terça-feira

ALÉM DA ETERNIDADE

ALÉM DA ETERNIDADE (Always, 1989, Amblin Entertainment/Universal Pictures/United Artists, 122min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Jerry Belson, roteiro original de Dalton Trumbo. Fotografia: Mikael Salomon. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: James Bissell/Jackie Carr. Casting: Lora Kennedy. Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Elenco: Richard Dreyfuss, Holly Hunter, John Goodman, Brad Johnson, Marg Helgenberger, Audrey Hepburn. Estreia: 22/12/89

Se “Além da eternidade” prova alguma coisa é que até mesmo os gênios cometem erros. Tido como um dos fracassos da vitoriosa carreira de Steven Spielberg (e relegado à galeria de equívocos do cineasta, ao lado de filmes como “1941, uma guerra muito louca” e “Hook, a volta do Capitão Gancho”), esta refilmagem de um obscuro drama romântico dos anos 40 chamado “A guy named Joe” ("Dois no céu" no Brasil) não foi bem de bilheteria e nunca chegou a receber críticas entusiasmadas, ainda que tenha alguns tímidos fãs. A pergunta crucial é: o filme é ruim?

"Além da eternidade" conta a história de Pete Sandich (Richard Dreyfuss), um competente piloto de avião responsável por apagar incêndios florestais que ama o que faz e ama a namorada, Dorinda (Holly Hunter), apesar de nunca ter revelado a ela toda a extensão de seus sentimentos. Um dia, ao salvar a vida do colega e amigo Al (John Goodman), Pete sofre um acidente e morre. A princípio revoltado com sua condição, ele logo recebe de um anjo (a última atuação da sempre delicada Audrey Hepburn) uma missão: ajudar um jovem piloto (Brad Johnson) a se acertar na carreira e conquistar o amor da mulher que ama. O problema é que a mulher que o jovem, corajoso e belo aspirante a piloto deseja é justamente a mesma Dorinda que Pete ainda ama, apesar de estar em outro plano espiritual. Ele terá, então, que superar os próprios sentimentos para vê-la feliz.


Para os românticos incuráveis, a história de amor e morte dos protagonistas do filme pode funcionar muito bem. Para aqueles mais exigentes, no entanto, as coisas podem ser mais difíceis. Spielberg utiliza em seu filme ingredientes que, um ano depois, faria a glória de um digamos assim, subproduto chamado "Ghost, do outro lado da vida": romance entre pessoas de dimensões diferentes, ensinamentos espíritas e até uma canção dos anos 50 (nesse caso, a bela "Smoke gets in your eyes", com The Platters). Mas, por incrível que pareça, as falhas em "Além da eternidade" estão nas decisões tomadas pelo próprio diretor. Richard Dreyfuss e Holly Hunter são atores infinitamente superiores a Patrick Swayze e Demi Moore (astros de "Ghost"), mas não tem o mesmo carisma e beleza que levaram multidões aos cinemas. "Ghost" tinha elementos de humor e uma trama policial, que, apesar de diminuir a intensidade da história central, caíram no gosto do público. "Além da eternidade" se leva a sério demais. Mas o cineasta que deu ao mundo obras-primas emocionantes como "A cor púrpura" e "A lista de Schindler" parece não ficar muito à vontade ao falar de amor. Não é à toa que este é, até agora, seu único drama romântico.

