quinta-feira

SEM LICENÇA PARA DIRIGIR


SEM LICENÇA PARA DIRIGIR (License to drive, 1988, 20th Century Fox, 88min) Direção: Greg Beeman. Roteiro: Neil Tolkin. Fotografia: Bruce Surtees. Montagem: Wendy Greene Bricmont, Stephen Semel. Música: Jay Ferguson. Figurino: Hilary Wright. Direção de arte/cenários: Lawrence G. Paull/Jeff Halley. Produção: John A. Davis, Andrew Licht, Jeffrey A. Mueller. Elenco: Corey Haim, Corey Feldman, Heather Graham, Carol Kane, Richard Masur, Nina Siemaszko. Estreia: 06/7/88

O público adolescente dos anos 1980 tinha um subgênero cinematográfico para chamar de seu e um grupo de astros próprios. Dentre esses nomes conhecidos e admirados por todos, estavam dois amigos que compartilhavam o mesmo primeiro nome, uma série de filmes em comum e uma história de amistosa rivalidade. Corey Haim e Corey Feldman tinham poucos meses de idade de diferença e disputaram papéis em várias produções - e para desgosto de Feldman, seu concorrente era sempre escolhido como protagonista, até mesmo por seu visual mais próximo do que se considerava ideal na Hollywood da época. Vítimas de constantes abusos nos bastidores - ao menos segundo o polêmico documentário "The two Coreys" (2007) - estiveram juntos em sucessos como "Os garotos perdidos" (1987), e repetiram a parceria em "Sem licença para dirigir", uma comédia despretensiosa e barata que, seguindo todas as diretrizes do gênero, conquistou seu público-alvo ao apostar no carisma de seu elenco e no ritmo ágil, que faz com que seus quase noventa minutos de duração passem voando.

Quem assiste a uma comédia adolescente dos anos 1980 - seara na qual John Hughs nadou de braçada, além de lançar nomes como Molly Ringwald e Anthony Michael Hall -, sabe o que se pode esperar de "Sem licença para dirigir": protagonistas conduzidos por seus hormônios em combustão, situações banais transformadas em odisseias quase épicas, um humor quase ingênuo calcado na realidade de seu público-alvo e zero compromisso com a verossimilhança. Dito isso, é difícil não se deixar conquistar pela simpatia da trama e de seus (quase) fracassados personagens. Corey Haim vive o desajeitado e tímdo Les Anderson, que, aos dezesseis anos, tem apenas dois objetivos claros na vida: tirar a carteira de motorista e conquistar a bela Mercedes Lane (Heather Graham), uma colega de classe que namora um rapaz mais velho e devidamente motorizado. Depois de uma briga com o namorado, a bela Mercedes convida seu fã para um encontro e, como não poderia deixar de ser, Les agarra a oportunidade com unhas e dentes. Porém, depois de mentir aos pais que passou na prova teórica - e por consequência ter falhado em conquistar sua licença -, Les é proibido de sair de casa à noite, o que impede de por em prática seus planos românticos. Sem querer perder a oportunidade, no entanto, Les acaba por fugir com o Cadillac de seu avô para encontrar a mulher de seus sonhos - e embarca em uma noite em que tudo que poderia dar errado acontece.

 

Quem abandonar o senso crítico e mergulhar na trama quase nonsense do roteirista Neil Tolkin certamente irá encontrar muito com o que se divertir em "Sem licença para dirigir". A direção de Greg Beeman - cujo currículo não apresenta trabalhos de grande destaque - acerta em tratar as aventuras e desventuras de Les Anderson como uma jornada de pequenas desgraças, em que cada mal-entendido leva a uma consequência maior e mais absurda que a anterior. Assim como no quase clássico juvenil "Curtindo a vida adoidado" (1986), seu filme se utiliza de um período determinado (e limitado) de tempo como um rito de passagem, onde valores como coragem e lealdade surgem diante de uma série de adversidades que, no final das contas, servem para forçar uma espécie de maturidade. Criado quase em uma redoma por pais superprotetores (e à espera de um bebê em vias de chegar ao mundo), Les se vê repentinamente obrigado a cuidar de si mesmo, de sua pretensa namorada, dos amigos próximos (um deles vivido por Corey Feldman) e do sacrossanto carro de seu avô. Nem sempre consegue - mais por culpa alheia do que própria -, mas, ao assumir responsabilidades, o jovem descobre, em si mesmo, uma força e uma capacidade impensadas. E ser adolescente, afinal de contas, não é exatamente isso?

Contando com a ótima Carol Kane em uma pequena participação como a mãe ultra-grávida de Les e com Heather Graham em seu primeiro papel de destaque - ainda que no ingrato papel de interesse romântico quase mudo e sem maior desenvolvimento no roteiro -, "Sem licença para dirigir" não assumiu o status de clássico juvenil, como o já citado "Curtindo a vida adoidado" e outros filmes dirigidos e/ou produzidos por John Hughes, como "Clube dos cinco" (1985) e "A garota de rosa-shocking" (1986). No entanto, ao seguir sua bem-sucedida fórmula (mas dando ênfase no humor e não ao romance), se demonstra uma produção igualmente divertida e empolgante. Uma sessão da tarde das mais nostálgicas!

quarta-feira

TRATAMENTO DE CHOQUE

 


TRATAMENTO DE CHOQUE (Anger management, 2003, Revolution Studios, 106min) Direção: Peter Segal. Roteiro: David Dorfman. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jeff Gourson. Música: Teddy Castellucci. Figurino: Ellen Lutter. Direção de arte/cenários: Alan Au/Brad Davis, Chris Spellman. Produção executiva: Allen Covert, Todd Garner, Tim Herlihy, John Jacobs, Adam Sandler. Produção: Barry Bernardi, Jack Giarraputo. Elenco: Jack Nicholson, Adam Sandler, Marisa Tomei, John Turturro, Woody Harrelson, John C. Reilly, Luis Guzman, Alen Covert, January Jones. Estreia: 11/4/2003

Um tem doze indicações ao Oscar e três estatuetas para chamar de suas. O outro é frequentemente criticado por seus méritos artísticos ainda que de vez em quando surpreenda ao trabalhar com cineastas de prestígio. Um deles é um ícone absoluto do cinema hollywoodiano desde o final dos anos 1960. O outro entrou no imaginário popular somente a partir da década de 1990. Um deles passeou por todos os gêneros possíveis - começando com os filmes de horror de Roger Corman - e fez personagens tão díspares quanto um lobisomem quanto um escritor com TOC. O outro especializou-se em tipos comuns e dividiu-se entre comédias (românticas ou debochadas). Ambos tiveram filmes com bilheterias expressivas e tem uma legião de fãs - nem sempre os mesmos, mas em número considerável. Por mais diferentes que possam ser e por mais incompatíveis que pareçam, Jack Nicholson e Adam Sandler acabaram por revelar uma insuspeita química em "Tratamento de choque", uma comédia inofensiva que explora o melhor de cada um de seus protagonistas e conquista justamente pelo inusitado encontro de gerações.

Sem medo de apostar em algumas piadas fora do politicamente correto - mas sem os exageros dos irmãos Farrelly - e brincando com a febre dos coachs que assolava os EUA (e posteriormente se espalhou pelo mundo), o roteiro de "Tratamento de choque" mescla, com sucesso na maior parte do tempo, um filme sobre parceiros de personalidades opostas (subgênero popularíssimo e querido pelo público em geral) e uma comédia romântica com todos os ingredientes já conhecidos. Depois de uma breve introdução em que oferece à plateia um flashback explicativo sobre o trauma do protagonista em demonstrar carinho em lugares públicos, o filme começa com o jovem Dave Buznik (Adam Sandler) embarcando em uma viagem de negócios. O que deveria ser um voo tranquilo, no entanto, torna-se o começo de um pesadelo quando um pequeno mal-entendido o leva a ser expulso do voo e condenado a uma série de sessões de terapia para tratar de sua suposta agressividade. O médico escolhido pela juíza é o renomado Buddy Rydell (Jack Nicholson) - justamente o homem cujo comportamento deu início ao transtorno na viagem - e o atônito Dave se vê obrigado a um tratamento intensivo que inclui 24 horas por dia a seu lado. Dono de um estilo heterodoxo de cuidar de seus pacientes, Rydell se intromete em todos os setores da vida do rapaz - o que parece mais atrapalhar do que ajudar em suas questões profissionais e amorosas. Nem mesmo sua namorada, Linda (Marisa Tomei), parece estar imune aos arroubos pouco normais do médico, famoso por realizar milagres mesmo com seus métodos excêntricos.

