sábado

NA LINHA DE FOGO

NA LINHA DE FOGO (In the line of fire,1993, Columbia Pictures, 128min) Direção: Wolfgang Petersen. Roteiro: Jeff Maguire. Fotografia: John Bailey. Montagem: Anne V. Coates. Música: Ennio Morricone. Figurino: Erica Edell Phillips. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Kara Lindstrom. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção executiva: Gail Katz, Wolfgang Petersen, David Valdes. Produção: Jeff Apple. Elenco: Clint Eastwood, Rene Russo, John Malkovich, Dylan McDermott, Gary Cole, John Mahoney, Tobin Bell, John Heard. Estreia: 09/7/93

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (John Malkovich), Roteiro Original, Montagem

Quando fez o filme "Na linha de fogo", dirigido pelo alemão Wolfgang Petersen, o ator/diretor/produtor Clint Eastwood já tinha 62 anos, ao contrário de sua personagem, o agente do Serviço Secreto americano Frank Horrigan, de cinquenta e poucos. Explica-se: quando o projeto do filme surgiu entre os estúdios de Hollywood (depois de o roteiro passar cerca de uma década flutuando entre um e outro), Robert Redford era o mais cotado para o papel de protagonista. Depois que nomes como Dustin Hoffman e Sean Connery também saíram de cena, o veterano Eastwood embarcou no projeto, levando o diretor Petersen a tiracolo. A entrada dos dois não poderia ter sido mais providencial: com quaisquer outros nomes em seus créditos, é pouco provável que "Na linha de fogo" ficasse melhor do que está. 

Como já dizia Hitchcock, um filme é tão bom quanto seu vilão. E o vilão aqui não está para brincadeiras: vivido por um genial John Malkovich (merecidamente indicado ao Oscar de coadjuvante), Mitch Leary é um dos mais interessantes bandidos do cinema americano dos anos 90, roubando descaradamente todas as cenas em que aparece. Leary é um vingativo ex-funcionário do governo americano que tem como missão de vida assassinar o presidente dos EUA. Para isso - e para sua maior diversão - ele precisa entrar em um jogo de gato e rato com Frank Horrigan (Eastwood), que, em 1963, era responsável pela segurança de John Kennedy. Sentindo-se pessoalmente atacado pelas ameaças de Leary, Horrigan solicita sua volta à equipe de proteção do líder máximo do país, contando com o apoio da bela agente Lilly Raines (Rene Russo).

 

O roteiro de Jeff Maguire - que perdeu o Oscar para o prestigiado "O piano" - é esperto o bastante para jamais subestimar a inteligência da plateia. Horrigan é um homem de idade, e isso é frequentemente lembrado, impedindo-o de assumir o papel de um herói infalível. Até mesmo seu romance com Lilly é plenamente aceitável, uma vez que não é empurrado garganta abaixo do espectador - e a beleza de Rene Russo apenas colabora em seduzir a audiência (em um papel recusado por Glenn Close e Sharon Stone). Mas é seu relacionamento com Mitch Leary quem impulsiona "Na linha de fogo": os diálogos entre os dois protagonistas são tensos e mantem o nível de suspense em alta, até o clímax interessante e eficiente.

John Malkovich - especializado em papéis de vilões - tem em Mitch Leary o papel de sua vida. Mesmo que tenha brilhado intensamente como o Visconde de Valmont em "Ligações perigosas", é na pele do psicótico assassino de "Na linha de fogo" que ele tem a oportunidade de demonstrar toda a extensão do seu talento: irônico, debochado e perigoso - com a ajuda dos vários disfarces proporcionados pela maquiagem - ele transmite toda sua crueldade e a frieza em poucas (mas muito bem declamadas) palavras. Seu olhar desequilibrado encontra na serenidade e na paciência de Clint Eastwood um contraponto perfeito, que empolga o público como poucos policiais - e a renda de mais de 100 milhões de dólares no mercado doméstico apenas comprova este fato óbvio.

Quem gosta de filmes policiais não pode perder "Na linha de fogo". É inteligente, interessante e tenso, intercalando cenas de ação bem dirigidas com diálogos bem escritos e convincentes. Além de tudo, ainda conta com Clint Eastwood - um dos mais confiáveis atores de Hollywood - e John Malkovich na melhor atuação de sua carreira. 

sexta-feira

A FIRMA


A FIRMA (The firm, 1993, Paramount Pictures, 154min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: David Rabe, Robert Towne, David Rayfiel, romance de John Grisham. Fotografia: John Seale. Montagem: Fredric Steinkamp, William Steinkamp. Música: Dave Grusin. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Richard Macdonald/Casey Hallenbeck. Produção executiva: Lindsay Doran, Michael Hausman. Produção: John Davis, Sydney Pollack, Scott Rudin. Elenco: Tom Cruise, Jeanne Tripplehorne, Gene Hackman, Hal Holbrook, Ed Harris, Holly Hunter, Gary Busey, David Strathairn, Tobin Bell. Estreia: 30/6/93

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Holly Hunter), Trilha Sonora Original

No início da década de 90, nenhum nome era mais quente dentro da literatura americana fast-food do que John Grisham. Advogado de formação, ele frequentava as listas dos mais vendidos com seus livros que versavam, basicamente, sobre os meandros da lei, sempre protagonizados por seus colegas de profissão, invariavelmente idealistas e heróicos. Escritas com uma prosa fluente e com um ritmo invejável, suas obras imploravam por adaptações cinematográficas e não demorou muito para que logo ele se tornasse mania entre os produtores de Hollywood. Quem saiu na frente foi Sydney Pollack, com a adaptação de "A firma", seu primeiro romance. Como era esperado, a bilheteria não decepcionou: com os nomes de Grisham e do astro Tom Cruise enfeitando o cartaz, o filme rendeu quase 160 milhões de dólares no mercado americano, comprovando o poder de Cruise, no auge de sua popularidade.

É impossível negar que, mesmo sendo Grisham um escritor extremamente popular junto ao público ianque - e por que não, internacional - foi o nome de Tom Cruise o maior responsável pelo enorme sucesso de "A firma". Em uma fase dourada de sua carreira, o ator emendava um êxito comercial atrás do outro e teve a sorte de encontrar uma personagem adequada à sua persona. Coincidentemente ou não, foi seu segundo papel de advogado consecutivo, depois do igualmente bem-sucedido "Questão de honra" e, mais uma vez, não compromete o resultado final, apresentando um trabalho correto, ainda que longe de brilhante.



