ela conhece o jovem projecionista do cinema local, que a apresenta ainda a filmes eróticos e à possibilidade de tentar uma carreira na Europa. O renascimento de tal sonho, no entanto, acaba se tornado um problema quando Pearl esbarra em sua triste realidade doméstica. Sua solução para isso acaba por levá-la a atos de violência, que fogem totalmente de controle quando ela percebe que talvez não tenha talento suficiente para fugir de sua massacrante rotina familiar.

Sem abrir mão da violência que se poderia esperar de um filme do gênero, Ti West fez de "Pearl" uma joia rara dentro do universo do cinema de terror. Suas inovações não se limitam apenas à concepção visual - cores fortes, reconstituição de época cuidadosa -, mas principalmente a sua opção em fazer de sua protagonista não apenas uma potencial assassina, mas uma mulher mentalmente torturada por sonhos impossíveis, uma rotina massacrante e, logicamente, distúrbios psicológicos à espera de uma catarse. Nesse ponto é a atuação avassaladora de Mia Goth o grande trunfo do filme: com expressões faciais marcantes - que poderiam facilmente descambar para a caricatura, em mãos menos competentes - e uma construção fascinante de corpo, Goth simplesmente engole tudo a seu redor e é responsável por fazer com que "Pearl" escape facilmente das limitações de seu gênero e se inscreva como um dos grandes pequenos filmes dos últimos anos. Fazendo jus a seu título, "Pearl" é, sem favor, uma pérola a ser apreciada por qualquer fã de bom cinema.

sexta-feira

INGRESSO PARA O PARAÍSO

 


INGRESSO PARA O PARAÍSO (Ticket to paradise, 2022, Universal Pictures/Working Title Films, 104min) Direção: Ol Parker. Roteiro: Ol Parker, Daniel Pipski. Fotografia: Ole Bratt Birkeland. Montagem: Peter Lambert. Música: Lorne Balfe. Figurino: Lizzy Gardiner. Direção de arte/cenários: Owen Patterson/Nikki Barrett. Produção executiva: George Clooney, Jennifer Cornwell, Marisa Yeres Gill, Lisa Gillan, Amelia Granger, Grant Heslov, Rebecca Miller, Julia Roberts, Sarah-Jane Robinson, Nicholas Simpson, Sam Thompson. Produção: Deborah Balderstone, Tim Bevan, Eric Fellner, Sarah Harvey. Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Kaitlyn Dever, Billie Lourd, Maxime Bouttier. Estreia: 08/9/2022

Poucas pessoas no mundo perderiam a chance de viajar a uma praia paradisíaca em companhia de um dos melhores amigos e ainda ganhar uma fortuna para isso. E dentre essas pessoas não se incluem Julia Roberts e George Clooney: dois dos maiores astros de Hollywood, ricos, bonitos, famosos e bem-sucedidos (além de amigos e parceiros profissionais), eles voltam a se encontrar na frente das câmeras (e atrás também, já que assinam como produtores executivos) na comédia romântica "Ingresso para o paraíso" uma bobagem simpática e fotogênica que pouco faz por suas carreiras. Longe de ser um desastre completo mas tampouco memorável, o filme de Ol Parker - cujo currículo ainda pequeno inclui "Mamma Mia! Lá vamos nós de novo" (2018) e outras produções menores - usa e abusa do carisma de seus protagonistas e das belas paisagens naturais da Austrália (posando de Bali) para contar uma história sem maiores novidades, mas que pode agradar aos menos exigentes e os cinéfilos que nao vivem sem um romance  fictício.

Previsível sucesso de bilheteria - mais de 160 milhões de dólares arrecadados no mercado internacional -, "Ingresso para o paraíso" foi disputado por várias plataformas de streaming ainda em sua fase de pré-produção: entusiasmadas com a reunião de Roberts e Clooney, todas elas desejavam a chance de adicionar mais um êxito em seu catálogo, mas, acertadamente, a Working Title Films preferiu um lançamento em salas de exibição, tentando uma retomada pós-Covid-19, e a distribuição nos cinemas ficou a cargo da Universal Pictures. Deu certo: atingindo em cheio seu público-alvo, o filme não decepcionou em termos comerciais, ainda que não tenha feito o barulho esperado junto às demais plateias. Justificável. Apesar de seus protagonistas exalarem o charme que lhes é característico e de uma ou outra boa piada, o trabalho de Parker soa como mais do mesmo - mas, no final das contas, isso não chega a ser novidade quando se trata de comédias românticas, que parece ter, entre suas regras de ouro, nunca mexer em time que está ganhando. Em outras palavras, "Ingresso para o paraíso" é um filme ideal para quem procura uma produção da qual se é possível adivinhar o final desde a primeira cena - ou até mesmo desde o cartaz.

 

Casados graças aos arroubos da juventude, David (George Clooney) e Georgia Cotton (Julia Roberts) ficaram juntos apenas cinco anos, tempo suficiente para descobrirem uma imensa incompatibilidade de gênios e porem no mundo uma única filha, Lily (Kaitlyn Denver). Adulta, Lily é a responsável por reunir seus pais em ocasiões especiais, como sua formatura - e por impedir que a animosidade do ex-casal atrapalhe qualquer evento em que se encontrem juntos. Depois de um período de férias antes de iniciar uma carreira de advogada, porém, Lily surpreende os pais ao anunciar que está perdidamente apaixonada e irá se casar. Se a notícia já seria um choque normalmente, os detalhes são ainda mais perturbadores: sua jovem e bela filha irá abandonar tudo para ficar em Bali com o marido nativo, Gede (Maxime Bouttier). Temerosos que a filha repita o maior erro de suas vidas, os ex-casados deixam de lado suas diferenças e partem para a Indonésia com o objetivo de impedir o casamento - mas a magia da beleza local resolve agir e fazê-los rever seus sentimentos.

Avesso a comédias românticas desde que fez "Um dia especial" (1996) - ao lado de Michelle Pfeiffer -, George Clooney voltou ao gênero com a certeza de que seu carisma (somado ao sorriso radiante de Julia Roberts) seria o suficiente para garantir um belo retorno. Acertou em termos. "Ingresso para o paraíso" insiste em piadas sobre diferenças culturais, desencontros amorosos, diálogos sarcásticos e um visual de tirar o fôlego, como forma de disfarçar a fragilidade de seu roteiro. Algumas vezes tais artifícios funcionam, principalmente pelo talento dos dois astros, mas frequentemente fica a impressão de que o elenco se divertiu mais fazendo o filme do que a plateia quando o assiste. Talvez um pouco longo demais - uma edição mais enxuta provavelmente deixaria o ritmo menos truncado e a trama menos repetitiva -, o filme de Ol Parker segura bem uma sessão da tarde em um dia chuvoso, mas dificilmente será lembrado como um destaque na carreira de seus atores - ambos em momentos da carreira em que não precisam mais provar nada a ninguém. Divertido mas sem o brilhantismo das melhores comédias do gênero, "Ingresso para o paraíso" é um filme para fãs e ocasionais cinéfilos românticos.

quinta-feira

MEU FILHO

 


MEU FILHO (My son, 2021, Une Hirondelle Productions/Wild Bunch International/Sixteen Films, 95min) Direção: Christian Carion. Roteiro: Christian Carion, Laure Irrmann. Fotografia: Eric Dumont. Montagem: Loic Lallemand. Música: Laurent Perez Del Mar. Figurino: Carole Miller. Produção executiva: Adam Fogelson, John Friedberg, Robert Simonds, Kimberly Fox. Produção: Marc Butan, Christian Carion, Brahim Chioua, Noémie Devide, Marc Gabizon, Laure Irrmann, Vicent Maraval, Rebecca O'Brien. Elenco: James McAvoy, Claire Foy, Tom Cullen, Gary Lewis. Estreia: 15/9/2021 (Internet)

Em 2017, o cineasta Christian Carion surpreendeu o público francês com "Meu filho", uma produção que, apesar da sinopse não exatamente original, fugia da narrativa tradicional ao negar a seu ator principal, Guillaume Canet, o roteiro que conduzia a trama. As reações de Canet ao que era proposto pelos colegas de cena é que levavam a história adiante - e transmitiam a sensação de desorientação necessária à construção do suspense. Quatro anos mais tarde, ciente das limitações que um filme não falado em inglês encontra no mercado internacional, Carion envolveu-se pessoalmente no remake de sua obra - com um ator britânico (James McAvoy) e uma mudança de cenário (da França para as montanhas escocesas) - e, com o máximo de fidelidade possível, fez de sua refilmagem um produto que, se não chega a revolucionar o gênero, ao menos envolve o espectador em um espiral de intrigas e mistérios que vai se desenrolando aos poucos até o final que infelizmente não consegue escapar do clichê.

