sábado

PERDIDOS NA NOITE


PERDIDOS NA NOITE (Midnight cowboy, 1969, United Artists, 113min) Direção: John Schlesinger. Roteiro: Waldo Salt, baseado no romance de James Leo Herlihy. Fotografia: Adam Holender. Montagem: Hugh A. Robertson. Música: John Barry. Figurino: Ann Roth. Direção de arte / Cenários: John Robert Lloyd / Phil Smith. Produção: Jerome Hellman. Elenco: Dustin Hoffman, Jon Voight, Brenda Vaccaro, Bob Balaban, Sylvia Miles. Estreia: 25/5/69

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Schlesinger), Ator (Dustin Hoffman, Jon Voight), Atriz Coadjuvante (Sylvia Miles), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Schlesinger), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Most Promising Newcomer/Male (Jon Voight)


De vez em quando - muito de vez em quando - a Academia de Hollywood consegue surpreender os fãs do bom cinema, premiando obras que fogem dos insossos padrões épico-familiares e ousam transgredir - seja em formato, temática ou estética. Uma dessas ocasiões aconteceu na festa de entrega do Oscar de 1970, quando um filme que fugia do belo, do terno e do heróico levou a estatueta principal - e ainda arrebatou os prêmios de direção e roteiro adaptado. Não bastasse essa quase afronta ao status quo cinematográfico, "Perdidos na noite" ainda por cima era uma produção que havia levado, do órgão responsável pela censura nos filmes, uma classificação X - normalmente aplicada a produções pornográficas - e tornou-se, até hoje, o único filme com esse selo limitatório a ter no currículo um Oscar de Melhor Filme.

Motivos para isso não faltaram. Baseado em um romance de James Leo Herlihy, "Perdidos na noite" é um petardo emocional e visual bastante perturbador ainda hoje, mais de quarenta anos depois de seu lançamento. Ao abandonar a visão romantizada de Nova York - coisa que Martin Scorsese faria admiravelmente bem poucos anos depois, em "Taxi driver" - o cineasta inglês Joe Schlesinger penetra nos meandros neuróticos e degradantes da cidade que nunca dorme, utilizando um visual semi-documental para testemunhar uma triste e chocante história de perda de inocência. No entanto, ao contrário de outros filmes que também narram a travessia entre a infância e a idade adulta de forma nostálgica, Schlesinger não poupa seu espectador nem tampouco o trata com condescendência. E a perda da inocência aqui não acontece a uma criança que vê a aurora de sua vida acabar drasticamente e sim a um jovem adulto que sonha ganhar a vida se prostituindo. Paradoxo? Talvez. Mas seu protagonista, Joe Buck, não é exatamente alguém comum, sendo uma das personagens mais multidimensionais do cinema americano dos anos 60.


Vivido por Jon Voight (que ficou com o papel que foi oferecido a Lee Majors e cobiçado por Warren Beatty), Joe Buck é um lavador de pratos da pequena cidade do interior do Texas que abandona o emprego e a vida sem graça que levava para viver em NY às custas de mulheres ricas que, em sua mente, não conseguirão resistir a seu charme e sex-appeal. Com sua roupa de cowboy e suas expectativas nas alturas, logo ele percebe que as coisas não sairão exatamente como o planejado. Depois de frustradas tentativas de arrumar dinheiro graças a seu corpo - em relações com uma socialite e um jovem homossexual com o qual mantém um encontro em um cinema - ele conhece Ratso (Dustin Hoffman), um cínico e amoral indigente, que vive de expedientes escusos. Manco, sem moradia fixa - a não ser um prédio abandonado e insalubre - e com menos caráter do que dinheiro, Ratso logo vê em Joe - que tem o físico que ele não tem - a chance de sair da miséria. Quando finalmente os dois vislumbram um futuro promissor - dentro de sua mentalidade distorcida, logicamente - a saúde precária de Ratso começa a ficar ainda mais comprometida e Buck se vê obrigado a ultrapassar todos os seus limites de integridade para mantê-lo vivo.


Na pele de Ratso, Dustin Hoffman entrega uma das mais fascinantes atuações de sua carreira. Fisicamente grotesco e moralmente desagradável, sua personagem é a antítese do frescor louro e juvenil de Voight, tanto visualmente quanto em termos de personalidade. Apesar de seu histórico de violência e abuso sexual - vistos pelo público em doses homeopáticas e alucinantes dentro da complexa edição - e de seu desejo em vencer na vida de forma pouco convencional, Buck ainda mantém uma certa aura de inocência pueril há muito perdida por Ratso, acostumado que este está em sobreviver em uma cidade hostil e pouco amistosa com as classes menos favorecidas. De certa forma, Ratso é o cérebro de Buck, que é o corpo de Ratso e esse é o principal motivo pelo qual sua relação soa tão verdadeira e honesta junto à audiência. O afeto que os une é legítimo, mesmo que oriundo principalmente da solidão que ambos sentem. Joe Buck sabe que é limitado intelectualmente, mas não desconfia do tamanho da sua ingenuidade até que toma contato com a dura realidade das ruas da grande metrópole - fotografadas com precisão e nervosia por Adam Holender. Ratso é carente, não apenas materialmente, mas principalmente de amor, e só percebe isso com clareza quando sente a verdadeira amizade de Buck.

"Perdidos na noite" é um filme sensacional! Mesmo que o roteiro utilize-se da estrutura convencional do melodrama - o que permite uma catarse emocional discreta mas coerente com o espírito da obra -, ele foge bravamente do corriqueiro, não permitindo ao público escapar da crueza que pretende demonstrar. É um filme com a cara de sua época - com a revolução sexual em seu auge, o uso de drogas correndo livremente, o hedonismo tornando-se quase uma religião - mas que mantém-se lúcido, verdadeiro e importante!

O BEBÊ DE ROSEMARY


O BEBÊ DE ROSEMARY (Rosemary's baby, 1968, Paramount Pictures, 136min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, baseado no romance de Ira Levin. Fotografia: William Fraker. Montagem: Sam O'Steen, Bob Wyman. Música: Christopher Komeda. Produção: William Castle. Elenco: Mia Farrow, John Cassavetes, Ruth Gordon, Sidney Blackmer, Maurice Evans, Charles Grodin, Ralph Bellamy, Patsy Kelly. Estreia: 12/6/68

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Ruth Gordon), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Ruth Gordon)
Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Ruth Gordon)


Em 1969, a atriz Sharon Tate, esposa do cineasta Roman Polanski, foi violentamente assassinada a mando de Charles Manson, um lunático que se auto-proclamava Jesus Cristo. Pode ter sido apenas uma trágica coincidência, mas não deixa de ser ainda mais apavorante e angustiante assistir a “O bebê de Rosemary” à luz desse bizarro acontecimento.

Um dos mais assustadores e marcantes filmes de suspense da história, essa adaptação do romance de Ira Levin é considerada até hoje como a obra-prima de Polanski e a encarnação cinematográfica mais cruel da maternidade, tendo como cenário o Edifício Dakota, em frente ao qual, anos depois, John Lennon seria assassinado por um fã - em mais uma bizarra coincidência, Manson alegava que os Beatles, através das letras de suas músicas, é que lhe mandava mensagens subliminares...

No filme de Polanski o Dakota tem outro nome, mas os acontecimentos sinistros que se passam em seus apartamentos não deixam nada a dever aos piores pesadelos da plateia. É para esse prédio que se muda o jovem casal Woodhouse. O marido, Guy (o cineasta independente John Cassavetes) é um ator em busca de seu lugar ao sol. A esposa é a doce e tímida Rosemary (Mia Farrow, frágil e delicada na melhor atuação de sua carreira), cujo maior sonho é aumentar a família. Esse sonho logo começa a tornar-se realidade depois de um sonho onde Rosemary sonha ser violentada por uma assustadora figura. Justo quando descobre que está grávida, ela comemora também o fato de seu marido ter sido escolhido para substituir um outro ator, que ficou inexplicavelmente cego.

Emagrecendo ao invés de engordar, comendo carne crua e sentindo dores excruciantes, logo a jovem gestante começa a desconfiar que há algo de errado em sua gravidez. Afastada dos amigos e do seu médico de confiança pelo marido e pelos misteriosos e solícitos vizinhos Roman e Minnie Castevet (Sidney Blackmer e a vencedora do Oscar Ruth Gordon), ela tem acesso a um livro sobre bruxaria e passa a ter a certeza absoluta de que o filho que espera é do demônio.