Cruise interpreta Mitch McDeere, um jovem advogado recém-formado e ambicioso que recebe a proposta irrecusável de uma firma tradicional da cidade de Memphis. Deslumbrado com as inúmeras possibilidades que o emprego lhe proporcionará, ele se muda com a esposa, a professora primária Abby (a fraca Jeanne Trippelhorne) para uma casa de sonhos, com um carrão na garagem e um salário muito maior do que esperava, além do apoio dos colegas de trabalho, que logo lhe deixam bem claras algumas regras da tal firma. Conservadora, ela "apóia" casamentos estáveis e famílias numerosas, além de exigir também uma reputação ilibada de seus empregados. Por esse motivo, Mitch esconde que tem um irmão presidiário, Ray (David Strathairn) e tenta manter reserva a respeito de sua vida pessoal. As coisas começam a ficar estranhas, porém, quando dois associados da empresa morrem em um acidente de barco e o misterioso Wayne Terrance (Ed Harris) passa a assediá-lo: agente do FBI, ele revela a Mitch que a firma tem ligações com a Máfia. Cabe ao jovem decidir, então, se aceita ajudar a polícia a condenar seus colegas de trabalho.

Capaz de transitar entre diversos gêneros - ele assinou o romântico "Nosso amor de ontem", a comédia "Tootsie" e o épico oscarizado "Entre dois amores", apenas para citar os mais conhecidos - Sydney Pollack fez de "A firma" um filme elegante, um suspense à moda antiga, que caminha em seu próprio ritmo sem jamais aborrecer o espectador - ao menos aquele que prefere uma história bem contada do que correrias desvairadas. As personagens coadjuvantes criadas por Grisham encontram, no elenco escolhido por Pollack (que tem um talento óbvio para tal), representações perfeitas, incluindo aí um desaparecido Gary Busey. Gene Hackman, por exemplo, encontra o tom exato entre o poder e a solidão de seu Avery Tolar, o mentor do protagonista dentro da firma, e Holly Hunter recebeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante - no mesmo ano em que foi premiada na categoria principal, por "O piano" - por seu trabalho impecável como Tammy, uma secretária vulgar mas bastante esperta que ajuda McDeere em sua luta: suas cenas somadas não chegam a seis minutos de projeção, mas ela é, sem dúvida, o maior destaque feminino do filme, uma vez que Jeanne Tripplehorn, na pele de Abby McDeere, mostra toda sua fragilidade como atriz.

O ritmo de "A firma", definitivamente, não é dos mais alucinantes. Em alguns momentos, chega a ser bastante lento, uma característica de seu diretor. Mas jamais deixa que a história que conta seja pouco interessante, ou previsível. É, como dito antes, um filme elegante, realizado com um cuidado e interpretado por um elenco de atores populares e talentosos. Um entretenimento acima da média e inteligente como poucos que prezam por sua bilheteria. Um bom começo para as adaptações de John Grisham.

quinta-feira

SINTONIA DE AMOR

SINTONIA DE AMOR (Sleepless in Seattle, 1993, TriStar Pictures, 105min) Direção: Nora Ephron. Roteiro: Nora Ephron, David S. Ward, Jeff Arch, história de Jeff Arch. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Robert Reitano. Música: Marc Shaiman. Figurino: Judy Ruskin. Direção de arte/cenários: Jeffrey Townsend/Clay Griffith. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Patrick Crowley, Delia Ephron, Lynda Obst. Produção: Gary Foster. Elenco: Tom Hanks, Meg Ryan, Rita Wilson, Victor Garber, Bill Pullman, Rosie O'Donnell, Carey Lowell, Ross Malinger, Gabby Hoffman, Rob Reiner, Frances Conroy, David Hyde Pierce. Estreia: 25/6/93

2 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Canção Original ("A wink and a smile")

Quando se sabe que Meg Ryan teve seu melhor papel em "Harry & Sally, feitos um para o outro", escrito por Nora Ephron e se assiste a sua atuação em "Sintonia de amor" - estreia da roteirista como cineasta - fica-se difícil imaginar outra atriz como protagonista. No entanto, antes que Ryan embarcasse no projeto, o papel da romântica jornalista Annie Reed foi oferecido a Julia Roberts, Jennifer Jason Leigh, Michelle Pfeiffer, Jodie Foster e Kim Basinger - que o recusou por considerar a premissa do roteiro ridícula e inverossímil. As sistemáticas recusas das atrizes citadas, no entanto, podem ser consideradas um golpe de sorte; com Ryan no principal papel feminino e Tom Hanks como seu par romântico, "Sintonia de amor" foi um dos mais surpreendentes sucessos de bilheteria de 1993 e encantou milhares de corações enamorados. A premissa pode, sim, ser um tanto inacreditável, mas isso não atrapalhou nem um pouco no grande êxito comercial e crítico de uma das comédias românticas mais simpáticas da história.

Embalado por uma trilha sonora irretocável composta por standards do cancioneiro romântico/popular americano - de "As time goes by" a "When I fall in love" - o filme de Nora Ephron mantém o tom irônico e bem-humorado de "Harry & Sally", mas não tem medo de ir fundo no romantismo, certamente inspirado no clássico "Tarde demais para esquecer", homenageado carinhosamente pelo roteiro - apesar de ser citado sempre pela parcela feminina do elenco enquanto é desprezado pelas personagens masculinas, o romance entre Cary Grant e Deborah Kerr é a maior influência de "Sintonia de amor" e foi redescoberto pelo público graças a ele.



Quando o filme começa, o arquiteto Sam Baldwin (Tom Hanks no auge da simpatia e em vias de ser muito levado a sério pela crítica) acaba de ficar viúvo e, entristecido com a perda, abandona Chicago e leva o filho pequeno, Jonah (o ótimo Ross Malinger) para Seattle, disposto a recomeçar a vida. Um ano e meio depois, preocupado com a solidão do pai, o menino telefona para um programa de rádio, em busca de uma namorada para ele. Apesar das centenas de cartas que lhe chegam, em resposta ao pedido, ele se interessa pela carta da jornalista Annie Reed (Meg Ryan), moradora de Baltimore - ou seja, do outro lado do país. Mesmo que recém tenha ficado noiva do dentista Walter (Bill Pullman), ela não reconhece nele alguém capaz de despertar-lhe uma paixão como a de seus pais, e, com a ajuda de sua editora, Becky (a divertida Rosie O'Donnell), tenta contato com o "Insone de Seattle" (o pseudônimo de Sam no programa de rádio). Desacreditando nas possibilidades de um encontro com Annie (por ao menos uma boa razão), Sam tenta seguir a vida, mas Jonah não parece capaz de desistir de reuní-lo à bela repórter.