"Além da eternidade" oferece à plateia cenas belíssimas (os incêndios, por exemplo, são fotografados exemplarmente por Mikael Salomon) e atuações muito competentes de seus protagonistas (Richard Dreyfuss é um ator que se presta a todas às nuances pretendidas pelo diretor e Holly Hunter, mesmo anos-luz distante do visual Barbie, é uma atriz espetacular - o que o Oscar por "O piano", quatro anos depois, provaria). Mas não tem o mesmo nível de paixão dos melhores trabalhos de Steven Spielberg. Ainda assim, um belo filme que merecia melhor sorte do que teve quando de sua exibição nos cinemas.

segunda-feira

NASCIDO EM 4 DE JULHO

NASCIDO EM 4 DE JULHO (Born on the fourth of july, 1989, Universal Pictures, 145min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Ron Kovic, livro de Ron Kovic. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: David Brenner, Joe Hutsching. Música: John Williams. Figurino: Judy Ruskin. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Derek R. Hill. Casting: Risa Bramon, Billy Hopkins. Produção: A. Kitman Ho, Oliver Stone. Elenco: Tom Cruise, Willem Dafoe, Raymond J. Barry, Lily Taylor, Stephen Baldwin, Frank Whaley, Kyra Sedgwick, Tom Berenger. Estreia: 20/12/89

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Ator (Tom Cruise), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Fotografia, Montagem, Som
Vencedor de 2 Oscar: Diretor (Oliver Stone), Montagem
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Oliver Stone), Ator/Drama (Tom Cruise), Roteiro

Em meados dos anos 70, desfrutando do merecido sucesso obtido graças aos filmes da série "O poderoso chefão", Al Pacino tinha um projeto de estimação: ele queria fazer o papel central na adaptação da autobiografia de um veterano do Vietnã que havia ficado paraplégico depois de ter sido atingido durante um combate. Nem mesmo o prestigio de Pacino, no entanto, foi suficiente para salvar oa ideia de ser cancelada antes mesmo de chegar à fase de produção. Mas depois de 1986 - e do sucesso acachapante de "Platoon" - o conflito no sudeste asiático tornou-se assunto "quente" junto aos estúdios e, com o oscarizado Oliver Stone à frente do projeto, "Nascido em 4 de julho", baseado nas memórias de Ron Kovic, finalmente chegou às telas americanas, com outro astro milionário no papel central: Tom Cruise.

Batalhando para ser levado a sério como ator dramático desde que contracenou com Paul Newman em "A cor do dinheiro" (86), Cruise decidou-se com um afinco louvável em sua missão de tornar-se Kovic, que não era exatamente favorável a sua escolha para interpretá-lo nas telas - afinal de contas, Cruise havia sido o galã e responsável pelo estrondoso sucesso de "Top gun, ases indomáveis", que era uma nem tão mal-disfarçada propaganda bélica envolta em uma historinha de amor. Foi preciso que Oliver Stone interviesse a seu favor - e que o próprio ator demonstrasse sua paixão pelo roteiro - para que finalmente o veterano anuísse. E, a julgar pela medalha de honra com que presenteou o galã de "Cocktail" ao final das filmagens, não se arrependeu em nenhum momento da escolha de Stone.


Realmente, Cruise se esforçou nitidamente para deixar para trás o sorriso radiante de mocinho que tanto encantou suas fãs. Desgrenhado, amargurado, raivoso e desiludido com as mentiras contadas pelo governo do país que amava mais do que tudo, Kovic, o protagonista, é o papel perfeito para qualquer ator buscando a glória e - talvez mais do que tudo - uma certa estatueta dourada. Por se enfeiar, por despir-se de vaidade e por se permitir alcançar algo mais do que enfeitar paredes de quartos de adolescentes, Cruise levou um Golden Globe e chegou mais perto que nunca de um Oscar (que perdeu para Daniel Day-Lewis, realmente bem superior em "Meu pé esquerdo"). Seu trabalho tem momentos de real emoção, impossível negar. Mas "Nascido em 4 de julho" é muito mais do que o veículo de um jovem astro em direção ao respeito artístico. É, antes de mais nada, um importante libelo pacifista, feito com todo o coração pelo sempre apaixonado Oliver Stone.

