domingo

FAMA


FAMA (Fame, 1980, MGM Pictures, 134min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Christopher Gore. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Michael Gore. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirland/George DeTitta. Casting: Howard Feuer, Jeremy Ritzer. Produção: David De Silva, Alan Marshall. Elenco: Irene Cara, Eddie Barth, Lee Curreri, Laura Dean, Antonia Franceschi, Paul McCrane. Estreia: 16/5/80

6 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Fame", "Out here on my own"), Som
Vencedor de 2 Oscar: Trilha Sonora Original, Canção ("Fame")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("Fame")


A High School for the Performing Arts, em Nova York, é uma das mais prestigiadas escolas de arte dos EUA. E é também o cenário desse musical energético, forte e empolgante do diretor inglês Alan Parker, que aqui deixa de lado o tom depressivo de seu bem-sucedido “Expresso da meia-noite” para embarcar no sonho de um punhado de jovens em busca da fama do título.

O roteiro, escrito por Christopher Gore, cujo irmão Michael compôs a dançante trilha sonora, que inclui a vencedora do Oscar “Fame”, concentra-se em meia dúzia de estudantes, que, a despeito de seu talento, enfrentam sérios problemas pessoais no caminho rumo ao estrelato. A ambiciosa cantora Coco (Irene Cara, que canta a música-tema do filme) sonha em ver seu nome nas marquises, mas acaba descobrindo da pior maneira possível que não é somente uma bela voz que basta para se ter sucesso; o jovem Montgomery (Paul McCrane) quer ser ator, mas tem primeiro que aceitar sua homossexualidade, descoberta quando se apaixonou pelo tearapeuta; a judia Doris (Maureen Teefy) precisa superar sua quase dependência da mãe superprotetora, o que começa a acontecer quando se envolve com o aspirante a humorista Ralph (Barry Miller), que tenta esconder sua origem paupérrima sob uma constante chuva de piadas. Para finalizar o grupo de estudantes está a milionária que sonha em ser bailarina (Laura Dean) e se apaixona por um dançarino negro, o rebelde Leroy (Gene Anthony Ray) e o descendente de italianos Bruno Martelli (Lee Curreri), que luta para ser músico mesmo sendo fã de sintetizadores musicais.


Mesmo sem conseguir fugir de alguns clichês, o filme de Parker tem a seu favor a edição ágil de Gerry Hambling, seu habitual colaborador, que divide a ação em tempos quase iguais a seus sonhadores personagens, defendidos por atores amadores. Se por um lado o filme ganha por isso, com um frescor e um realismo raros, perde pela inexperiência de seus intérpretes, nem todos com o carisma e/ou a competência necessários para acompanhar as idas e vindas do roteiro. Sorte que Alan Parker é um diretor de primeira grandeza, que tira leite de pedra em muitos momentos.

Mesmo quando o clima pesa, no terço final da obra, o diretor consegue driblar a lágrima fácil, mantendo sua câmera tão distante quanto uma observadora passiva dos dramas que se desenrolam a sua frente. Até mesmo os números musicais fogem do marasmo, imprimindo ao filme uma marca bastante interessante: longe de ser um musical enfadonho, com personagens cantando 90% do tempo, “Fama” é um filho bastardo do gênero, utilizando as ótimas canções de Michael Gore como comentários da ação e não parte integrante dela.

Ainda que se estenda um pouco demais em seu final, “Fama” é o filme certo na hora certa e provavelmente é um dos musicais essenciais de seu tempo.

sábado

MUITO ALÉM DO JARDIM


MUITO ALÉM DO JARDIM (Being there, 1979, United Artists, 130min) Direção: Hal Ashby. Roteiro: Jerzy Kosinski, romance de sua autoria. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Don Zimmerman. Música: Johnny Mandel. Figurino: May Routh. Direção de arte/cenários: James Schoppe/Robert Benton. Casting: Lynn Stalmaster. Produção executiva: Jack Schwartzman. Produção: Andrew Braunsberg. Elenco: Peter Sellers, Shirley MacLaine, Melvyn Douglas, Jack Warden, Richard Dysart. Estreia: 19/12/79

2 indicações ao Oscar: Ator (Peter Sellers), Ator Coadjuvante (Melvyn Douglas)
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Melvyn Douglas)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator/Comédia ou Musical (Peter Sellers), Coadjuvante (Melvyn Douglas)


Considerado por muitos como um dos maiores gênios do humor no cinema, o inglês Peter Sellers passava por uma fase difícil de sua carreira nos anos 70. Depois de muito sucesso com a série de filmes da "Pantera cor-de-rosa" (iniciada em 1964 e retomada com sucesso em 1975, 76 e 78) ele demorou anos para convencer um estúdio a realizar um de seus projetos de estimação, a adaptação para o cinema do romance "Being there", de Jerzy Kosinski. Foi apenas com sua ressurreição comercial (com o filme "A vingança da pantera cor-de-rosa") que ele finalmente conseguiu tirar do papel a melancólica e quase surreal história de um jardineiro tido como gênio. Elogiado unaninemente pela crítica, o filme do autoral Hal Ashby acabou tornando-se um dos últimos trabalhos do genial ator, que morreu menos de um ano depois da estreia do filme nos cinemas americanos. Seu canto do cisne lhe deu uma última e merecida indicação ao Oscar de melhor ator.

Em uma inspirada e cuidadosa atuação, Sellers vive, em "Muito além do jardim" , uma das personagens mais sensíveis de sua carreira. Chance é um jardineiro quase obtuso, um homem que vive cercado de suas plantas e de seu aparelho de televisão, as duas paixões de sua vida. Chance não sabe ler, nem escrever nem manter uma conversa mais articulada, além de não ter nenhum registro oficial e não tem a menor noção de uma existência fora da mansão onde foi criado. Quando seu patrão morre, ele se vê, inesperadamente, frente a um universo absolutamente novo e com o qual não tem a menor noção de como lidar. Por obra do acaso, ele é atropelado pela limousine de Eve Rand (Shirley MacLaine), a esposa de um industrial milionário que está às portas da morte. Levado para o casarão onde o casal mora, servido por inúmeros empregados, ele conquista a todos com seu jeito calado e discreto. Suas frases - todas tiradas de programas de TV - e até mesmo seu silêncio constrangido são tidos como geniais tanto por Eve e seu marido Benjamin (Melvyn Douglas) quanto pelo próprio presidente dos EUA (Jack Warden), amigo da família. Aos poucos, Chance começa a influenciar a todos a sua volta, inclusive despertando a paixão de uma carente Eve.


"Muito além do jardim" é uma espécie de precursor de "Forrest Gump", uma vez que assim como no filme de Robert Zemeckis, o protagonista é um homem de QI abaixo do normal que consegue atingir um nível de sucesso inesperado. Ao contrário da obra estrelada por Tom Hanks, no entanto, o humor do filme de Ashby é muito menos óbvio, menos popular, digamos assim. Ao optar por um estilo mais sóbrio de fazer comédia, o roteiro escrito pelo mesmo autor do romance que o originou, Jerzy Kosinski, foge das gargalhadas e percorre um caminho mais denso e crítico. Simbólico ao extremo, é um trabalho tão rico em possibilidades de compreensão que dificilmente estaria em uma lista das maiores bilheterias da história. Quem se dispuser a assistí-lo, no entanto, pode ter uma grata surpresa.