 

Buddy Rydell parece um personagem sob medida para Jack Nicholson, que oferece ao público tudo aquilo que faz dele um dos mais queridos atores de sua geração - olhares insanos, a risada debochada, a sensação de perigo constante e um charme à toda prova. Porém, Nicholson não foi a primeira opção para o papel, que aceitou a conselhos de Kathy Bates, colega de Adam Sandler em "O rei da água" (1998): o primeiro ator pensado para interpretar o tresloucado terapeuta foi o de Eddie Murphy, e até que o veterano ator de "Um estranho no ninho" (1975) entrasse em cena, nomes como os de Robert DeNiro, Dustin Hoffman, Bill Murray e Steve Martin chegaram a ser considerados pelos produtores, cientes de que era imprescindível um astro de peso para dividir a cena com Sandler. Sem apresentar grandes novidades a seu repertório como intérprete - coisa que provavelmente nem era algo esperado por seu fiel séquito de fãs -, Sandler surpreende apenas em apostar em uma bem-vinda sutileza que se contrapõe à atuação a um passo do exagero (proposital) de seu veterano parceiro de cena. Os dois combinam tão bem que o filme se dá ao luxo de contar com participações especiais de gente como John C. Reilly e Woody Harrelson sem sair do foco central, que é sua conflituosa (e quase perversa) relação. O único senão é explorar tão pouco o talento da ótima Marisa Tomei, que pouco tem a fazer como o interesse romântico do protagonista.

"Tratamento de choque" é uma daquelas comédias que cumpre exatamente o que promete - e até chega a surpreender com uma reviravolta final que justifica alguns excessos cometidos no meio do caminho. O encontro entre Nicholson e Sandler é certeiro, boa parte das piadas funciona e a direção de Peter Segal não tenta sobressair-se ao real destaque da produção, que é o encontro de seus atores centrais. Pode não ser o melhor filme de suas carreiras e nem um trabalho para entrar na história do cinema, mas é divertido o bastante para arrancar gargalhadas sinceras e mostrar que Jack Nicholson é um dos raros atores capazes de transformar qualquer roteiro, por mais banal que seja, em uma experiência satisfatória. Coisa de quem sabe!

terça-feira

NOITES DE CABÍRIA


NOITES DE CABÍRIA (Le notti di Cabiria, 1957, De Laurentiis/Marceau, 110min) Direção: Federico Fellini. Roteir: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli. Fotografia: Aldo Tonti. Montagem: Leo Catozzo. Música: Nino Rota. Figurino: Piero Gherardi. Direção de arte: Piero Gherardi. Produção: Dino De Laurentiis. Elenco: Giulietta Masina, François Perier, Franca Marzi, Dorian Gray. Estreia: 11/5/57 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Giulietta Masina)

É impossível não se apaixonar por Cabíria. Alegre, resiliente e sempre otimista apesar de o mundo tentar nocauteá-la, ela trabalha nas ruas de Roma e se ergue constantemente das ruínas a que é transformada a cada (e frequente) decepção. E assim como é impossível não se apaixonar por Cabíria, é igualmente desafiador não se encantar por Giuletta Masina. Não apenas é ela é quem dá vida, corpo e alma à mais famosa prostituta do cinema europeu, como também é a responsável por fazer o espectador se envolver incondicionalmente com seus dramas e amores desde os primeiros minutos do filme, premiado com o Oscar de melhor produção estrangeira de 1957. Expressiva e carismática, não levou à toa a Palma de Ouro no Festival de Cannes do mesmo ano: em cada momento, em cada cena, em cada linha de diálogo ou em cada close em seus olhos molhados de lágrima (de alegria ou tristeza), Masina transmite um mundo de emoções de que somente as grandes atrizes são capazes. Seu encontro com Cabíria é, sem favor, um dos casamentos mais perfeitos, na história do cinema, entre atriz e personagem. Tudo sob o olhar luminoso e quase poético de Federico Fellini - ele mesmo um eterno apaixonado (e correspondido) por sua musa.

Cabíria não tem sorte na vida. Nem no amor. Logo nas primeiras cenas do filme ela quase morre afogada, empurrada em um rio por aquele a quem considerava o homem perfeito. De volta às ruas, continua sua rotina regada a rivalidades, amizades (profundas ou nem tanto) e pela busca pela felicidade. Dentre clientes encrenqueiros, noites solitárias e rituais católicos que remetem a crenças religiosas que conflitam com sua profissão, Cabíria se vê às voltas, ocasionalmente, com a esperança de preencher seu coração carente. É assim com Alberto Lazzari (Amedeo Nazzari, em personagem batizado e criado em sua própria homenagem), um astro de cinema que lhe dá o vislumbre de um mundo de sofisticação e glamour, antes de tratá-la como alguém inferior. E é assim, principalmente, com Oscar (François Périer), um homem que surge como a resposta a suas preces mais sentidas: completamente apaixonada, a doce e romântica prostituta se deixa seduzir pela chance de casar, formar uma família e abandonar a vida fácil. Mas, como já dizem por aí, para ver Deus rir, basta contar seus planos a Ele.

 

Embalado pela delicada trilha sonora de Nino Rota, "Noites de Cabíria" encontra beleza até mesmo na dureza do cotidiano de sua protagonista, graças a um roteiro que, ao contrário de algumas das mais famosas obras de Fellini, aposta na linearidade e no realismo (ainda que envernizado pelo tom poético da fotografia em preto-e-branco de Aldo Tonti). As prostitutas que cercam Cabíria - e até ela mesma - não são aquelas mostradas por Hollywood, e sofrem na carne uma vida repleta de privações. Cabíria mora em uma casa própria, mas nada em sua moradia lembra luxo ou comodidade. Cabíria não é deslumbrante nem exibe um corpo escultural. Não é particularmente inteligente e sua aparente vulnerabilidade só desaparece diante das (muitas) adversidades. E justamente por sua falta de grandeza, conquista a simpatia e a identificação com o público, que se vê nas telas com todas as suas fraquezas e - por que não? - encantos. Uma força da natureza em forma de atriz, Giulietta Masina é a mais completa tradução do cinema italiano dos anos 1950 - e a intérprete que melhor representou a veia artística de Federico Fellini em seus mais puro delírios artísticos.

Longe das elocubrações existenciais de "A doce vida" (1960), da metalinguagem autoparódica de "Oito e meio" (1963) e da nostalgia lúdica de "Amarcord" (1973), a direção de Fellini em "Noites de Cabíria"  se dedica à delicadeza, ao onírico, ao romantismo melancólico e ao humor por vezes involuntário que surge das desventuras tragicômicas de sua protagonista. O registro amoroso do cineasta fascina e  emociona no mais íntimo do espectador. Ao falar diretamente ao coração, ele acerta em cheio e assina (mais uma vez) sua entrada no rol do inesquecível.

 

domingo

O JOVEM FRANKENSTEIN

 


O JOVEM FRANKENSTEIN (Young Frankenstein, 1974, 20th Century Fox, 105min) Direção: Mel Brooks. Roteiro: Mel Brooks, Gene Wilder, livremente inspirado no romance de Mary Shelley. Fotografia: Gerald Hirschfeld. Montagem: John C. Howard. Música: John Morris. Figurino: Dorothy Jeakins. Direção de arte/cenários: Dale Hennesy/Bob De Vestel. Produção: Michael Gruskoff. Elenco: Gene Wilder, Teri Garr, Marty Feldman, Peter Boyle, Madeline Kahn, Cloris Leachman, Gene Hackman. Estreia: 15/12/74

2 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Som

Publicado em 1818 e considerado um clássico absoluto da literatura de terror, "Frankenstein", obra-prima da escritora britânica Mary Shelley. rendeu diversas versões cinematográficas, tornando-se um ícone incontestável do gênero. Por incrível que pareça, no entanto, uma de suas mais bem-sucedidas adaptações não surgiu da Universal Pictures (onde James Whale praticamente criou os cânones visuais que se tornaram referência no cinema) e nem da reimaginação de Roger Corman, lançada em 1990. Foi Mel Brooks, conhecido por suas comédias iconoclastas e por vezes quase grosseiras, quem assinou aquela que entrou para a história como uma das mais bem-sucedidas releituras do romance gótico: "O jovem Frankenstein" chegou aos cinemas no final de 1974, conquistou a crítica, o público (com uma renda quase quarenta vezes maior que seu custo) e entrou para diversas listas de melhores comédias de todos os tempos - da revista Premiere ao prestigiado American Film Institute. Como se não fosse o bastante, ultrapassou a barreira de preconceito da Academia de Hollywood contra seu gênero e concorreu ao Oscar de roteiro adaptado - que perdeu para o grande vencedor da noite, "O poderoso chefão: parte II". Considerado pelo próprio Mel Brooks como o seu melhor filme - ainda que considere outros trabalhos seus mais engraçados -, "O jovem Frankenstein" é, sem nenhuma dúvida, aquele que consegue com mais facilidade equilibrar o humor nonsense do diretor com uma história mais bem estruturada e uma técnica apurada. É ouro puro!