De certa forma foi até bom que o livro de Ron Kovic tenha demorado tanto para ver a luz dos refletores. Ainda que provavelmente Al Pacino tivesse feito o papel do protagonista com o perfeccionismo de sempre, é duvidoso se William Friedkin, a primeira escolha para dirigir o material, tenha os mesmos sentimentos que Stone em relação a ele. Apesar das cenas violentas passadas na guerra, esse trabalho do diretor é comandado principalmente pela emoção. É sobre a relação de Kovic com a perda dos movimentos, com sua família católica, com seus ideais equivocados transmutados em fúria, que "Nascido em 4 de julho" fala. Não é um filme DE guerra, é um filme sobre COMO a guerra é cruel, injusta e - por que não? - cegamente democrática. É um filme sobre certezas despedaçadas e sobre a transformação de um jovem que sonhava em ser como John Wayne em "Iwo Jima" em um pacifista ativo e realista. E é justamente nessa transição - repleta de armadilhas para qualquer ator - que Cruise sofre. O texto é forte, contundente. A direção de Stone é discreta e direta. Mas falta estofo dramático ao ator central, que, apesar dos esforços, não chega a entregar a atuação que poderia.

Tecnicamente "Nascido em 4 de julho" é um primor: a fotografia de Robert Richardson (dividida em apenas três cores que estabelecem o clima de cada cena) é esmerada e a edição (premiada com o Oscar) consegue ser, ao mesmo tempo, ágil e contemplativa. A trilha sonora do veterano John Williams cumpre seu papel de emocionar sempre que exigida e o elenco coadjuvante (com vários atores de "Platoon" em pontas) pontua com sobriedade o espetáculo de Tom Cruise. Mas é justamente Cruise - ainda que bastante bem na maior parte do filme - o elo menos forte do filme. Mas só o fato de, por causa dele, o filme ter encontrado seu público, já é um grande mérito.

domingo

FLORES DE AÇO

FLORES DE AÇO (Steel magnolias, 1989, Columbia Pictures, 117min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Robert Harling, peça teatral de sua autoria. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Paul Hirsch. Música: Georges Delerue. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Gene Callahan, Edward Pisoni/Garrett Lewis, Lee Poll. Casting: Hank McCann. Produção executiva: Victoria White. Produção: Ray Stark. Elenco: Sally Field, Dolly Parton, Julia Roberts, Daryl Hannah, Shirley MacLaine, Olympia Dukakis, Tom Skerrit, Dylan McDermot, Sam Shepard. Estreia: 15/11/89

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Julia Roberts)
Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Julia Roberts) 

Em 1977, o cineasta Herbert Ross esteve em seu auge, chegando a concorrer consigo mesmo ao Oscar de Melhor Filme - graças à comédia romântica "A garota do adeus" e ao drama de balé "Momento de decisão". Depois, teve uma carreira irregular, onde sucessos de bilheteria como "Footloose" e "O segredo do meu sucesso" dividiam espaço com obras bem menos consideradas, como o fraco "Dinheiro do céu". Em 1989 ele voltou a chamar a atenção da crítica e do público com um filme cujo grandioso elenco feminino seria praticamente impossível de ignorar: "Flores de aço", um dramalhão familiar disfarçado de comédia de costumes que hoje em dia só é realmente lembrado por ter sido a primeira real oportunidade da carreira de Julia Roberts, que foi indicada ao Oscar de coadjuvante.

Apesar de ser coadjuvante (e ter ficado com o papel oferecido a Winona Ryder e Meg Ryan), é a personagem de Roberts que serve como fio condutor e ponto em comum das personagens criadas pelo roteiro de Robert Harling (que escreveu a peça teatral que deu origem ao roteiro em homenagem à irmã, morta depois de uma cirurgia mal-sucedida). Pouco antes de ser alçada à condição de mega-estrela com sua participação em "Uma linda mulher" (que estrearia nos cinemas poucos meses depois), Roberts vive Shelby, uma jovem diabética que, nas primeiras cenas do filme, se casa com seu príncipe encantado, o charmoso Jackson (Dylan McDermott) e parte para uma vida distante da pequena cidade da Louisianna, onde vive sua família, liderada pela superprotetora M'Lynn (Sally Field). O filme conta a trágica história de Shelby - que tem diabetes e arrisca uma gravidez perigosa para formar uma família - através dos olhos de um grupo de mulheres que frequentam o salão de beleza da exuberante Truvy (Dolly Parton). As reuniões femininas que tem lugar na casa da esteticista acabam sendo o mais perto que todas elas tem de reuniões familiares - ainda que algumas delas realmente tenham uma família de verdade.