Não é preciso dizer que o ritmo imposto por Ashby à sua narrativa é menos ágil do que se espera de uma comédia. Devagar e sem impor ao público uma edição veloz, ele dá a exata noção do comportamento de seu protagonista, um homem preso a um mundo particular, com seus próprios interesses e que é totalmente alheio ao que se passa a seu redor. Ironia é a palavra que melhor define o humor de "Muito além do jardim", que critica de forma não muito velada a mediocridade americana (e por que não mundial?) quando o assunto é escolher seus gurus e/ou ídolos. Buscando inspiração em "O idiota", de Dostoievsky, o filme final de Peter Sellers é uma espécie de alerta contra o conformismo, mas realizado de forma elegante e altamente simbólica.

"Muito além do jardim" não é um filme que seja citado corriqueiramente nas listas dos melhores, nem da crítica (que o elogiou muito em seu lançamento) e tampouco do público, que praticamente o relegou a um quase esquecimento. Mas tem uma inteligência e uma sutilezas raras, além de ser um belo testamento legado por um dos grandes atores de sua geração.

sexta-feira

KRAMER X KRAMER


KRAMER X KRAMER (Kramer vs Kramer, 1979, Columbia Pictures, 105min) Direção: Robert Benton. Roteiro: Robert Benton, romance de Avery Corman. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Gerald B. Greenberg. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Paul Sylbert/Alan Hicks. Casting: Shirley Rich. Produção: Stanley R. Jaffe. Elenco: Dustin Hoffman, Meryl Streep, Justin Henry, Jane Alexander, Jobeth Williams, Howard Duff, George Coe. Estreia: 19/12/79

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Benton), Ator (Dustin Hoffman), Ator Coadjuvante (Justin Henry), Atriz Coadjuvante (Jane Alexander, Meryl Streep), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Benton), Ator (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Golden Globes: Filme/Drama, Ator/Drama (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro


Não é difícil de entender os motivos que levaram “Kramer X Kramer” a ser o grande vencedor do Oscar 79, disputando o prêmio com filmes marcantes e inovadores, como “Apocalypse now”, de Francis Ford Coppola. Bonito mas esquemático e quadradão ao extremo, o melodrama de Robert Benton apela para o que o moralista público americano mais procura em um entretenimento familiar: valores elevados, personagens com os quais possa se identificar e, mais ainda, um final de levar às lágrimas. E daí se “Apocalypse now” é considerado uma obra-prima sufocante e criativa se “Kramer X Kramer” emociona e faz uma análise do momento social do mundo ocidental?

Análise social, sim. Ainda que timidamente, o filme, inspirado no romance homônimo de Avery Corman investiga e mostra como os valores familiares estavam mudando na América, onde o imediatismo e a busca pela satisfação pessoal estavam em vias de tornar-se moeda corrente. O filme ousa criticar esse desejo desenfreado pelo sucesso na figura de Joanna Kramer (uma espetacular Meryl Streep, merecidamente premiada com o Oscar de atriz coadjuvante), uma dona de casa dedicada que, em um impulso irrefreável, resolve abandonar o marido e o filho pequeno para partir em busca de realização profissional. Sua saída de cena deixa o seu atônito ex-cônjuge Ted (Dustin Hoffman, perfeito em sua caracterização de homem comum, bem longe do Ratzo de “Perdidos na noite”) em maus lençóis. Acostumado a encontrar seu pequeno filho Billy (Justin Henry) apenas na hora de acordar e dormir, ele de repente se vê com a obrigação de transformar-se em pai e mãe em tempo quase integral, justamente quando está atingindo um ponto crucial em sua carreira em publicidade. Lidar com o sentimento de abandono, seu e do pequeno garoto de oito anos, trabalhar com dedicação, cuidar dos deveres de casa e afins parecem não ser o que o pobre Ted esperava. Mas ele precisa ir adiante e conquistar a confiança do filho, dos amigos e dos chefes, além de se envolver romanticamente com uma colega de trabalho. E não é que justamente quando ele encontra um equilíbrio nessa difícil equação ele é surpreendido com a volta de Joanna? Feliz e satisfeita com sua nova vida, a vilã da vez quer a guarda do menino de volta.


A estrutura de “Kramer X Kramer” chega a ser simplória. Depois de sofrer com as tentativas de aproximar-se do seu pequeno rebento, o antes egoísta e auto-centrado Ted, que considerava papel de pai apenas suprir a família, transformou-se em um homem maduro, preocupado com a educação da criança e entrando em pânico com seus acidentes infantis. Sua ex-mulher, apesar de o roteiro tentar explicar suas razões, surge quase que como a destruidora da felicidade de pai e filho, duas vezes, na separação e no regresso. E o final, quase clichê, faz o público chorar e se perguntar se o mais importante é a família ou o trabalho. Mais Academia de Hollywood impossível.

Quando assumiu o papel de Ted Kramer, depois que James Caan pulou fora do projeto, Dustin Hoffman também estava passando por um doloroso e sofrido divórcio (e não o são todos?) e ajudou tanto o roteirista e diretor Robert Benton no processo de filmagens que chegou-se a cogitar sua inclusão nos créditos como co-roteirista. Muitas de suas cenas com Justin Henry (em uma atuação enternecedora) foram improvisadas, o que explica a química perfeita entre os dois. E Meryl Streep... bem, Meryl Streep é um caso a parte.

Assumindo um papel que originalmente não seria dela (a pantera Kate Jackson interpretaria Joanna Kramer, mas não pode livrar-se dos compromissos da tevê), Streep demonstra a segurança e o carisma de uma veterana. Escalada para fazer o pequeno papel da colega de trabalho com quem Ted tem uma aventura (e que foi interpretada por Jobeth Williams), ela dividiu seu tempo entre o filme de Benton e "Manhattan", de Woody Allen, onde interpretava sua ex-mulher lésbica. Inteligente e sensível, escreveu boa parte do discurso de sua personagem no tribunal, conquistou as plateias e levou o Oscar. O resto é história.

Para fugir da esfera trivial de dramas familiares, “Kramer X Kramer” conta com algo que faz toda a diferença: sua equipe. A fotografia do experiente Nestor Almendros mostra uma Nova York fotogênica e melancólica, exatamente como os sentimentos de Ted. O roteiro, escrito pelo próprio diretor, se equilibra entre o clichê e um surpreendente bom humor, com diálogos felizes e inteligentes, nunca rasos ou desnecessários. E o elenco cumpre sua parte com louvor. Dustin Hoffman e Meryl Streep levaram merecidos Oscar pra casa e o garoto Justin Henry demonstra uma segurança ímpar, mesmo contracenando com gente do calibre de Hoffman e Streep. Pode ser sentimental e piegas, mas “Kramer X Kramer” é um perfeito filme para assistir com a família e derramar algumas tímidas lágrimas. É pouco provável que o mesmo pudesse ser dito de “Apocalypse now”.

quinta-feira

A ROSA


A ROSA (The rose, 1979, 20th Century Fox, 125min) Direção: Mark Rydell. Roteiro: Bo Goldman, Bill Kerby, história de Bill Kerby. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: C. Timothy O'Meara, Robert L. Wolfe. Música: Paul A. Rotchild. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Richard Macdonald/Bruce Weintraub. Casting: Lynn Stalmaster. Produção executiva: Tony Ray. Produção: Aaron Russo, Marvin Worth. Elenco: Bette Midler, Alan Bates, Frederic Forrest, Harry Dean Stanton. Estreia: 07/11/79

4 indicações ao Oscar: Atriz (Bette Midler), Ator Coadjuvante (Frederic Forrest), Montagem, Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Bette Midler), Canção ("The rose"), Estreia Feminina (Bette Midler)


Antes de consagrar-se nos anos 80 como humorista, em comédias como "Por favor, matem minha mulher" e "Cuidado com as gêmeas", Bette Midler foi levada muito a sério como intérprete dramática. Por sua atuação no drama musical "A rosa" ela recebeu um Golden Globe e foi indicada pela primeira vez ao Oscar de melhor atriz. Dirigida pelo mesmo Mark Rydell que em 1991 comandaria o fracasso de bilheteria "Para eles, com muito amor" - que lhe deu sua segunda indicação ao prêmio da Academia - "A rosa" é uma versão romanceada e bem disfarçada da vida da cantora Janis Joplin - ou pelo menos era pra ser assim na primeira versão do roteiro.