Inicialmente planejado como uma produção da Columbia Pictures, "O jovem Frankenstein" acabou indo parar nas mãos da 20th Century Fox quando Brooks insistiu em sua ideia de filmar em preto-e-branco e, com isso, manter-se fiel à atmosfera gótica do romance de Shelley - ainda que fosse mais brincar em cima dela do que reverenciá-la. Com medo de um possível fracasso comercial e sem querer aumentar o orçamento de apenas 1,75 milhões de dólares, o estúdio acabou por ver o filme se tornar um estrondoso sucesso de crítica e público. Dirigida com uma surpreendente sobriedade, que jamais ameniza o tom debochado do roteiro e das inspiradas atuações do elenco, a comédia de horror (bem mais comédia do que um filme de horror) ofereceu a Gene Wilder um dos papéis mais icônicos de sua carreira (ao lado de Willy Wonka de "A fantástica fábrica de chocolates", lançado dois anos antes), revelou um senso de humor inesperado em Cloris Leachman (vinda de um Oscar de atriz coadjuvante por "A última sessão de cinema") e apresentou um grau de sofisticação inesperado à filmografia do diretor. Filmando com o estilo do próprio James Whale (planos abertos, poucos closes e com o mínimo de efeitos de câmera) e inspirado também em obras dos expressionistas alemães Fritz Lang e F.W. Murnau, o iconoclasta criador de "Banzé no Oeste" (lançado pouco antes, no mesmo 1974) e "Primavera para Hitler" (1967) faz, ao mesmo tempo, uma sincera homenagem e uma divertida sátira - que funcionam na mesma medida. 

Gene Wilder - naquele que considera o filme favorito de sua carreira - parece ter nascido para interpretar Frederick Frankenstein, um dedicado e talentoso neurocirurgião cujo sucesso não impede que tenha seu nome eternamente ligado ao do avô, o infame Victor Frankenstein. Seu desejo de disassociar-se do nome da família cai por terra quando ele descobre que, sendo o único herdeiro do clã, pode tomar propriedade do castelo que lhe pertence, na Transilvânia. Tão logo chega no local - e passa a ser assessorado pelo corcunda Igor (Marty Feldman) e pela exuberante Inga (Teri Garr) - o jovem médico encontra um caderno com instruções de como continuar as experiências para a criação de um novo ser vivo. Excitado com a possibilidade de marcar seu nome na história, ele segue tudo passo-a-passo (dentro do possível, uma vez que seus colaboradores não são exatamente inteligentes) e consegue criar seu próprio monstro (Peter Boyle). Porém, o monstro escapa dos limites do castelo e provoca uma série de situações que põem em xeque as capacidades de Frederick - e a segurança do vilarejo, nada disposto a conviver com um potencial perigo.

Repleto de gags geniais - visuais, verbais e de referências ao clássico de James Whale -, "O jovem Frankenstein" é a síntese perfeita da filmografia de Mel Brooks (que teve o luxo de contar com as máquinas do filme da Universal, criadas por Ken Strickfaden): piadas quase escatológicas que se equilibram com diálogos inteligentes, um elenco afiadíssimo (que conta com um não-creditado Gene Hackman em uma sequência hilariante) e a coragem de tentar fazer rir sem pisar em ovos. A química entre os atores - tão precisa que as filmagens se estenderam por um calendário maior para que pudessem ficar mais tempo juntos e tão profícua que a versão original do filme passava de três horas de duração - e seu casamento perfeito com o roteiro deu origem a uma das comédias mais incríveis dos anos 1970 capaz de agradar aos fãs do gênero independente de suas preferências de estilo. É Mel Brooks em sua melhor forma!

quinta-feira

STAR 80


STAR 80 (Star 80, 1983, The Ladd Company, 103min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Bob Fosse, livro "Death of a playmate", de Teresa Carpenter. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Alan Heim. Música: Ralph Burns. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Michael Bolton, Jack G. Taylor Jr./Ann McCulley, Kimberley Richardson. Produção: Wolfgang Glattes, Kenneth Utt. Elenco: Eric Roberts, Mariel Hemingway, Cliff Robertson, Carroll Baker, Roger Rees, Josh Mostel. Estreia: 10/11/83

Nascida em 28 de fevereiro de 1960, em Vancouver (Canadá), Dorothy Stratten teve uma meteórica carreira artística a partir do momento em que, pelas mãos do namorado Paul Snider, se viu diante de Hugh Hefner, o todo-poderoso dono do império Playboy - que lhe deu as primeiras chances como modelo -, e de Peter Bogdanovich, cineasta premiado e consagrado - que apaixonou-se por sua beleza e sua doçura e lhe prometeu fama e prestígio como atriz. Sua trajetória e seu trágico final foram relatados em "Death of a playmate", um artigo de Teresa Carpenter, publicado no jornal The Village Voice que ganhou o Pulitzer de 1981 e causou polêmica ao colocar tanto Hefner quanto Bogdanovich como corresponsáveis pelo crime que causou sua morte. O cineasta ainda tentou contar sua versão da história com o livro "The killing of a unicorn: Dorothy Stratten (1960-1980)", mas antes mesmo de seu lançamento a adaptação cinematográfica do texto de Carpenter já havia estreado, recebido uma indicação ao Golden Globe e causado comoção. Último filme dirigido por Bob Fosse, "Star 80" pode não ter tido o mesmo impacto de "Cabaret" (1972) ou "All that jazz: o show deve continuar" (1979), mas alcançou repercussão suficiente para abafar uma versão televisiva do mesmo tema, "Mulher ardente", levada ao ar em 1981 pela NBC e estrelada por Jamie Lee Curtis.

Apesar de ser baseada em uma história real, a trama de "Star 80" não escapa muito dos clichês que abundam em filmes que retratam os bastidores do show business - especialmente quando o foco é seu lado sombrio. Tudo começa em 1978, quando o ambicioso Paul Snider (Eric Roberts) conhece a muito jovem e bela Dorothy Stratten (Mariel Hemingway). Fascinado com a aura angelical e ao mesmo tempo sensual da estudante, Snider não apenas a seduz - indo contra os desejos da família - como a introduz em um mundo novo, que valoriza a imagem e a fama. O objetivo de Snider - ascender socialmente e tornar-se parte integrante de um círculo de dinheiro e prestígio - começa a tornar-se realidade quando sua musa (e já esposa) chama a atenção das pessoas certas e passa a frequentar as disputadas festas na mansão do milionário Hugh Hefner (Cliff Robertson), que a põe sob sua proteção pessoal. Aos poucos o sucesso de Dorothy passa a chamar a atenção de outros nomes influentes, o que a leva a começar uma tímida carreira de atriz. É nesse ponto que ela conhece o veterano cineasta Aram Nicholas (Roger Rees), que se apaixona por ela e lhe dá a grande chance de sua carreira artística. No ápice do ciúme, porém, Snider não se conforma com a suspeita cada vez maior de um caso entre sua mulher e o diretor - e passa a assumir um comportamento errático e ameaçador.

 

Realizado por Fosse mesmo depois dos apelos de Bogdanovich para que o projeto não fosse adiante, "Star 80" não ficou imune a polêmicas, especialmente devido a críticas do próprio diretor de "Essa pequena é uma parada" (1973) - cujo nome no filme foi alterado para Aram Nicholas - e pelo processo movido por Hugh Hefner, que não gostou nem um pouco da forma como foi retratado na montagem final (apesar da participação especial de seu filho caçula, Keith). Eric Roberts, unanimemente elogiado por seu desempenho como Paul Snider, chegou a ser indicado ao Golden Globe de melhor ator dramático - perdeu para o vencedor do Oscar da temporada, Robert Duvall, por "A força do carinho" -, enquanto a atuação de Mariel Hemingway - indicada ao Oscar de coadjuvante por "Manhattan" (1979) - reforçava seu status de ninfeta sexy que a atormentou por anos. A dupla é dona dos melhores momentos do filme - algo que poderia não ter acontecido se outros atores cotados para os papéis (Richard Gere como Snider, Melanie Griffith ou Daryl Hannah como Dorothy) tivessem sido escolhidos pelos produtores, e a participação especial de Carroll Baker como a mãe de Stratten não deixa de ser uma ironia inteligente: em 1956, aos 25 anos, ela causou celeuma ao protagonizar "Boneca de carne", de Elia Kazan, onde interpretava uma jovem vista exclusivamente como objeto de lascívia.