A trama já começa com a chegada de Edmond Murray (James McAvoy) às buscas de seu filho de sete anos, desaparecido de um acampamento nas montanhas escocesas. Chamado pela ex-mulher, Joan (Claire Foy) - de quem está separado há alguns anos e que já está em uma nova relação -, Edmond não consegue deixar de sentir-se culpado pelo fato de ser um pai ausente, em constantes viagens a trabalho, inclusive por países em situações de conflito. Questionado pela polícia, que suspeita de um sequestro com vítima escolhida a dedo, Edmond não se conforma em apenas fazer parte das equipes que procuram o menino pelas matas. Assumindo uma investigação própria e com métodos não ortodoxos, ele se depara com pistas falsas, suspeitos bastante dúbios e até com a possibilidade de ter responsabilidade indireta com o desaparecimento. A cada passo que dá adiante, porém, o tempo vai se esgotando - e o final de sua procura vai ficando com chances cada vez maiores de não ser bem-sucedida. 

Avassalador no papel principal, James McAvoy demonstra, mais uma vez, sua capacidade aparentemente infinita de se reinventar nas telas - vale lembrar que o ator inglês já deu vida a um psicopata com problemas mentais ("Fragmentado"), um soldado da I Guerra tentando retomar a vida depois de uma acusação injusta de assédio ("Desejo e reparação"), um inexperiente médico que se torna o homem de confiança do ditador Idi Amin ("O último rei da Escócia") e o jovem Professor Xavier (na segunda trilogia dos X-Men), apenas para citar alguns. É ele, com sua garra e dedicação, que faz com que o filme de Carion saia da vala comum dos filmes de ação para se tornar um passatempo bastante digno - ao menos em seus dois primeiros terços. É nessa primeira parte que a ideia do cineasta em esconder de seu ator central o roteiro faz toda a diferença: conforme vai tomando conhecimento de fatos que cercam o possível crime, Edmond vai sendo surpreendido com informações novas, que mudam o rumo das investigações e de sua própria vida - e é o mesmo que acontece com McAvoy, que vai descobrindo a trama através do que é lançado diante de seus olhos. Da tristeza à preocupação, da raiva à coragem, do desespero à desconfiança de todos a seu redor, o astro tira de letra todos os desafios impostos pelo diretor e vai chegando, junto com o público, a um desfecho que, esse sim, deixa no ar uma sensação de anti-clímax.

Depois de dois terços de uma ação aflitiva e de uma tensão crescente, que vai envolvendo o espectador de maneira gradual, "Meu filho" chega a seu último ato caindo na armadilha fácil do exército de um homem só e abandonando o tom de suspense psicológico que vinha adotando até então. A resolução do mistério - preguiçosa e clichê - só serve para justificar um embate entre Edmond e seus algozes, que, é preciso reconhecer, fotografado com elegância e inteligência pelas câmeras de Eric Dumont, que com uma textura quase palpável, enfatiza o tom sombrio e claustrofóbico da trama e valoriza a construção metódica de uma história desesperadora para qualquer pai. Mesmo não sendo um filme completamente memorável - exceção feita ao trabalho de McAvoy, brilhante do início ao fim -, "Meu filho" é o programa ideal para os fãs de suspense e ação. Não muda a vida de ninguém, mas tampouco é uma perda total de tempo.

quarta-feira

O CONTADOR DE CARTAS

 


O CONTADOR DE CARTAS (The card counter, 2021, Focus Features, 111min) Direção e roteiro: Paul Schrader. Fotografia: Alexander Dynan. Montagem: Benjamin Rodriguez Jr.. Música: Robert Levon Been, Giancarlo Vulcano. Figurino: Lisa Madonna. Direção de arte/cenários: Ashley Fenton/Mary Goodson. Produção executiva: Carte Blanche, Catherine Boily, Tiffany Boyle, Lee Broda, Philip H. Burgin, Anders Erdén, Santosh Govindaraju, Patrick Hibler, Ruben Islas, Nadine Luque, Martin McCabe, Joel Michaely, Kathryn Moseley, Patrick Muldoon, Mitch Oliver, William Olsson, Stanley Preschutti, Elsa Ramo, Jeff Rice, Jason Rose, Martin Scorsese, Mick Southworth, Kyle Stroud, James Swarbrick, Elton Tsang, Ken Whitney, Liz Whitney. Produção: Lauren Mann, Braxton Pope, David M. Wulf. Elenco: Oscar Isaac, Tye Sheridan, Willem Dafoe, Tiffany Haddish, Alexander Babara. Estreia: 02/9/2021 (Festival de Veneza)

Há mais em comum entre Travis Bickle - vivido por Robert DeNiro em "Taxi driver" (1976) -, o Reverendo Ernst Toller - interpretado por Ethan Hawke em "Fé corrompida (2017) - e William Tell, o protagonista de "O contador de cartas", além do fato de terem sido todos criados pelo roteirista Paul Schrader. Solitários, torturados psicologicamente e à beira de um iminente ataque de nervos - que pode explodir como um surto de violência -, eles formam, a seu modo, um grupo de protagonistas quase silenciosos que habitam um universo particular, cercado por uma constante tensão e pela expectativa de tragédias. E Tell, interpretado por Oscar Isaac, se não flerta diretamente com o perigo da noite nova-iorquina ou a pressão dos dogmas religiosos, precisa lidar com os próprios demônios, um passado traumático e uma inesperada relação que pode lhe servir como caminho para a redenção.

Tell é, como deixa bem claro o título do filme, um contador de cartas, ou seja, um jogador que vai de cassino em cassino ganhando dinheiro no blackjack graças a seu talento de calcular, na hora da partida, as possibilidades numéricas do jogo. Recém saído de uma pena de oito anos na prisão - onde desenvolveu seu talento -, ele leva uma vida discreta e quase monástica, evitando apostar alto para fugir dos radares. Sua existência praticamente invisível sofre uma transformação, porém, quando duas pessoas surgem em seu caminho com intenções bastante diversas. Primeiro, La Linda (Tiffany Hadish), que trabalha para um grupo de investidores que lhe oferece patrocínio em suas aventuras nos jogos - em troca de uma comissão. Depois, é o jovem Circk Baufort (Tye Sheridan, em papel herdado de Shia LaBeouf), que se revela filho de um antigo colega seu da época em que treinavam métodos de tortura sob as ordens de um cruel instrutor: Circk quer vingar-se de tal criminoso - agora um bem-sucedido empresário de nome John Gordo (Willem Dafoe) - por ter destruído sua família, mas Tell prefere oferecer ao rapaz uma viagem por cassinos do país como forma de lhe fazer mudar de ideia. Tal situação o aproxima não apenas de seu passado, mas também de uma chance de deixar para trás uma vida de violência e truculência.