Quando Midler foi convidada para protagonizar o filme - uma condição imposta por Rydell - a trama ainda se chamava "The pearl" e era bastante baseada na vida desregrada e na morte de Joplin (falecida em 1970 de overdose de heroína). Acreditando que ainda era muito cedo para que a cantora tivesse um filme inspirado em sua vida, a atriz (ainda desconhecida do grande público e que cantava em bares) insistiu em que o roteiro fosse mudado. Aos poucos, a trama de "The pearl" transformou-se em "A rosa" e marcou o início do sucesso de Bette Midler em Hollywood.

Ela vive Mary Rose Foster, também conhecida como "a rosa", uma cantora de rock que não sabe lidar com o sucesso que faz. Explorada pelo empresário (Alan Bates), viciada em barbitúricos e carente ao extremo, ela tem como maior orgulho de sua vida ter saído da pequena cidade onde nasceu - e onde pretende encerrar a maior turné de sua carreira. Auto-destrutiva, agressiva e emocionalmente instável, ela vê a chance de voltar a ser feliz quando conhece o jovem Huston Dyer (Frederic Forrest), mas a sua própria personalidade bipolar ameaça afastá-la dele.


Apesar de não apresentar novidades ao gênero "biografia musical" (ainda que fictícia), o roteiro de "A rosa" tampouco deixa de oferecer o que se espera de um filme com suas pretensões. Os números musicais são extremamente eficientes (cortesia de uma inspirada fotografia de Vilmos Zsigmond) e os dramas existencias de sua protagonista, ainda que soem verossímeis, nunca chegam a incomodar o público médio - leia-se "nada de exageros nas cenas de uso de drogas nem muito menos na linguagem e nas cenas de sexo". Não deixa de ser um paradoxo um filme sobre uma roqueira que tenta fugir dos padrões seja tão quadrado, mas toda e qualquer frustração a respeito de sua censura quase livre fica bem menor ao testemunhar-se a performance de Midler.

Na pele da protagonista absoluta de "A rosa", Bette Midler justifica plenamente os prêmios que abocanhou na temporada 1979. Sua entrega à complexa personalidade de Rose é a melhor e mais arrebatadora surpresa do filme de Rydell. Tanto nas cenas mais dramáticas quanto nas performances musicais, Midler extravasa um talento inquestionável e seduz a audiência com um trabalho fabuloso que apenas comprova o seu talento hoje em dia relegado a um quase anonimato. Coisas de Hollywood!

quarta-feira

APOCALYPSE NOW


APOCALYPSE NOW (Apocalypse now, 1979, United Artists/Miramax, 202min) Direção e produção: Francis Ford Coppola. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Lisa Fruchtman, Gerald B. Greenberg, Walter Murch. Música: Carmine Coppola e Francis Ford Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George R. Nelson. Casting: Terry Liebling, Vic Ramos. Elenco: Marlon Brando, Martin Sheen, Robert Duvall, Dennis Hopper, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Harrison Ford. Estreia: 10/5/79

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de arte, Som
Vencedor de 2 Oscar: Fotografia, Som
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes: Melhor Filme
Vencedor de 3 Golden Globes: Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Trilha Sonora


Alguns filmes tem bastidores tão ou mais interessantes do que o produto que chega às telas dos cinemas. Um exemplo óbvio dessa afirmação é "Apocalypse now", que, lançado no festival de Cannes de 1979 tornou-se o primeiro - e até hoje único - filme a abocanhar a Palma de Ouro sem estar terminado. E se for levado em consideração que as filmagens começaram em 1976 nas Filipinas e que foram mais turbulentas que a própria guerra do Vietnã que retrata, percebe-se claramente que a adaptação livre de Francis Ford Coppola do livro "O coração das trevas", de Joseph Conrad é uma das mais problemáticas que se tem notícia. O inferno, no entanto, nesse caso, levou ao paraíso. Eleito em 2007 pelo American Film Institute como o 30º melhor filme da história, além de frequentar com assiduidade as listas dos melhores de qualquer instituição especializada em cinema, "Apocalypse now" é um dos filmes mais importantes realizados em Hollywood, e uma prova do poder de fogo de seu diretor.

Cheio de moral graças ao sucesso merecido dos dois primeiros capítulos da série "O poderoso chefão", Coppola viajou para as Filipinas - mesmo indo contra os conselhos de Roger Corman - para transformar a África do livro de Conrad no Vietnã, cuja guerra estava recém acabada e ainda dolorosamente na vida dos americanos. Seu plano era passar seis semanas filmando. Acabou passando 16 meses de crises pessoais, atrasos no cronograma, estouro de orçamento, imprevistos técnicos e artísticos e principalmente graves problemas de saúde - o ator principal, Martin Sheen, chegou a ter um enfarte (aos 36 anos), devidamente escondido dos executivos que produziam o filme. A epopeia de Coppola em realizar seu filme acabou devidamente registrado por sua esposa, Eleanor, que em 1991 lançou o documentário "O apocalipse de um cineasta", um precioso retrato de uma das mais complicadas filmagens da história do cinema.


Antes que Coppola assumisse o posto de diretor, "Apocalypse now" correu o sério risco de ser assinado por um George Lucas pré-"Star Wars", até que a demora em sua produção acabou empurrando o filme para seu colo. A demora em encontrar um protagonista - Steve McQueen, Al Pacino, Jeff Bridges e um entusiasmado Nick Nolte foram cogitados - seria o menor dos problemas que Coppola iria enfrentar. Mesmo com a saída de Harvey Keitel (substituído por Martin Sheen), as coisas não davam a impressão de que iriam transformar-se no rolo compressor que se tornaram; Sam Bottoms fez a maioria de suas cenas chapado (de speed, LSD ou maconha), Laurence Fishburne mentiu a idade para entrar no elenco(tinha apenas 14 anos), James Caan cobrou demais para participar (um jovem Harrison Ford assumiu seu papel) e Marlon Brando, escalado para o crucial papel de Kurtz foi provavelmente a causa maior do fato do cineasta ter pensado seriamente em suicídio.

A história de "Apocalypse now" começa em 1969. O capitão Benjamin Willard (Martin Sheen) recebe a missão (absolutamente secreta) de localizar, no Cambodja, o Coronel Kurtz (Marlon Brando), um genial e condecorado soldado americano que, alegam seus superiores, perdeu a sanidade mental e, liderando um grupo de nativos, vem armando atos de violência e terrorismo nas florestas asiáticas. Willard não apenas tem de encontrar Kurtz, mas também matá-lo. Acompanhado de um grupo de soldados, ele atravessa um rio que não conhece absolutamente - testemunhando atos enlouquecidos de guerra - e chega até as matas onde está seu alvo. Surpreendido e pego como refém, ele vê no homem que procura o retrato do absurdo do conflito.

Na pele do Coronel Kurtz, Marlon Brando mostra porque é um nome ímpar na história da sétima arte. Ao chegar às Filipinas muitos quilos mais gordo, careca e sem ter lido uma única linha do romance de Conrad, o ator despertou a ira de Coppola, mas é inegável que, no momento em que entra em cena, na escuridão planejada por Vittorio Storaro (vencedor do Oscar de fotografia), ele rouba o filme descaradamente. Recitando T.S. Elliot, assustadoramente perturbado e expressando física e psicologicamente os horrores da guerra, seu Coronel Kurtz imediatamente gruda no inconsciente do público como uma das performances mais fascinantes do cinema, dando sentido ao que antes parecia uma viagem alucinógena de Coppola e cia.