Bastidores e controvérsias à parte, "Star 80" é uma produção que, apesar de suas qualidades, é muito aquém da filmografia pregressa de Bob Fosse. Não há, nele, nada da ousadia narrativa de "All that jazz", da sofisticação visual de "Cabaret" ou mesmo a coragem quase suicida de "Lenny" (1974): linear e pouco inspirado, o roteiro do próprio diretor até tenta criar suspense a respeito do desenrolar da história (apesar do desfecho já amplamente conhecido), mas esbarra em uma inesperada falta de emoção - talvez pela atuação apática de Mariel Hemingway, talvez pelo tom semidocumental que impede uma maior aproximação entre o espectador e os personagens. Eric Roberts sai-se bastante bem na pele do desequilibrado Paul Snider, mas não consegue fugir do maniqueísmo que o retrata como um psicopata unidimensional. Tampouco é perceptível no resultado final o apuro estético que caracterizou as obras anteriores de Fosse - é como se o cineasta/roteirista estivesse mais interessado no material explosivo da história de Stratten do que em fazer dela uma obra de arte do mesmo nível de seus filmes premiados. Uma pena, já que foi seu derradeiro trabalho na cadeira de diretor.

Quanto ao pós-filme, não faltaram acontecimentos que dariam um novo longa-metragem. Sentindo-se parcialmente culpado pelo destino de Dorothy, o cineasta Peter Bogdanovich não apenas escreveu um livro sobre o assunto - o já citado "Death of a unicorn" - como tomou sua proteção a mãe e a irmã caçula da modelo, com quem se casou em 1988 (mesmo com uma diferença de 29 anos entre eles) e se divorciou em 2001. Além disso, foi acusado por Hugh Hefner de ter lhe causado um ataque cardíaco, devido às acusações feitas em seu livro - de que o milionário havia seduzido Stratten ao mesmo tempo em que a tratava como filha. Objeto também de uma canção do canadense Bryan Adams - "The best was yet to come", lançada em 1983 -, Dorothy Stratten permaneceu no inconsciente coletivo (especialmente dos EUA) por um bom tempo, como uma forma de lembrar sempre os perigos que sempre rondam o mundo da fama e da beleza, principalmente quando se trata de mulheres à mercê de seus algozes.

quarta-feira

O AMOR É CEGO


O AMOR É CEGO (Shallow Hal, 2001, 20th Century Fox, 113min) Direção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly. Roteiro: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Sean Moynihan. Fotografia: Russell Carpenter. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Billy Goodrum. Figurino:Pamela Whiters. Direção de arte/cenários: Sidney J. Bartholomew Jr./Scott Jacobson. Produção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Bradley Thomas, Charles B. Wessler. Elenco: Jack Black, Gwyneth Paltrow, Jason Alexander, Joe Vitarelli, Anthony Robbins. Estreia: 09/11/2001

Bem no fundo, os irmãos Farrelly são dois românticos. Afinal, em seus filmes, por mais escatológicos e politicamente incorretos que eles sejam, sempre há espaço para histórias de amor. Em "Quem vai ficar com Mary?" (1997), Ben Stiller comia o pão que o diabo amassou para conquistar a mulher de sua vida, vivida por Cameron Diaz. Em "Eu, eu mesmo e Irene" (2000), Jim Carrey e sua segunda personalidade disputavam a foragida Renée Zellweger, E em "O amor é cego", lançado em 2001, é Jack Black quem vê sua rotina transformada pela paixão avassaladora por uma mulher - no caso a então recente vencedora do Oscar Gwyneth Paltrow. Porém, ser romântico não significa abrir mão de seu olhar bizarro sobre o cotidiano, e nem mesmo a longilínea Gwyneth escapou de ser alvo das gozações constrangedoras da dupla de diretores. Em uma produção que mais uma vez usa e abusa do humor sobre as minorias, eles surpreendem, no entanto, ao acrescentar uma bem-vinda dose de ternura, que quase ameniza a característica falta de sutileza de suas obras. Isso mesmo: "O amor é cego" é uma comédia dos irmãos Farrelly com moral da história.

Exagerado como sempre, Jack Black dá vida ao protagonista Hal Larson, um homem incapaz de manter um relacionamento sério desde que resolveu seguir os conselhos que o pai lhe deu no leito de morte: arrependido por ter casado cedo e com uma mulher por quem não se sentia atraído fisicamente, o moribundo exige do filho de nove anos que, em sua vida adulta, se envolva somente com mulheres deslumbrantes e sensuais, que possam lhe realizar sexualmente. Relativamente bem-sucedido profissionalmente, Hal vive à procura da mulher ideal, assim como seu melhor amigo, Mauricio (Jason Alexander) - que, assim como ele, estabeleceu padrões estéticos quase inalcançáveis para uma futura namorada. O problema é que, com as diretrizes do pai sempre vivas, Hal - que não é exatamente um exemplo de beleza masculina - só se interessa por modelos de corpo escultural e postura de modelos. Magoado com a imagem de superficialidade que transmite às pessoas que o cercam, o rapaz vê sua vida mudar com o encontro inusitado com Tony Robbins (no papel dele mesmo) em um elevador defeituoso: tocado com a nítida infelicidade do aspirante a garanhão, o palestrante e mentor lhe hipnotiza para que, a partir de então, ele consiga ver somente a beleza interior das pessoas. O resultado é imediato, e Hal passa a interessar-se por mulheres fisicamente pouco atraentes mas com personalidades e inteligências encantadoras. O ápice de sua nova condição acontece quando ele se apaixona por Rosemary Shanahan (Gwyneth Paltrow): vista por ele como uma loira espetacular e sexy, ela, na verdade, é uma mulher muito acima do peso, que sofre preconceitos por onde passa e que não consegue acreditar em sua repentina história de amor.

 

Como não poderia deixar de ser em um filme da dupla de diretores, "O amor é cego" não dispensa as piadas grosseiras e constrangedoras (algumas legitimamente engraçadas, outras nem tanto), mas é nítido como dessa vez sua vontade de contar uma história é maior do que aquela de simplesmente ofender qualquer minoria ou condição física, mental ou social. O arco dramático de Hal é verossímil, e sua relação com Rosemary desperta a torcida que todo filme romântico busca. Mesmo que a duração seja um tanto excessiva - uns bons quinze minutos a menos faria milagres pelo ritmo - e Jack Black não consiga deixar de lado sua tendência ao overacting, a direção dos Farrelly encontra um equilíbrio nunca visto em seus trabalhos anteriores. O roteiro é suave em sua transição entre a comédia física quase cruel e o romance doce entre seus protagonistas, e é surpreendente como eles encontram espaço até mesmo para um momento de genuína emoção: em um hospital infantil, já no ato final do filme, há o vislumbre  de uma insuspeita sensibilidade de dois homens que já fizeram rir de esquizofrênicos, fluidos corporais, pessoas com deficiências físicas e outros itens menos cotados. O arrependimento de Jack Black e Gwyneth Paltrow de terem participado do filme - conforme declarado anos depois - não deixa de ser um grande exagero.

Em termos de bilheteria, "O amor é cego" não chegou a ser um fracasso, ainda que tenha ficado muito atrás do sucesso comercial de "Quem vai ficar com Mary?", que rendeu inacreditáveis 370 milhões de dólares ao redor do mundo.  Se aproveitando da popularidade de seus atores centrais - Paltrow vinha do Oscar por "Shakespeare apaixonado" (1999) e Black de seu destaque em "Alta fidelidade" (1999) - e da grife de seus diretores, a 20th Century Fox acabou por embolsar quase 150 milhões por uma comédia romântica repleta de tiradas raras no gênero e uma atípica dupla de protagonistas. Não é pouca coisa se levarmos em consideração a previsibilidade e a apatia da maioria das produções do gênero.

 

terça-feira

À BEIRA DO ABISMO

 


À BEIRA DO ABISMO (Man on a ledge, 2012, Summit Entertainment/Di Bonaventura Pictures, 102min) Direção: Asger Leth. Roteiro: Pablo F. Fenjves. Fotografia: Paul Cameron. Montagem: Kevin Stitt. Música: Henry Jackman. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Alec Hammond/Chryss Hionis. Produção executiva: Jane Myers, David Ready. Produção: Lorenzo di Bonaventura, Mark Vahradian. Elenco: Sam Worthington, Elizabeth Banks, Jamie Bell, Edward Burns, Ed Harris, Kyra Sedgwick, Anthony Mackie, William Sadler, Genesis Rodriguez, Titus Welliver. Estreia: 26/01/2012

Às vezes tudo que um fã de filmes policiais precisa é de uma trama despretensiosa, com um bom ponto de partida, um elenco de bons atores e, se possível, uma ou mais reviravoltas (que nem precisam fazer todo o sentido do mundo).  "À beira do abismo" oferece tudo isso, e, mesmo sem ter feito muito barulho nas bilheterias, cumpre exatamente o que promete. Mesmo que o roteiro não se esquive de clichês e a direção do dinamarquês Asger Leth nunca ultrapasse o status de correta, o resultado final não decepciona a quem procura uma sessão descompromissada e que prescinde de efeitos visuais milionários para envolver as plateias. Estrelado pelo então ascendente Sam Worthington - saído do sucesso de "Avatar" (2009) e a meses de liderar o elenco do remake de "Fúria de titãs" (2012) -, "À beira do abismo" é a prova de que o trivial frequentemente pode ser bastante eficaz.