Poucas vezes o cinema de suspense foi tão inclemente quanto em “O bebê de Rosemary”. Sem poupar o que é considerada a melhor fase da vida de uma mulher, o roteiro claustrofóbico do diretor (bastante fiel às páginas do livro de Levin) joga com a angústia da protagonista, que praticamente definha em frente às câmeras nervosas do fotógrafo William Fraker. Mia Farrow, que ganhou o papel em uma época difícil de sua vida (estava se divorciando de Frank Sinatra), brilha como nunca, jamais se deixando seduzir pelas armadilhas do roteiro. Sua fragilidade física contribui muito para a evolução do suspense, por isso fica difícil imaginar Jane Fonda ou Julie Christie - ambas testadas para o papel, ambas boas atrizes, mas ambas com aparências mais robustas - sentindo-se encurraladas no terror proporcionado pela situação. O elenco secundário também ajuda a criar o clima denso e pesado do filme. Não foi à toa que Ruth Gordon levou o Oscar de coadjuvante: sua atuação como a misteriosa e bisbilhoteira vizinha é com certeza uma das mais marcantes de sua carreira, com uma personagem dúbia como o final, que, fugindo admiravelmente dos clichês que assolam o gênero, deixa no ar uma dúvida cruel e apavorante: não teria sido tudo um sonho paranóico de Rosemary?

O próprio Roman Polanski, em uma reveladora entrevista que consta no lançamento do filme em dvd, afirma que construiu todo o filme em cima dessa dubiedade que na maior parte das vezes nem é percebida pelo público. Ficou convencionado de que "O bebê de Rosemary" é um filme que fala sobre uma mulher grávida do diabo, mas pouquíssimas vezes houve o questionamento básico proposto pelo diretor: e se a influenciável Rosemary apenas se deixou levar por sua mente facilmente impressionável durante um período conhecidamente vulnerável na vida de uma mulher? Talvez essa pergunta seja ainda mais interessante do que o apavorante filme de Polanski, que comprova admiravelmente o poder da sugestão ao invés do grafismo explícito que assolaria o gênero terror alguns anos depois.

Não são sustos fáceis nem sangue aos borbotões que fazem de “O bebê de Rosemary” uma obra-prima. É sua inteligência, aliada à parte técnica impecável e a um elenco inspirado que fazem com que assisti-lo seja uma experiência tão angustiante hoje quanto foi em seu lançamento. Assista com as luzes apagadas e tente dormir depois!

sexta-feira

A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM


A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (The graduate, 1967, Universal Pictures, 105min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Calder Willingham, Buck Henry, baseado no romance de Charles Webb. Fotografia: Robert Surtess. Montagem: Sam O'Steen. Música: Dave Grusin, canções de Paul Simon. Produção: Lawrence Turman. Elenco: Anne Bancroft, Dustin Hoffman, Katharine Ross, William Daniels, Elizabeth Wilson, Murray Hamilton, Brian Avery. Estreia: 21/12/67

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mike Nichols), Ator (Dustin Hoffman), Atriz (Anne Bancroft), Atriz Coadjuvante (Katharine Ross), Roteiro Adaptado, Fotografia
Vencedor do Oscar de Melhor Diretor (Mike Nichols)
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Diretor (Mike Nichols), Atriz Comédia/Musical (Anne Bancroft), Most Promising Newcomer Male (Dustin Hoffman), Most Promising Newcomer Female (Katharine Ross)


Não é difícil entender os motivos que levaram "A primeira noite de um homem" a tornar-se um dos filmes de maior sucesso de sua época e um dos mais influentes dramas geracionais de Hollywood. Quando o filme foi lançado, em 1967, a juventude americana encontrava-se em um estado que abandonava a letargia dos anos pós-guerra e começava a questionar seu país - envolvido em uma muito mal-explicada guerra no Vietnã - sua estrutura familiar e o estado social em que se encontravam - vale lembrar que Martin Luther King ainda vivia e liderava movimentos em prol dos direitos civis. Os jovens que estavam começando a entrar na faixa dos vinte anos sentiam-se sufocados pelas expectativas dos pais e perdidos quanto a um futuro que parecia cada vez mais incerto. Sufocado e perdido também estava Benjamin Braddock, o protagonista do livro de Carl Webb e do filme de Mike Nichols. Não tinha como não haver uma identificação imediata.

Ligeiramente diferente de sua versão literária - um pouco menos passiva - a personificação de Benjamin Braddock no filme de Nichols ainda assim mantém sua essência confusa e sem norte. Quando a história começa, o jovem Braddock (às vésperas de completar 21 anos) está de volta à casa dos pais, depois de formar-se na universidade. Sem saber o que fazer com seu futuro e nada sutilmente cobrado pela família e pelos amigos dela - um grupo de bem-sucedidos homens de negócios e mulheres que frequentam a alta sociedade - Benjamin fecha-se cada vez mais em si mesmo. Sua vida dá uma virada quando ele é seduzido pela Mrs. Robinson do título da canção de Paul Simon. Vivida magistralmente por Anne Bancroft, a sexy mulher mais velha, com idade para ser sua mãe lhe apresenta aos prazeres do sexo, que lhe foram negados por um casamento sem amor e uma maternidade indesejada. Absolutamente não-romântica, a experiente e prática esposa de um dos amigos de seu pai parece ser exatamente o que o jovem precisa em seus momentos de descoberta do mundo, mas acaba se tornando uma pedra em seu sapato quando ele conhece e se apaixona pela jovem Elaine (Katharine Ross em papel oferecido a Natalie Wood e para o qual foram testadas Candice Bergen e Sally Field). Doce e delicada, a bela jovem também se apaixona por ele, mas o romance esbarra em um grave problema: ela é filha da sedutora sra. Robinson.


Dustin Hoffman já tinha quase 30 anos de idade quando interpretou Benjamin Braddock, de apenas 21. Isso não o impediu, no entanto, de criar uma das personagens mais interessantes de sua carreira, um jovem inseguro e com uma dose de inocência e romantismo que ia de encontro à praticidade e o cinismo de sua amante. A atuação de Anne Bancroft é antológica, equilibrando genialmente a amargura de uma mulher cuja vida não seguiu o rumo sonhado com uma certa dose de egoísmo. A sra. Robinson não tem apenas ciúme da relação da filha com Benjamin e sim considera o rapaz indigno de ficar com ela. A complexidade da personagem encontra em Bancroft a atriz perfeita, o que não dá margem a qualquer dúvida sobre o acerto em sua escalação para o papel, uma vez que ela era apenas seis anos mais velha que Hoffman. É impossível imaginar alguém melhor, mais inteligente e mais sensível - e isso que inúmeras atrizes foram sondadas e/ou cotadas para vivê-la, nomes que iam de Jeanne Moreau e Ava Gardner até a Doris Day e Judy Garland. A química entre os dois protagonistas é preciosa e as cenas inicias de sua conquista são de figurar em qualquer antologia de diálogos geniais da história do cinema. Unidos à bela trilha sonora - que apresenta as clássicas instântaneas "Mrs. Robinson" e "The sound of silence" - e a um elenco coadjuvante impecável (onde até mesmo um jovem Richard Dreyfuss faz uma figuração de luxo), Hoffman e Bancroft elevam o filme a um patamar acima do corriqueiro.

"A primeira noite de um homem" é bem mais profundo do que mostra em sua superfície. Em um primeiro momento, é apenas a história do despertar de um homem em relação à sua sexualidade e ao amor. No entanto, como o próprio título original - a graduação, em bom português - sugere, fala sobre acordar para a vida, para um caminho que talvez não seja o mais seguro, mas ainda assim, é o que foi escolhido e não pré-determinado. Com seu jeito loser de ser, Dustin Hoffman é a perfeita encarnação de um rapaz abismado com o mundo à sua volta, que não sabe caminhar com as próprias pernas sem que alguém o empurre e que, de repente, nota que optar pelo que deseja é o caminho certo, mesmo que não saiba como agir depois de fazer suas escolhas. Nem Warren Beatty, nem Jack Nicholson nem Robert Redford - todos cotados para o papel - fariam melhor.

quarta-feira

À SANGUE FRIO


À SANGUE FRIO (In cold blood, 1967, Columbia Pictures, 134min) Direção: Richard Brooks. Roteiro: Richard Brooks, baseado no livro de Truman Capote. Fotografia: Conrad Hall. Montagem: Peter Ziner. Música: Quincy Jones. Direção de Arte / Cenários: Robert Boyle / Jack Ahern. Produção: Richard Brooks. Elenco: Robert Blake, Scott Wilson, John Forsythe, Jeff Corey, John McLiam. Estreia: 14/12/67

4 indicações ao Oscar: Diretor (Richard Brooks), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original

Em 2005 o cineasta Benett Miller lançou "Capote", que deu a Philip Seymour Hoffman o merecido Oscar de melhor ator. O filme, baseado na biografia escrita por Gerald Clarke, contava o envolvimento do famoso escritor em um polêmico caso de homicídio ocorrido no Kansas em 1960 e o processo de escrita do livro "À sangue frio", que tornou-se sua obra-prima e até hoje é leitura indispensável aos fãs do bom jornalismo. Lançado em 1965, o resultado da exaustiva pesquisa de Capote ficou famoso como o primeiro "romance de não-ficção" da história e chegou às telas de cinema meros dois anos depois de sua publicação. Dirigida por Richard Brooks (que também escreveu o roteiro do filme), a adaptação cinematográfica de "À sangue frio" chegou aos cinemas em 1967, beneficiando-se do fato de a brutal história ainda estar fresca no inconsciente do povo americano. À parte seu timing perfeito em termos de estreia, no entanto, possui qualidades outras que o mantém, ainda hoje, entre os grandes dramas policiais realizados por Hollywood.