"Sintonia de amor" é uma delícia. Engraçado, romântico e extremamente agradável, é um perfeito exemplo de como se fazer uma comédia romântica. A química entre Hanks e Ryan - previamente testada no fracassado "Joe contra o vulcão" - é invejável, principalmente se for levado em conta que dividem a cena por menos de cinco minutos no total. A expectativa que se cria em torno de seu encontro é pontuada com diálogos saborosos e personagens criados com carinho por um elenco coadjuvante afiado (que inclui o cineasta Rob Reiner, a esposa de Hanks, Rita Wilson e até mesmo Frances Conroy, que ficaria famosa pela série "A sete palmos" quase uma década depois). As diferenças culturais entre homens e mulheres é trabalhada com humor e não com um ranço sexista, e nem mesmo o fato de realmente a história ser meio capenga incomoda a plateia - vale lembrar que, à época do filme, a Internet ainda não era o que é hoje (mas a dupla Hanks/Ryan também faria um filme sobre isso, "Mensagem para você", novamente sob a direção de Nora Ephron).

Mesmo com tantas qualidades, o melhor de "Sintonia de amor" é mesmo seu clima absolutamente romântico. Desaconselhável para quem não é fã do gênero - uma vez que é sua quintessência - é um filme para aquecer os corações daqueles que acreditam que o grande amor de sua vida pode ser um completo desconhecido que mora há milhares de quilômetros. É deixar a razão de lado e mergulhar.

quarta-feira

TINA

TINA (What's love got to do with it, 1993, Touchstone Pictures, 118min) Direção: Brian Gibson. Roteiro: Kate Lanier, livro "I, Tina", de Tina Turner, Kurt Loder. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Stuart Pappé. Música: Stanley Clarke. Figurino: Ruth Carter. Direção de arte/cenários: Stephen Altman/Rick Simpson. Casting: Reuben Cannon. Produção executiva: Roger Davies, Mario Iscovich. Produção: Doug Chapin, Barry Krost. Elenco: Angela Bassett, Laurence Fishburne, Rae'Ven Kelly, Khandi Alexander, Jenifer Lewis, Sherman Augustus. Estreia: 09/6/93

2 indicações ao Oscar: Ator (Laurence Fishburne), Atriz (Angela Bassett)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Angela Bassett)

 Era uma vez uma jovem negra com uma voz extraordinária que conheceu e se apaixonou pelo líder de um grupo musical e, depois do casamento, percebeu que seu príncipe era na verdade um sapo. Submetida a todo tipo de violência física e psicológica, ela só teve forças pra levar a vida adiante quando encontrou o budismo e a auto-estima, que a fizeram tornar-se uma das maiores estrelas da música pop mundial. Essa sinopse, inacreditável em sua coleção de clichês, é, por mais difícil que possa parecer, absolutamente verdadeira. E sua protagonista uma cantora de projeção internacional: Tina Turner.

 Baseado na autobiografia de Tina, escrita com a colaboração do jornalista Kurt Loder, o filme "Tina", produzido pela Touchstone Pictures (surpreendemente uma subsidiária da Disney tocando em assuntos polêmicos) tem todos os elementos de uma história edificante e com mensagens do tipo "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima" e seu roteiro e direção não fogem do que já vem sendo visto e ouvido desde, no mínimo, "Nasce uma estrela", com Judy Garland. O que o salva de ser apenas mais uma cinebiografia esquecível e puxa-saco são as escolhas de seus protagonistas: para viverem Tina Turner e de seu marido/descobridor/algoz Ike foram escolhidos dois dos melhores atores negros de sua geração, Angela Bassett e Laurence Fishburne. Sintomaticamente, ambos foram indicados ao Oscar por seus trabalhos impecáveis - e Bassett levou um Golden Globe para casa.



Fishburne, que está na estrada desde um pequeno papel em "Apocalypse now", de 1979, agarra com unhas e dentes o papel de Ike, forte e assustador, ainda que transformado, graças ao roteiro maniqueísta, em um homem desumano e cruel, desprovido de qualquer humanidade ou qualidades redentoras, e cuja força das músicas é relegado a segundo plano. Seu olhar frio, sua voz tonitruante e seu físico avantajado em relação à frágil Tina criada por Bassett dão a ele cenas chocantes, tiradas de letra por um ator seguro e com inteligência suficiente para tirar leite de pedra.

Mas é Angela Bassett quem brilha mais fortemente, no papel de sua vida. Desde a juventude sonhadora de Tina até sua glória absoluta - passando por momentos de desespero profundo - Bassett pinta e borda, mesmo quando não tem mais a fazer em cena do que sofrer os abusos de Fishburne. Até mesmo os trejeitos de Tina a atriz consegue reproduzir sem parecer uma mera cópia ou caricatura - o que fica evidente nos excelentes números musicais reproduzidos com energia pelo diretor Brian Gibson. A trilha sonora, inclusive, é uma das melhores da década, englobando desde o início r&b de Ike Turner até o auge pop de Tina como artista-solo. É impossível não envolver-se!

"Tina" foge do destino amargo dos filmes-tributo graças ao talento inquestionável de seu elenco e da qualidade de sua produção (o figurino de Ruth Carter também merece ser destacado). Dentro de seu gênero - repleto de filmes que beiram perigosamente o medíocre - pode figurar tranquilamente entre os produtos bem-sucedidos.

terça-feira

JURASSIC PARK - PARQUE DOS DINOSSAUROS

JURASSIC PARK, PARQUE DOS DINOSSAUROS (Jurassic Park, 1993, Universal Pictures/Amblin Entertainment, 127min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Michael Crichton, David Koepp, romance de Michael Crichton. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Jackie Carr. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção: Kathleen Kennedy, Gerald R. Molen. Elenco: Sam Neil, Richard Attenborough, Laura Dern, Jeff Goldblum, Ariana Richards, Joseph Mazzello, Samuel L. Jackson, Wayne Knight. Estreia: 11/6/93

Vencedor de 3 Oscar: Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais

Quando Steven Spielberg deixa de lado sua vontade de ser um cineasta sério ele não brinca em serviço. Pouco antes de ganhar seus sete Oscar por "A lista de Schindler", ele brindou seu público sedento por um bom filme-pipoca com uma legítima obra-prima do gênero: além de ganhar 3 merecidos prêmios da Academia (efeitos visuais, som e efeitos sonoros), "Jurassic Park" ainda foi responsável por quebrar recordes e mais recordes de bilheteria, tornando-se um dos maiores fenômenos da história do cinema. Apesar da maciça campanha de marketing que tornou impossível ignorar o filme no verão americano de 1993, vale dizer que a obra de Spielberg que trouxe os dinossauros de volta à Terra mereceu cada centavo que arrecadou ao redor do globo.