A primeira cena do filme mostra um homem de cerca de 30 anos, chamado Walker, se hospedando no 21º andar de um hotel de Nova York. Depois de pedir uma farta - e cara - refeição, ele limpa todas as impressões digitais do quarto e simplesmente se dirige ao parapeito, com o claro objetivo de se jogar. Para que isso não aconteça (ou ao menos que seja adiado), ele pede a presença de Lydia Mercer (Elizabeth Banks), experiente em negociar com suicidas, que acaba de sair de uma situação traumática com vítimas. O que nem Lydia nem o encarregado do caso, Jack Dougherty (Edward Burns), sabem é que o tal homem se chama, na verdade, Nick Cassidy, e é um ex-policial que, condenado pelo roubo de um valiosíssimo diamante, fugiu do presídio depois do funeral do pai e tem o objetivo de provar sua inocência. Mais do que isso, durante o processo de negociação, acontece o roubo a uma joalheria de propriedade do milionário David Englander (Ed Harris), que também está em vias de apresentar à cidade um ambicioso projeto imobiliário. Será que os três fatos tem relação? Por que Cassidy escolheu justamente Mercer para tentar impedí-lo de jogar-se do prédio? E qual o plano do jovem Joey (Jamie Bell) para invadir silenciosamente a joalheria de Englander?

 

As respostas vão surgindo aos poucos, nem sempre de forma sutil, mas sempre de modo a empurrar adiante a história, como manda o manual dos roteiros de Hollywood. Boa parte dos segredos são desvelados antes mesmo da metade da sessão, que se dedica então a cenas de ação dirigidas com certa competência pelo dinamarquês Asger Leth, cujo currículo contava apenas com o documentário "Os fantasmas de Cité Soleil" (2006): nessa segunda fase, o filme abandona a narrativa fragmentada que havia adotado (com interessantes e empolgantes flashbacks) para abraçar com vontade o subgênero "filmes de golpe". Nem tudo funciona - o personagem de Ed Harris por vezes soa deslocado -, mas consegue manter o ritmo de forma admirável. Ecoando situações de "Um dia de cão" (1975) - as testemunhas populares como parte da ação, a cobertura midiática - e do clássico "Horas intermináveis" (1951), de Howard Hawks - a ideia central, tirada de uma reportagem sobre um caso de suicídio ocorrido em 1938 -, "À beira do abismo" ganha pontos ao não cair na armadilha de tentar ser engraçado (ainda que as interações entre Jamie Bell e Genesis Rodriguez sejam recheadas de falas de duplo sentido) e conquistar o público com um tom adulto que tampouco apela à violência tão comum no cinema policial.

A discrição da direção de Leth também é responsável por extrair de seu elenco desempenhos firmes - ainda que não exatamente memoráveis. Sam Worthington sai-se bem com um protagonista que não depende de efeitos digitais, mesclando força e fragilidade nas medidas adequadas, enquanto o jovem Jamie Bell destaca-se em um papel de anti-herói e Elizabeth Banks (em papel que quase ficou com Amy Adams) tem o carisma necessário para segurar dividir as principais cenas com Worthington sem parecer coadjuvante. É de lamentar apenas a forma como Ed Harris e Kyra Sedgwick (como a repórter Suzie Morales) são subaproveitados - especialmente Kyra, cuja personagem poderia ter rendido ótimos momentos. Tais pequenos problemas, no entanto, não chegam a atrapalhar a diversão. "À beira do abismo" é um entretenimento bastante decente, que deixa claro o potencial de seu ator central para além dos limites de Pandora.

segunda-feira

O PRIMEIRO AMOR DE UM HOMEM

 


O PRIMEIRO AMOR DE UM HOMEM (The pallbearer, 1996, Miramax, 98min) Direção: Matt Reeves. Roteiro: Matt Reeves, Jason Katims. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Stan Salfas. Música: Stewart Copeland. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Robin Standefer/Kate Yatsko. Produção executiva: Meryl Poster, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Jeffrey Abrams, Paul Webster. Elenco: David Schwimmer, Gwyneth Paltrow, Barbara Hershey, Toni Collette, Michael Rapaport, Carol Kane, Michael Vartan. Estreia: 03/5/96

O título nacional "O primeiro amor de um homem" não força à toa uma similaridade com "A primeira noite de um homem", que deu o Oscar de melhor diretor a Mike Nichols: assim como no clássico de 1967, o protagonista é um jovem adulto perdido em suas ambições profissionais e sentimentais, e que fica dividido entre o amor de duas mulheres de gerações diferentes. Porém, apesar da semelhança temática, há uma grande desvantagem em relação ao drama romântico lançado em 1996: o cineasta Matt Reeves não é Nichols, e tampouco David Schwimmer - seu protagonista - tem o carisma de Dustin Hoffman. Dito isso, até dá para arriscar uma sessão descompromissada, já que o resultado final é bastante simpático, ainda que pouco memorável. E de quebra, pode-se ter contato com o começo das carreiras de dois atores que, logo em seguida, se tornariam internacionalmente famosos e celebrados.

O filme começa quando o jovem Tom Thompson (David Schwimmer) recebe o telefonema de uma mulher chamada Ruth Abernathy (Barbara Hershey), que, em luto, lhe comunica a morte do filho que, segundo ela, foi seu melhor e mais querido amigo na escola. O problema é que Tom não consegue lembrar quem é o rapaz e se deixa levar pela situação, com medo de magoar uma mãe desesperada. O encontro dos dois acaba evoluindo para uma relação um tanto incômoda, mas, passivo, Tom não vê modos de encerrá-la. A situação muda de figura, no entanto, com a chegada de Julie DeMarco (Gwyneth Paltrow), que retorna à cidade depois do fim de um relacionamento conturbado. Apaixonado por Julie desde sempre, Tom se surpreende quando as coisas começam a andar entre eles - mas para ficar de vez com aquela a quem considera o amor de sua vida, precisa resolver a questão pendente com Ruth, cada vez mais carente. Nesse meio-tempo, os dois melhores amigos de Tom passam por outros momentos cruciais de suas vidas: Scott (Michael Vartan) está em crise no casamento com Cynthia (Toni Collette), e Brad (Michael Rapaport) finaliza os preparativos para a união com a dominadora Lauren (B Bitty Schram).

David Schwimmer - ainda nas primeiras temporadas do fenômeno "Friends" - já demonstra, em alguns momentos, os trejeitos que tanto funcionava em seu Ross Geller: o olhar triste e o talento para o humor físico. Por sua vez, Gwyneth Paltrow - que ganharia um dos Oscar mais discutíveis da história três anos mais tarde - pouco tem a fazer a não ser desfilar sua figura elegante pela cela e tentar transmitir os sentimentos de uma personagem insossa e inexplicavelmente alvo de uma paixão avassaladora. São os dois, bastante jovens, que sustentam uma trama que dá voltas e mais voltas até chegar a um final anticlimático, que apenas valoriza o talento da sempre ótima Barbara Hershey. O elenco coadjuvante - que conta com uma subaproveitada Toni Collette e a divertida Carol Kane - muitas vezes se sobressai diante da apatia dos dois protagonistas e da aparente falta de energia da direção de Reeves, que anos depois encontraria um caminho mais bem-sucedido ao comandar filmes de ação, como "Planeta dos Macacos: Origem" (2014) e "The Batman" (2022). O roteiro, coescrito pelo cineasta, até tenta levantar questões sobre a juventude americana do final do século XX (e sua falta de norte em relação ao futuro), mas assim como acontece com o romance central, não há liga, e tudo parece meio fora de lugar. Ao buscar o equilíbrio entre drama, humor e romance, Reeves tropeça na própria ambição e entrega menos do que suas pretensões.

Mas não se pode dizer, afinal de contas, que "O primeiro amor de um homem" é um filme ruim. É irregular, não atinge todas as notas a que se propõe e está longe de ser memorável, mas de certa forma apresenta uma honestidade e uma delicadeza ao lidar com seus personagens e seus dilemas que deixa seus pecados mais facilmente perdoáveis. David Schwimmer nitidamente tenta dar o melhor de si - e seu esforço acaba recompensado em algumas cenas bastante tocantes (em especial quando divide o momento com Hershey). Se não chega aos pés do inesquecível drama de Mike Nichols também não chega a ser vexaminoso ou dispensável. Pode-se até ser classificado como um agradável (se não profundo) estudo sobre as relações humanas da tão falada Geração X. Vale uma sessão da tarde, desde que sem maiores expectativas.