Filmado em um período de apenas vinte dias - sem contar a pausa imposta pela contaminação por Covid-19 de um membro da equipe - e frequentemente utilizando-se apenas de um ou dois takes por cena, "O contador de cartas" é uma produção econômica por vários motivos além do financeiro. Com uma atuação minimalista, Oscar Isaac constrói seu William Tell com total parcimônia de recursos, mas nunca de excelência: quieto, discreto, misterioso, Tell só aos poucos se permite revelar seus reais sentimentos - e mesmo assim de forma a não deixar que eles ultrapassem o limite autoimposto. Suas relações - com Circk, com La Linda, com Gordo - são forjadas a sofrimento e angústias que ele só desabafa em seus diários, uma espécie de confessor que não o julga ou critica. Em um desempenho exemplar (mais um em uma carreira em franca ascensão), Isaac ousa criar um protagonista que não busca a simpatia incondicional do espectador - e para isso conta com uma edição propositalmente truncada, efeitos de fotografia bastante eficientes e um roteiro quase incômodo de Schrader, um cineasta cuja visão de mundo não pode ser considerada exatamente otimista - e cujo comportamento frequentemente agressivo chegou a preocupar a Focus Features, distribuidora do filme, que pediu a ele que se afastasse das redes sociais durante o período de lançamento para não prejudicar a repercussão da produção.

Considerado pelo ex-presidente norte-americano Barack Obama como um de seus filmes preferidos da temporada 2021, "O contador de cartas" é, também, a definição perfeita de uma produção independente. Com nada menos que 20 produtores executivos creditados (incluindo Martin Scorsese, parceiro de Schrader em quatro oportunidades), o filme ganha em qualidade justamente por essa liberdade. Sem precisar se ater às amarras de uma produção comercial de um grande estúdio, Paul Schrader pode exercitar suas idiossincrasias e seu estilo seco, em uma narrativa sofisticada e adulta que acerta em não subestimar a inteligência do espectador e evitar a violência explícita: ao contrário do clímax sangrento de "Taxi driver", o cineasta dessa vez opta por sugerir mais do que mostrar. Pode soar um tanto lento para quem busca um filme de ação, mas aqueles que comprarem seu estilo elegante e sutil podem ser positivamente surpreendidos.

terça-feira

NÓS QUE NOS AMÁVAMOS TANTO


NÓS QUE NOS AMÁVAMOS TANTO  (C'eravamo tanto amati, 1974, La Deantir, 124min) Direção: Ettore Scola. Roteiro: Ettore Scola, Agenore Incrocci, Furio Scarpelli. Fotografia: Claudio Cirillo. Montagem: Raimondo Crociani. Música: Armando Trovajoli. Figurino: Luciano Ricceri. Direção de arte/cenários: Luciano Ricceri. Produção: Pio Angeletti, Adriano de Micheli. Elenco: Nino Manfredi, Vittorio Gassman, Stefania Sandrelli, Stefano Satta Flores. Estreia: 21/12/74

Na vasta e preciosa filmografia do italiano Ettore Scola, o poético e melancólico "Nós que nos amávamos tanto" tem um lugar todo especial. Uma homenagem à amizade, ao amor, ao tempo e ao cinema, o filme, lançado em 1974 - antes, portanto, dos clássicos "Feios, sujos e malvados" (1975) e "Um dia muito especial" (1977) - se mantém como uma aula de narrativa, inserindo organicamente à trajetória de três amigos apaixonados pela mesma mulher, um estudo sobre a sociedade italiana pós-guerra e as lutas sociais e culturais que perpassaram o país por trinta anos. Sem deixar de lado o viés político característico de sua obra, Scola conta uma das histórias mais fascinantes de sua carreira, valorizada por um elenco sublime, um roteiro preciso e uma edição primorosa - tanto na versão original quanto na redução em doze minutos lançada internacionalmente.

O filme é, na verdade, um longo flashback, como mostra a primeira sequência, que voltará nos minutos finais para encerrar a longa viagem de Scola pelos caminhos da memória. Os três personagens centrais, Antonio (Nino Manfredi), Gianni (Vittorio Gassman) e Nicola (Stefano Satta Flores), se conhecem durante a II Guerra e se tornam amigos inseparáveis. Com o final do conflito, todos tentam se encaixar na rotina como civis: Gianni começa uma carreira de advogado, Nicola se casa e volta a lecionar em uma escola do interior e Antonio inicia uma carreira como enfermeiro em um hospital de Roma. É Antonio quem primeiro conhece Luciana (Stefania Sandrelli) e se apaixona, sem perceber que a bela jovem caiu de amores por caiu de amores por Gianni, com quem inicia um romance. A partir de então, como um pomo da discórdia, Luciana, mesmo involuntariamente, será a causa de todos os conflitos entre os três amigos. Nicola, depois de separado e tentando trabalhar como crítico de cinema, também não resiste a seus encantos durante o tempo em que ela tenta a sorte como atriz. E enquanto Gianni se deixa corromper pelo capitalismo que sempre rejeitou na juventude - o que inclui um casamento por conveniência - o grupo vê passar diante de seus olhos uma série inexorável de transformações sociais. Apenas Antonio - ironicamente o responsável pela presença de Luciana entre eles - é que parece não conseguir chamar sua atenção em termos românticos.

 

O brilhante roteiro de "Nós que nos amávamos tanto" - escrito pelo mesmo trio de autores de "Ciúme à italiana" (1970), do mesmo diretor - não conta apenas belas histórias de amor (entre os amigos, entre amantes apaixonados, entre cidadãos e seu país), mas também as utiliza como pretexto para desfilar, na tela, sentimentos que remetem diretamente à reconstrução da Itália depois da II Guerra Mundial. Estão ali, de uma forma ou de outra, o nascimento da consciência política, a desilusão advinda dela, a busca por uma cultura própria e socialmente relevante, o recrudescimento do abismo social. Politicamente engajado, Scola não hesita em fazer de seus protagonistas homens comuns que, a exemplo de Gianni, nem sempre são capazes de resistir às tentações, sejam elas materiais ou emocionais - mas cujas complexidades os afastam de qualquer maniqueísmo. Nicola, por exemplo, é um cidadão comum, apaixonado por cinema e que luta para ascender socialmente através do seu trabalho e de sua convicção de que a arte é salvadora e crucial - uma discussão sobre o belo "Ladrões de bicicleta" (1948) é o detonador de uma crise profissional que irá ecoar para sempre em sua vida - a Antonio batalha arduamente na área da saúde, como forma de ajudar a população - o que o aproxima, a princípio, de Luciana. E Luciana, que sonha em ser atriz, é o ideal feminino de todos eles, apesar de, tristemente, nem sempre perceber que seus companheiros vivem a catar a poesia que entorna no chão.

Scola é um apaixonado por cinema, e a sétima arte é, provavelmente, o quinto personagem mais importante de "Nós que nos amávamos tanto". Não é apenas a citação direta ao clássico de Vittorio De Sica que empurra Nicola em direção a seu destino: com citações maiores ou menores a obras de Antonioni e Rossellini, o filme delicia a plateia com a recriação de uma cena antológica de "A doce vida" (1960), de Federico Fellini, com direito às luxuosas participações do cineasta e de seu ator preferido, Marcello Mastroianni, vivendo eles mesmo durante a produção do clássico italiano - da qual Luciana participa como extra. E Luciana é também a protagonista de uma sequência sublime, quando se esconde em uma máquina de fotografias instantâneas e, ao sair, deixa uma série de imagens que a mostram chorando copiosamente depois de uma das várias situações complicadas das quais participa. É como se o diretor lembrasse ao público que é disso que a vida - e seu filme - se trata: de momentos fugazes que ficam para sempre na memória.