Baseado em um romance de Michael Crichton, "Jurassic Park" tem como protagonista o milionário John Hammond (o cineasta Richard Attenborough, brincando de ator) que, ambicioso, cria o parque temático do título, que recriou dinossauros a partir de cadeias do DNA conservados em âmbar. Para dar legitimidade à sua criação e conseguir o aval de seus advogados, ele chama dois paleontólogos, Alan Grant (Sam Neil) e Ellie Sattler (Laura Dern) e um cientista, Ian Malcolm (Jeff Goldblum) que, ao lado dos dois netos do magnata, farão a primeira excursão pelo parque. No entanto, um funcionário ganancioso, em uma tentativa de trair o patrão, acaba causando um desastre e todos os animais criados no parque ficam à solta, em busca de alimento: os seres humanos.



É inegável que a intenção de Spielberg  com "Jurassic Park" é tão-somente divertir o espectador. Se as personagens não são exatamente profundos e seus dramas são quase raros isso importa muito pouco diante do impressionante resultado final. Poucas vezes o cinema escapista teve um representante tão digno. Em sequências aterrorizantes, o diretor utiliza a mágica trilha sonora do mestre John Williams para grudar o público na poltrona, com taquicardia certa. Os efeitos visuais são impecáveis até hoje - como sempre, a parte técnica da obra do diretor não fica nunca aquém de perfeita - e o ritmo, especialmente na segunda metade não deixa espaço para as personagens (e os espectadores, por conseguinte) respirarem.

As subtramas de "Jurassic Park", por sinal, não deixam de manter o estilo "família" de Steven Spielberg. A mais divertida delas une Alan Grant - um solteirão nada confortável perto de crianças - aos dois netos de Hammond, sofrendo pelo divórcio dos pais e sendo perseguidos avidamente por tiranossauros-rex famintos. Logicamente, a aventura que ele compartilha com os meninos mudará sua maneira de encarar uma possível paternidade, bem ao gosto do diretor, que, de leve, ainda desperta uma discussão moral e ética a respeito das possibilidades do ser humano em brincar de ser Deus - obviamente sem forçar a plateia a maiores elocubrações mentais. Da plateia só o que ele espera é que embarque sem reservas em sua montanha-russa desgovernada.

"Jurassic Park" não é filme para mudar a vida de ninguém. Mas é fascinante - a cena em que Alan e Ellie dão de cara com os primeiros dinossauros, ao som da música de John Williams, é um primor, reiterando o poder que a sétima arte tem em encantar os espectadores. E é também um dos melhores filmes de entretenimento produzidos por Hollywood em toda a sua história. Infelizmente, perdeu seu vigor, por conta de suas desnecessárias continuações.

segunda-feira

PRÊMIO DARDOS

Meu amigo Hugo, autor do interessantíssimo "Cinema - filmes e seriados" me ofereceu gentilmente o selo Dardos. As regras a partir daí são as seguintes:

1 - Exibir a imagem do selo no blog;
2 - Linkar o blog pelo qual recebeu a indicação;
3 - Escolher outros blogs para receber o Prêmio Dardos;
4- Avisar os escolhidos.

Sendo assim, segue os cinco blogs que indico:

1 - Brazilian Movie Guy
2 - Rê Confessions
3 - Cine Freud
4 - Cinema de Bordo
5 - Cinema Rodrigo

Mais uma vez, obrigado ao Hugo pela gentileza. O link de seu blog é o seguinte:

http://cinema-filmeseseriados.blogspot.com/

PROPOSTA INDECENTE

PROPOSTA INDECENTE (Indecent proposal, 1993, Paramount Pictures, 117min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Amy Holden Jones, romance de Jack Engelhard. Fotografia: Howard Atherton. Montagem: Joe Hutsching. Música: John Barry. Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor, Bernie Pollack, Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Etta Leff. Produção executiva: Alex Gartner. Produção: Sherry Lansing. Elenco: Robert Redford, Demi Moore, Woody Harrelson, Oliver Platt, Seymour Cassel, Billy Bob Thornton. Estreia: 07/4/93

Quando foi lançado, em 1993, o filme "Proposta indecente", de Adrian Lyne, foi chamado, por um crítico, de "filme dos sonhos de qualquer cinéfilo de shopping-center". De uma certa maneira a afirmação não deixa de ser verdadeira. Utilizando elementos de obras anteriores do cineasta - o apuro visual de "9 1/2 semanas de amor" e a aura polêmica de "Atração fatal" - a adaptação livre do romance de Jack Engelhard é o típico produto de sua época: atraente por fora e sem substância nenhuma por dentro. Aliás, apenas a premissa inicial do livro de Engelhard foi utilizada no roteiro, e é preciso reconhecer que é uma senhora premissa.

Durante meses a fio a imprensa do mundo todo discutiu a ideia central do filme: você emprestaria sua mulher a outro homem, por apenas uma noite, em troca de um milhão de dólares? Pois é exatamente esta a proposta indecente do título. Em um cassino de Las Vegas, o multimilionário John Gage (Robert Redford em uma rara aparição nas telas na década de 90) conhece o jovem e atraente casal David e Diana Murphy (Woody Harrelson em um de seus primeiros papéis de destaque e a deslumbrante Demi Moore no auge da beleza). O casal, ambos belos, interessantes e apaixonados também estão absolutamente quebrados financeiramente e não tem dinheiro nem mesmo para pagar as prestações da casa que o rapaz está construindo para eles. Fascinado pela beleza de Diana, o ricaço propõe então a controversa questão: uma noite com ela e um milhão de verdinhas na conta do casal.



Não é difícil prever o que vem a partir daí, uma vez que o filme se concentra mesmo é no pós-proposta, apesar dela ser o pontapé inicial da trama. Ciúme, desconfiança e a eterna busca sobre o que é mais importante na vida acabam sendo os ingredientes da segunda metade do filme, que, em mãos pouco capazes, é a parte menos interessante do filme. Adrian Lyne, que não é um grande diretor de atores, mostra aqui toda sua fragilidade. Robert Redford nunca esteve tão desconfortável em cena, herdando um papel que, nos primórdios do projeto, seria de Warren Beatty. E se Demi Moore não precisa muito esforço para desfilar bela e sensual pela tela, é justamente o menos conhecido do trio, Woody Harrelson, quem se destaca, em uma atuação que tenta dar dignidade a uma história de telenovela.

O roteiro de "Proposta indecente" jamais consegue ultrapassar o lugar-comum. Enquanto a proposta de John Gage não é aceita e a dúvida a seu respeito atrapalha o sono de seus protagonistas o interesse do espectador é mantido aceso. Depois que o ciúme e a desconfiança assumem o papel central da história, tudo perde o foco. O romance entre Diana e Gage e a luta de David para reconquistá-la nunca consegue convencer a plateia, que é privada, a partir daí, da tensão inicial e das quentes cenas de sexo, marca registrada do diretor. Depois de uma primeira hora razoavelmente correta, tudo escorrega para uma trama inverossímil e capenga.