POR FAVOR, MATEM A MINHA MULHER


POR FAVOR, MATEM MINHA MULHER (Ruthless people, 1986, Touchstone Pictures, 93min) Direção: Jim Abrahms, David Zucker, Jerry Zucker. Roteiro: Dale Launer. Fotografia: Jan De Bont. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Michael Colombier. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: Donald Woodruff/Anne D. McCulley. Produção executiva: Joanna Lancaster, Richard Wagner, Walter Yetnikoff. Produção: Michael Peyser. Elenco: Danny DeVito, Bette Midler, Judge Reinhold, Helen Slater, Bill Pullman, Anitta Morris. Estreia: 27/6/86

Logo depois de uma pré-estreia de "Por favor, matem minha mulher", o ator Danny DeVito ligou para sua parceira de cena, Bette Midler, e os dois ficaram um longo tempo no telefone discutindo como o filme era ruim e como as carreiras de ambos provavelmente estavam arruinadas com isso. Meses depois, com o sucesso de bilheteria da produção - mais de 70 milhões de dólares de arrecadação -, é provável que os dois astros tenham mudado de ideia. Midler assinou um polpudo contrato com a Touchstone (subsidiária da Disney para filmes adultos) e DeVito iniciou uma bem-sucedida carreira também como diretor já no ano seguinte, com o irônico "Joga a mamãe do trem" (1987). Último filme dirigido pelo trio ZAZ - Jim Abraham, Jerry Zucker e David Zucker -, conhecidos pelos demolidores "Apertem os cintos... o piloto sumiu" e "Top Secret: superconfidencial" -, a comédia brincava com o estilo de vida dos novos-ricos californianos (com seus exageros, futilidade e arrogância), mas recheado do humor iconoclasta dos cineastas e amparado no histrionismo irresistível de sua atriz central - uma força da natureza que teve, na segunda metade dos anos 1980, seu período de maior popularidade.

Na verdade, Bette Midler só entrou no projeto depois da saída de Madonna, que abandonou o barco devido às famosas "diferenças artísticas" entre ela e os diretores. Levando-se em consideração que Madonna nunca foi exatamente uma atriz de grande talento, a mudança no elenco foi providencial: mesmo que apareça relativamente pouco (dividindo seu tempo com as outras subtramas que se somam ao resultado final), Midler é a intérprete ideal para a insuportável Barbara Stone, herdeira, socialite e perua irrecuperável que se torna vítima de um sequestro orquestrado para atingir seu marido, e que acaba se unindo a seus algozes quando descobre que, ao contrário do que se poderia esperar, ele não está nem um pouco disposto a pagar o resgate. Irascível e agressiva nos momentos iniciais, debochada e irônica na segunda metade, a personagem é um prato cheio para a atriz - mesmo que, posteriormente, ela não tenha conseguido se livrar muito do estilo, que talvez não agrade a todos. Para alívio geral, porém, o rocambolesco roteiro dá espaço para o restante do elenco, em uma trama de erros envolvente e divertida que mantém o interesse até o clímax.

 

O sequestro de Barbara Stone é o pontapé inicial do filme. Seu marido, Sam (Danny DeVito), casou-se com ela por puro interesse, mas seu maior desejo é livrar-se de suas inconveniências e estupidez. Seus planos de assassinar a esposa são interrompidos, no entanto, quando ele recebe a notícia de que ela acaba de ser raptada: ao invés de pensar em um crime perfeito, basta a ele fazer corpo mole, não pagar o resgate e correr pro abraço. Mas as coisas não são assim tão simples. Sua amante, Carol (Anita Morris), também tem um amante, o pouco inteligente Earl (Bill Pullman), e o casal pretende chantagear Sam com a filmagem do assassinato planejado pelo industrial - e é claro que, sem assassinato nenhum, a fita que eles tem em mãos tem um outro tipo de material que ambos desconhecem (o que acaba os deixando em uma situação pouco confortável). Além disso, enquanto espera que o marido pague o resgate, Barbara descobre que seus sequestradores não tem nada de criminosos corriqueiros: Ken (Judge Reinhol) e Sandy (Helen Slater) procuram apenas um modo de vingar-se de Sam, que os passou para trás ao roubar uma ideia que poderia ter-lhes deixado ricos.

O roteiro de "Por favor, matem minha mulher" é um primor: deixando de lado a ideia de que é imprescindível haver lógica em uma comédia, Dale Launer criou uma série de situações bizarras e desconcertantes que se acumulam e se cruzam involuntariamente. Dando espaço para que todo o elenco tenha momentos seus, ele evita tempos mortos, imprime um ritmo apropriado ao gênero e de quebra convida o espectador a tentar adivinhar os rumos da trama - sem que, com isso, a torne previsível. A direção dos amigos ZAZ é precisa ao evitar os excessos de Midler e sua própria tendência ao anarquismo visual que marcou seus trabalhos anteriores. Mesmo que no final haja uma certa dose de moralismo, o tom acertadamente caótico e a atmosfera oitentista - perceptível em cada cenário e figurino - fazem desse potencial fiasco uma inesperadamente feliz sessão da tarde.

sexta-feira

MUDANÇA DE HÁBITO

 


MUDANÇA DE HÁBITO (Sister act, 1992, Touchstone Pictures, 100min) Direção: Emile Ardolino. Roteiro: Paul Rudnick (como Joseph Howard). Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Richard Halsey. Música: Marc Shaiman. Figurino: Molly Maginnis. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/Thomas L. Roysden. Produção executiva: Scott Rudin. Produção: Teri Schwartz. Elenco: Whoopi Goldberg, Maggie Smith, Harvey Keitel, Bill Nunn, Kathy Najimy. Estreia: 29/5/92

Algumas comédias, por razões diversas, conseguem a façanha de dar certo a despeito de serem construídas sobre a frágil base de uma piada única. "Mudança de hábito" é um desses milagres. Lançado sem grandes expectativas no outono americano de 1992, o filme produzido pela Touchstone Pictures tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de um ano  repleto de cartas marcadas, como "Batman: o retorno" e "Máquina mortífera 3". A explicação possível para tamanho êxito? O carisma exuberante de Whoopi Golberg: fresquinha do Oscar de coadjuvante por "Ghost: o outro lado da vida" (1990), a atriz revelada por Steven Spielberg em "A cor púrpura" (1985) demonstrou, ao exibir seus dons cômicos e musicais, poder suficiente para protagonizar produções comerciais para toda a família. É impossível não se deixar cativar por Goldberg, capaz de chamar os holofotes para si mesmo ao lado de atores excepcionais como Maggie Smith e Harvey Keitel.

Um projeto que remete a 1987 - e que sofreu um processo por plágio, encerrado após a recusa de um acordo com os requerentes -, "Mudança de hábito" seria um veículo para o estrelato de Bette Midler, então o grande nome feminino do estúdio. Sua desistência acabou por acarretar diversas mudanças no roteiro conforme o tempo passava - e nomes importantes, como Nancy Meyers e Carrie Fisher estiveram envolvidas nas mudanças que acabaram, segundo o roteirista original, Paul Rudnick, desfigurando o material original a ponto de fazê-lo assinar os créditos com um pseudônimo. E se a presença de Goldberg ajudou no sucesso comercial do filme, seu relacionamento com o diretor Emile Ardolino - mais conhecido por "Dirty dancing: ritmo quente" (1987) - não foi das melhores, principalmente devido às interferências da atriz no roteiro. Tais dificuldades, no entanto, acabaram não transparecendo no resultado final: leve e divertido, "Mudança de hábito" conquista desde as primeiras cenas, e se não deixa de ser um tanto previsível, ao menos não tenta parecer  mais inventivo do que realmente é.

 

A trama gira em torno de Deloris Van Cartier (vivida com graça e verve por Goldberg), que vive como cantora em Reno, Nevada, onde tenta convencer o namorado, Vince LaRocca (Harvey Keitel), a abandonar a esposa para assumir seu relacionamento. Em uma noite como tantas outras, porém, Deloris dá de cara com LaRocca assassinando um empregado, o que a faz cair na real de que o amante é um gângster perigoso e com sérios problemas na justiça. Com medo de também ser morta, ela procura a polícia e, a contragosto, é convencida a esconder-se até que possa prestar depoimento e colocar o criminoso na cadeia. Mas se já não estava feliz com o fato de ter que sumir do mapa, a pouco confiável Deloris entra em pânico quando descobre que irá ficar por meses em um convento. Sob as ordens da pouco amistosa Madre Superiora (Maggie Smith), ela assume o nome de Irmã Mary Clarence e, a princípio revoltada com as rígidas regras do local, aos poucos descobre uma missão quase impossível: transformar o coral das freiras - desafinado, apático e desacreditado - em uma nova potência. Mas é claro que LaRocca não está disposto a desistir de encontrar a testemunha de seu crime...