O roteiro de Brooks é bastante fiel ao livro de Truman Capote - também autor do texto original de "Bonequinha de luxo" - e conta uma história surpreendentemente verídica; em 1960, uma pequena cidade do Kansas fica chocada com o brutal assassinato da família do fazendeiro Clutter.Ele, sua esposa e seu casal de filhos são violentamente assassinados em casa, sem motivos aparentes. Enquanto a polícia busca pistas para solucionar o caso, os dois criminosos, Perry Smith (Robert Blake) e Dick Hickock (Scott Wilson) partem atrás da realização de seu sonho encontrar um tesouro cujo mapa está em suas mãos. No entanto, como todo e qualquer assassinato, rastros são deixados para trás e os dois ex-colegas de prisão são capturados e julgados, condenados ambos à morte.


A começar pela competente fotografia em preto-e-branco indicada ao Oscar, que mostra a desolação e a angústia dos personagens, quase tudo funciona maravilhosamente bem no resultado-final - é especialmente impressionante a sequência, já no final do filme, em que Smith recorda de sua infância e parece chorar, quando na verdade o que estamos vendo é o reflexo da chuva na vidraça do presídio (um efeito casual, segundo a produção, mas que emociona de verdade). O livro de Capote deu material suficiente para que o roteiro seja extremamente farto de informações e ao mesmo tempo, enxuto e direto, auxiliado pela música potente de Quincy Jones e a edição excepcional de Peter Zinn. As personalidades dos assassinos são mostradas aos poucos e, mesmo que o público saiba que eles são frios e até cruéis, não deixa de ter uma certa compaixão por suas vidas fracassadas e desesperançadas. Contribui muito para isso a interpretação dos atores, em especial a de Robert Blake, que construiu um Perry Smith torturado pelo físico mutilado e a alma destroçada por uma infância sofrida. Por mais talentoso que fossem, é pouco provável que Paul Newman e Steve McQueen - as primeiras escolhas da Columbia Pictures para os papéis - conseguissem deixar de lado suas personas já conhecidas e consagradas para dar veracidade a personagens tão controversos. E veracidade era a palavra de ordem no projeto de Brooks.

Em busca do máximo de realismo possível, “À sangue-frio” foi filmado em vários locais onde realmente os fatos mostrados ocorreram, como a fazenda dos Clutter e o tribunal onde os assassinos foram julgados. Até mesmo seis dos jurados originais participaram das cenas, e o juiz que condenou a dupla só não fez parte do elenco porque morreu pouco antes das filmagens.

“À sangue-frio” não faz julgamentos morais. O diretor Richard Brooks quer apenas contar uma história forte e emocionalmente impactante por sua natureza. Consegue. Não faz jus à majestade do livro que lhe deu origem, mas jamais peca pela mediocridade e/ou auto-complacência. Um filme definitivo e obrigatório!

terça-feira

BONNIE & CLYDE, UMA RAJADA DE BALAS


BONNIE & CLYDE, UMA RAJADA DE BALAS (Bonnie & Clyde, 1967, Warner Bros, 112min) Direção: Arthur Penn. Roteiro: David Newman, Robert Benton. Fotografia: Burnett Guffey. Montagem: Dede Allen. Música: Charles Strouse. Figurino: Theadora Van Runkle. Direção de arte / Cenários: Dean Tavoularis / Raymond Paul. Produção: Warren Beatty. Elenco: Warren Beatty, Faye Dunaway, Gene Hackman, Michael J. Pollard, Estelle Parsons, Gene Wilder. Estreia: 04/8/67

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Arthur Penn), Ator (Warren Beatty), Atriz (Faye Dunaway), Ator Coadjuvante (Gene Hackman, Michael J. Pollard), Atriz Coadjuvante (Estelle Parsons), Roteiro Original, Fotografia, Figurino

Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Estelle Parsons), Fotografia


Segundo o sensacional livro "Como a geração sexo, drogas e rock'n'roll salvou Hollywood", de Peter Biskind (Editora Intrinseca), "Bonnie & Clyde, uma rajada de balas" foi o filme que marcou a ruptura entre a "velha" Hollywood, com seu sistema de estúdios, códigos de censura e classicismo exagerado e a "nova" Hollywood, onde os diretores virariam os astros - principalmente se tivessem o talento de "auteur" que a revista francesa "Cahièrs du Cinéma" já há algum tempo exaltava. Ainda segundo Biskin, foi graças à coragem do produtor Warren Beatty e do cineasta Arthur Penn que foram abertas as portas que deram entrada no mundo do cinema comercial, de nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Hal Ashby, Steven Spielberg e Robert Altman. Só por isso "Bonnie & Clyde" já merecia figurar com honra em qualquer antologia sobre cinema. Mas se não bastasse essa sua importância histórica, o filme de Penn é um estupendo trabalho de direção e um dos melhores filmes de gângsters já produzidos nos EUA.

"Bonnie & Clyde" começa em 1931, quando o jovem Clyde Barrow (Warren Beatty, que assumiu o papel quando o cantor Bob Dylan não o aceitou) acaba de sair da prisão por assalto à mão armada. Ao tentar roubar um carro, ele conhece a bela Bonnie Parker (Faye Dunaway no auge da beleza), que trabalha tediosamente como garçonete mas deseja ardorosamente uma vida mais agitada. Logo que ela realmente acredita que o rapaz diz ser o que é, ela resolve juntar-se a ele, e o casal passa a roubar bancos. No meio do caminho junta-se a eles o jovem frentista W.C. Moss (Michael J. Pollard) e mais adiante o irmão de Clyde, Buck (Gene Hackman) e sua mulher, Blanche (Estelle Parsons). Pouco depois, a gangue já é conhecida e procurada em boa parte do país, tornando-se famosa e de certa forma admirada pela população.

Como era de se esperar, o roteiro de David Newman e Robert Benton (que contou com a não-creditada ajuda de Robert Towne) não é totalmente fiel aos fatos reais da vida de seus protagonistas (W.C.Moss, por exemplo, é uma mistura de três pessoas), mas tenta seguir ao máximo a cronologia dos acontecimentos e a história verdadeira. O relacionamento entre o casal central é um dos pontos mais dissonantes da realidade: segundo historiadores, Clyde era bissexual - o primeiro roteiro claramente apresentava uma espécie de romance entre ele e Moss - enquanto no filme, sua incapacidade de consumar o ato sexual com Bonnie advém do fato de ele ser impotente. Não deixa de ser interessante, contudo, ver que a violência, os roubos e a adrenalina das perseguições de certa maneira substitui, para ela, os orgasmos que não tem com o homem que ama - o primeiro beijo deles acontece quando ela o assiste assaltar uma mercearia, o que não deixa de reiterar a afirmação.


Idealizado em preto-e-branco (ideia rejeitada ferozmente pela Warner), "Bonnie & Clyde" tem um estilo semi-documental que, apesar da violência um tanto excessiva pra época - mortes acontecem a todo instante e sem disfarces de edição - ainda arruma espaço para uma espécie de humor negro. A trilha sonora impecável de Charles Strouse casa perfeitamente tanto nas cenas mais densas quanto nas sequências mais leves, em um tom espirituoso que lembra o cinema mudo e impede o produto final de tornar-se indigesto a um público ainda não acostumado com o vigor apresentado pelo cineasta. Inclusive, Penn - que concorreu ao Oscar por seu magnífico trabalho - substituiu ninguém mais ninguém menos do que o francês François Truffaut, que esteve envolvido diretamente em mais de uma etapa da produção do filme, mas o abandonou na última hora para cuidar de seu projeto de estimação, "Fahrenheit 451".

E não foi só Truffaut quem poderia ter seu nome intimamente ligado à "Bonnie & Clyde": além de Bob Dylan ter sido considerado para viver o protagonista masculino, a personagem feminina central também teve nomes cotados antes que Dunaway agarrasse o trabalho com unhas e dentes: Jane Fonda não quis deixar a França onde morava na época, Cher despertou a ira do seu então marido Sonny Bono por tentar um papel em um filme tão controverso e Shirley MacLaine saiu de cena por razões óbvias quando Beatty assumiu como Clyde, uma vez que não seria apropriado ter dois irmãos vivendo um casal nas telas de cinema.

Apropriado, aliás, o filme não pareceu nem um pouco quando estreou. Lançado pelo estúdio como um filme B, sem maior divulgação e sem alarde, ele recebeu algumas críticas massacrantes - em especial a do principal resenhista da revista "Newsweek", Joseph Morgenstern - e não parecia ter um futuro promissor. Quando, no entanto, jovens começaram a lotar as sessões e outros críticos passaram a tecer loas entusiasmadas à obra, tudo mudou. Não só o estúdio relançou o filme em maior escala como até mesmo Morgenstern voltou atrás, declarando estar completamente errado em sua primeira impressão. As dez indicações ao Oscar apenas confirmaram o que qualquer espectador poderia perceber assim que as polaróides da abertura do filme apareciam na tela: ali estava um clássico atemporal.