"Nós que nos amávamos tanto" é uma obra-prima do cinema europeu. Como toda boa produção italiana, não deixa de apelar, vez ou outra, ao sentimentalismo mediterrâneo que a tantos agrada - e a outros aborrece. Mas é, sem sombra de dúvida, um filme para ver e rever inúmeras vezes. E se emocionar sempre.

 

segunda-feira

VIAGENS ALUCINANTES

 


VIAGENS ALUCINANTES (Altered states, 1980, Warner Bros, 102min) Direção: Ken Russell. Roteiro: Paddy Chayefsky (como Sidney Aaron), romance de sua autoria. Fotografia: Jordan Cronenweth. Montagem: Eric Jenkins. Música: John Corigliano. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Richard McDonald/Thomas Roysden. Produção executiva: Daniel Melnick. Produção: Howard Gottfried. Elenco: William Hurt, Bob Balaban, Blair Brown, Charles Haid, Drew Barrymore. Estreia: 25/12/80

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Som

Só mesmo quem não conhecia a obra pregressa do cineasta britânico Ken Russell poderia esperar que seu primeiro filme em Hollywood poderia ser algo diferente de "Viagens alucinantes": baseado em romance de Paddy Chayefsky publicado em 1978, sua estreia no cinema norte-americano é um mergulho sem freios em experiências lisérgicas, obsessão e, surpreendentemente, uma história de amor - que muitos interpretaram com uma releitura do mito de Orfeu e Eurídice, uma atualização de Dr. Jekyll e Mr. Hyde ou até com intenções religiosas. O fato é que, independente de qualquer ponto de vista, o filme fracassou nas bilheterias - nenhum choque, haja visto seu tema e o nome de Russell nos créditos - e, com o tempo, tornou-se uma espécie de cult movie, valorizado pela presença de William Hurt (em seu primeiro trabalho no cinema) e pela coragem do cineasta em explorar, com um visual exuberante e incômodo, um assunto que nem as mais radicais produções de ficção científica ousaram.

O roteiro - adaptado pelo próprio Chayefsky, que renegou o resultado final apesar de sua fidelidade ao material original - não era exatamente do agrado de Ken Russell, que embarcou no projeto após a desistência de Arthur Penn. Segundo Russell, o script era pesado, pretensioso e rebuscado demais, e o trabalho entre os dois profissionais esteve longe do ideal durante as filmagens, a ponto de o roteirista ser banido do set e ter tentado a demissão do diretor. Quando Chayefsky preferiu desligar-se do projeto (e assinar o roteiro com o pseudônimo de Sidney Aaron), o filme parecia já estar condenado, e o péssimo resultado nas bilheterias ajudou a relegar Ken Russell (que, segundo dizem, passou boa parte da produção sob o efeito de álcool) a uma espécie de limbo na indústria hollywoodiana. A morte de Chayefsky - que ganhou um Oscar pelo roteiro de "Hospital" (1971) -, poucos meses da estreia (e do fracasso) de "Viagens alucinantes" também não colaborou para o histórico do filme, apesar dos elogios da revista Time, que o elegeu um dos dez melhores do ano, e das duas indicações (técnicas) ao Oscar.


 

A trama concebida por Chayefsky já é, em si, bastante ousada: seu protagonista é o cientista e professor de psicologia Edward Jessup (William Hurt), um profissional brilhante mas pouco afeito às convenções impostas pela Medicina tradicional. Ambicioso em suas pesquisas alucinógenas, ele resolve, à revelia de seus superiores, fazer de si mesmo uma cobaia no uso de drogas em uma câmara de isolamento. Logo no começo ele consegue atingir regiões profundas da mente. Anos depois, já separado da também cientista Emily (Blair Brown) - que não consegue lidar com a obsessão do marido -, Jessup tem contato com rituais sagrados no México e com a utilização de drogas xamânicas. Tal novidade faz com que suas novas experiências fiquem ainda mais intensas: a cada sessão o audacioso professor vai ainda mais longe em suas viagens, chegando a formas progressivamente mais primárias de vida. O que muitos consideravam então simples alucinações começa a assustar seus colegas e familiares.

Produzido pela Warner depois que a Columbia Pictures desistiu do projeto por seu custo acima do esperado, "Viagens alucinantes" é, provavelmente, um dos melhores trabalhos de Ken Russell, mais conhecido pelo musical "Tommy" (1975) e por suas cinebiografias dos compositores Liszt, Mahler e Tchaicovsky. Com seu visual exuberante - influenciado por Magritte e Salvador Dalí - e uma trama consistente e frequentemente aflitiva, seu filme não apenas demonstra uma maturidade temática, mas confirma seu talento na direção de atores, que seria confirmado em sua produção seguinte, "Crimes do coração" (1984), estrelado por Anthony Perkins e Kathleen Turner: com um desempenho brilhante de William Hurt, que deixa verossímeis as teorias mais intrincadas, Russell ainda encontra espaço para trabalhar com efeitos visuais impressionantes que, ao contrário de atrapalhar, servem à história com uma inteligência ímpar. Injustamente esquecido pelo grande público, "Viagens alucinantes" é uma pequena obra-prima da ficção científica - e merece ser redescoberto e alçado à sua condição de clássico do gênero.

sexta-feira

O ENFERMEIRO DA NOITE


O ENFERMEIRO DA NOITE (The good nurse, 2022, FilmNation Entertainment/Netflix, 121min) Direção: Tobias Lindholm. Roteiro: Krysty Wilson-Cairns, livro de Charles Graeber. Fotografia: Jody Lee Lipes. Montagem: Adam Nielsen. Música: Biosphere. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Shane Valentino/Alyssa Winter. Produção executiva: Glen Basner, Ignacio de Medina, Jonathan Filley, Ari Handel, Josh Stern. Produção: Darren Aronofsky, Scott Franklin, Michael Jackman. Elenco: Jessica Chastain, Eddie Redmayne, Noah Emmerich, Kim Dickens, Nnmandi Asomugha. Estreia: 11/9/2022 (Festival de Toronto)

Pode um filme falar sobre um serial killer que matou provavelmente centenas de pessoas contar sua história sem mostrar uma única gota de sangue? "O enfermeiro da noite", baseado na trajetória assassina de Charles Cullen - encerrada com sua prisão, em 2003 - prova que a resposta é positiva. Lançado no Festival de Toronto de 2022 cerca de um mês antes de estrear na Netflix, em outubro do mesmo ano, o primeiro longa-metragem em inglês do dinamarquês Tobias Lindholm foca na investigação policial que levou Cullen à cadeia, e é conduzido com sobriedade e discrição, evitando o sensacionalismo normalmente atrelado a produções do gênero. Com sua experiência na condução de dois episódios da série "Mindhunter", Lindholm se aproveita do talento de seu elenco e do roteiro conciso, baseado em um livro investigativo de Charles Graeber, para envolver o espectador em um drama claustrofóbico, cuja elegância visual não consegue disfarçar a tensão inerente a uma trama perturbadora.

O filme começa - logo depois de um prólogo que dá uma ideia do que está por vir - quando o jovem enfermeiro Charles Cullen (Eddie Redmayne) é contratado para trabalhar no turno da noite do Parkfield Memorial Hospital, localizado em Nova Jersey (estabelecimento fictício que substitui o verdadeiro Somerset Medical Center). Solícito, gentil e dedicado, não demora para que Charles se torne amigo da colega Amy Loughren (Jessica Chastain), que divide seu tempo entre o trabalho, os cuidados com as duas filhas pequenas e a luta para curar um problema cardíaco. A amizade entre os dois vai se aprofundando com o tempo, e Amy passa a contar com o novo colega em suas batalhas diárias. As coisas mudam, porém, quando pacientes sob a supervisão de Cullen, independentemente da idade e em condições razoáveis de saúde, começam a morrer inexplicavelmente. Desconfiada de que seu amigo pode estar por trás dos óbitos, a enfermeira resolve colaborar com a polícia, nas figuras de Tim Braun (Noah Emmerich) e Danny Baldwin (Nnmandi Asomugha).