Mas afinal de contas, "Apocalypse now" é realmente uma obra-prima? Sim. E não. Sim, porque qualquer filme que apresentasse a atuação arrebatadora de Brando e a fotografia deslumbrante de Storaro e gravasse na memória da audiência sequências tão brilhantes como o ataque aéreo ao som da "Cavalgada das Valquírias", de Wagner mereceria o título. E não, porque obras-primas com falhas dificilmente podem ser chamadas assim. E "Apocalypse" tem algumas falhas. Entre os momentos de brilho absoluto encontram-se cenas simplesmente aborrecidas e lentas, que quebram o ritmo da narrativa - e nem mesmo a versão "Redux" lançada em Cannes em 2001 consegue salvar esses momentos. Seus trinta minutos finais - justamente aqueles em que Brando bota o filme no bolso, apesar do trabalho excelente de Martin Sheen, Dennis Hopper (como um fotógrafo de guerra) e Robert Duvall (como um militar metido a surfista) - compensam qualquer sono, mas ainda assim é um filme que requer mais paciência do que o habitual.

Claustrofóbico, lisérgico, aterrador... são palavras que descrevem o inferno imaginado por Francis Ford Coppola. Mas é a voz de Marlon Brando como Coronel Kurtz que nunca mais sai da mente da audiência: "O horror... o horror..." E dizem que este é o filme que mais perto chega da verdadeira guerra do Vietnã...

terça-feira

ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO


ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO (Alien, 1979, 20th Century Fox, 117min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Dan O'Bannon, estória de Dan O'Bannon e Ronald Shusett. Fotografia: Derek Vanlint. Montagem: Terry Rawlings, Peter Weatherley. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: John Mollo. Direção de arte/cenários: Michael Seymour/Ian Whittaker. Produção executiva: Ronald Shusett. Produção: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill. Elenco: Tom Skerrit, Sigourney Weaver, Ian Holm, John Hurt, Veronica Cartwright, Harry Dean Stanton, Yaphet Kotto. Estreia: 25/5/79

2 indicações ao Oscar: Direção de arte, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais


"Do espaço, ninguém pode ouvir você gritar!" Com esse slogan de efeito chegava às telas americanas, em maio de 1979, um filme que iria revolucionar a ficção científica, influenciando todas as posteriores produções do gênero - além de gerar, até agora, três sequências com diretores diferentes e resultados finais variados. Acrescentando elementos de suspense e terror aos tradicionais elementos que o gênero normalmente apresentava, "Alien, o oitavo passageiro", de Ridley Scott virou referência obrigatória. E prova, mais uma vez que os filmes originais são, via de regra, superiores a suas continuações.

A trama de Scott (substituindo o diretor original Walter Hill, que assumiu a produção do filme) se passa dentro da nave comercial Nostromo, que, a caminho de volta à Terra se vê compelida a investigar um pedido de SOS vindo de um planeta próximo à sua rota. Liderados por Dallas (Tom Skerrit), a tripulação de sete integrantes leva um susto quando uma forma de vida desconhecida ataca um de seus colegas, Kane (John Hurt), grudando-se em seu capacete. Ao ser examinado pelo cientista da equipe, Ash (Ian Holm), Kane é morto pelo invasor, que mistura-se às engrenagens da nave, aumentando assustadoramente de tamanho. Conforme todos os membros da tripulação começam a ser aniquilados pelo alien, resta à Tenente Ripley (Sigourney Weaver) lutar pela sua sobrevivência e pela destruição do monstro.

Grande sucesso de bilheteria em 1979, "Alien" deu à novata Sigourney Weaver a chance de sua carreira. Comparada com Jane Fonda pelos sortudos que assistiram a seu teste, ela ficou com o papel central - que era masculino nos primórdios do roteiro e que chegou a ser confirmado como sendo de Veronica Cartwright antes das filmagens - e tornou-se a heroína mais conhecida do cinema de ação hollywoodiano. Dona de um rosto de traços marcantes e exalando uma personalidade forte e corajosa - sem nunca deixar de lado as qualidades que a fazem ser também uma mulher - Weaver empresta à Ripley tudo que é necessário para convencer a plateia a ser seu cúmplice. E de certa forma isso é preciso, pois, apesar da truculência e da crueldade de seu rival, poucas vezes Hollywood construiu um vilão tão à altura dos mocinhos quanto o monstro criado pela imaginação de Dan O'Bannon e pelo talento visual de Carlo Rambaldi.

A equipe de Rambaldi levou o Oscar de efeitos especiais pela criação de seu alien, um monstro quase amorfo que é capaz de fundir-se à nave espacial que invade, sangra ácido e é dono de uma violência sem precedentes. O visual da criatura, que foi ficando maior e mais sofisticado conforme os anos iam passando e a série ia tornando-se mais e mais generosa em termos de orçamento, virou espécie de referência para qualquer ficção científica que se preze e é impossível, hoje em dia, tirar da cabeça sua forma assustadora e ameaçadora.


Ao contrário de sua primeira continuação, dirigida por James Cameron em 1986, que transformava a luta da Tenente Ripley em super-espetáculo, o primeiro capítulo da série opta pelo caminho menos fácil. É somente depois de seis silenciosos minutos que começamos a entender o que é a Nostromo, quem são seus tripulantes e passamos a saber mais sobre suas personalidades. É somente depois do primeiro ataque do monstro que ficamos sabendo que Ash não era o cientista original do grupo, que Dallas e Ripley tem uma relação a mais (a cena de sexo entre os dois foi escrita mas nunca filmada) e que a "Mãe" (computador que passa as coordenadas a serem seguidas) tem ideias diferentes a respeito da manutenção do alienígena dentro da nave. Ridley Scott leva tempo antes de começar a matança, extraindo o possível de cada cena, de cada clima, de cada personagem. E quando o suspense realmente começa, é impossível ficar tranquilo.

Mesmo depois de se assistir a "Alien" inúmeras vezes ainda é interessante perceber como Ridley Scott (que meros 3 anos depois legaria ao mundo o sensacional "Blade Runner") tem o dom de levar o espectador para onde ele quer. Apesar dos termos técnicos utilizados em alguns momentos do longa (problema inevitável em filmes do estilo) o público é seduzido logo de cara pelo intrigante roteiro, pela fotografia claustrofóbica e pela trilha sonora angustiante do mestre Jerry Goldsmith. Não bastasse tudo isso, a plateia ainda leva uma boa meia dúzia de sustos e fica o filme todo na ponta da cadeira. Precisa mais de um filme de terror?

Por mais que os filmes de James Cameron, David Fincher e Jean-Pierre Jeunet (todos cineastas criativos, inteligentes e talentosos) tenham cada um uma assinatura diferente e por conseguinte objetivos diversos, ainda é o escuro e apavorante primeiro capítulo de Ridley Scott que mantém a série "Alien" acima de qualquer suspeita.

segunda-feira

MANHATTAN



MANHATTAN (Manhattan, 1979, United Artists, 96min ) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Robert Drumheller. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Michael Murphy, Mariel Hemingway, Meryl Streep, Anne Byrne. Estreia: 25/4/79

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Mariel Hemingway), Roteiro Original

Por incrível que pareça, um dos produtos mais bem-acabados da carreira do ator, roteirista e diretor Woody Allen é um do qual ele gosta tão pouco que chegou a sugerir à United Artists que nunca o lançasse, propondo inclusive dirigir um filme totalmente de graça para que isso acontecesse. Felizmente, o estúdio nem cogitou a possibilidade e proporcionou ao público um dos filmes mais queridos da carreira de Allen. Mesmo já tendo Oscar em casa por “Noivo neurótico, noiva nervosa”, é em “Manhattan” que ele demonstra a maturidade e o equilíbrio que marcariam os melhores momentos de sua trajetória como um dos mais íntegros e coerentes cineastas de sua geração. Filmado quase como uma declaração de amor à Nova York – a primeira de várias que se seguiriam -, “Manhattan” apresenta uma gloriosa fotografia de Gordon Willis como pano de fundo para a história de um quadrilátero amoroso encenado sob uma trilha sonora impecável, recheada de standards de um jazz da mais alta qualidade, em especial Gershwin.