Porém, mesmo que não seja um filme dos melhores, "Proposta indecente" não é uma total perda de tempo.  Poucos diretores tem tanto talento para cenas de amor quanto Lyne e ele as executa com o costumeiro zelo, ajudado por uma ótima trilha sonora de John Barry -  a canção que encerra o filme é a belíssima "A love so beautiful", cantada por Roy Orbison - e pela plástica dos atores (aliás, a ideia do filme era utilizá-lo como veículo para o então casal Tom Cruise e Nicole Kidman). Pode não ser uma obra de arte do cinema, e justifica sua descrição de "filme para cinéfilos de shopping-center". Mas ao menos é bem realizado e esteticamente atraente.

domingo

PAIXÃO SEM LIMITE

PAIXÃO SEM LIMITE (The crush, 1993, Warner Bros/Morgan Creek Productions, 89min) Direção e roteiro: Alan Shapiro. Fotografia: Bruce Surtees. Montagem: Ian Crafford. Música: Graeme Revell. Figurino: Sharon Purdy. Direção de arte/cenários: Michael Bolton/Paul Joyal. Casting: Marci Liroff. Produção executiva: Gary Barber. Produção: James G. Robinson. Elenco: Cary Elwes, Alicia Silverstone, Jennifer Rubin, Kurtwood Smith, Matthew Walker. Estreia: 02/4/93

No início dos anos 90, Hollywood parecia ter encontrado uma nova Lolita: depois de aparecer em 3 videoclipes da banda de rock Aerosmith - sempre em circunstâncias pra lá de sexies - a adolescente Alicia Silverstone, de 17 anos fez sua estreia no cinema em um papel que mais uma vez usava e abusava de seus dotes físicos. Em "Paixão sem limite", ela conquistou de vez uma legião de fãs que passavam pela puberdade, na pele de Adrian Forrester, uma obsessiva e incansável jovem em busca de sua maior conquista: o amor do novo vizinho.

Escrito e dirigido por Alan Shapiro - cujo currículo nunca incluiu coisas melhores do que "Flipper", feito três anos mais tarde - "Paixão sem limite" é um suspense repleto de clichês, mas que parece não se importar com sua total falta de criatividade. O protagonista da história é o jovem jornalista Nick Eliot (Cary Elwes, que esteve em "Drácula de Bram Stoker" e depois protagonizou o vergonhoso "A louca, louca, louca história de Robin Hood", de Mel Brooks). Ao mudar-se para uma nova cidade, ele aluga a casa de hóspedes de uma mansão para poder trabalhar com relativa tranquilidade, mas inadvertidamente desperta a paixão da filha adolescente do casal de proprietários, a bela Adrian (Silverstone), de apenas 14 anos. Sabendo que é bonita, Adrian passa a assediar o rapaz, que a afasta ao mesmo tempo em que sente-se tentado. Quando ele inicia um relacionamento com uma colega de trabalho, Amy (Jennifer Rubin), a obsessão de Adrian aumenta, e a garota inicia um perigoso jogo de sedução, sendo capaz até mesmo de ameaçar a vida daqueles que atrapalham seu objetivo.



Logicamente influenciado por filmes como "Atração fatal" - e fazendo parte de uma série de obras protagonizadas por vilãs loiras e belas, como "A mão que balança o berço" e "Instinto selvagem" - "Paixão sem limite" esbarra o tempo inteiro em incoerências, em inverossimilhanças e previsibilidade. Apesar de Shapiro ter declarado que escreveu o roteiro baseado em um fato acontecido com ele mesmo (sendo inclusive processado por "musa inspiradora") é difícil acreditar que está falando de gente de verdade. Ainda que a doença da personagem principal exista (apesar de não citada no filme é algo chamado "erotomania"), seus atos são privados de qualquer senso de realismo, o que prejudica o desenvolvimento da ação a ponto de envolver uma audiência que espera um pouco mais de um filme do que simplesmente belos rostos e cenários paradisíacos. Além do mais, a fragilidade de Silverstone como atriz também não colabora.


Silverstone - que anos depois faria ainda mais sucesso com o divertido "As patricinhas de Beverly Hills" - levou dois troféus do MTV Movie Awards por seu desempenho - Revelação e Melhor Vilã - mas não é exatamente uma boa atriz. Ela abusa de caras e bocas para criar uma adolescente sedutora e com ar inocente, mas esbarra em sua falta de experiência para entregar algo mais do que simplesmente isso. Suas cenas de nudez - dubladas, diga-se de passagem, uma vez que ela tinha apenas 15 anos durante as filmagens - até podem ter excitado seus fãs em fase de explosão hormonal, mas não são quentes o bastante para justificar o barulho que o filme fez junto a seu público-alvo. E Cary Elwes, que também não é um exemplo de bom ator, pouco tem a fazer, tentando dar sentido a uma trama que jamais alcança o que poderia alcançar - é de se perguntar, por exemplo, por que o rapaz não foi embora logo que começou a perceber o desequilíbrio da adolescente... Coisas de cinema que não se preocupa com roteiros....

No final das contas, "Paixão sem limites" é praticamente um "Atração fatal" para jovens - ou seja, sem sexo, sem nexo, sem violência em demasia. Revelou Alicia Silverstone ao mundo - no que isso tem de bom e ruim. E provou que nem sempre uma boa ideia transforma-se em um bom filme. Como alternativa para um dia de tédio, rola. Mas só isso!

sábado

UM DIA DE FÚRIA

UM DIA DE FÚRIA (Falling down, 1993, Warner Bros, 113min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Ebbe Roe Smith. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Paul Hirsch. Música: James Newton Howard. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Cricket Rowland. Casting: Marion Dougherty. Produção executiva: Arnon Milchan. Produção: Timothy Harris, Arnold Kopelson, Herschel Weingrod. Elenco: Michael Douglas, Robert Duvall, Rachel Ticotin, Barbara Hershey, Tuesday Weld, Frederic Forrest, Lois Smith, Raymond J. Barry. Estreia: 26/02/93

É difícil de acreditar, mas Joel Schumacher, o mesmo sujeito que deu ao mundo obras tão descartáveis quanto "O primeiro ano do resto de nossas vidas" e "Tudo por amor" é o mesmo cineasta por trás de "Um dia de fúria", sem dúvida nenhuma um dos filmes mais inflamáveis já produzidos em Hollywood. Exagero? Vá dizer isso ao público que ficou semanas discutindo a obra em jornais americanos e às minorias retratadas, se não negativamente, ao menos de maneira pouco lisonjeira durante as duas horas do filme.