"Flores de aço" é um filme para mulheres e não é sexismo ou preconceito afirmar isso. As personagens masculinas pouco aparecem ou tem participação ativa na trama (ainda que o elenco conte com nomes importantes como Tom Skerrit e Sam Shepard), deixando que o "sexo frágil" mande no jogo o tempo todo. No entanto, o resultado final, apesar das promessas, não deixa de ser insatisfatório. Ao concentrar seu foco na relação entre M'Lynn e Shelby, Ross ganha em parte - porque Sally Field e Roberts dão conta do recado lindamente - mas perde por não dar oportunidade de brilho a outros membros do seu formidável elenco. Shirley MacLaine, por exemplo, tem o ingrato papel de uma matrona desagradável e mau-humorada e nem mesmo o inegável talento da atriz consegue tirar muito da superficialidade de sua personagem. E Daryl Hannah, enfeiada propositalmente para viver a cabeleireira, tem um dos trabalhos mais pálidos de sua carreira.

"Flores de aço" é considerada uma comédia dramática. Como drama funciona muito bem - apesar de exagerar na sacarina em seu final. Como comédia, no entanto, não desperta mais do que alguns sorrisos tímidos. Vale para ver Julia Roberts antes de virar a atriz mais bem paga de Hollywood.

sábado

A GUERRA DOS ROSES

 
 A GUERRA DOS ROSES (The war of the Roses, 1989, 20th Century Fox, 116min) Direção: Danny DeVito. Roteiro: Michael Leeson, romance de Warren Adler. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Lynzee Klingman. Música: David Newman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ida Random/Anne D. McCulley. Produção executiva: Doug Claybourne, Polly Platt. Produção: James L. Brooks, Arnon Milchan. Elenco: Michael Douglas, Kathleen Turner, Danny DeVito, Marianne Sagebrecht, Sean Astin. Estreia: 08/12/89

Em 1987, o ator Danny DeVito provou que também tinha talento por trás das câmeras, com o sucesso crítico e comercial de "Jogue a mamãe do trem". Antes disso, ele contracenou com Michael Douglas e Kathleen Turner em dois sucessos de bilheteria - "Tudo por uma esmeralda" e "A jóia do Nilo" - que comprovaram a química entre os dois atores. Não foi nenhuma surpresa, então, quando os três voltaram a trabalhar juntos em "A guerra dos Roses", uma comédia de humor ainda mais negro do que o primeiro filme de DeVito. Baseado no livro de Warren Adler - que teve uma continuação lançada mais de uma década depois - o roteiro consegue ao mesmo tempo ser mordaz, irônico e dono de uma contundente crítica social. De quebra, apresenta atuações memoráveis do seu casal protagonista.


O filme é narrado por Gavin D'Amato (o próprio DeVito), um advogado que tenta demover um cliente de sua ideia de entrar com um processo de divórcio contando a história de um casal de clientes. Oliver e Barbara Rose (vividos por Douglas e Turner) se conheceram na juventude, se apaixonaram e subiram na vida juntos. Enquanto ela abandona uma promissora carreira como ginasta para dedicar-se ao casamento, ele foca toda sua energia em tornar-se um advogado bem-sucedido. Quando, depois que o casal de filhos gêmeos sai de casa para estudar, Barbara resolve começar um negócio próprio, ela percebe que não sente mais nada pelo marido, exceto repulsa e um ódio quase mortal. Ao entrar com o pedido de divórcio, no entanto, ela descobre que Oliver não está nem um pouco disposto a abrir mão da espetacular mansão em que eles vivem - e é justamente a casa que decorou com tanto esmero e cuidado a única coisa que ela deseja na custódia dos bens.