Sexy, violento e amoral, "Bonnie & Clyde" é um dos filmes mais fascinantes sobre a América pós-1929 e um dos mais importantes exercícios de estilo do cinema americano de todos os tempos. Tão interessante agora quanto há 43 anos, é um exemplo de técnica, talento e coragem a ser seguido por qualquer cineasta que preze sua integridade artística.

OS DOZE CONDENADOS


OS DOZE CONDENADOS (The dirty dozen, 1967, MGM Pictures, 150min) Direção: Robert Aldrich. Roteiro: Nunnally Johnson, Lukas Heller, baseado no romance de E. M. Nathanson. Fotografia: Edward Scaife. Montagem: Michael Luciano. Música: De Vol. Produção: Kenneth Hyman. Elenco: Lee Marvin, Ernest Borgnine, Richard Jaeckel, George Kennedy, Robert Ryan, John Cassavetes, Charles Bronson, Telly Savallas, Donald Sutherland, Trini Lopez, Jim Brown, Clint Walker, Tom Busby, Ben Carruthers, Stuart Cooper, Colin Maitland. Estreia: 15/5/67

4 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (John Cassavetes), Montagem, Som, Efeitos Sonoros

Vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros


As feministas que perdoem a afirmação, mas existe, sim, "filme de homem". E um exemplo claríssimo disso é "Os doze condenados", dirigido pelo mesmo Robert Aldrich que domou Bette Davis e Joan Crawford em "O que terá acontecido a Baby Jane?". Baseado em um romance de E.M. Nathanson, "Os doze condenados" é uma explosão de testosterona em cada fotograma, não abrindo espaço para nenhum tipo de sentimentalismo, dramas desnecessários ou senso de humor. É um grande filme, mas com um público-alvo específico - os fãs de filmes de guerra à moda clássica.

"Os doze condenados" começa em março de 1944, em Londres. O Major Reisman (Lee Marvin em papel recusado por John Wayne) é chamado à presença de um superior para receber uma nova e atípica missão. Conhecido por seus modos rebeldes e contrários à hierarquia, ele é escolhido para ser o comandante de uma missão aparentemente suicida - invadir um castelo na França onde os alemães guardam sua munição, explodí-lo e matar todos os soldados nazistas que estiverem presentes (assim como quem mais estiver por perto). Como seus comandados, o Major terá uma equipe de doze homens que pouco tem a perder - uma dúzia de condenados pela justiça militar (alguns à morte, outros à prisão perpétua) que, se bem sucedidos em sua perigosa batalha, estarão absolvidos de seus crimes. Entre os escolhidos por Reisman encontram-se o ex-soldado Wladislaw (Charles Bronson) - preso por atacar um superior -, Jefferson (Jim Brown) - um ativista dos direitos dos negros -, Franko (John Cassavetes) - um gângster rebelde -, Maggot (Telly Savallas) - um psicopata que mata mulheres que fogem dos padrões cristãos - e Pinkley (Donald Sutherland) - um homem com problemas mentais.

A primeira providência de Reisman é unir seus homens e fazer deles uma equipe coesa e sólida. Para isso, ele reúne a todos em um campo de treinamento rígido e implacável. É neste campo que os prisioneiros transformados em soldados tornam-se um time, deixando suas diferenças de lado em prol de um mesmo objetivo. Logo em seguida, depois de provarem ao superior de Reisman que são capazes de cumprir o que lhes foi proposto - mesmo quando chegam perto de perder sua possibilidade de perdão graças a uma festinha particular com algumas garotas de programa - chega a hora de partir para o ataque. Com suas vidas em jogo, a dúzia de imundos do título original se entregam de corpo e alma ao plano criado por seu líder.



"Os doze condenados" é um filme que vale por três. Seus três atos claramente delimitados poderiam facilmente ser produtos isolados e seriam interessantes o suficiente. Primeiro, o treinamento: é pouco provável que o espectador mais ligado não vá perceber semelhanças entre esta parte inicial com o primeiro ato de "Nascido para matar", de Stanley Kubrick - logicamente sem a violência deste último. Inúmeros filmes de guerra de certa forma utilizaram deste artifício para apresentar suas personagens e o trabalho de Aldrich é exemplar: com o encerramento do capítulo inicial, o público já está torcendo por seus "heróis", mesmo que saiba que eles são todos criminosos. É interessante notar que o roteiro não se detém em explicitar detalhadamente as razões que levaram os protagonistas à cadeia, o que por um lado os torna mais simpáticos à plateia, mas ao mesmo tempo enfraquece suas personalidades. O público, de certa forma, tem acesso apenas ao que está vendo, esquecendo já na metade do filme que está torcendo por homens que, em produções menos corajosas, seriam os vilões.

A segunda parte da trama mostra como os homens contatados por Reisman provam sua competência em relação ao que foi planejado e como tornaram-se realmente unidos. É talvez a parte menos empolgante do filme, mas que serve de ponte para a esperada e catártica terceira fase do roteiro de Nunnally Johnson e Lukas Heller: a missão propriamente dita.

É difícil descrever a elegância de Robert Aldrich em dirigir o terço final de "Os doze condenados". Sem apelar para uma violência exagerada - ainda que o tema e a proposta permitissem que ele fizesse isso - o cineasta rege uma sucessão de pequenas cenas que, concatenadas, formam um extraordinário clímax, que, revisto hoje, parece claramente ter inspirado Quentin Tarantino em seu "Bastardos inglórios": ao recusar-se a cortar uma cena crucial - que envolvia mulheres e crianças alemãs - o diretor demonstrou uma bravura louvável, que, dizem, lhe custou uma indicação ao Oscar.

"Os doze condenados" é um filme de guerra exemplar. Ao fugir do clichê de mostrar as batalhas em si, ele apresenta um lado até então inédito do conflito e cede espaço para algumas criações raras em obras do gênero: John Cassavetes, por exemplo, concorreu ao Oscar de ator coadjuvante por seu trabalho como o rebelde Franko e Donald Sutherland (herdando um papel recusado por outro ator), carimbou seu passaporte para um dos papéis principais de "M.A.S.H.", de Robert Altman - que lhe transformou em astro. Isso sem falar na atuação de Lee Marvin, ele mesmo um veterano da II Guerra, assim como Telly Savallas, Charles Bronson e Ernest Borgnine.

Maior sucesso de bilheteria da MGM no ano de 1967, "Os doze condenados" rendeu três sequências feitas para a TV e tem um remake marcado para 2012. É esperar para conferir o que a tecnologia moderna pode oferecer para melhorar ainda mais a incrível história criada por Nathanson.

segunda-feira

DOUTOR JIVAGO


DOUTOR JIVAGO (Doctor Zhivago, 1965, MGM Pictures,197min) Direção: David Lean. Roteiro: Robert Bolt, baseado no romance de Boris Pasternak. Fotografia: Freddie Young. Montagem: Norman Savage. Música: Maurice Jarre. Figurino: Phyllis Dalton. Direção de arte/cenários: John Box / Dario Simoni. Produção: Carlo Ponti. Elenco: Omar Sharif, Julie Christie, Rod Steiger, Tom Courtenay, Geraldine Chaplin, Alec Guinness, Klaus Kinski, Ralph Richardson. Estreia: 22/12/65

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David Lean), Ator Coadjuvante (Tom Courtenay), Roteiro Adaptado, Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino em Cores, Direção de arte/Cenários em Cores, Som
Vencedor de 5 Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores

Vencedor de 5 Golden Globes: Filme/Drama, Diretor (David Lean), Ator/Drama (Omar Sharif), Roteiro, Trilha Sonora

Houve um tempo em Hollywood que a palavra "épico" sempre vinha acompanhada do nome do diretor David Lean, e não era para menos. Basta assistir a qualquer um de seus filmes mais famosos - "A ponte do Rio Kwai" e "Lawrence da Arábia", por exemplo, para ficar apenas nas obras que lhe deram o Oscar - para perceber que o cineasta inglês tinha uma fascinação mais do que corriqueira por histórias que exigissem vastas paisagens, personagens apaixonadas - por uma causa, por uma missão, por uma pessoa - e principalmente histórias que se prestassem a longas durações. Exagero? "Lawrence" tem 216 minutos, "Rio Kwai" tem 161. Tendo isso tudo em vista, não é nada surpreendente que ele tenha se interessado pela adaptação cinematográfica do romance "Doutor Jivago", escrito por Boris Pasternak. Afinal de contas, além de todos os ingredientes citados acima, o livro de Pasternak - publicado em 1958 apenas fora da União Soviética, que só o pode ler em 1989 - ainda tinha um viés social que aumentava consideravelmente seu poder de sedução junto a uma plateia que dava seus primeiros passos em direção à consciência política. Sintomaticamente, "Doutor Jivago" foi o filme mais popular de Lean, arrecadando sozinho mais do que todos os seus trabalhos anteriores somados.