E é só isso. A piada única - o confronto entre a dionisíaca Deloris e a paz quase celestial do convento - se estende por 100 minutos, sem aprofundamento de nenhum tipo. Logicamente não se pode esperar tratados éticos/religiosos em uma comédia feita para se assistir comendo pipoca, mas faz falta um embate maior entre a protagonista e a Madre Superiora (Maggie Smith sempre esplêndida, mas dessa vez subaproveitada) e até um tempo maior no desenvolvimento de sua amizade com as outras freiras - é decepcionante, por exemplo, que a ótima Kathy Najimy seja desperdiçada. É falta de ousadia, inclusive, ter uma protagonista envolvida em casas noturnas, crimes, bebida e drogas sem que tal assunto seja sequer mencionado de forma mais adulta - mais uma vez a classificação etária e o puritanismo hollywoodiano (em especial da Touchstone) sepultaram o que poderia render ótimos momentos de humor. É de se imaginar o que faria o espanhol Pedro Almodóvar, cotado para dirigir o filme depois do sucesso internacional de seu "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (1988).

E para encerrar, uma curiosidade das mais inusitadas: enquanto começava a escrever o primeiro tratamento de seu roteiro, Paul Rudnick recebeu, de Bette Midler, o conselho de visitar um convento verdadeiro, para conhecer melhor sua rotina. Ideia aceita, Rudnick foi até um convento em Connecticut e descobriu que sua Madre Superiora, Dolores Hart, havia trabalhado, na juventude, em Hollywood: atriz, cantora e dançarina, fez parte do elenco de algumas produções, como "Balada sangrenta" (1958) e é, ainda hoje, membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, com direito a voto no Oscar.

quinta-feira

AGENTE 86

 


AGENTE 86 (Get Smart, 2008, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 110min) Direção: Peter Segal. Roteiro: Tom J. Astle, Matt Ember, personagens criados por Mel Brooks, Buck Henry. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Richard Pearson. Música: Trevor Rabin. Figurino: Deborah L Scott. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Suzanne Cloutier, Paul Rotte, Leslie E. Rollins. Produção executiva: Bruce Berman, Steve Carell, Dana Goldberg, Jimmy Miller, Brent O'Connor, Peter Segal. Produção: Michael Ewing, Alex Gartner, Andrew Lazar, Charles Roven. Elenco: Steve Carell, Anne Hathaway, Dwayne Johnson, Alan Arkin, Terence Stamp, Terry Crews, David Koechner, Bill Murray, James Caan. Estreia: 20/6/2008

Em 1998, poucos nomes em Hollywood pareciam mais apropriados para uma versão cinematográfica da série de TV "Agente 86" do que o de Jim Carrey, Astro de comédias de sucesso que exploravam seu humor físico, o ator canadense soava como a escolha ideal para assumir o mais icônico papel do veterano Don Adams. Por uma série de razões, no entanto, o projeto acabou sendo deixado de lado até metade dos anos 2000 - mas, com a morte de Adams, em 2005, tornou-se quase obrigatória uma homenagem digna a um dos programas mais populares dos anos 1960. Para sorte de todos, foi também em 2005 que estreou, na NBC, a releitura da telessérie britânica "The office": seu protagonista, Steve Carell, mostrou-se, em poucos episódios, uma opção inequívoca para vestir a personalidade de Maxwell Smart, um agente secreto cujo brilhantismo intelectual contradizia sua total inabilidade para o trabalho de campo. Ciente de seu talento cômico - revelado e consagrado em "O virgem de 40 anos" (2005) - e da importância do trabalho, Carell entrou de corpo e alma em sua missão. Como produtor executivo e líder do elenco, ele transformou o que poderia ser apenas uma produção caça-níqueis em um sucesso quase inesperado: com 230 milhões de dólares arrecadados pelo mundo, "Agente 86" não apenas demonstrou respeitar o material original, mas também conquistou uma nova geração de fãs.

CONTROL, agência secreta norte-americana está em risco: boa parte de seus integrantes teve suas identidades reveladas por um grupo terrorista chamado KAOS - liderado pelo infame Siefgried (Terence Stamp) -, que ameaça praticar um atentado à bomba em local ainda desconhecido. Para impedir que tal hecatombe aconteça, o chefe no comando (Alan Arkin) resolve finalmente realizar o sonho de um seus mais dedicados agentes, Maxwell Smart (Steve Carell), e incumbí-lo de um trabalho de campo. Genial em suas missões intelectuais mas desastrado e desligado no dia-a-dia, Smart é rebatizado como Agente 86 e é designado a fazer dupla com a atraente Agente 99 (Anne Hathaway) - cujo rosto pós-cirurgia plástica é desconhecido pelos criminosos. A dupla pouco provável viaja então para a Rússia - e seus métodos opostos acabam por aproximá-los. A descoberta de um agente duplo, porém, põe em xeque seu incipiente relacionamento.

O roteiro - que contou com a colaboração não creditada de Carell e de seu colega de "The office", B.J. Novak - é apenas uma desculpa para uma série de piadas visuais e verbais, lançadas em um ritmo vertiginoso que realça o talento de sua dupla de protagonistas. Se Carell demonstra estar totalmente à vontade em cena, arrancando gargalhadas com sua simples presença, o trabalho de Anne Hathaway tampouco fica atrás: sexy e com um excelente tempo de comédia, a futura vencedora do Oscar não se deixa suplantar por seu parceiro (a sequência em que os dois dançam em uma festa, cada um com seu par, deixa qualquer um com um sorriso nos lábios). E se os protagonistas deitam e rolam, o elenco coadjuvante faz o mesmo, desde o veterano Alan Arkin até um surpreendente Dwayne Johnson, como o Agente 23, ídolo de Smart e seu exemplo dentro da agência. Até nomes pouco conhecidos, como Masi Oka e Nate Torrence conseguem fazer rir, graças à direção precisa de Peter Segal - cujo currículo inclui o terceiro capítulo da série "Corra que a polícia vem aí" e "Terapia de choque", estrelado por Jack Nicholson e Adam Sandler - que transforma todo pequeno momento em entretenimento puro.

O sucesso de "Agente 86" não foi suficiente, no entanto, para uma continuação. Apesar dos desejos da equipe, alguns fatores colaboraram para que o primeiro filme não rendesse uma sequência. A morte do produtor Alan Horn (que abandonou o projeto quando ele saiu das mãos da Disney) e do ator Alan Arkin e a agenda apertada de Anne Hathaway, além da dificuldade de encontrar um roteiro à altura acabaram por sepultar a possibilidade, para desgosto do público que esperava voltar a rir com as trapalhadas de Maxwell Smart. E se tudo funcionou como um relógio no primeiro capítulo não deixa de ser um alívio pensar que ninguém conseguiu estragar tudo com uma produção menos feliz em uma continuação equivocada.

quarta-feira

MEU PRIMEIRO AMOR


MEU PRIMEIRO AMOR (My girl, 1991, Columbia Pictures/Imagine Entertainment, 102min) Direção: Howard Zieff. Roteiro: Laurice Elehwany. Fotografia: Paul Elliott. Montagem: Wendy Greene Bricmot. Música: James Newton Howard. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: Joseph T. Garrity/Linda Allen. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, David T. Friendly. Produção: Brian Grazer. Elenco: Anna Chlumsky, Dan Aykroyd, Jamie Lee Curtins, Macaulay Culkin, Griffin Dunne. Estreia: 27/11/91

No começo dos anos 1990, pouca gente estava mais na crista da onda do que Macaulay Culkin. Com o sucesso estratosférico de "Esqueceram de mim" (1990) - que arrecadou inacreditáveis 470 milhões de dólares ao redor do mundo -, o pequeno astro, então com apenas dez anos de idade era visto como uma mina de ouro, pelos estúdios e, como se soube mais tarde, principalmente pela família. Portanto, não chegou a surpreender que "Meu primeiro amor", uma comédia romântica infantojuvenil apenas simpática e sem grandes nomes no elenco tenha se tornado um êxito comercial tendo seu nome como principal chamariz. Mesmo sem o mesmo impacto de seu filme anterior - um fenômeno mundial que lhe rendeu até mesmo uma indicação ao Golden Globe -, a produção dirigida pelo pouco inspirado Howard Zieff confirmou seu status dentro da indústria (que seria ainda reforçado por "Esqueceram de mim 2" e "O anjo malvado") e, de quebra, levou milhares de fãs às lágrimas com sua história de amizade, amadurecimento e perdas. O que nem todo mundo percebeu, no entanto - ao menos na época do lançamento - é que, apesar de Culkin ter sido o principal ponto de interesse do filme, seu maior destaque atendia pelo nome de Anna Chlumsky. É ela que, tão jovem quanto seu colega mais famoso, carrega, com seu carisma e talento, a responsabilidade de encantar e emocionar as plateias - adulta e juvenil - com a história de Vada Sultenfuss.