"A guerra dos Roses" começa como uma comédia romântica, ou no máximo, uma comédia como dezenas de outras. É somente aos poucos que DeVito vai levando o público em sua viagem de humor sombrio. De cena em cena a plateia é apresentada ao crescente desprezo de Barbara pelo marido ou da falta de fé de Oliver no ódio da esposa. Ainda apaixonado, ele não acredita que ela seja capaz de chegar aos extremos que ameaça. Quando ele vê que ela realmente o É, o filme deslancha de vez. Se como dona-de-casa entediada Kathleen Turner é boa, como ex-mulher enraivecida ela é ainda melhor.


A química entre Turner e Michael Douglas é gloriosa. Fica clara, em cada sequência, a intimidade entre os dois, que se divertem claramente frente às câmeras. É hilariante a maneira com que o diretor consegue utilizar detalhes - como a implicância do casal com os bichos de estimação um do outro - para apresentar, desde sempre, aquela centelha de raiva enrustida que os move. E a forma surpreendente com que o roteiro se desenrola é triunfo de uma história tão inacreditável que acaba sendo plenamente verossímel dentro de suas idiossincrasias. Tudo é tão deliciosamente exagerado no filme de DeVito que fica difícil não aceitar seu convite para a diversão.


"A guerra dos Roses" não é uma comédia no sentido tradicional. Seu humor não busca gargalhadas e sim a identificação da plateia com os meandros de uma relação desgastada pelo tempo e pela desilusão. De certa forma é até triste. Mas ao mesmo tempo é irresistível e garantia de duas horas de bom entretenimento.

sexta-feira

SUSIE E OS BAKER BOYS

SUSIE E OS BAKER BOYS (The fabulous Baker Boys, 1989, Gladden Entertainment, 114min) Direção e roteiro: Steve Kloves. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: William Steinkamp. Música: Dave Grusin. Figurino: Lisa Jensen. Direção de arte/cenários: Jeffrey Townsend/Anne H. Ahrens. Casting: Wallis Nicita. Produção executiva: Sydney Pollack. Produção: Mark Rosenberg, Paula Weinstein. Elenco: Jeff Bridges, Michelle Pfeiffer, Beau Bridges, Xander Berkeley, Jennifer Tilly. Estreia: 13/10/89

4 indicações ao Oscar: Atriz (Michelle Pfeiffer), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora
Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Michelle Pfeiffer)
  
Susie Diamond é linda, sexy, charmosa e talentosa. Também é agressiva, um tanto vulgar e defende suas ideias com unhas e dentes. Ao assumir o posto de cantora para incrementar o dueto formado pelos Fabulosos Baker Boys - dois irmãos pianistas que tocam juntos desde a infância - ela não apenas aumenta a frequência dos shows e consequentemente os cachês, mas também faz com que eles percebam claramente o quanto eles prostituíram o próprio talento. Quando se envolve com o caçula dos irmãos, Jack (Jeff Brigdes), no entanto, é que os problemas realmente começam.