 

Com uma história que praticamente implora por um tom sensacionalista, "O enfermeiro da noite" encontra, na direção de Tobias Lindholm, um viés mais intimista, que opta pelas crises pessoais de seus protagonistas, em detrimento às regras mais óbvias em um filme de suspense. Para isso, conta com a presença sempre potente de Jessica Chastain, em papel mais discreto do que aquele que lhe rendeu um Oscar, por "Os olhos de Tammy Faye": em um trabalho quase silencioso, que explora o olhar e o corpo mais do que longos diálogos, Chastain empresta à Amy Loughren atitudes estoicas e corajosas que despertam a imediata empatia do público, e bate de frente com mais um desempenho econômico e eficiente de Eddie Redmayne. Longe dos trejeitos que poderiam fazer de seu Charles Cullen um monstro clichê, o ator vencedor do Oscar por "A teoria de tudo" (2014) expressa a personalidade transtornada de Cullen através de sorrisos melífluos, atitudes gentis e a aparência de um homem absolutamente normal - como qualquer psicopata -, mas, de forma inteligente, nunca deixa de fazer com que seus gestos soem ameaçadores, o que fica claro em sua última conversa com Amy, uma sequência elaborada com precisão para deixar a plateia com a respiração suspensa. Além disso, somada às atuações exemplares de seus atores centrais, a fotografia acinzentada deixa no ar a sensação constante de pesadelo monocromático e sufocante, que dialoga com o desenvolvimento apropriadamente lento do filme de Lindholm.

Roteirista de filmes premiados, como "A caça" (2012) e "Druk: mais uma rodada" (2020), Lindholm faz sua estreia como diretor de longa-metragens em inglês com o pé direito. Ao renegar qualquer lugar-comum de filmes sobre psicopatas, o cineasta  afirma sua personalidade própria, que busca o envolvimento do espectador sem artifícios que não a objetividade. Sua decisão em focar a narrativa na relação entre Amy e Charles foge do padrão "mortes+investigação+confronto" para inserir, na receita,  um ritmo mais comum em dramas do que em filmes de suspense - o que pode desnortear os cinéfilos mais puristas, mas que acrescenta uma profundidade maior à sua obra. Por mais que em alguns momentos "O enfermeiro da noite" soe como um telefilme, sua seriedade em lidar com um tema complexo e polêmico merece aplausos - especialmente se, junto com ela, é possível testemunhar mais um trabalho admirável de Jessica Chastain, uma das melhores atrizes de sua geração, e Eddie Redmayne, em franca ascensão dentro da indústria hollywoodiana. 

 

quinta-feira

VEJA COMO ELES CORREM


VEJA COMO ELES CORREM (See how they run, 2022, Searchlight Pictures, 98min) Direção: Tom George. Roteiro: Mark Chappell. Fotografia: Jamie D. Ramsay. Montagem: Gary Dollner, Peter Lambert. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Amanda McArhur/Celia De La Hey. Produção: Gina Carter, Damian Jones. Elenco: Sam Rockwell, Saoirse Ronan, Adrien Brody, David Oyelowo, Harris Dickinson, Gregory Cox, Maggie McCarthy, Charlie Cooper, Ruth Wilson, Reece Shearsmith, Sian Clifford, Jacob Fortune-Lloyd, Shirley Henderson. Estreia: 08/9/2022

Em 25 de novembro de 1952, em Londres, estreava a peça "A ratoeira", da escritora policial Agatha Christie - depois de uma pequena turnê por outras cidades inglesas. Desde então, com exceção de um período de 14 meses de paralisação por conta da Covid-19, nunca mais saiu de cartaz, tendo seu elenco substituído todo ano e se mantendo como uma das obras mais duradouras do teatro mundial. Nunca adaptado por Hollywood - uma cláusula de seu contrato estipula que nenhuma versão para as telas pode ser realizada antes de transcorridos seis meses desde o encerramento das apresentações -, mas com um versão indiana e outra russa, devidamente disfarçadas, o texto de Christie é considerado um exemplo perfeito de seu estilo e um clássico do gênero whodunit? (quem matou?). "Veja como eles correm", estrelado por Sam Rockwell e Saoirse Ronan, é uma divertida e criativa homenagem, tanto à peça em si quanto à obra da escritora. Repleto de referências sutis (ou nem tanto) e dotado de um humor britânico em toda a sua mordacidade, o filme de Tom George oferece ao espectador uma hora e meia de inteligência, valorizada por um visual caprichado e um elenco em dias de graça.

A trama de "Veja como eles correm" - título que copia o segundo verso da canção infantil "Três ratos cegos", que também deu nome à peça radiofônica e ao conto que mais tarde se transformaram em "A ratoeira" - se passa em 1953, quando a peça de Agatha Christie está comemorando sua 100ª apresentação em Londres. O sucesso estrondoso da produção acaba de chamar a atenção de produtores de cinema, que tencionam levá-la às telas o quanto antes, sob a direção do excêntrico Leo Kopernick (Adrien Brody), que chega dos EUA com a missão de comandar a adaptação - que, como se sabe, só será possível seis meses depois do encerramento da temporada teatral. Quando o pouco simpático Kopernick é assassinado e tem seu corpo deixado no cenário do teatro, é chamado o inspetor de polícia Stoppard (Sam Rockwell), que, com seu jeito desleixado, inspira pouca confiança. Com a ajuda da jovem policial Constable Stalker (Saoirse Ronan) - deslumbrada com a possibilidade de investigar um crime acontecido no meio artístico, pelo qual é fascinada -, Stoppard passa a conviver com produtores, atores, roteiristas e demais membros da companhia teatral, em busca do nome do assassino, que não demora em fazer novas vítimas.


 

Com um roteiro recheado de brincadeiras que frequentemente escapam ao público médio - o inspetor tem o nome em homenagem ao dramaturgo Tom Stoppard, que escreveu uma paródia de "A ratoeira", e o mordomo de Agatha Christie tem o mesmo sobrenome de Julian Fellowes, premiado com o Oscar de roteiro original por "Assassinato em Gosford Park" (2001), que bebe na fonte da autora inglesa - e um visual criativo que mescla ângulos de câmera inusitados com uma edição que usa e abusa de pontos de vista alternativos, "Veja como eles correm" funciona como comédia satírica e como filme policial, com direito a reviravoltas e um desfecho típico da criadora de Hercule Poirot e Miss Marple - e que inclusive tem participação efetiva no clímax da história, sendo interpretada por Shirley Henderson. Com uma fotografia de cores fortes e uma direção de arte cuidadosamente elaborada, o filme de Tom George - estreando no cinema, em um gênero do qual não é exatamente fã, segundo suas próprias palavras - faz lembrar, em alguns momentos, o brilhante "Assassinato por morte" (1976), de Robert Moore, que unia, no mesmo ambiente, os mais famosos detetives policiais da literatura para investigar um crime: enquanto o espectador tenta adivinhar a identidade do culpado (a), acompanhando as aventuras de Stoppard e Constable, se diverte com diálogos espirituosos e a união certeira entre personagens fictícios e personalidades reais, como o ator e diretor Richard Attenborough (vivido aqui por Harris Dickinson).