Michael Douglas, que dá um braço para participar de filmes polêmicos - haja visto "Atração fatal" e "Instinto selvagem", por exemplo - tem aqui a interpretação de sua carreira. Ele vive um homem aparentemente comum que, durante um engarrafamento em uma rodovia de Los Angeles, em um dia de calor, simplesmente vai à loucura. No caminho para o aniversário da filha pequena, que vive com a mãe, ainda temerosa pelo comportamento do ex-marido (vivida por uma correta Barbara Hershey), este homem, conhecido pela polícia como D-Fens - a placa de seu carro - vai cruzando com comerciantes coreanos, latinos membros de gangues, milionários insensíveis e até um neonazista (todos estereotipados como convém). A cada encontro, sua revolta contra o estado das coisas nos EUA vai aumentando, o que o leva perigosamente a uma tragédia.

 

Por incrível que pareça, "Um dia de fúria" foge com louvor dos clichês que são parte obrigatória dos dramas policiais americanos. Até mesmo a visão estereotipada que o roteiro apresenta das minorias retratadas serve como uma espécie de ironia e crítica ácida à maneira como a maioria dos americanos enxerga os estrangeiros. E tudo bem que o oficial em vias de se aposentar vivido com maestria por Robert Duvall não é uma personagem exatamente original, mas as razões que levam seu Prendergast à aposentadoria e a maneira com que ele age em relação a seu trabalho e seus colegas é distante anos-luz dos tradicionais policiais engraçadinhos e/ou valentões que infestam o gênero. Nem mesmo o final, em que D-Fens finalmente cria um nome civil - William Foster - e tenta fugir de seu destino infeliz, consegue estragar "Um dia de fúria", que toca com contundência em feridas bem abertas na consciência americana e por que não?, mundial.

Não há como negar que minorias existem em qualquer lugar do mundo - e o filme possa soar um tanto fascista e preconceituoso. Mas Joel Schumacher faz com que, após os créditos finais, muita coisa permaneça na cabeça do público. Quem diria!

sexta-feira

VEM DANÇAR COMIGO

VEM DANÇAR COMIGO (Strictly ballroom, 1992, Miramax Films, 94min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce. Fotografia: Steve Mason. Montagem: Jill Bilcock. Música: David Hirschfelder. Figurino: Angus Strathie. Direção de arte/cenários: Catherine Martin, Martin Brown. Casting: Faith Martin, Fiona McConaghy. Produção executiva: Antoinette Albert. Produção: Tristam Miall. Elenco: Paul Mercurio, Tara Morice, Bill Hunter, Pat Thomson. Estreia: 20/8/92

Uma frase repetida constantemente em "Vem dançar comigo" é "Viver com medo é viver pela metade!". A julgar pelo resultado final de seu primeiro longa-metragem, o diretor australiano Baz Luhrmann leva o ditado ao pé da letra. Poucas vezes se viu uma obra tão exagerada em todos os sentidos, desde o visual até a interpretação do elenco, passando por uma trilha sonora que mistura sem pudor música clássica, canções pop e ritmos latinos. O que é mais estranho, no entanto, é que essa mistura toda, ao invés de resultar num samba do crioulo doido, deu muito certo. Despretensioso, alegre e contagiante, "Vem dançar comigo" é um dos mais criativos musicais de sua época, e muito de sua qualidade vem justamente dessa diversidade toda.

Ao contar a velha história do patinho feio, dessa vez tendo como cenário o mundo da dança de salão, Luhrmann abraça com carinho e coragem todos os clichês possíveis e imagináveis, sem medo de ser cafona e redundante. A trama centra-se em Scott Hastings (o dançarino até então desconhecido Paul Mercurio), um jovem que sonha tornar-se campeão do Festival Pan-pacífico de Dança de Salão. Talentoso ele é, mas teimoso também: para desespero de sua mãe (a deliciosamente over Pat Thompson, que morreu antes da estreia do filme), ele insiste em utilizar, durante os concursos, passos inovadores e que fogem das tradições da austera Academia de Dança. Sem parceira para acompanhá-lo no concurso que se aproxima - todas fogem de sua criatividade exarcebada - ele acaba aceitando treinar a novata e feiosa Fran (a também novata e feiosa Tara Morice) e, juntos, o ídolo da escola de dança e a tímida descendente de uma família latina aparentemente rígida mas convenientemente apaixonada por música tentam romper a barreira do preconceito e surpresa... se apaixonam!



Desde as primeiras cenas nota-se que "Vem dançar comigo" irá subverter as regras que carinhosamente apresenta. Com uma fotografia inteligente de Steve Mason, que valoriza as cores quentes da cenografia e dos figurinos, ambos de uma estética kitsch de causar orgulho a Pedro Almodovar, o filme foge do lugar-comum ao evitar paisagens do entardecer e bobagens românticas afins. Os clichês utilizados por Luhrmann ficam por conta do roteiro melodramático e com reviravoltas dignas de novelas mexicanas, com suas personagens maniqueístas e com o esperado final feliz, onde todos se confraternizam em um clímax alto-astral, inclusive os vilões (que, diga-se de passagem, se regeneram como em todo bom e absurdo filme romântico).

Bem-humorado sem ser pateta, romântico sem ser meloso e repleto de clichês mas construído sem levar-se muito a sério, "Vem dançar comigo" ainda conta com uma trilha sonora costurada exemplarmente pelo diretor (que refinaria a receita até o magnífico "Moulin Rouge", oito anos mais tarde): ao lado de "Carmen", de Bizet, pode-se ouvir "Quizás, quizás, quizás" entoada por Doris Day, "Time after time", clássico de Cyndi Lauper em nova gravação e até mesmo a encantadora "Love is in the air" na voz do então sumido John Paul Young. A trama pode até não ser exatamente surpreendente, mas a criatividade do filme de Baz Luhrmann reside majestosa em seu visual e na sua coragem de assumir seu lado brega.

quinta-feira

SOMMERSBY, O RETORNO DE UM ESTRANHO

SOMMERSBY, O RETORNO DE UM ESTRANHO (Sommersby, 1993, Warner Bros, 114min) Direção: Jon Amiel. Roteiro: Nicholas Meyer, Sarah Kernochan, história de Nicholas Meyer, Anthony Shaffer, roteiro original "The return of Martin Guerre", de Jean-Claude Carrière, Daniel Vigne. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Peter Boyle. Música: Danny Elfman. Figurino: Marilyn Vance-Straker. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Michael Seirton. Casting: Billy Hopkins, Suzanne Smith. Produção executiva: Richard Gere, Maggie Wilde. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther. Elenco: Jodie Foster, Richard Gere, Bill Pullman, R. Lee Ermey, James Earl Jones. Estreia: 05/02/93

Jodie Foster em um filme romântico pode soar estranho, mas é justamente essa escalação ousada de elenco que faz com que "Sommersby, o retorno de um estranho" sobressaia em meio a tantas histórias de amor lançadas anualmente nas telas de cinema. Refilmagem do francês "O retorno de Martin Guerre", estrelado por Gérard Depardieu, o filme do diretor Jon Amiel tem na presença sempre magnética de Foster (em seu primeiro trabalho pós-Oscar por "O silêncio dos inocentes") seu principal trunfo e, para sorte do público, nem mesmo o normalmente apático Richard Gere (que aqui também é produtor executivo) consegue atrapalhar.