"Doutor Jivago" começa pra valer em 1912, às vésperas da I Guerra Mundial, em Moscou. É lá que o poeta e estudante de Medicina Yuri Jivago (Omar Sharif) toma contato com as diferenças sociais que empurram aos poucos a Rússia a uma revolução. Noivo de sua irmã de criação, Tonya (Geraldine Chaplin), ele conhece a bela Lara (Julie Christie), uma jovem que desperta os desejos lascivos do poderoso Komarovsky (Rod Steiger) que, entre outras mulheres, também é amante de sua mãe. Lara é noiva de Pasha (Tom Courtenay), um dos mais engajados membros do partido que tenciona tomar o poder russo. Quando a Guerra realmente chega, Lara e Jivago se reencontram em circunstâncias bastante dramáticas - ele como médico e ela como enfermeira voluntária - e se apaixonam, apesar de seus compromissos sentimentais (embora ela nunca mais tenha visto seu marido, um dos líderes do movimento que em pouco tempo forçará a Revolução Russa). Ao retornar para Moscou, Jivago encontra seu país em estado crítico, tendo a própria mansão de sua família invadida por dezenas de famílias. Ao recolher-se ao interior da Rússia com a mulher, o sogro e o filho, ele volta a encontrar Lara, e dessa vez eles se entregam ao forte sentimento que nutrem um pelo outro. A felicidade, no entanto, é efêmera, uma vez que a guerra civil que divide o país eclode e ameaça seu relacionamento.



Épico no sentido mais amplo do termo, "Doutor Jivago" é um espetáculo para ser degustado com admiração incondicional. A impressionante fotografia de Freddie Young, premiada com o Oscar, é uma das mais extraordinárias da história do cinema, marcando com eficiência e sensibilidade a passagem do tempo e o estado de espírito das personagens - não foi à toa que as filmagens sofreram grande atraso devido ao perfeccionismo de Lean, que fez questão de filmar cada cena dentro de seu respectivo período de tempo. A neve, que é visão constante ao espectador nunca foi tão linda, assim como a areia do deserto nunca esteve tão fotogênica quanto em "Lawrence da Arábia" . E os inúmeros closes nos olhos azuis de Christie apenas reforçam sua beleza e sua fragilidade, que se transforma em uma força inesperada em momentos extremos. Mas apesar do talento tanto de Julie quanto de Sharif, o romance entre suas personagens talvez seja o elo mais fraco de toda a trama.

Por incrível que pareça quando se trata de um épico romântico, a história de amor entre Jivago e Lara não chega a conquistar o público tanto quanto o cenário político-social em que ela se desenrola. Mesmo que as cenas entre os dois sejam de uma beleza inegável - culpa também da extraordinária e consagrada trilha sonora de Maurice Jarre - o interesse da plateia acaba sendo muito maior na trama política do filme e em suas consequências. Algumas cenas bastante violentas - mas ainda assim de uma poesia dolorosa - são magistralmente dirigidas por Lean em contraponto à placidez silenciosa de outras sequências.O roteiro, que condensa um livro de mais de 600 páginas em pouco mais de três horas de duração, busca fazer milagres. Ao mesmo tempo que foge gloriosamente do didatismo - o que de certa forma deixa a plateia um pouco perdida em alguns momentos - tenta fazer acreditar no romance entre seus protagonistas. Não é tarefa das mais fáceis e nem sempre seu objetivo é atingido plenamente - nas páginas escritas por Pasternak a paixão entre Jivago e Lara soa mais crível e avassaladora do que na tela, onde Sharif e Julie - atraentes, sem dúvida, mas um tanto apáticos - não transmitem o amor intenso de suas personagens. Comparados com a fúria de Rod Steiger e Tom Courtenay (o último indicado ao Oscar de coadjuvante) eles empalidecem bastante, mas ainda assim conquistam a cumplicidade do espectador. Em todo caso, poderia ter sido pior, já que o produtor Carlo Ponti queria que sua esposa Sophia Loren interpretasse a protagonista (dá pra imaginar a voluptuosa Loren na pele da sentimental Lara?)

"Doutor Jivago" é um grande filme. Soa moderno ainda hoje, graças à direção de Lean, que mescla seu estilo clássico com a garra e o perfeccionismo costumeiros. Embala os corações mais sensíveis com sua história de amor e enche os olhos daqueles que apreciam um cinema-espetáculo com seu visual arrebatador. Boris Pasternak ganhou o Nobel de Literatura por seu trabalho. E David Lean o adaptou à altura. Um filme para ver e rever!

domingo

OS PÁSSAROS


OS PÁSSAROS (The birds, 1963, Universal Pictures, 119min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Evan Hunter, baseado em um conto de Daphne DuMaurier. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Elenco: Tippi Hedren, Rod Taylor, Jessica Tandy, Suzanne Pleschette, Veronica Cartwright, Ethel Griffies. Estreia: 28/3/63

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

É de se pensar qual seria a reação da plateia caso "Os pássaros", de Alfred Hitchcock, fosse lançado hoje. Acostumada que está a uma dieta de superproduções de conteúdo mastigado e com sequências de ação que valorizam mais explosões e tiroteios do que o suspense calcado em situações extremas, a idiotizada audiência que lota multiplexes provavelmente execraria o que é um dos mais populares do mestre do gênero. Fez isso, por exemplo, com "Fim dos tempos", de M. Night Shyamalan, que bebia da mesma fonte, ainda que sem a mesma excelência. O fato é que, ao optar pelo caminho mais difícil - o de deixar tudo sem maiores explicações - Hitchcock construiu um filme digno de figurar entre os mais angustiantes da história do cinema. E ainda teve a ousadia suprema de deixar um final pessimista. E em aberto.

A ideia de filmar "Os pássaros" veio de uma história da escritora Daphne DuMaurier, mesma autora do romance "Rebecca, a mulher inesquecível", cuja adaptação tornou-se, em 1940, no primeiro trabalho de Hitchcock em Hollywood. No entanto, como já havia feito outras vezes em sua carreira - mais notadamente em "Psicose" - o cineasta utilizou em seu projeto apenas a ideia central do conto original, ou seja, uma série de violentos ataques cometidos por aparentemente inócuos e gentis pássaros. Não aves de rapina ou algo que as valha, mas sim tímidos e bucólicos tordos, gaivotas e assemelhados, que, de uma hora pra outra, passam a investir contra os moradores da pacata Bodega Bay, uma ilha localizada perto de San Francisco.

E é em Bodega Bay que vai parar a socialite Melanie Daniels (Tippi Hedren), que chega até lá com o objetivo de seduzir o advogado Mitch Brenner (Rod Taylor), que ela conheceu em uma pet shop quando ele procurava um casal de passarinhos para presentear sua irmã caçula, Cathy (Veronica Cartwright). Chegando à cidade, ela conhece a doce Annie Hayworth (Suzanne Pleschette), que logo a deixa ciente a respeito do maior problema de Mitch; sua mãe, a controladora viúva Lydia (Jessica Tandy quase 30 anos antes do Oscar por "Conduzindo Miss Daisy"). Ainda assim, Melanie resolve arriscar-se a um flerte com o rapaz, mas, quando os pássaros começam a atacar as pessoas da ilha - e tudo começa quando uma gaivota lhe fere a cabeça quando ela está chegando à ilha - seu objetivo maior passa a ser a sobrevivência.

"Os pássaros" é pavor em estado puro. Para o público atual, acostumado a pular da poltrona ao testemunhar machadadas de autoria de assassinos mascarados ou zumbis descarnados, talvez seja difícil assustar-se com os efeitos especiais hoje um tanto datados, mas de ponta na época do lançamento - mas que perderam o Oscar para "Cleópatra" (hein??). No entanto, é insuperável a atmosfera de terror criada por Hitchcock - que demora propositadamente a pegar pesado na tensão, preferindo estabelecer o clima e as personagens antes de qualquer cena mais sanguinolenta. E, ao contrário de seus filmes anteriores, onde o sangue era quase inexistente - "Psicose" chegou a ser feito em preto-e-branco para atenuar a visão do vermelho - aqui ele corre aos borbotões, sem medo de chocar a plateia. Conforme vai se aproximando do seu final - e os ataques das aves vão ficando cada vez menos amigáveis - o filme torna-se mais e mais próximo do terror convencional, se é que "convencional" é adjetivo que possa ser aplicado a qualquer trabalho de Hitchcock. Depois de pouco mais de uma hora de projeção, todo e qualquer romance que esteja começando entre Melanie e Mitch fica em segundo plano, abrindo espaço para algumas das cenas mais geniais do gênero - e isso que ele nem faz uso de trilha sonora, o que é mais uma de suas ideias que nadavam contra a corrente.