Vivida com garra, beleza e uma alta dose de sex-appeal por uma Michelle Pfeiffer em vias de fincar de vez os pés no imaginário fetichista masculino como a Mulher-Gato de Tim Burton (feito 3 anos depois), Susie Diamond é o anjo da discórdia em "Susie e os Baker Boys", escrito e dirigido por Steve Kloves, que nunca mais fez nada de marcante na carreira (exceto escrever alguns roteiros da série "Harry Potter"). Em "Susie" ele conta sua história de forma elegante e sucinta, ainda que um tanto repleta de clichês - Jack, por exemplo, é um solitário cuja melhor amiga é a filha pré-adolescente de uma vizinha, que o vê como um pai e seu irmão Frank (Beau Bridges, irmão de Jeff na vida real, obviamente) abandonou todos os sonhos de grandeza e sucesso para sustentar a família, o que para ele já bom o bastante. No meio dessas duas vidas estagnadas e quase tediosas, Susie tem o poder de sacudí-las, usando para isso a amargura que acumulou em seus anos como call-girl e a sensualidade de uma mulher que conhece o poder que tem sobre os homens. E para os marmanjos não faltam oportunidades para conferir que Pfeiffer, além de boa atriz também é extremamente linda.

Seja cantando "Makin' whoope" em cima de um piano, entoando "Can't take my eyes off you" em um belo vestido colante ou mesmo desprezando a tenebrosa "Fellings", Michelle Pfeiffer é o corpo de "Susie e os Baker Boys". Talvez tenha sido exagero a quantidade de prêmios que arrebatou (levou um Golden Globe e concorreu com boas chances ao Oscar), mas é inegável que seu brilho contamina o filme. Fotografada com sutileza e delicadeza pelo veterano Michael Ballhaus (que também concorreu a uma estatueta), a história da encruzilhada dos irmãos Baker em relação a seu futuro profissional é também a história de duas solidões que se encontram, ainda que talvez não estejam exatamente dispostas a dividir suas tristezas e frustrações. Apesar do verniz alto-astral (aparentemente é um musical, afinal de contas) é um filme melancólico, desesperançado. E é aí que entra Jeff Bridges.

Premiado com o Oscar de melhor ator este ano, por "Coração louco", Bridges entrega aqui uma de suas atuações mais furiosas. Sua personagem é similar à interpretada por ele no filme que lhe deu o prêmio, mas Jack Baker não tem tanta certeza sobre os rumos a tomar na vida nem mesmo quando se envolve com Susie, e foge de seus momentos de isolamento mental tocando lindamente em espeluncas de quinta categoria. Em "Coração louco" ele já foi alguém. Em "Susie" ele deseja (ou não) sê-lo. Em ambos os trabalhos, Bridges mostra porque é um dos grandes atores americanos. Pfeiffer é o corpo do filme. Briges é a alma.

quinta-feira

CRIMES E PECADOS

CRIMES E PECADOS (Crimes and misdemeanors, 1989, Orion Pictures, 104min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Alan Alda, Martin Landau, Anjelica Huston, Claire Bloom, Sam Waterston, Jerry Orbach. Estreia: 13/10/89

3 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Ator Coadjuvante (Martin Landau), Roteiro Original

Em sua vasta carreira como cineasta, onde comédias sofisticadas dividem espaço com dramas existenciais profundos e densos, Woody Allen criou quase que um universo próprio, facilmente reconhecível dentro de sua filmografia. Mesmo que nem sempre acerte em cheio - ainda que até mesmo seus filmes menores sejam excelentes -, Allen de vez em quando aparece no auge de seu ofício, entregando à plateia filmes tão sensacionais que é difícil não reconhecer sua importância seminal no cinema americano. Um desses exemplos é "Crimes e pecados", um trabalho impecável de roteiro e direção, que é quase que uma reunião do que de melhor ele pode oferecer ao público. Um certo senso de humor melancólico, neuroses urbanas e uma dose de pessimismo (realismo?) fazem do ... do diretor uma de suas obras-primas. E para isso, ele não precisou nem de grandes astros nem de um orçamento estratosférico. Não foi ao Vietnã (como em "Nascido em 4 de julho"), não assumiu nenhum tom paternalista em relação à velhice (como em "Conduzindo Miss Daisy") nem falou de superações pessoais (como em "Em nome do pai"). "Crimes e pecados" fala de pessoas simples, com problemas que lhes atormentam a alma. Talvez por isso não tenha encontrado lugar entre os finalistas ao Oscar principal - ainda que tenha concorrido nas categorias de diretor, roteiro original e ator coadjuvante.