Nesta versão americana, Foster vive Laurel Sommersby, uma mulher forte (como todas as personagens da carreira da atriz) que, logo depois da Guerra de Secessão, luta para manter sua casa e seu filho pequeno. Cortejada por um vizinho (Bill Pullman antes de ser catapultado ao estrelato em "Independence Day"), ela é a pessoa que mais fica surpresa quando reencontra seu marido Jack (Richard Gere), que era dado como morto em uma batalha e reaparece, com desejo de retomar o que é seu. A maior surpresa de Laurel, no entanto, não é a volta do marido e sim sua radical transformação. De grosseiro, rude e mau-caráter, Jack tornou-se romântico, gentil e, mais do que tudo, um homem disposto a tirar a fazenda do vermelho e reconstruí-la. Não demora muito e Laurel cai de amores pelo marido que costumava espancá-la e concebeu seu filho praticamente em um estupro. Ao mesmo tempo, porém, ela tem a certeza quase absoluta de que há algo de errado com ele.



Suas dúvidas começam a ficar maiores quando Jack é acusado de assassinato e surge a possibilidade de que ele na verdade seja um impostor. Laurel fica então divida se quer que o homem por quem está apaixonada diga a verdade e vá preso por falsidade ideológica ou se prefere que ele mantenha sua palavra e possa ser condenado à morte. E é justamente essa dúvida que leva “Sommersby” pra frente. A partir do momento em que a identidade do homem que passa a dividir a cama e a vida com Laurel é posta em questionamento, o filme esquenta e dá espaço para o brilho da atuação de Jodie Foster. E que atuação! Provando – mais uma vez – que é uma das melhores atrizes de sua geração, ela rouba o filme todo pra si, mal deixando espaço para seus coadjuvantes – que incluem o sempre eficaz R. Lee Ermey.

"Sommersby" não é o melhor filme da carreira vitoriosa de Foster, mas é um de seus trabalhos mais maduros e, sem dúvida, o mais romântico e sensual. Seu talento é tão especial que ajuda até mesmo Richard Gere a não estar tão mal.  Somado ao fato de ter um final surpreendente e que foge aos clichês do gênero, é um fato que o recomenda sem maiores medos.

quarta-feira

O ÓLEO DE LORENZO

O ÓLEO DE LORENZO (Lorenzo's oil, 1992, Universal Pictures, 129min) Direção George Miller. Roteiro: George Miller, Nick Enright. Fotografia: John Seale. Montagem: Marcus D'Arcy, Richard Francis-Bruce. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Casting: Canice Kennedy, John S. Lyons. Produção executiva: Arnold Burk. Produção: George Miller, Doug Mitchell. Elenco: Nick Nolte, Susan Sarandon, Peter Ustinov, Zach O'Malley, Laura Linney, James Rebhorn. Estreia: 30/12/92

2 indicações ao Oscar: Atriz (Susan Sarandon), Roteiro Original

Se o filme "O campeão" (1979), de Franco Zefirelli, era o pesadelo de qualquer criança, pode-se considerar este "O óleo de Lorenzo" como o mais aterrador sonho de quaisquer pais. Baseado em uma história real, o filme de George Miller - que apesar do background inusitado que inclui "Mad Max" e "As bruxas de Eastwick" é formado em Medicina - versa sobre o  mais profundo medo que uma mãe ou um pai possa ter em relação aos filhos: uma doença rara e incurável.

É justamente uma doença rara e incurável - adrenoleucodistrofia, uma doença degenerativa que mata os pacientes (sempre meninos antes da adolescência) poucos anos após seu diagnóstico - que ataca o pequeno Lorenzo Odone (o impressionante Zack O'Malley Greenburg) aos cinco anos de idade. Filho único da dona-de-casa Michaela (Susan Sarandon) e caçula do professor Augusto (Nick Nolte), ele torna-se agressivo repentinamente e, aos poucos, começa a perder o controle sobre os membros e a capacidade de comunicar-se verbalmente. Desesperados com a falta de conhecimento a respeito do mal que está destruindo o menino, o casal resolve investigar por conta própria e tentar encontrar uma maneira de deter o avanço da enfermidade. Desencorajado por outros pais que lideram uma associação, eles contam com a ajuda de um dedicado médico (Peter Ustinov) para atingir seu objetivo e impedir a morte de Lorenzo.

George Miller não poupa o espectador em sua jornada médico-familiar. Escorado em uma atuação quase miraculosa de Susan Sarandon, "O óleo de Lorenzo" não tenta fugir do dramalhão inerente à sua história: é um filme pesado, triste, sofrido, mas ao mesmo tempo é um conto repleto de esperança, amor e tenacidade. A batalha do casal Odone pela cura inexistente para a doença do filho é narrada de forma clássica pelo cineasta, que utiliza a trilha sonora barroco/religiosa para sublinhar os momentos de maior dramaticidade - um pequeno exagero que não chega a atrapalhar sua paixão pela história. Editado de forma ágil, com cenas curtas mas eficientes, o calvário de Lorenzo conquista a plateia devido principalmente à sua honestidade e extremo senso humano. Tudo coroado por uma Susan Sarandon que mereceria ter ganho o Oscar para o qual foi indicada - ela perdeu para Emma Thompson, em "Retorno a Howards End".



Com total entrega à sua personagem, Sarandon criou uma "mater dolorosa" como poucas vezes se viu no cinema americano nos anos 90, onde imperou o cinismo e a violência exarcebada. Seu estoicismo e sua coragem em encarar de frente uma situação desesperadora seguram o filme no limite do tolerável - afinal de contas, testemunhar um sofrimento como o de Lorenzo (interpretado com surpreendente talento pelo pequeno Zack O'Malley Greenburg) não é programa dos mais palatáveis. E sua performance memorável torna-se ainda mais fantástica quando comparada ao trabalho quase caricato de seu parceiro de cena: como o italiano Augusto Odone, Nick Nolte força a barra em inúmeros momentos, fazendo de sua trágica personagem um quase pastiche: um sotaque equivocado é o um dos defeitos de sua interpretação quase risível. Um ator mais sutil ao lado de Sarandon com certeza faria de "O óleo de Lorenzo" um filme ainda melhor.