E cenas geniais não faltam em "Os pássaros". Hitchcock constrói aqui sequências onde a tensão crescente é a alma da festa. Em uma dessas cenas antológicas, Melanie (vivida pela mãe da atriz Melanie Griffith e que foi festejada na época como a nova Grace Kelly do cineasta) espera a saída de Cathy da escola e, no momento em que isso acontece todos - alunos, professores e a própria Melanie - são atacados. Antes que isso aconteça, no entanto, o diretor já anuncia o que vem pela frente; a cada vez que a protagonista olha para a pracinha da escola ela percebe o aumento considerável de animais. E o que dizer então da sequência em que um posto de gasolina explode - depois de minutos aterradores - e suas consequências são vistas de cima, como se observadas pelos próprios pássaros? Isso sem falar na cena em que a especialista em pássaros (vivida por Ethel Griffies) tira toda e qualquer esperança de luta contra os repentinos inimigos.

Além de ser entretenimento de primeira, "Os pássaros" ainda serve a inúmeras análises psicossexuais e/ou sociológicas - o ensaio escrito por Camille Paglia e lançado pela editora Rocco que o diga. Em uma primeira visão o que sobressai no roteiro de Evan Hunter é o fato dos ataques começarem com a chegada de Melanie à cidadezinha - uma mulher liberada, dona de si, bela e independente chega a uma paradisíaca ilha e traz consigo uma ameaça de apocalipse. Freud teria acessos de felicidade analisando esse viés da trama, algo assim como o faz uma habitante de Bodega Bay quando acusa a forasteira de ser a culpada pela tragédia - sem a raiva inerente a esta personagem, logicamente.

Análises à parte, "Os pássaros" é um filme para ser visto como prova de que nem sempre é necessário uma explicação racional - leia-se simplista - para que um filme de suspense seja aterrador e angustiante. Afinal, o que é mais amedrontador do que o desconhecido?

PS - Aliás, nem será preciso mais imaginar a reação da plateia quanto a "Os pássaros". Existe o projeto de uma refilmagem para estrear em 2013, em comemoração aos 40 anos de seu lançamento, com Naomi Watts no papel principal. Tenha muito medo...

segunda-feira

O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE?


O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? (What ever happened to Baby Jane?, 1962, United Artists, 134min). Direção: Robert Aldrich. Roteiro: Lukas Heller, baseado no romance de Henry Farrell. Fotografia: Ernest Haller. Montagem: Michael Luciano. Música: DeVol. Casting: Jack Murton. Produção executiva: Kenneth Hyman. Produção: Robert Aldrich. Elenco: Bette Davis, Joan Crawford, Victor Buono. Estreia: 31/10/62

5 indicações ao Oscar: Atriz (Bette Davis), Ator Coadjuvante (Victor Buono), Fotografia P&B, Figurino P&B, Som
Vencedor do Oscar de Melhor Som


Dizem que, durante uma entrevista, a nada diplomática Bette Davis teria declarado que o melhor momento que passara com a atriz Joan Crawford fora quando a empurrara escada abaixo em uma cena de "O que terá acontecido a Baby Jane?", de 1962. Por mais saborosa que seja a possibilidade da grandiosa Davis ter dito isso, é preciso encarar a verdade de frente: ela nunca empurrou Crawford escada abaixo em "Baby Jane". E, levando-se em conta tudo que ela aprontou com a colega de cena no filme de Robert Aldrich, pode-se dizer que empurrá-la escada abaixo foi a ÚNICA coisa que ela não fez.

Assim como "Crepúsculo dos deuses", "O que terá acontecido a Baby Jane?" é uma espécie de réquiem às grandes estrelas do show business, um retrato cruel e assustador dos efeitos que a rejeição e a passagem do tempo podem causar em pessoas que tem na juventude sua qualidade principal. No entanto, enquanto a obra-prima de Billy Wilder utilizava elementos trágicos para ilustrar o caminho da outrora estrela Norma Desmond em direção à loucura, o diretor de "Baby Jane", Robert Aldrich, flerta com o humor negro e o suspense, proporcionando a Bette Davis e Joan Crawford os últimos papéis realmente marcantes de suas gloriosas carreiras.

"O que terá acontecido a Baby Jane?" começa em 1917, quando Baby Jane encanta milhares de fãs como criança-prodígio. Idolatrada e mimada, ela utiliza sua proeminência para ter frequentes ataques de estrelismo. A ação pula alguns anos, e, em 1935, a estrela é a irmã de Jane, Blanche, uma bem-sucedida atriz de cinema que, comprovando seu bom caráter, ajuda a carreira decadente da irmã, famosa por seu alcoolismo e seus escândalos. Um mal-explicado acidente de carro acontece e, 28 anos depois, o sucesso é passado para as duas. Paralítica desde o acidente, Blanche é cuidada por Jane, que, entregue ao desleixo e à bebida, a trata com crueldade e desprezo. Ao saber que Blanche deseja vender a casa onde moram, Jane resolve fazer um retorno aos palcos, utilizando seu mesmo número musical da infância. Para isso, ela contrata o músico fracassado Edwin Flagg (Victor Buono), ao mesmo tempo em que começa a ficar cada vez mais violenta contra a irmã.



"O que terá acontecido a Baby Jane?" é uma delícia de exageros. Poucas vezes o cinema proporcionou a seu público a chance de assistir a um embate tão venenoso e divertido quanto o apresentado por Davis e Crawford, que realmente se odiavam nos bastidores. Davis, por exemplo, exigiu em seu contrato a manutenção de uma máquina de Coca-cola: não que fosse exatamente fã da bebida, mas como forma de provocar sua co-estrela, que fazia parte da diretoria da Pepsi. Crawford, por sua vez, encheu os bolsos de pedras para uma cena em que seria arrastada por Bette. E se é fascinante observar os dois monstros sagrados digladiando-se em cena, por trás das câmeras a coisa ainda era pior. Quando Davis foi indicada ao Oscar por seu desempenho (formidável, aliás), Crawford (a mesma que espancava a filha adotiva com cabides, segundo a biografia "Mamãezinha querida", escrita pela menina) fez uma campanha aberta contra ela, a ponto de receber a estatueta no lugar de Anne Bancroft, a vencedora - que estava fazendo teatro e não pode estar na cerimônia. Testemunhas juram que, ao ouvir o nome de Bancroft, Joan tocou no ombro de Bette e disse: "Com licença, eu tenho um Oscar para receber!"

Deixando de lado os bastidores do filme de Aldrich - ainda que eles sejam tão interessantes quanto o próprio - e concentrando-se em suas qualidades, "Baby Jane" é um filme absolutamente calcado em suas estrelas, ambas em franca decadência quando o filme foi lançado (não porque mereciam mas sim pelo tradicional descaso de Hollywood para com suas divas). A trama, baseada em um romance de Henry Farrell, não apresenta maiores novidades e nem tampouco sugere uma revolução no gênero. Mas é inegável que algumas sequências são soberbas do ponto de vista de direção: todas as vezes em que Blanche tenta sair de seu cativeiro, por exemplo, são minutos do mais perfeito suspense que o cinema é capaz de criar. Mas é Bette Davis, sem sombra de dúvida, a dona da festa.

Em um magistral trabalho de composição (figurino, cabelo e maquiagem casam com perfeição com a criação da voz e da expressão corporal da atriz), Davis, em cena, é um pastiche de si mesma e de dezenas de figuras ilustres do show business que não conseguiram superar a mágoa e o trauma de ser abandonadas. É trágico, é cômico e é extremamente triste assistir à fantasia de Baby Jane em voltar ao estrelato, assim como perceber como ela parou no tempo e não notou que as outras pessoas continuaram suas vidas (exatamente como Norma Desmond em "Crepúsculo dos deuses"). A sequência final, então, é de cortar o coração. Apesar de suas maldades, Baby Jane não desperta raiva no público. No máximo, pena. E sentir pena de Bette Davis é uma honra inenarrável!

O MILAGRE DE ANNE SULLIVAN


O MILAGRE DE ANNE SULLIVAN (The miracle worker, 1962, MGM Pictures, 106min). Direção: Arthur Penn. Roteiro: William Gibson, baseado em sua peça teatral homônima. Fotografia: Ernest Caparros. Montagem: Aram Avakian. Música: Laurence Rosenthal. Produção: Fred Coe. Elenco: Anne Bancroft, Patty Duke, Victor Jory, Inga Swenson, Andrew Prine, Kathleen Comegys. Estreia: 23/5/62

5 indicações ao Oscar: Diretor (Arthur Penn), Atriz (Anne Bancroft), Atriz Coadjuvante (Patty Duke), Roteiro Adaptado, Figurino P&B
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Anne Bancroft), Atriz Coadjuvante (Patty Duke)


Helen Keller nasceu em 1880 e morreu em 1968. Em 1904, formou-se em filosofia. Dominava inglês, francês, latim e alemão. Foi agraciada com títulos honorários de diversas universidades, inclusive na Escócia, Alemanha, Índia e África do Sul. Foi nomeada Cavaleira da Legião de Honra da França. Foi condecorada com a Ordem do Cruzeiro do Sul, no Brasil e com a do Tesouro Sagrado, no Japão. Era escritora, filósofa e conferecista e desenvolveu extensos trabalhos em prol de pessoas portadoras de deficiências. Tinha admiradores como Chaplin, JFK, Mark Twain e Graham Bell. E era cega, surda e muda.