Assim como em “Noivo neurótico”, Allen é quem lidera o elenco, na pele de Isaac Davis, um escritor de programas de televisão que não nutre exatamente um grande amor pela profissão. Na verdade, ele passa por uma crise, uma vez que foi abandonado pela esposa (Meryl Streep em uma participação pequena mas fundamental), que, além de trocá-lo por outra mulher ainda está terminando de escrever um livro contando detalhes de sua intimidade. Só quem o salva de seus problemas é seu namoro com a bela Tracy (Mariel Hemingway), uma jovem estudante de apenas 17 anos de idade e sua amizade com o professor universitário Yale (Michael Murphy), que tem um caso extra-conjugal com Mary (Diane Keaton). Enquanto dá apoio à bela e cultíssima Mary, que sofre com as dificuldades de seu romance impossível, Isaac acaba se apaixonando por ela, deixando de lado seu relacionamento com quem ele considera jovem demais.


Apesar de conter todas as características que definiriam o “estilo Woody Allen” para todo o sempre, “Manhattan” pode e deve ser visto como um romance à moda antiga, vestido com uma roupagem ainda moderna. Sim, os diálogos repletos de referências eruditas estão presentes, assim como o senso de humor neurótico e judeu. Mas poucas vezes o roteirista/diretor criou personagens tão densos e reais como os criados aqui, defendidos com unhas e dentes por atores excepcionais. Curiosamente, a mais fraca intérprete do elenco, Mariel Hemingway (em um papel que quase ficou com Jodie Foster) foi quem recebeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante – perdido para sua colega de elenco Meryl Streep, por sua atuação em “Kramer X Kramer”. Sua fragilidade como atriz fica ainda mais evidente na última cena do filme, de uma sensibilidade e uma preciosidade ímpares, que entraria certamente em qualquer antologia romântica caso tivesse uma atriz de verdade. Bela ela realmente era - a ponto de ser citada na lista que Isaac faz dos motivos pelos quais vale a pena viver - mas como atriz faltava-lhe substância.

“Manhattan” ainda é uma pequena obra-prima de um artista acostumado a criá-las. Para entrar na lista dos preferidos do diretor.

domingo

O CAMPEÃO


O CAMPEÃO (The champ, 1979, MGM Pictures, 121min) Direção: Franco Zeffirelli. Roteiro: Walter Newman, história de Frances Marion. Fotografia: Fred J. Koenekamp. Montagem: Michael J. Sheridan. Música: Dave Grusin. Figurino: Theoni V. Aldridge. Direção de arte/cenários: Herman A. Blumenthal/James W. Payne, Rick Simpson. Casting: Joyce Robinson, Sam Christensen. Produção: Dyson Lovell. Elenco: Jon Voight, Faye Dunaway, Rick Schroder, Jack Warden, Arthur Hill. Estreia: 04/4/79

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original
Vencedor do Golden Globe de Nova Estrela do Ano/Masculino - Rick Schroder


O pesadelo de toda criança. Talvez essa seja a melhor definição para "O campeão", arranca-lágrimas dirigido por Franco Zefirelli e lançado nos EUA no início de 1979. Realizado com o objetivo claro de levar a platéia às lágrimas, o dramalhão orquestrado pelo cineasta italiano não apenas o faz com maestria - especialmente em suas derradeiras cenas - mas também comprova a teoria de que um final emocionalmente poderoso é capaz de derrubar qualquer mínimo senso estético e/ou racional. Ficar incólume ao desfecho de "O campeão" é tarefa inglória!

Escrito sem temer nenhum clichê, o roteiro de Walter Newman não tem a menor preocupação em ser original ou fugir dos lugares-comuns que infestam o gênero drama familiar. No entanto, talvez seja justamente essa sua falta de ambição artística que o faça funcionar no nível emocional que pretende. Jon Voight (em vias de ganhar um Oscar por "Amargo regresso") vive Billy Flynn, um boxeador precocemente aposentado que ganha a vida cuidando de cavalos em um haras frequentado pela alta sociedade. Beberrão, irresponsável e auto-destrutivo, ele cria o filho pequeno TJ (Ricky Schroder) desde que foi abandonado pela mulher, Annie (Faye Dunaway), uma estilista de moda que depois da separação casou-se novamente e leva uma vida confortável e luxuosa. Apaixonado pelo pai, por quem nutre uma adoração incondicional, o menino tem sua vida transformada quando se reencontra com a mãe, a quem julgava morta. Temendo que a vida milionária oferecida por Annie a seu filho lhes afaste, Billy resolve voltar a lutar, mesmo sabendo dos perigos a que está exposto devido a sua idade, falta de treino e às sequelas de um ferimento antigo. Vencer a luta, para ele, é uma forma de ganhar dinheiro e o respeito definitivo de TJ, mesmo que o garoto não precise de nada disso para amá-lo devotamente.


Analisado pelo viés puramente racional, "O campeão" jamais poderia ser chamado de um grande filme. Lançado na mesma época em que Hollywood apresentava cineastas ousados como Francis Ford Copolla e Martin Scorsese e era bombardeado com obras fortes e autorais como "Taxi driver" e "Apocalypse now", o singelo e piegas conto familiar de Zefirelli soou como um retrocesso estilístico, que buscava, antes da excelência artística, o sucesso comercial e a emoção fácil. No entanto, é difícil convencer disso as milhares de pessoas que se comoveram com o filme através de suas constantes reprises na TV durante os anos 80, em especial as crianças, que viam, nas cores um tanto exageradas da fotografia de Fred Koenekamp, seus maiores temores tornarem-se realidade, ainda que na vida trágica do pequeno TJ. Vivido por um excelente Ricky Schroder, a subserviente e compreensiva personagem deixou em uma geração inteira de espectadores de cinema a marca de um dos finais mais tristes que o cinema pode oferecer, ainda que bem longe das sutilezas que seriam bem-vindas.

Pode-se falar bastante mal de "O campeão", e argumentos para tais críticas não faltariam. Mas, com os olhos inchados de chorar e o coração apertado fica difícil de pensar...

sábado

O FRANCO-ATIRADOR


O FRANCO-ATIRADOR (The deer hunter, 1978, Universal Pictures, 182min) Direção: Michael Cimino. Roteiro: Deric Washburn, baseado em uma história de Michael Cimino, Deric Washburn, Louis Garfinkle, Quinn K. Redeker. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Peter Zinner. Música: Stanley Myers. Casting: Cis Corman. Produção: Michael Cimino, Michael Deeley, John Peverall, Barry Spikings. Elenco: Robert DeNiro, John Savage, John Cazale, Christopher Walken, Meryl Streep, George Dzunza, Chuck Aspegren. Estreia: 08/12/78

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Cimino), Ator (Robert DeNiro), Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Cimino), Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Montagem, Som
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Michael Cimino)


A guerra do Vietnã acabou em 1975 e não demorou muito para que alguns - corajosos - cineastas resolvessem mexer nas feridas ainda abertas do povo americano em relação à tragédia. Em 1978, nada menos do que dois filmes bastante interessantes e bem-sucedidos deram voz aos veteranos de um dos mais absurdos conflitos bélicos da história (se é que algum conflito bélico é menos do que absurdo...) Dirigido por Hal Ashby, "Amargo regresso" deu Oscars a Jane Fonda e Jon Voight, mas "O franco-atirador", de Michael Cimino, saiu-se ainda melhor, levando pra casa 5 estatuetas concedidas pela Academia, entre as quais as de Melhor Filme, Direção e Ator Coadjuvante. Em comum, os dois filmes tem, além da temática, uma visão humanista e a preocupação com as consequências psicológicas da guerra, tanto em quem lutou nela quanto nas pessoas que os rodeiam.