Mesmo que não possa ser considerado jamais como um entretenimento agradável ou alto-astral, "O óleo de Lorenzo" é uma ode ao amor paterno e um elogio consagrador à esperança.

terça-feira

CHAPLIN

CHAPLIN (Chaplin, 1992, Carolco Pictures, 143min) Direção: Richard Attenborough. Roteiro: William Boyd, Bryan Forbes, William Goldman, história de Diana Hawkins, livros "Chaplin: his life and art", de David Robinson e "My autobiography", de Charles Chaplin. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Anne V. Coates. Música: John Barry, José Padilla. Figurino: Ellen Mirojnick, John Mollo. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Norman Dorme. Casting: Mike Fenton, Susie Figgis, Valorie Massalas. Produção: Richard Attenborough, Mario Kassar. Elenco: Robert Downey Jr., Geraldine Chaplin, Anthony Hopkins, Moira Kelly, Dan Aykroyd, Marisa Tomei, Penelope Ann Miller, Kevin Kline, Maria Pitillo, Milla Jovovich, Diane Lane, Nancy Travis, James Woods. Estreia: 25/12/92

3 indicações ao Oscar: Ator (Robert Downey Jr.), Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários

Que Charles Chaplin foi um dos maiores gênios da história da humanidade é impossível discordar. Diretor e intérprete de clássicos absolutos como "O garoto", "Luzes da cidade" e "O grande ditador" - apenas para citar alguns de inúmeros títulos sensacionais - o ator inglês é uma das figuras mais reconhecidas da sétima arte, principalmente através de Carlitos, o vagabundo criado por ele e protagonista de muitos de seus filmes. Como a personagem foi criada, como algumas ideias para suas obras surgiram e principalmente como ele foi injustamente expulso dos EUA, acusado de ser simpatizante do comunismo, no entanto, não é material tão conhecido assim. Por isso, o cineasta Richard Attenborough resolveu que era hora de homenagear um de seus maiores ídolos com uma cinebiografia e lançou "Chaplin" no 15º aniversário de sua morte. Porém, ao contrário de sua obra mais famosa  -"Gandhi" - seu filme não apenas ficou aquém do esperado em termos de crítica, mas bombou feio nas bilheterias.

O papel principal de "Chaplin" ficou com o americano Robert Downey Jr., antes que seus problemas com drogas o tirasse das páginas de entretenimento e o colocasse na seção policial. Em uma atuação impressionante, Downey mostra que é, sim, um extraordinário ator, tirando leite de pedra de um roteiro capenga - inspirado em duas biografias do artista - que não ilustra a contento nem a carreira nem a vida pessoal de Charlie. Narrado em flashback, uma vez que a história é contada pelo diretor a um biógrafo (Anthony Hopkins), "Chaplin" começa mostrando a infância miserável do protagonista, que, abandonado pelo pai, substituiu a mãe com problemas mentais (Geraldine Chaplin interpretando sua avó) em um show de vaudeville e conheceu o gosto do sucesso. Contratado para fazer filmes em Hollywood - em saltos temporais que mais prejudicam do que ajudam na compreensão do todo - ele chega à conclusão que precisa de controle total sobre sua obra, entrando em rota de colisão com o então todo poderoso Mack Sennet (Dan Aykroyd) e a cineasta Mabel Normand (Marisa Tomei). De posse de seu talento e de sua fama, ele galga rapidamente os degraus do sucesso, emendando um sucesso atrás do outro. No entanto, sua predileção por mulheres mais jovens - e às vezes menores de idade - e o fato de ter comprado briga com o criador do FBI, J.Edgar Hoover (Kevin Dunn) os leva a ter sérios problemas com a justiça americana, culminando com sua expulsão do país.



"Chaplin" poderia ter sido contado com dois enfoques diferentes e bastante interessantes: Attenborough (que demonstrou um pouco de preguiça na direção) poderia ter explorado os bastidores da Hollywood do início do século XX, com suas brigas por poder, suas fofocas, seu glamour e a construção do cinema mais popular do biografado. Ou poderia ter optado por narrar as aventuras amorosas e sexuais de Chaplin e suas eventuais complicações - o relacionamento com a perturbada Joan Barry (Nancy Travis), o casamento feliz com Paulette Godard (Diane Lane) e a felicidade ao lado de Oona O'Neil (Moira Kelly), por exemplo. Ao tentar reunir tanta informação em um filme de duração comercial - menos de 2 horas e meia - o roteiro impede o espectador de ter um contato mais profundo com qualquer personagem e situação. Fica-se, então, privado do ótimo trabalho de Kevin Kline como Douglas Fairbanks Jr. ou de Diane Lane como Paulette Goddard - sem falar que a simpatia de Chaplin em relação ao povo judeu (e sua subsequente fama de "comunista") tem muita origem em seu casamento com ela. Logicamente seria impossível dentro dos limites do tempo equilibrar tudo que precisa ser contado, mas um pouco de foco não faria mal nenhum e ainda ajudaria na contemplação dos destaques da produção, essa sim, digna de nota.

Não foi à toa que "Chaplin" foi indicado ao Oscar de direção de arte. É visível o capricho na reconstituição da época mostrada no filme, assim como o figurino e a maquiagem. É fascinante a maneira com que Attenborough revela ao público alguns segredos de como eram realizados os filmes nos anos 10 e 20, bem como apresenta de maneira simpática a origem das ideias de Chaplin para resolver - de forma barata e eficiente - seus problemas criativos. Mas nem mesmo esse cuidado todo e a bela e delicada trilha sonora de John Barry - também indicada ao Oscar - não impedem que seja percebido o óbvio: "Chaplin" deve tudo o que é à interpretação arrebatadora de Robert Downey Jr.

Indicado ao Oscar por seu trabalho, Downey entrega uma atuação quase mediúnica. Ele desaparece dentro da personagem, fazendo com que o público esqueça que ali está um ator na pele de uma personalidade real. Para a audiência, Downey e Chaplin são a mesma pessoa, ao menos durante a duração do filme. É uma pena que ele tenha que arrancar essa atuação de dentro de si sem um roteiro que lhe faça jus. É de se imaginar o quão sensacional ele teria sido se tivesse uma base melhor!!!

O VIRGEM DE 40 ANOS

  O VIRGEM DE 40 ANOS (The 40 year old virgin, 2005, 116min) Direção: Judd Apatow. Roteiro: Judd Apatow, Steve Carell. Fotografia: Jack N....