Retomando a ciranda de relacionamentos com que já havia brincado em "Hannah e suas irmãs" - com matizes mais leves e também bem-sucedidos - Allen conta várias histórias paralelas que se encontram sutilmente, graças a um roteiro bem costurado. O próprio diretor interpreta Cliff Stern um documentarista que se vê obrigado a ir contra os próprios ideais ao aceitar conduzir um programa de TV enfocando seu cunhado, o produtor de televisão Lester (Alan Alda, sensacional). Durante o processo, ele se apaixona pela produtora do show, Halley Reed (Mia Farrow), em quem reconhece uma alma parecida com a sua. Além de Lester, Cliff é também cunhado de Ben (Sam Waterston), um rabino sábio e inteligente que está em vias de perder a visão. Por isso, ele frequenta o consultório do renomado Judah Rosentahl (Martin Landau, indicado ao Oscar de coadjuvante), um homem aparentemente em paz com a vida mas que esconde uma terrível angústia: sua amante Delores Paley (Anjelica Huston) está ameaçando revelar seu caso com ele e ainda por cima denunciar uma fraude cometida anos antes.


As personagens de "Crimes e pecados" estão entre as melhores já criadas por Woody Allen. O roteiro investiga, de forma concisa e inteligente, os questionamentos humanos em relação à fé e a justiça divina. A visita de Judah à casa onde passou a infância (homenagem explícita a Ingmar Bergman), por exemplo, é um primor, assim como a conversa imaginária que ele tem com o rabino Ben, quando decide finalmente eliminar seus problemas da maneira menos ética possível, recorrendo a um assassinato. Segundo o filme, "o olho de Deus tudo vê", mas também segundo o roteiro, Deus pode ser apenas uma ideia, o que concede à humanidade e a seus atos uma aleatoriedade triste mas realista. Fugindo do otimismo de "Hannah", Allen é cético e quase cínico em sua abordagem sobre as pessoas e suas relações, o que se retrata na opção de Halley em abandonar seus ideais em nome do sucesso e na escolha de Judah em seguir o caminho mais "fácil" para sentir-se livre das pressões que o afligem.

Poucas vezes o cinema de Woody Allen foi tão contundente quanto em "Crimes e pecados". Infelizmente!

quarta-feira

PECADOS DE GUERRA

PECADOS DE GUERRA (Casualties of war, 1989, Columbia Pictures, 121min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: David Rabe, livro de Daniel Lang. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Bill Pankow. Música: Ennio Morricone. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Wolf Kroeger/Peter Hancock, Hugh Scaife. Casting: Lynn Stalmaster. Produção: Art Linson. Elenco: Michael J. Fox, Sean Penn, John C. Reilly, John Leguizamo, Don Harvey, Thuy Thu Le. Estreia: 18/8/89

Depois da chuva de Oscar e do sucesso de crítica e bilheteria de "Platoon", Hollywood abriu de vez as portas a filmes versando sobre o Vietnã, um tema até então tabu entre os estúdios - ainda que "O franco-atirador" e "Apocalypse now" tenham tido seu quinhão de prestígio. No mesmo ano em que o mesmo Oliver Stone de "Platoon" mostrou outro ângulo do conflito no contundente "Nascido em 4 de julho", outro cineasta de primeiro time embarcou na tendência. Ainda no embalo do merecido sucesso de "Os intocáveis", Brian DePalma comandou "Pecados de guerra", uma história real de crueldade e violência que, apesar de não fazer o devido barulho junto às cerimônias de premiação - nem tampouco nas caixas registradoras - é forte o bastante para ser considerada um dos pontos altos de sua carreira irregular.