A trama de "O franco-atirador" passa-se basicamente em uma pequena cidade da Pensilvânia, que tem a indústria do aço como principal meio de subsistência. É lá que moram três amigos que estão às vésperas de embarcar para o Vietnã. Mike (Robert DeNiro), Nick (Christopher Walken) e Steven(John Savage) aproveitam o casamento do último para realizar uma espécie de festa de despedida antes do embarque - que só acontecerá depois de uma última caçada de cervos, um de seus hobbies e, talvez, um de seus últimos encontros com os amigos. Já na guerra, os amigos são feitos reféns, sofrem torturas físicas e psicológicas - em especial uma roleta-russa apavorante que virou marca registrada do filme. Depois de conseguirem fugir, no entanto, eles não mais parecem unidos. Steven volta pra casa sem as duas pernas e praticamente abandona a esposa e o filho pequeno. E ao chegar em sua cidade natal, Mike descobre que Nick não retornou do conflito e resolve buscá-lo, mesmo sendo apaixonado pela noiva dele, Linda (Meryl Streep). Chegando novamente no Vietnã, ele encontra seu melhor amigo em total desequilíbrio emocional.


O melhor em "O franco-atirador" não são suas cenas de guerra - ainda que sejam extremamente bem-feitas e realistas. O que mais chama atenção no filme de Cimino (que desfrutou de alguns momentos de glória antes de ver sua carreira afundar com o megalomaníaco "O portal do paraíso") é sua profunda compreensão humana, sua sensibilidade em lidar com as relações interpessoais traumáticas das personagens sem soar piegas ou exagerado. E para isso conta com um elenco nunca aquém do espetacular. Na pele de Mike, Robert DeNiro mais uma vez demonstra seu talento além do normal. Todas as suas cenas dramáticas são dignas de figurar entre os momentos de maior destaque na sua carreira: seu romance hesitante com Linda, sua relação de culpa com Steven e sua busca de redenção com Nick fecham um círculo de sentimentos que só mesmo alguém com o cacife de DeNiro poderia encarar com tal segurança. E cercado dos atores que ele está, não há como ter erro.

Meryl Streep (com sua primeira indicação ao Oscar) improvisou a maioria de suas falas, com o incentivo do diretor e transmite a intensidade de seus sentimentos contraditórios com a segurança de uma veterana - além de ter ameaçado abandonar o filme caso se concretizasse a ameaça de demissão do ator John Cazale, que estava morrendo de câncer durante a produção e de quem era noiva. Cazale terminou o filme (suas cenas foram as primeiras a ser filmadas) e morreu em seguida, deixando um legado de grandes filmes (os dois primeiros "O poderoso chefão" e "Um dia de cão" entre eles) e atuações intensas. John Savage, como Steven, passa a exata noção do desespero de um homem ao sentir-se privado de sua integridade física devido a uma violência sem razão e Christopher Walken levou sua estatueta de ator coadjuvante por seu trabalho impressionante como Nick, protagonista das duas cenas mais conhecidas do filme (e que foram responsáveis por uma onda de suicídios com roleta-russa nos anos subsequentes).

A longa sequência inicial de "O franco-atirador" não deixa de evocar as primeiras cenas de "O poderoso chefão" (que também começa com um casamento), mas ao contrário do filme de Copolla, aqui a violência que cobre o céu das personagens é menos glamourosa e mais crua e verdadeira. A guerra, em "O franco-atirador" é uma personagem a mais, um pesadelo constante na memória de seus veteranos e de seus familiares. Assim como o tiro único que deve matar o cervo do título original, ela é capaz de aniquilar a essência de felicidade dos seres humanos. A melancólica cena final, no bar em que os amigos costumavam se reunir, é de partir o coração. Não é de surpreender que tenha sido tão bem recebido na ocasião de seu lançamento: é um testamento vivo de um inconsciente coletivo em uma época marcada pela desilusão e pela tristeza.

Mais que um filme de guerra, "O franco-atirador" é um filme de pessoas lidando com ela e, como tal, um precioso estudo sobre a dor e a (falta de) esperança.

sexta-feira

O EXPRESSO DA MEIA-NOITE


O EXPRESSO DA MEIA-NOITE (Midnight express, 1978, Columbia Pictures, 121min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Oliver Stone, basedo no livro de William Hayes e William Hoffer. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Giorgio Moroder. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirkland/Evan Hercules. Produção executiva: Peter Guber. Produção: Alan Marshall, David Puttnam. Elenco: Brad Davis, John Hurt, Randy Quaid, Irene Miracle, Paolo Bonacelli, Mike Kellin. Estreia: 06/10/78

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alan Parker), Ator Coadjuvante (John Hurt), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Oscar: Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor de 6 Golden Globes: Filme/Drama, Ator Coadjuvante (John Hurt), Roteiro, Trilha Sonora, Estreia masculina (Brad Davis), Estreia feminina (Irene Miracle)

Depois que se assiste a “Expresso da meia-noite” fica-se com um nó na garganta. Não por tristeza, mas talvez por revolta. Inacreditavelmente baseado em uma história real, o filme do inglês Alan Parker é um petardo emocional e sensorial que dificilmente pode ser esquecido ou tido como entretenimento simples e fácil. Se a história do americano Billy Hayes é sofrida e deprimente, ao menos originou um dos melhores filmes de 1978 e talvez o melhor da carreira do cineasta.

Billy Hayes, vivido no filme por um impressionante Brad Davis, é um jovem americano de classe média que é preso na Turquia com um carregamento de haxixe. Acusado de tráfico de drogas, ele é preso imediatamente e condenado a seis anos de cadeia, sem dar muitas chances ao advogado contratado por seu pai. Às vésperas de sua soltura, porém, como forma de fazer dele um exemplo aos EUA - com quem não tem a mais amigável das relações - o governo turco transmuta sua sentença para prisão perpétua. Uma vez condenado, Hayes é trancafiado em uma prisão assustadora, violenta e sem muita noção do que significam as palavras Direitos Humanos. Sua única chance de sobreviver ao inferno é fugir com alguns companheiros de cela no que eles chamam de Expresso da Meia-noite, ou seja, um túnel. Para isso, ele terá que testemunhar uma truculência inimaginada em seus dias na América.


Poucas vezes se viu no cinema uma obra tão abertamente brutal como “Expresso da meia-noite”. Sem medo de chocar e/ou afugentar seu público, Alan Parker mergulha seu protagonista em um buraco de racismo, dor e violência. Para isso conta com o inspirado roteiro de Oliver Stone (premiado com o Oscar): mesmo alterando substancialmente algumas passagens do livro escrito pelo próprio Hayes - as passagens do livro que se referem a sua experiência homossexual dentro da prisão foi deslavadamente modificadas, o que tira um pouco de sua credibilidade, o script do futuro diretor dá a exata noção do pesadelo no qual um jovem saudável, amado pela família e pela namorada é jogado de uma hora para outra. O filme não faz julgamentos morais a respeito de seu protagonista, que no entanto, depois de tanto sofrimento, acaba conquistando a simpatia do público, mesmo longe de ser um exemplo a ser seguido.