No verão de 1972, Vada tem onze anos de idade e vive sozinha com o pai, Harry (Dan Ayckroyd), em uma pequena cidade da Pensilvânia. Esperta, hipocondríaca e alvo do despeito das meninas de sua idade, ela encontra consolo nas aulas de seu professor de Inglês, Mr. Bixler (Griffin Dunne), e em suas tardes com o melhor amigo, Thomas Sennett (Macaulay Culkin), também pouco popular e solitário. Órfã de mãe e obcecada com qualquer assunto relacionado à morte - em parte devido ao fato de seu pai ser dono de uma casa funerária -, Vada sofre com a falta de uma figura materna, mas vê sua rotina ser transformada com a chegada da excêntrica Shelley Devoto (Jamie Lee Curtis): contratada como maquiadora dos cadáveres/clientes de Harry, ela logo se torna interesse romântico do desajeitado viúvo e a nova configuração familiar abala o até então tranquilo cotidiano da menina, também em fase de autodescobertas. A princípio relutante em ter que dividir o amor do pai com outra mulher, Vada vai aos poucos percebendo que crescer muitas vezes é um processo doloroso, com perdas inevitáveis - ao mesmo tempo em que novas relações surgem e podem deixar o caminho menos árduo.

 

Lançado com o duvidoso título de "Meu primeiro amor" como forma de capitalizar em cima da presença bastante coadjuvante de Macaulay Culkin - ainda que seu nome original não seja exatamente um primor de criatividade, sendo apenas mais um exemplar de filmes batizados depois de sucessos musicais -, o filme de Howard Zieff não se limita apenas à história do pueril e encantador relacionamento entre Vada e Thomas, por mais que o marketing tenha se esmerado em explorá-lo e a memória afetiva do público assim o tenha percebido. A jovem protagonista, defendida com garra por Anna Chlumsky, tem o verão como rito de passagem, uma ponte de amadurecimento que vai além de um beijo rápido à beira de um lago. Nos poucos meses nos quais a história é contada, ela experimenta também a decepção romântica e ingênua com o professor adulto, o fato de que a solidão compulsória de seu pai tem data de vencimento, a percepção de que novas amizades podem estar onde menos se espera e, golpe de misericórdia, o encontro com a morte como algo bem mais palpável e cruel do que aquilo que, de certa forma, fazia parte de seu cotidiano. O roteiro não chega a aprofundar nenhuma dessas questões - afinal de contas, é apenas um filme com pretensões comerciais estrelado por duas crianças -,  mas sua evidente sinceridade em tratar de relações humanas torna impossível não se deixar comover. Para isso ajuda o frescor do elenco - não apenas o infantil, mas também o adulto, liderado por Dan Aykroyd e Jamie Lee Curtis (reunidos oito anos depois do sucesso de "Trocando as bolas").

Vindo do fracasso retumbante de "Nada além de problemas" (1991) - que estrelou e dirigiu, Dan Aykroyd demonstra, em suas cenas, uma mescla bem equilibrada de sensibilidade e humor. Escolhido pelo produtor Brian Grazer depois que Steve Martin e Bill Murray recusaram o papel por causa de outros compromissos - e pelas dúvidas sobre a capacidade de Chevy Chase de realizar um bom trabalho dramático -, Aykroyd se situa no meio do caminho entre duas forças femininas de gerações distintas. Enquanto Chlmusky representa a inocência infantil, Jamie Lee Curtis oferece um lado sensual, maduro e maternal - uma figura que irá, definitivamente, moldar a persona adulta de Vada e colocar nos eixos uma estrutura familiar capenga. E é justamene do crescimento emocional da menina - o que inclui, logicamente, o tal primeiro do amor do título brasileiro - que se trata o filme de Zieff, e nesse ponto pode-se dizer que, se não é uma obra-prima, ao menos ele é honesto e delicado. Não à toa, tornou-se filme conforto de milhares de espectadores através dos anos.

terça-feira

NOIVA EM FUGA


NOIVA EM FUGA (Runaway bride, 1999, Paramount Pictures/Touchstone Pictures, 116min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Josann McGibbon, Sara Parriott. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Bruce Green. Música: James Newton Howard. Figurino: Edgar Pomeroy, Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção executiva: Gary Lucchesi, David Madden, Ted Tannembaum. Produção: Robert W. Cort, Ted Field, Scott Kroopf, Tom Rosenberg. Elenco: Julia Roberts, Richard Gere, Joan Cusack, Hector Elizondo, Rita Wilson, Christopher Melony, Donal Logue, Laurie Metcalf. Estreia: 30/7/99

Nove anos se passaram entre "Uma linda mulher" e "Noiva em fuga". Nesse meio tempo, Julia Roberts foi do céu (Globo de Ouro, indicação ao Oscar, salários milionários) ao inferno (vida sentimental atribulada, brigas com a imprensa, fracassos de bilheteria), e Richard Gere equilibrou (poucos) êxitos comerciais com uma boa quantidade de fiascos financeiros. A reunião da dupla era algo que os fãs - e principalmente os estúdios, ávidos por dólares - esperavam ansiosamente desde que a comédia romântica, dirigida por Garry Marshall, tornou-se um fenômeno na temporada 1990, e depois de várias tentativas infrutíferas (inclusive projetos sempre abortados de uma continuação), finalmente o público pode conferir se a química milionária ainda se mantinha e se o raio poderia cair duas vezes no mesmo lugar. A resposta para ambas as perguntas foi um sonoro "sim" - mais de 300 milhões de dólares de arrecadação mundial e críticas majoritariamente favoráveis. Mas por que, então, a impressão de que, no final das contas, ficou faltando alguma coisa?

Talvez o maior problema de "Noiva em fuga" seja a falta do frescor de "Uma linda mulher" - especialmente quanto ao desempenho de Julia Roberts, então em começo de carreira e sem as marcas (boas e ruins) de uma década de caminhada. Ou talvez o roteiro pouco inspirado e sem o glamour da Los Angeles sofisticada do filme de 1990. Quem sabe até mesmo o excesso de personagens secundários, que tira o foco dos protagonistas e deixa o ritmo menos enxuto. O fato é que o reencontro de um casais mais icônicos do cinema moderno não despertou as faíscas esperadas - mesmo porque nem sempre eles foram os atores idealizados para os papéis centrais. Nos dez anos que separam o começo de sua gestação e sua estreia, nomes como Mel Gibson, Harrison Ford, Michael Douglas e Ben Affleck foram sondados para viver o jornalista Ike Graham, enquanto Geena Davis, Sandra Bullock e Demi Moore chegaram perto de assumirem a independente Maggie Carpenter. Levando-se em consideração o quanto tais intérpretes são diferentes entre si, pode-se imaginar o quanto o roteiro mudou ou se adaptou nesse período - o que não chega a ser surpresa, uma vez que o próprio "Uma linda mulher" também sofreu alterações radicais antes de seu lançamento - e o quanto as presenças de Roberts e Gere são quase acidentais em uma trama sem maiores encantos além de suas presenças carismáticas.

 

Apesar do título dar destaque a Roberts, pode-se dizer que o personagem principal de "Noiva em fuga" é Ike Graham (Richard Gere), colunista de um grande jornal de Nova York que se vê demitido depois de publicar - sem checar a veracidade dos fatos - um texto a respeito de uma jovem do interior de Maryland conhecida na cidade por ter abandonado vários noivos no altar sem explicação nenhuma. Tentando provar que estava certo em sua história, Ike vai até a pequena cidade de Hale para testemunhar, em primeira mão, mais uma fuga da bela Maggie Carpenter (Julia Roberts) - cuja carta para seus editores foi a responsável por sua dispensa. Noiva pela quarta vez - agora do professor de Educação Física Bob Kelly (Christopher Meloni) - e decidida a honrar definitivamente seu compromisso (até como forma de desmentir Ike), Maggie a princípio hostiliza o repórter, que se aproxima de seus amigos e família, mas aos poucos vai se deixando conquistar por seu charme e sua lábia. Confiando nele - apesar de sua fama de ser pouco simpático ao sexo feminino -, a jovem e bela noiva torna-se não apenas objeto de uma possível nova matéria, mas também a mulher que pode enfim fazê-lo descobrir o amor. Apaixonada, ela fica dividida entre finalmente casar-se com quem não ama, ou assumir seus sentimentos e deixar que Ike fique com a razão sobre seu passado pouco invejável.

Apesar de apresentar momentos divertidos e algumas situações no mínimo agradáveis, "Noiva em fuga"  é um filme irregular. Nem tudo funciona como deveria (os personagens secundários muitas vezes ficam sem função alguma a não ser soltar piadas avulsas) e o clímax tampouco empolga - culpa talvez da falha em envolver o espectador no romance entre seus protagonistas. A aura apaixonada que cobria Gere e Roberts em "Uma linda mulher" simplesmente inexiste aqui, apesar da química manter-se intacta, e nos embates mais dramáticos entre eles fica evidente a fragilidade do roteiro e a direção pouco inspirada de Garry Marshall, que parece confiar tanto em seus atores que esquece de dar-lhes um bom material. No final das contas, é uma comédia romântica simpática, mas muito aquém do que se poderia esperar da união de um time cujo primeiro encontro deu origem a um dos mais queridos filmes de seu tempo.

 

O PREÇO DA TRAIÇÃO

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