Uma das personalidades mais fascinantes do século XX, Helen Keller é o assunto principal de "O milagre de Anne Sullivan", que o cineasta Arthur Penn dirigiu com roteiro de William Gibson baseado em sua peça teatral homônima, grande sucesso na Broadway. Estrelado por Anne Bancroft e a adolescente Patty Duke (ambas vencedoras do Oscar por suas atuações), o filme é um fascinante retrato da tenacidade e da força de vontade de uma mulher em busca de um objetivo. E é também, e principalmente, a história quase inacreditável de uma superação além de toda e qualquer expectativa.

O filme de Penn não acompanha a vida adulta de Keller, nem tampouco a sua glória. Concentra-se especificamente no período de poucas semanas em que deu-se seu "retorno ao mundo", graças à incansável batalha de sua professora, também uma vítima das limitações impostas por uma deficiência física. Anne Sullivan (papel oferecido a Ingrid Bergman) é uma professora que chega a uma pequena cidade do Alabama com a missão de cuidar da pequena Helen, de sete anos, que, aos dezoito meses de idade sofreu de uma rara febre cerebral (hoje acredita-se que tenha sido escarlatina) que a impede de ver, ouvir ou falar. Isolada do mundo como se fosse um animal selvagem, a menina é tratada como tal pela família que, sem ter mais a quem (ou a que) recorrer, contrata Annie para tentar ensinar-lhe o básico que, acreditam eles, ela jamais conseguirá aprender. Sem ter nenhuma noção do mundo ao seu redor, Helen é violenta, mimada e incapaz de se comunicar, mas a chegada de Anne (que também sofreu de uma cegueira parcialmente curada após nove cirurgias) lhe abre um novo horizonte. Mesmo sem nenhuma didática ou experiência, Sullivan resolve dedicar-se a seu projeto, utilizando-se até mesmo da mesma violência física que a garota emprega para fazer-se compreender.



Apesar de volta e meia focar suas cenas nas dúvidas da família Keller em relação ao tratamento oferecido por Anne Sullivan à sua filha, o hipnotizante roteiro de Gibson concentra-se basicamente no duelo entre professora e aluna. Por meio de incontáveis tentativas, inúmeras noites em claro e dezenas de bofetadas, pancadas e agressões corporais, a protagonista batalha incansavelmente pelo sucesso de seus planos, proporcionando a Anne Bancroft o trabalho de sua carreira (e isso que "A primeira noite de um homem" ainda estava por vir...). O duelo de interpretação de Bancroft com a jovem Patty Duke (que mesmo aos 16 anos convencia como uma menina de sete) é digno de figurar entre os maiores da história do cinema. É absolutamente impressionante, por exemplo, o embate físico entre as duas na sala de jantar, quando Annie tenta obrigar Helen a sentar-se à mesa e comer como um ser humano civilizado. Aos tapas e pontapés, as duas se engalfinham por quase dez minutos de uma cena sem qualquer diálogo, centrado unicamente na expressão corporal de suas atrizes. É de cair o queixo, e segurar a vontade de aplaudí-las de pé ao fim da cena é tarefa tão hercúlea quanto fazer com que o pai da garota (vivido por Victor Jory) consiga entender a forma de ensinar da estranha mestra de sua filha. E no final da cansativa sequência, ainda somos brindados com a genial frase: "A sala de jantar está destruída, mas o guardanapo está dobrado."

"O milagre de Anne Sullivan" conquista aos poucos, assim como sua protagonista demora a convencer seus empregadores de seus métodos pouco ortodoxos de ensino. De certa forma é uma revisão da história do "bom selvagem", aqui revestida por uma camada de emoção honesta e delicada. É admirável lembrar-nos que sua história é verdadeira, principalmente quando, ao final do filme, os primeiros sinais de sucesso começam a aparecer - em outra cena igualmente comovente e nunca piegas.

É inegável que os Oscar conquistados pelo filme foram absolutamente merecidos. Enquanto a Helen Keller de Patty Duke é uma perfeita encarnação de uma garota totalmente fora do mundo civilizado como o conhecemos - com toda a compaixão e até a angústia que suscita - a Anne Sullivan criada por Anne Bancroft é um exemplo extraordinário da inteligência da atriz, que nunca permite que sua personagem caia na vala comum da "professora inicialmente desacreditada que muda a vida dos alunos" que fez a glória de dezenas de filmes sobre a relação entre mestres e aprendizes. "O milagre de Anne Sullivan" é mais que um filme, é um tributo à força de vontade do ser humano. E, filme de atrizes que é, é um modelo a ser seguido por estrelas que confiam apenas nos seus sorrisos.

INFÂMIA


INFÂMIA (The children's hour, 1961, United Artists, 107min) Direção: William Wyler. Roteiro: John Michael Hayes, baseado na peça teatral de Lillian Hellman. Fotografia: Franz F. Planer. Montagem: Robert Swink. Música: Alex North. Produção: William Wyler. Elenco: Audrey Hepburn, Shirley MacLaine, James Garner, Fay Bainter, Miriam Hopkins, Karen Balkin, Veronica Cartwright. Estreia: 19/12/61

5 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Fay Bainter), Fotografia P&B, Figurino, Direção de Arte, Som

Aqueles que acham que o mal escondido na infância tem em Macaulay Culkin em "O anjo malvado" seu maior representante - sem mencionar Demian e afins por razões óbvias - merece conhecer Mary Tilford, interpretada pela jovem Karen Balkin em "Infâmia". Tudo bem que a personagem de Culkin chega ao extremo do homicídio, mas o filme de Joseph Reuben é tão perto da realidade quanto os brasileiros representados em filmes de Hollywood. Em "Infâmia", pelo contrário, a maldade da personagem infantil é mais sutil, mas nem por isso menos perniciosa e destruidora. Um filme sobre os efeitos da mentira, "Infâmia" é uma obra-prima do drama psicológico, dirigida com maestria por William Wyler e estrelado pelas excepcionais Audrey Hepburn e Shirley MacLaine.

Depois de ganhar o Oscar de diretor por "Ben-hur" (assim como outras 10 estatuetas), Wyler estava em alta em Hollywood e não deixa de ser uma prova de sua coragem a opção por refilmar "Infâmia", que ele mesmo havia dirigido em 1936, com Merle Oberon e Miriam Hopkins nos papéis principais. Coragem porque, mesmo no início dos anos 60, um dos assuntos discutidos no roteiro não era exatamente palatável ao público médio nem tampouco agradava o Código de Censura que regia a produção cinematográfica: lesbianismo.

A peça "Infâmia" (cujo título original, bem menos sensacionalista, "The children's hour" saiu de uma poesia de Henry Wadsworth Longfellow) foi escrita por Lillian Hellman em 1934. Hellman (aquela mesma escritora e dramaturga que foi casada com Dashiel Hammett e interpretada por Jane Fonda no filme "Julia", de 1977) também roteirizou a primeira versão do filme, excluindo as menções à sexualidade das personagens, mas não ficou particularmente chateada por entender que o cerne da peça mantinha-se intacto. Não estava de toda errada, uma vez que são as consequências de uma falsa acusação que são o ponto principal do enredo, mas é pouco provável que a versão original seja tão forte e contundente quanto sua refilmagem.

Para o filme de 1961, Wyler contou com um roteiro de John Michael Hayes (que escreveu alguns dos melhores Hitchcock dos anos 50, "Janela indiscreta" entre eles). Sem medo de qualquer censura, Hayes não disfarçou o tom pessimista do trabalho de Hellman nem usou de subterfúgios para contar a trágica história de duas mulheres que tem suas vidas transformadas (para pior) devido a uma mentira contada de forma inconsequente.

Karen Wright (Hepburn, em seu último filme em preto-e-branco) e Martha Dobie (MacLaine, em extraordinária atuação) são amigas íntimas desde os 17 anos, e dividem a direção de uma escola para meninas localizada na Nova Inglaterra. Tentando dar a melhor educação possível a suas alunas, elas frequentemente entram em rota de colisão com a rebelde Mary Tilford (Karen Balkin), uma garota mimada, intransigente e de caráter duvidoso. Para vingar-se das professoras, que a haviam deixado de castigo, ela conta à sua avó milionária, Amelia Tilford (Fay Bainter) que testemunhou atos estranhos entre as duas, deixando bem claro para a velha senhora que existe um relacionamento amoroso entre elas. Chocada, Amelia - cujo sobrinho, o médico Joe Cardin (James Garner) é noivo de Karen - espalha a notícia e logo a escola está às moscas. Nem mesmo um julgamento por difamação consegue salvá-las da discriminação do povo da cidade, uma vez que não há testemunhas que possam desmentir a acusação da menina.