Muito dessa conquista se deve ao trabalho de Brad Davis, que transmite em cada olhar de dor e revolta todos os sentimentos complexos de seu personagem. Lembrando alguns trejeitos de James Dean - principalmente na forma como lida com a injustiça e a revolta - ele foi mais um jovem talento que morreu cedo - Davis morreu de AIDS aos 41 anos em 1991. Contando com a ajuda de colegas de elenco como John Hurt e Randy Quaid, como dois prisioneiros que unem-se a ele em sua trajetória rumo à liberdade ainda que tardia, Davis foi uma revelação das mais empolgantes do final da década de 70, causando polêmica com seu trabalho em "Querelle", de 1982.

Não se pode esperar que “Expresso da meia-noite” seja um filme para divertir. É cinema sério, de denúncia, mas que jamais esquece de seu principal objetivo: contar uma boa história, com personagens fortes e um roteiro bem estruturado. Contando ainda com uma fotografia opressiva de Michael Seresin e uma trilha sonora de Giorgio Moroder que já tornou-se clássica, é um filme que dificilmente abandona a memória.
O único alívio que se tem ao assisti-lo é saber que, mesmo sendo uma história verdadeira, não aconteceu conosco.

quinta-feira

INTERIORES


INTERIORES (Interiors, 1978, United Artists, 93min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Ralph Rosenblum. Figurino: Joel Schumacher. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Mario Mazzola. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Charles H. Joffe. Elenco: Geraldine Page, Diane Keaton, Mary Beth Hurt, E.G. Marshall, Kristin Griffiths, Maureen Stapleton, Sam Waterston, Richard Jordan. Estreia: 02/8/78

5 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Atriz (Geraldine Page), Atriz Coadjuvante (Maureen Stapleton), Roteiro Original, Direção de arte

Depois de sair consagrado da festa do Oscar com os prêmios de roteiro e direção por "Noivo neurótico, noiva nervosa", Woody Allen seguiu o único caminho que poderia surpreender os fãs de seu estilo: abandoná-lo e fazer um filme completamente diferente. Inspirado claramente na obra do cineasta sueco Ingmar Bergman, um dos seus maiores ídolos, "Interiores" pegou todo mundo - crítica e público - de surpresa, ao contar uma história sem o menor epaço para qualquer senso de humor e com um ritmo de cinema europeu. Desnecessário dizer que sua bilheteria foi ínfima.

No livro de entrevistas "Conversas com Woody Allen", de Eric Lax, o cineasta afirma que hoje em dia conseguiria fazer de "Interiores" um filme melhor. A questão é: por que? Do jeito que está, o nono filme de sua carreira é uma hipnotizante e sensível, ainda que muitas vezes árdua, história sobre as relações (ou a falta delas) entre pessoas da mesma família, que frequentemente não conseguem expressar a contento suas emoções. Com atuações sublimes de seus protagonistas e um roteiro que foge do lugar comum durante toda a sua projeção, "Interiores" é uma das mais bem-acabadas obras de Allen dentro de sua "fase bergmaniana".

É bastante provável que aqueles que se tornaram fãs do diretor devido a suas geniais comédias lançadas anteriormente se decepcionem com "Interiores", justamente porque ele é o extremo oposto da sua filmografia anterior, repleta de ironia e sarcasmo. Aqui a coisa é muito séria: depois de ser abandonada pelo marido - que cansou de levar uma vida tediosa e certinha - a dona de casa Eve (Geraldine Page) passa a dedicar-se a decorar a casa da filha do meio, Joey (Mary Beth Hurt), uma mulher indecisa quanto ao rumo a tomar em sua vida profissional. Temendo ferir os sentimentos da mãe, ela não para de dar-lhe esperanças sobre um possível arrependimento de seu pai. Essa tática não é aprovada por Renata (Diane Keaton), a filha mais velha, uma escritora relativamente bem-sucedida que tem um relacionamento conflituoso com o também escritor Frederick (Richard Jordan), que, em uma noite de exagero etílico tenta estuprar a cunhada caçula, a atriz Flyn (Kristin Griffith). A fragilidade psicológica de Eve entra em colapso quando seu ex-marido, Arthur (E.G.Marshall) anuncia seu casamento com a duplamente viúva Pearl (Maureen Stapleton).


Nada em "Interiores" é fácil, clichê e/ou de fácil assimilação. Allen não poupa sua plateia de mergulhar dentro dos pensamentos de personagens sofridos, densos, complexos e incapazes de lidar com suas próprias emoções. A fotografia em tom pastel - assim como os figurinos e os cenários - apenas reitera a total falta de passionalidade de suas personagens, trancadas em uma redoma de inseguranças e inaptidão em lidar com suas vidas. Nem mesmo as cenas de maior emoção do filme são exageradas, sendo apresentadas sempre em um tom médio, que remete diretamente à frieza estética do cinema sueco que inspirou seu roteiro e sua direção. Quando Flyn é quase violentada, não há uma música grandiloquente ou lágrimas derramadas a rodo. Todos ali são elegantes, sofisticados, empedernidos. Por dentro, no entanto, sofrem um turbilhão de sensações, nem todas elas agradáveis.

Acertadamente, Woody Allen declarou que as falas de "Interiores" soam mais como legendas do que diálogos naturais - ingrediente básico em suas comédias. Mas é inegável que essa ausência de naturalismo imposta por ele em seu roteiro empurra o resultado final mais para um drama discreto e quase silencioso do que para um catártico e emocional melodrama hollywoodiano. O público não gostou. A crítica, em sua maioria, aplaudiu vigorosamente.

E um dos motivos para esses aplausos merecidos da crítica atende pelo nome de Geraldine Page. Herdando um papel oferecido inicialmente a Ingrid Bergman - que o recusou porque iria fazer "Sonata de outono", dirigido pelo mestre de Allen - Page tem uma atuação exemplar, de uma economia inteligente e adequada. A cena em que ela tem um ataque de choro por achar que sua vida não tem nada de interessante é de arrepiar, assim como seu diálogo final com Joey, capaz de emocionar sem soar óbvio.

E é justamente por fugir do óbvio - em todos os sentidos - que "Interiores" é um dos filmes mais interessantes de Woody Allen. Não é para qualquer público, mas aqueles que se arriscam a assisti-lo sabendo de suas intenções tem pouquíssimas chances de se decepcionar.

quarta-feira

GREASE - NOS TEMPOS DA BRILHANTINA


GREASE, NOS TEMPOS DA BRILHANTINA (Grease, 1978, Paramount Pictures, 110min) Direção: Randal Kleiser. Roteiro: Bronté Woodard, adaptado por Allan Carr do musical de Jim Jacobs e Warren Casey. Fotografia: Bill Butler. Montagem: John F. Burnett. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Phil Jefferies/James Berkey. Casting: Joel Thurm. Produção: Allan Carr, Robert Stigwood. Elenco: John Travolta, Olivia Newton-John, Stockard Channing, Jeff Conaway, Barry Pearl, Didi Conn. Estreia: 16/6/78

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Hopelessly devoted to you")

Nada como um sucesso atrás do outro... Clássico absoluto entre os musicais dos anos 70, “Grease, nos tempos da brilhantina” foi um dos responsáveis, ao lado de “Embalos de sábado à noite”, de transformar John Travolta em símbolo sexual graças a seu gingado de bailarino. Ao contrário de “Embalos”, no entanto, que tinha a cara de sua época, esta adaptação de um musical da Broadway de autoria de Jim Jacobs e Warren Casey, recorre aos dourados anos 50 para contar uma história de amor açucarada e sem pretensões outras a não ser divertir a plateia durante suas quase duas horas de duração. "Grease" é uma deliciosa sessão da tarde, para ser assistida de preferência com um balde de pipoca, refrigerante no copo e o barulhinho de uma tarde de domingo chuvosa.