E por falar em Stoppard e Constable, a química entre Sam Rockwell e Saoirse Ronan é preciosa: ele vive um policial pouco exemplar (e inspirado em Peter Sellers e seu Inspetor Clouseau) e ela, uma das atrizes mais elogiadas de sua geração, demonstra um timing cômico dos mais agradáveis, na pele de uma ambiciosa e ansiosa aspirante a maiores voos profissionais. Além deles, brilha Adrien Brody como Leo Kopernick, o detestável cineasta que encontra a morte logo nos minutos iniciais - mas que permanece em cena, em flashbacks que conduzem a investigação dos protagonistas: sem medo de mostrar uma persona pouco simpática, Brody parece se divertir em cada cena, em cada diálogo. E é exatamente esse tom irônico e bem-humorado o maior trunfo de "Veja como eles correm", um passatempo dos mais interessantes e sagazes da temporada.

 

terça-feira

NÃO SE PREOCUPE, QUERIDA


NÃO SE PREOCUPE, QUERIDA (Don't worry, darling, 2022, Warner Bros, 123min) Direção: Olivia Wilde. Roteiro: Katie Silberman, estória de Carey Van Dyke, Shane Van Dyke, Katie Silberman. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Affonso Gonçalves. Música: John Powell. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Katie Byron/Rachael Ferrara. Produção executiva: Richard Brener, Catherine Hardwicke, Celia Khong, Alex G. Scott, Carey Van Dyke, Shane Van Dyke. Produção: Roy Lee, Katie Silberman, Olivia Wilde, Miri Yoon. Elenco: Florence Pugh, Harry Styles, Olivia Wilde, Chris Pine, Kiki Layne, Gemma Chan, Nick Kroll, Sydney Chandler, Kate Berlant, Asif Ali, Douglas Smith, Timothy Simons. Estreia: 05/9/2022 (Festival de Veneza)

Não deixa de ser estranho quando os bastidores de um filme chamam mais a atenção da mídia e do público do que seu resultado final. É o caso de "Não se preocupe, querida", segundo longa-metragem dirigido pela atriz Olivia Wilde, que estreou no Festival de Veneza de 2022 depois de uma chuva de fofocas a respeito dos inúmeros conflitos ocorridos durante as filmagens. Uma distopia aos moldes de "As mulheres perfeitas", de Ira Levin - que deu origem a duas versões cinematográficas, em 1968 e 2005 - e temperado com uma paranoia digna dos melhores filmes realizados em Hollywood nas décadas de 1950 e 1960 -, a obra de Wilde não teve a mais entusiasmada das recepções da crítica em seu lançamento, mas, apesar de não ser tão empolgante quanto seu primeiro trabalho atrás das câmeras - a comédia "Foras de série" (2019) -, é bem menos desastroso do que se poderia supor, diante da generalizada má-vontade da imprensa e de boa parte do público.

Com influência declarada de "A origem (2010) e "O show de Truman: o show da vida" (1998), o filme de Olivia Wilde também cita, de uma forma ou outra, obras aparentemente díspares, como os livros "Frankenstein", de Mary Shelley, e "Alice no país das maravilhas", de Lewis Carroll. Com uma direção de arte elaborada de maneira a soar claustrofobicamente simétrica e soluções visuais criativas e inteligentes - que homenageiam os clássicos números musicais coreografados por Busby Berkeley na Hollywood dos anos 1930 -, "Não se preocupe, querida" demonstra, em certos aspectos, uma evolução da diretora em termos de ambição e técnica. Substituindo a simplicidade de sua primeira obra por uma narrativa mais rebuscada e repleta de camadas, Wilde exige mais do espectador do que simplesmente acompanhar sua trama - um roteiro intrincado que apresenta inúmeras perguntas e não faz questão de respondê-las de forma simples. Valorizado pela fotografia de Matthew Libatique - que sublinha o desespero da protagonista ao mesmo tempo em que ilustra o tom monocromático de seu ambiente - e pela edição do brasileiro Affonso Gonçalves - que deixa pistas pelo caminho, indicando ao espectador os rumos da história -, "Não se preocupe, querida" também ousa fugir do óbvio ao enveredar, em seu terço final, por uma mudança de gênero que surpreende e o deixa ainda mais instigante: por mais que se suspeite do que pode estar acontecendo, o desfecho não deixa de ser um choque.

 

A trama se passa em algum momento da década de 1950, e apresenta o jovem e apaixonado casal Alice (a sensacional Florence Pugh) e Jack Chambers (o cantor britânico Harry Styles se saindo bastante bem), que estão vivendo um feliz momento de seu casamento. Jack está em franca ascensão profissional, ainda que sua bela esposa não saiba exatamente qual seu ramo de atuação. O que ela sabe - assim como as outras esposas que vivem em sua vizinhança, em uma idílica cidade californiana chamada Victory - é que todos os maridos trabalham sob as asas do poderoso e carismático Frank (Chris Pine) e que tudo relacionado à empresa é envolto em mistério, sob a alegação de segurança nacional. A vida repetitiva de Alice - que suas companheiras consideram um bálsamo - consiste de cuidar da casa, beber à beira da piscina com as amigas, aulas de balé e ocasionais jantares frequentados sempre pelos mesmos convidados. De uma hora para outra, no entanto, Alice começa a ter pesadelos e visões estranhas, que a atormentam a ponto de incomodar seu relacionamento e a lei do silêncio que perpassa sua rotina. Quando uma outra esposa começa a se comportar de forma inconveniente e é violentamente silenciada, Alice resolve desafiar as regras - e entra em um território assustador.

Olivia Wilde consegue conduzir seu filme com segurança o bastante para manter o interesse do público até seus minutos finais - apesar de seu ritmo por vezes um tanto hesitante - e extrair de seus atores performances notáveis, mesmo com todos os problemas nos bastidores, que começaram com a demissão de Shia LaBeouf, cuja saída de cena nunca chegou a ser devidamente explicada. Algumas fontes creditavam tal situação a um conflito de agendas, mas não demorou muito para que surgisse a informação de que LaBeouf havia sido despedido por causa de uma série de embates com a diretora e o elenco - o que confirmava a reputação de difícil que sempre precede o ator. Um terceiro round, porém, veio à tona quando o ator afirmou que ele mesmo havia abandonado o projeto apesar dos apelos de Wilde, que queria mantê-lo no papel principal mesmo diante da falta de harmonia entre ele e Florence Pugh - que, por sua vez, foi escolhida para o elenco graças a seu desempenho em "Midsommar: o mal não espera a noite" (2019). Um vídeo chegou a vazar na Internet com os pedidos de Wilde para que ele permanecesse no filme -  mas mais tarde, textos entre Pugh e o ator, também disponibilizados online, não demonstravam pistas de tal conflito entre eles. Não bastasse tanta confusão por trás das câmeras, o romance entre Wilde e seu novo ator central, Harry Stles, caiu como uma bomba: a atriz/diretora estava recém saindo de um casamento de sete anos com o ator Jason Sudeikis e o novo namoro pareceu atrapalhar sua concentração nos sets - o que resultou em constantes rusgas entre a cineasta e sua protagonista feminina, que, por acaso ou não, não demonstrou o menor esforço em promover o filme além do expressamente necessário. 