A força de "Infâmia" está principalmente em sua espinha dorsal: uma mentira que destrói inexoravelmente vidas inocentes. A acusação de Mary não apenas acaba com o sonho da escola, mas também abala o relacionamento de Karen e Joe e, pior ainda, suscita dúvidas cruéis na própria Martha, que se vê repentinamente frente a uma situação que tentava desesperadamente esconder. Quando a verdade finalmente vem à tona, tudo parece já estar destruído, sem chance de retorno: a sombra da dúvida e do escândalo sempre estará impedindo um futuro realmente luminoso e a tragédia que se anuncia na segunda metade do filme comprova de maneira dolorosa a potência destrutiva de uma calúnia.

Mas William Wyler não teria tido o mesmo sucesso em "Infâmia" se não fosse a certeira escalação de seu elenco. Apesar dos boatos que diziam que Doris Day havia sido sondada para viver uma das protagonistas (o que tornaria a polêmica ainda mais saborosa, haja visto a fama de moça de família de Day) não é fácil imaginar outras atrizes mais perfeitas para a dupla central. Audrey Hepburn, com seu jeitinho de mulher de classe, delicada, frágil é o contraponto exato à fortaleza que é Shirley MacLaine, em uma atuação que a distancia da sensível Fran Kubelik de "Se meu apartamento falasse", lançado um ano antes por Billy Wilder. Dona dos diálogos mais intensos do filme, MacLaine emociona, indigna e conquista com uma personagem dividida entre manter em segredo seus sentimentos e uma mulher apaixonada que explode quando não encontra mais meios de esconder-se. Não é à toa que é justamente Martha Dobie quem acaba se tornando a maior vítima da situação, por encontrar-se em um caminho sem volta em direção ao preconceito (vale lembrar que a peça foi escrita em 1934, muito antes que surgissem os movimentos gays organizados).

Não há como assistir-se a "Infâmia" e ficar incólume à sua mensagem. É impressionante a modernidade de sua narrativa, a delicadeza de sua direção e a intensidade de seu elenco. Tão atual hoje quanto há 50 anos, é um filme que merecia ser obrigatório em qualquer curso de ética e cidadania.

sábado

PRÊMIO DARDOS


Fujo do tradicional, hoje, para agradecer publicamente a meu amigo @Raspante pela indicação ao Prêmio Dardos. O blog, dele, "Cinema Público", merece uma conferida, sempre há discussões bastante interessantes sobre a sétima arte. Segue o link:

http://cinemapublico.blogspot.com/

Que é Prêmio Dardos?

O Prêmio Dardos é um reconhecimento dos valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.


Aqui vão as regras:

- Exibir a imagem do selo no blog.
- Exibir o link do blog que você recebeu a indicação.
- Escolher 10, 15 ou 30 blogs para dar indicação, e avisá-los.

Segue a lista dos meus indicados, todos blogs excelentes a respeito principalmente de cultura:

www.marquesiano.blogspot.com
www.cinemarodrigo.blogspot.com
www.manipuletambem.blogspot.com
www.olhardomarcos.blogspot.com
www.apimentario.blogspot.com
www.cheabtulio.blogspot.com
www.eopedefeijao.blogspot.com
www.luisfabianoteixeira.blogspot.com
www.anodemeus30.blogspot.com
www.cinefreud.blogspot.com
www.loveisanoldfashionedword.blogspot.com

quinta-feira

JULGAMENTO EM NUREMBERG


JULGAMENTO EM NUREMBERG (Judgment at Nuremberg, 1961, United Artists, 186min) Direção: Stanley Kramer. Roteiro: Abby Mann. Fotografia: Ernest Laszlo. Montagem: Frederic Knudtson. Música: Ernest Gold. Produção: Stanley Kramer. Elenco: Spencer Tracy, Burt Lancaster, Marlene Dietrich, Richard Widmark, Maximilian Schell, Judy Garland, Montgomery Clift, William Shatner. Estreia: 14/12/61

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kramer), Ator (Maximilian Schell, Spencer Tracy), Ator Coadjuvante (Montgomery Clift), Atriz Coadjuvante (Judy Garland), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Maximilian Schell), Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Golden Globes: Diretor (Stanley Kramer), Ator/Drama (Maximilian Schell)


Pródiga que é em encantar a plateia com seu cinema, Hollywood também o é quando se trata de tomar partido em relação a temas polêmicos. Vez por outra, no entanto, a própria história se encarrega de prover aos estúdios e aos produtores os elementos necessários para o deleite do público. É o que acontece com "Julgamento em Nuremberg", dirigido por Stanley Kramer e lançado em 1961. Para buscar o interesse do público, o roteirista Abby Mann nem precisou buscar na sua imaginação os ingredientes do sucesso: eles realmente aconteceram, meros 13 anos antes, e foram muito mais cruéis do que a mente humana conseguiria conceber.

"Julgamento em Nuremberg" se passa em 1948, três anos depois, portanto, do final da II Guerra Mundial. O juiz de uma cidadezinha americana, Dan Heywood (Spencer Tracy) chega à Alemanha para presidir o julgamento de quatro juízes nazistas, acusados de crimes contra a humanidade. No tribunal, ele mantém a calma e a placidez necessárias enquanto assiste o embate entre o promotor Tad Lawson (Richard Widmark) e o jovem advogado de defesa, Hans Rolfe (Maximilian Schell, vencedor do Oscar de melhor ator). Mais do que simplesmente julgar os acusados, o juiz precisa também entender os pontos de vista a respeito do maior crime já cometido contra seres humanos, uma vez que, dentre os réus, existe o silencioso Ernst Janning (Burt Lancaster), que, depois de passar dias silencioso e meditativo, resolve se pronunciar, defendendo a si mesmo e seu país (em uma cena marcante e assustadoramente sincera).

"Julgamento em Nuremberg" é um filme obrigatório por inúmeras razões. Além de ser dramaticamente bem construído e contar com um elenco estelar (sendo que a maioria dos atores trabalhou com um salário menor do que o costumeiro apenas por julgar que o filme deveria ser feito por sua importância histórica), é um documento forte, pungente e realista, fugindo sempre que possível do maniqueísmo inerente ao tema. O equilíbrio do roteiro de Mann é notável, dando espaço a cenas massacrantes (o material filmado nos campos de concentração mostrado no tribunal é real) e diálogos e personagens bastante interessantes: Marlene Dietrich - inimiga pública do III Reich desde que recusou a ser a estrela de filmes de propaganda nazista e passou a fazer shows às tropas aliadas - vive, por exemplo, a viúva de um militar da SS condenado à morte, que insiste em afirmar que o povo alemão não sabia das atrocidades cometidas nos campos e, por mais que a simpatia da plateia esteja do lado do bem (a saber, os vencedores da guerra) não deixa de ser intrigante perceber como o texto forte de Mann e a atuação da bela Dietrich conseguem abalar as certezas que o público tem.


E o público, além de tudo, é brindado com o que de melhor há em termos de atuação no início dos anos 60. Maximilian Schell levou o Oscar de melhor ator disputando o prêmio com seu colega de elenco Spencer Tracy e brilha intensamente na pele do idealista advogado de defesa, que tenta desesperadamente salvar a liberdade de seus clientes mesmo sabendo que a batalha é praticamente perdida. Burt Lancaster entrega a melhor atuação de sua carreira com uma personagem indecifrável que consegue, em apenas duas cenas com diálogos substanciais (o já citado depoimento no banco das testemunhas e na sequência final com Tracy, de arrepiar qualquer fã de cinema e história). Mas são dois coadjuvantes que surpreendem ainda mais, em interpretações muito acima do chamado do dever - não à toa ambos tiveram indicações ao Oscar na categoria: Montgomery Clift e Judy Garland.

Clift, em um de seus últimos trabalhos, emociona como Rudolf Petersen, um homem vítima de esterilização por ter sido considerado mentalmente atrasado. Em apenas uma cena, Clift entrega o desempenho de sua vida, brilhantemente arrancando lágrimas com seu falar lento, sua angústia vísivel e sua indignação incurável (a defesa que ele faz da própria mãe é de fazer chorar o mais insensível dos homens). E Garland, voltando ao cinema depois de sete anos (seu último filme havia sido "Nasce uma estrela"), interpreta Irene Hoffman, que sobe ao banco das testemunhas para contar como foi obrigada a falar contra um homem mais velho, judeu, a quem tinha como pai, que foi acusado de manter relações sexuais com ela e portanto, condenado à morte. Mais velha e fisicamente descuidada, a eterna Dorothy de "O mágico de Oz" comprova seu talento único ao, corajosamente, expôr sua falta de vaidade em um papel difícil e emocionalmente complexo.

"Julgamento em Nuremberg" é um documento histórico de valor inestimável. Agrada aos fãs do gênero, conquista os interessados em história e impressiona os aficcionados por cinema clássico. Mais uma injustiça da Academia, que preferiu dar o Oscar principal ao pouco engajado "Amor, sublime amor".

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...