A trama se passa em 1959, em uma escola secundarista da Califórnia. Travolta vive Danny Zucko, um playboyzinho que vive cercado de seus amigos metidos a galãs. Sua imagem de conquistador sofre um abalo quando ele reencontra a bela Sandy (Olívia Newton-John, linda e graciosa), uma jovem australiana que ele havia conhecido nas férias e que passa a estudar em sua escola. Cada um deles conta uma versão diferente de sua história de amor e isso dificulta sua relação, principalmente quando a invejosa e liberal Rizzo (Stockard Channing) se intromete entre eles, tentando reconquistar Danny, com quem teve um relacionamento breve.


É inegável que a química entre Travolta e Newton-John é a peça-chave do sucesso do filme, que rendeu milhões nos cinemas pelo mundo afora, mas a trilha sonora, repleta de canções agradáveis e conhecidas também tem seu papel no formidável desempenho do filme do irregular Randal Kleiser. As ritmadas “Summer nights” e “You’re the one that I want”, por exemplo, sobrevivem tranquilamente sem as imagens, assim como as belas “Hopelessly devoted to you” (indicada ao Globo de Ouro) e “There are worst things I could do”, que longe de serem apenas músicas para preencher o tempo, são trabalhos pop de qualidade inegável e que, em conjunto com a caprichada reconstituição de época, fazem de “Grease” um simpático passatempo, quase alienado e por isso mesmo tão fácil de se gostar.

Não há, em "Grease", nenhuma intenção de falar de assuntos sérios ou levantar qualquer tipo de polêmica: até mesmo quando surge uma certa discussão sobre a maneira com que as mulheres eram vistas na época, ela aparece envolta em um bom-humor que logo lhe impede de buscar maiores profundidades. E apesar de algumas feministas terem subido nas tamancas devido ao final do filme - quando Sandy muda de personalidade para conquistar Danny - elas não lembram de que ele também tentou mudar para seduzí-la, envolvendo-se com esportes, em uma sequência bastante engraçada.

No final das contas, "Grease" é um divertido espetáculo feito para encantar os olhos e os ouvidos. E como tal atinge seus objetivos sem muito esforço.

terça-feira

OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE


OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE (Saturday night fever, 1977, Paramount Pictures, 118min) Direção: John Badham. Roteiro: Norman Wexler, baseado no artigo de Nik Cohn. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: David Rawlins. Música: Bee Gees. Figurino: Patrizia Von Brandenstein. Direção de arte/cenários: Charles Bailey/George Detitta. Casting: Shirley Rich. Produção executiva: Kevin McCormick. Produção: Robert Stigwood. Elenco: John Travolta, Karen Lynn Gorney, Barry Miller, Joseph Cali, Paul Pape, Donna Pescow, Fran Drescher, Martin Shakar. Estreia: 14/12/77

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (John Travolta)

Em 1977, o jornalista Nik Cohn escreveu uma matéria chamada "Tribal rites of the new Saturday night", onde descrevia como jovens entediados e sem maiores perspectivas de futuro tornavam-se pessoas mais divertidas e admiradas quando saiam para dançar nas discotecas dos subúrbios nova-iorquinos. Anos mais tarde, ele confessou que sua "matéria de não-ficção" era pura invenção, mas aí já era tarde e o estrago já estava feito. Adaptado para o cinema com o nome de "Embalos de sábado à noite", seu artigo já havia sido o responsável pelo "boom" das discotecas no mundo todo e transformado a imagem de John Travolta fazendo seus passos de dança vestido com um paletó branco em um ícone inestimável para toda uma geração de cinéfilos.

Desde a primeira cena de "Embalos...", onde somos apresentados ao malemolente Tony Manero, fica impossível dissociar a personagem do ator e da persona John Travolta (já famoso nos EUA devido ao filme "O garoto da bolha de plástico", feito para a TV americana). Dono de um ritmo próprio de andar, com sapatos bem cuidados e uma ginga malandra, Manero é o retrato típico da juventude descrita por Cohn em seu artigo e pelo roteiro de Norman Wexler. Aos 19 anos, trabalhando em uma loja de tintas e sem maiores ambições na vida, ele é apenas mais um filho de uma família de italianos falastrões cujo maior orgulho é o filho padre. Quase ignorado em casa, Manero é praticamente um deus quando, aos sábados, chega na discoteca 2001 Odissey e, na pista de dança, transforma-se no mais desejado dos homens. Egocêntrico e auto-suficiente, ele é, naquele microcosmo, tudo que deveria ser no dia-a-dia mas não consegue devido à sua falta de instrução e interesse.

Tony é, em seus momentos de sub-celebridade, um hedonista, capaz de renegar friamente as investidas da doce Annette (Donna Pescow), apaixonada por ele e disposta a qualquer sacrifício para ser sua parceira de dança ("você transa com elas e elas logo querem te arrastar pra pista de dança", reclama ele, em uma das frases mais luminosas do roteiro). Tony não quer amar, ele quer ser amado e admirado mais do que tudo e por isso, quando encontra a igualmente ambiciosa Stephanie (Karen Lynn Gorney) sua vida sofre uma espécie de revés. Ao contrário do que sempre acontece, dessa vez é ele quem tem de convencê-la a ser seu par no concurso de dança. É ele quem se sente diminuído perante o quase esnobismo dela. E é ele começa a se perceber como uma pessoa sem maiores atrativos além daqueles mostrados ao som da música disco.


A música, aliás, é quase uma personagem central do filme, dirigido por John Badham. As inúmeras canções compostas pelos Bee Gees para ele (desde a clássica "Stayin' alive" dos créditos iniciais até a melancólica "How deep is your love" pro final) comentam a ação tanto quanto linhas de diálogo, dando ao público explicações sobre os sentimentos dos protagonistas e a oportunidade de ouvir uma das trilhas sonoras mais vendidas da história. Subvertendo as regras dos musicais tradicionais, onde as personagens param tudo e começam a cantar, aqui a música faz parte do conjunto, sendo inseparável do roteiro, do figurino antológico e das belas sequências de dança - que transformaram John Travolta em astro e lhe deram uma surpreendente indicação ao Oscar de melhor ator.

De certa forma, no entanto, a indicação de Travolta ao Oscar é a comprovação de que realmente ele é a alma do filme. Ao assistir-se a "Os embalos..." fica difícil acreditar que foi durante suas filmagens que o ator passou por um dos momentos mais tristes de sua vida pessoal: a morte da então namorada Diana Hyland, vítima de câncer. E fica também difícil crer que o diretor queria mostrar as elaboradas coreografias apenas em close (depois de treinar arduamente por meses a fio, Travolta convenceu-o do contrário, para alegria das festas de embalo que se seguiriam mundo afora após o lançamento do filme).

"Os embalos de sábado à noite" tem um roteiro frágil, que não sustenta uma olhada mais detalhada - apesar de tentar se aprofundar em personagens secundários, nunca chega a dar material para seu elenco de apoio. Mas é a cara de seu tempo, um filme sem maiores pretensões que ficou marcado no inconsciente coletivo e também o que mudou a forma como as trilhas sonoras eram vistas no mercado musical. Levando tudo isso em conta - e mais o fato de que inspirou o sucesso da novela global "Dancin' days" - é inegável sua importância, ainda que mais comercial do que artística, à história do cinema de entretenimento.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...