O fato é que, apesar dos problemas fora das telas, "Não se preocupe, querida" é um filme que sobrevive aos pequenos escândalos durante seu processo de realização. Intrigante, inteligente e visualmente atraente, é um filme que merece ser apreciado por suas qualidades - e não rechaçado por questões alheias a seus méritos artísticos.

segunda-feira

X: A MARCA DA MORTE


X: A MARCA DA MORTE (X, 2022, A24, 105min) Direção e roteiro: Ti West. Fotografia: Eliot Rockett. Montagem: David Kasheravoff, Ti West. Música: Tyler Bates, Chelsea Wolfe. Figurino: Malgosia Turzanska. Direção de arte/cenários: Tom Hammock/Tom Salpietro. Produção executiva: Scott Mescudi, Dennis Cummings, Ashley Levinson, Sam Levinson, Karina Manashil, Peter Phok. Produção: Jacob Jaffke, Harrison Kreiss, Kevin Turen, Ti West. Elenco: Martin Henderson, Mia Goth, Jenna Ortega, Brittany Snow, Kim Cudy, Owen Campbell, Stephen Ure, James Gaylyn. Estreia: 13/3/2022 (South by Southwest Film Festival)

Quem perceber, logo nos primeiros minutos de "X: A marca da morte" um tom que lembra filmes como a série "Sexta-feira 13" não estará completamente enganado. Bebendo diretamente na fonte dos slasher movies que fizeram a alegria dos fãs do cinema de terror a partir dos anos 1980, o diretor e roteirista Ti West brinda o público com uma produção que, apesar de referências bastante claras, imprime uma identidade própria, o apontando como um dos nomes mais promissores da nova geração de diretores de filmes de terror - ainda que já tenha tentado a sorte também no western, com "Terra violenta", de 2016. Usando e abusando de ângulos criativos e subvertendo algumas das regras essenciais do gênero, West agradou em cheio os aficcionados e pegou de surpresa a crítica - especialmente quando, poucos meses depois, lançou um prequel filmado quase concomitantemente, o perturbador "Pérola", que mostra a juventude de uma de suas protagonistas.

Violento como todo bom filme do gênero, "X" deve seu nome à classificação dos censores norte-americanos a filmes pornográficos - estilo da produção que o ambicioso produtor Wayne (o sumido Martin Henderson, de "O chamado") tenciona realizar em uma fazenda no interior do Texas no ano de 1979. Para reinventar os filmes eróticos produzidos até então, ele leva até o local uma equipe que compartilha com ele o desejo de fazer parte de um projeto vencedor e revolucionário chamado "A filha do fazendeiro": o roteirista e diretor R.J. (Owen Campbell), sua namorada e operadora de som, Lorraine (Jenna Ortega, a dupla de astros, Bobby-Lynne (Brittany Snow) e Jackson (Kid Cudi), e a estreante Maxine Minx (Mia Goth) - namorada do produtor. A chegada da trupe incomoda o proprietário da fazenda, Howard (Stephen Ure), que não esperava tanta gente em sua fazenda, especialmente para a realização de um filme pornô. A situação também não é do agrado da velha esposa de Howard, Pearl (também Mia Goth), que mantém ideias conservadoras o suficiente para rechaçar, com o máximo de truculência, o trabalho do grupo. Da tortura psicológica a um banho de sangue não demora muito para que as filmagens se transformem em uma carnificina.

 

Com um roteiro cuidadosamente elaborado - todas as mortes são insinuadas em sequências prévias que dão pistas sobre o destino de cada um dos personagens - e um visual que remete imediatamente aos anos 1970, "X" é um filme de terror acima da média, dotado de uma inteligência que não atrapalha seu principal objetivo: entregar ao público uma série de assassinatos cruéis e sanguinolentos. Em alguns momentos lembrando o cinema cult de Quentin Tarantino - longos diálogos, referências pop, closes em partes específicas do corpo feminino - e bem-sucedido em criar uma atmosfera de suspense antes do começo da violência, o filme de West apresenta ainda uma sacada das mais criativas, oferecendo à ótima Mia Goth um papel duplo que muito contribui para o clima de estranheza do resultado final: na pele da ainda ingênua e sonhadora Maxine e vivendo a sinistra Pearl (sob pesada maquiagem), Goth - que é neta da atriz brasileira Maria Gladys - está nitidamente dentro do espírito quase independente do filme, produzido pela A24 (marca das mais criativas e transgressores produções do terror dos últimos anos) e recebido com entusiasmo por seu público-alvo, que, apesar de alguns bons títulos recentes, que buscam redefinir o gênero, nunca abre mão de um bom banho de sangue nas telas.

Enquanto produções dirigidas por Robert Eggers - "A bruxa" e "O homem do norte" - e Jordan Peele - "Corra!", "Nós" e "Não! Não olhe!" - procuram renovar os filmes de terror, acrescentando camadas de crítica social e elementos de arte em tramas mais rebuscadas, "X: A marca da morte" acerta em cheio ao não tentar fugir dos cânones mais consagrados do gênero. Por mais que capriche no roteiro, no visual e até mesmo encontre espaço para discussões interessantes a respeito do cinema pornográfico como representação cultural, Ti West não tem vergonha em apresentar um trabalho que se resume, em poucas palavras, em um filme de terror à moda antiga, onde jovens são caçados até a morte por um assassino pouco afeito a sutilezas e movido por recalques sexuais. Tais ingredientes, somados a um elenco que abraça com carinho todas as idiossincrasias de um gênero tratado como menor pela indústria, fazem de "X" um marco interessante e bem-vindo. E a melhor notícia? Seu prequel, "Pérola", lançado seis meses depois, é ainda mais perturbador.

 

quinta-feira

MAIS QUE AMIGOS


MAIS QUE AMIGOS (Bros, 2022, Universal Pictures, 115min) Direção: Nicholas Stoller. Roteiro: Billy Eichner, Nicholas Stoller. Fotografia: Brandon Trost. Montagem: Daniel Gabbe. Música: Marc Shaiman. Figurino: Tom Broecker. Direção de arte/cenários: Lisa Myers/Nicki Ritchie. Produção executiva: Billy Eichner, Karl Frankenfield. Produção: Judd Apatow, Josh Church, Nicholas Stoller. Elenco: Billy Eichner, Luke Macfarlane, Guy Branum, Harvey Fierstein, Miss Lawrence, Debra Messing. Estreia: 09/9/2022 (Festival de Toronto)

Primeiro, uma opinião polêmica: filmes de temática LGBTQIA+ que fogem do tradicional drama feito para ganhar Oscar dificilmente encontrarão, em um futuro próximo, público suficiente para fazer deles campeões de bilheteria. Por se tratar de um nicho (ainda) marginalizado dentro da indústria, produções que tentam desviar das tragédias e/ou biografias históricas gays fatalmente fracassam comercialmente. É difícil imaginar, por exemplo, heterossexuais saindo de casa e pagando um ingresso para assistir à comédia romântica "Mais que amigos" - primeiro filme do gênero com elenco principal formado por atores homossexuais a ser lançado por um grande estúdio de Hollywood (no caso, a Universal Pictures). Apesar dos elogios entusiasmados da crítica e de suas inegáveis qualidades, a produção dirigida por Nicholas Stoller ficou bem aquém das expectativas, em termos financeiros - o que provavelmente irá desencorajar outros estúdios a tentar a sorte nesta seara (ainda) espinhosa. A boa notícia é que, apesar da bilheteria decepcionante, o filme de Stoller é divertido para qualquer um que se proponha a deixar o preconceito de lado.

Logicamente, o público LGBTQIA+ encontrará muito mais razões para rir, uma vez que boa parte das referências pop que permeiam o roteiro diz respeito a seu universo todo próprio. Mas, ao contrário do que se poderia supor, a trama criada pelo diretor e pelo ator principal, Billy Eichner, sobrevive muito bem sem as piadas sobre "Queer eye for the straight guy" ou "Will & Grace", por exemplo. Na verdade, é uma comédia romântica simples, sobre um par aparentemente incompatível que descobre que, para viver um grande amor, é preciso aceitar as diferenças e as pressões sociais - nada de muito diferente de produções estreladas por Meg Ryan nos anos 1990, Katherine Heigl nos anos 2000 e Jennifer Aniston nos anos 2010, mas dessa vez com dois homens estampando o cartaz e buscando a torcida da plateia.



Billy Eichner dá vida a Bobby, um homossexual de trinta e poucos anos, conhecido por um podcast ácido e que está correndo atrás de um patrocínio para o lançamento do primeiro museu de história queer dos EUA - que, entre suas ousadias, quer provar a bissexualidade de Abraham Lincoln. Solteiro, ele deve boa parte de sua solidão à sua própria dificuldade de aprofundar-se em relações amorosas. Cansado de buscar parceiros em aplicativos de relacionamentos, ele conhece, em uma balada, o advogado Aaron (Luke Macfarlane), que considera além de suas possibilidades de conquista: sarado, popular, bonito e afeito a transas casuais, Aaron se aproxima de Bobby como amigo, mas não demora a  perceber que entre eles existe algo mais do que uma simples amizade. Avesso a compromissos, porém, propões ao escolado novo amigo uma relação aberta. Bobby aceita, a princípio, mas logo passa a ver que está (ao menos em sua perspectiva) em grande desvantagem. O conflito nasce - e aumenta até proporções que os impede de (ainda) ficarem juntos.

Repleto de diálogos espirituosos e inteligentes, "Mais que amigos" brinca com todos os clichês das comédias românticas e os estereótipos do mundo gay, sem medo de ofender suscetibilidades ou afugentar plateias mais puritanas. Não se priva de cenas de sexo (ousadas, mas ainda muito aquém do que é mostrado no cinema comercial heterossexual), não foge do sentimentalismo, quando necessário, e tampouco evita tocar em assuntos que povoam o universo LGBTQIA+ - a apologia ao corpo perfeito, o amor incondicional por divas pop, o preconceito dentro da própria bolha, o sexo casual como subterfúgio à solidão. Mas faz tudo com tanta leveza, tanto bom humor, tanta propriedade, que é difícil não se deixar levar e dar boas risadas. Billy Eichner brilha como o azedo e desiludido Bobby, que esconde, por trás de uma fachada cáustica, sérios problemas de autoestima, e Luke Macfarlane (conhecido pela série "Brothers & Sisters") é o contraponto perfeito a seu mau-humor quase encantador. Contando ainda com uma participação impagável de Debra Messing (de "Will & Grace") como ela mesma, "Mais que amigos" é um programa ideal para quem procura um passatempo inofensivo - e, apesar do fracasso comercial, tem tudo para virar cult. Basta mergulhar sem medo e se preparar para torcer para um casal (ainda) atípico.

CONCORRÊNCIA OFICIAL


CONCORRÊNCIA OFICIAL (Competencia oficial, 2021, ICAA/Orange/RTVE, 115min) Direção: Mariano Cohn, Gastón Duprat. Roteiro: Andrés Duprat, Gastón Duprat, Mariano Cohn. Fotografia: Arnaud Valls Colomer. Montagem: Alberto del Campo. Figurino: Wanda Morales. Direção de arte/cenários: Alain Bainée/Sara Natividad. Produção executiva: Antonio Banderas, Penélope Cruz, Laura Férnadez Espeso, Oscar Martínez, Javier Méndez, Javier Pons. Produção: Jaume Roures. Elenco: Penélope Cruz, Antonio Banderas, Oscar Martínez, José Luiz Gómez. Estreia: 04/9/2021

O que fazer quando se chega aos 80 anos de idade, tem dinheiro de sobra e sonha em ter o nome para a posteridade? O empresário Humberto Suárez (José Luiz Gómez), depois de pensar em inúmeras possibilidades (como uma ponte, por exemplo) chega à conclusão de que o melhor negócio que pode fazer é financiar um filme. Mas não um filme qualquer, e sim um grande filme, o melhor que o dinheiro pode comprar. E é com esse objetivo que ele contrata a premiada Lola Cuevas (Penélope Cruz) para dirigir a adaptação de um célebre romance que tem todos os ingredientes para transformar-se em sucesso. Dona de uma personalidade bastante excêntrica, Lola embarca no projeto com a condição de contar, no elenco, com dois dos maiores atores do país: o prestigiado Iván Torres (Oscar Martínez) e o popular Félix Rivero (Antonio Banderas). O que nem Humberto nem os tarimbados atores poderiam imaginar é que os métodos de Lola para atingir a perfeição fogem muito do convencional - e transformam os ensaios em um inferno, fazendo emergir ressentimentos, inseguranças e sentimentos pouco nobres de todos os envolvidos no processo.

Dirigido pelos argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat, "Concorrência oficial" é um deleite para os fãs de cinema em geral e artistas em particular: ao mergulhar em um universo repleto de egos inflados e talentos superestimados, a dupla de cineastas e roteiristas brinca com o próprio métier sem nunca perder, apesar do tom de deboche, o respeito pelo cinema e seus realizadores. Ao retratar diretores egóicos, atores autocentrados e produtores sem o menor tino artístico, a trama surpreende o espectador com uma narrativa imprevisível e personagens repletos de camadas, reveladas aos poucos, conforme suas barreiras vão sendo demolidas a ferro, fogo e dinâmicas bizarras criadas por Lola - interpretada com perceptível prazer por Penélipe Cruz, uma das produtoras executivas do filme, ao lado de seus colegas de elenco. Com um visual exuberante que lembra seus melhores momentos com o espanhol Pedro Almodóvar - nitidamente uma influência na paleta de cores vivas e na excentricidade dos personagens -, Cruz deita e rola com diálogos saborosos, repletos de absurdos e referências à cultura pop. De maneira inteligente, os diretores conseguem até mesmo uma auto-citação: o romance adaptado por Cuevas, "Rivalidade", é de autoria de Daniel Mantovani, personagem do filme anterior dos realizadores, "Um cidadão ilustre", vivido pelo mesmo Oscar Martínez que interpreta aqui o celebrado Iván Torres.


 

Iván Torres é um ator de métodos clássicos, do tipo que cria um passado para os personagens que irá interpretar e mergulha profundamente em sua criação. A forma como lida com seu ofício bate de frente com a quase irresponsabilidade de Féliz Rivero, seu colega e rival, que leva a profissão bem menos a sério - e, paradoxalmente, é bem mais popular entre o público. O confronto entre dois estilos de atuação é a faísca procurada por Lola, que os escolhe justamente por sua radical diferença, que ela julga apropriada para a história de dois irmãos rivais. Enquanto ensaia cada linha de diálogo do roteiro - para enfado de ambos, cada um por uma razão diferente - e cria dinâmicas quase humilhantes para arrancar deles interpretações viscerais (a ponto de fazê-los ler o roteiro sob uma rocha que pesa toneladas e pode vir a desabar a qualquer momento), a polêmica diretora não percebe que, em determinado momento, torna-se também vítima de suas técnicas quando passa a questionar o que é verdade ou não na relação entre seus astros - o que pode até acarretar uma tragédia inesperada.

É difícil saber o que é mais precioso em "Concorrência oficial". Do roteiro, original e mordaz, à escalação do elenco, absolutamente certeira, tudo no filme de Cohn e Duprat funciona às mil maravilhas. O estranhamento do primeiro ato - quando Lola Cuevas inicia seu processo criativo - dá lugar, gradativamente, a uma trama recheada de ironias, brilhantemente abraçadas por seus atores, todos em estado de graça. Equilibrando-se entre o humor mais fino e o suspense por vezes inesperado, o filme transita com facilidade por diversos gêneros, extraindo o melhor de cada um deles para oferecer à plateia um banquete cuidadosamente preparado. Criticando o culto à celebridade ao mesmo tempo em que não perdoa o exagerado pedantismo de certa parcela da elite artística, a produção faz rir e pensar na mesma intensidade - é um programa inteligente e leve, que mostra, mais uma vez, a inegável qualidade do cinema argentino contemporâneo.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...