No ar nos EUA como um dos protagonistas da série "Caras e caretas" e marcado como o adolescente Marty McFly dos filmes "De volta para o futuro", Michael J. Fox, tentou, em "Pecados de guerra" provar que não era um ator tão limitado quanto seus detratores alegavam (e Sean Penn, seu colega de elenco, utilizava dessas críticas nos bastidores, para provocar reações mais intensas na sua relação no filme, incentivado pelo diretor). Fox vive o jovem soldado Eriksson, mais um entre os milhares de americanos que foram lutar por seu país na guerra do Vietnã. Ético, pacífico e honrado, ele testemunha horrorizado as atrocidades que o conflito desperta na humanidade, tentando compreender o que acontece à sua volta. Sua indignação chega a extremos, no entanto, quando, liderados por um colega de pelotão, o sádico Meserve (Sean Penn), um grupo de soldados sequestra, estupra e mata uma jovem camponesa. Chocado, ele resolve levar a questão a instâncias superiores, mas esbarra na indiferença que norteia os crimes cometidos em nome da paz.



Deixando de lado os movimentos estonteantes de câmera que caracterizaram seus primeiros trabalhos, DePalma atinge, em "Pecados de guerra" um outro nível em sua obra. Confiando na força da história, das personagens e da mensagem pacifista como um todo, o homem que legou ao gênero suspense filmes como "Carrie, a estranha" e "Doublé de corpo" concentra-se mais em criar o clima de desesperança e angústia dos soldados envolvidos no incidente do que em uma edição picotada ou uma violência exarcebada. Apesar de tratar-se de um filme de guerra, o sangue que corre na história de Eriksson não é o sangue de soldados em batalha e sim de civis, de gente inocente vitimizada por um horror sem fim. Sintomaticamente, a cena mais sanguinolenta do filme é a morte estúpida da jovem raptada por Meserve e cia - que tem lugar justamente fora do front propriamente dito.

E em mais um reflexo de sua intenção primordial de escorar sua obra em pessoas reais e não em efeitos de fotografia, DePalma escolheu um elenco não apenas adequado, e sim extremamente inteligente. Se Michael J. Fox sai-se muito bem na pele do atarantado Eriksson, fugindo com competência da persona adolescente forjada por seus papéis mais famosos, seu elenco coadjuvante não fica atrás. John C. Reilly - estreando no cinema - e John Leguizamo - alguns anos antes de seu assustador "Benny Blanco from the Bronx", do filme "O pagamento final", também de DePalma - seguram bem a barra de servir de escada para o duelo entre o protagonista e o "vilão", interpretado por um já sensacional Sean Penn.

Ainda no início de sua carreira - e já dono de uma personalidade forte como intérprete - Penn assusta e fascina como o insensível Meserve, um rapaz transformado em quase-animal que vê na possibilidade de cometer atrocidades e ser perdoado por elas uma forma de legitimar sua falta de humanidade - ele é uma espécie de retrato de uma juventude inconsequente e cruel, vista com complacência por uma sociedade deturpada por valores morais e éticos equivocados.

Ao questionar não apenas a guerra em si mas também as engrenagens que levam humanos a tornarem-se armas beligerantes e amorais diante de situações extremas, "Pecados de guerra" merece ser louvado e admirado.

terça-feira

VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO

VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO (Sea of love, 1989, Universal Pictures, 112min) Direção: Harold Becker. Roteiro: Richard Price. Fotografia: Ronnie Taylor. Montagem: David Bretherton. Música: Trevor Jones. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: John Jay Moore/Gordon Sim. Casting: Mary Colquhoun. Produção: Martin Bregman, Louis A. Stroller. Elenco: Al Pacino, Ellen Barkin, John Goodman, Richard Jenkins, Michael Rooker, William Hickey, Samuel L. Jackson. Estreia: 15/9/89

Foi preciso 4 anos para que Al Pacino se recuperasse do trauma de "Revolução", lançado em 1985. Fracasso de crítica e de público, o filme  afastou Pacino das telas por um longo período, em que o ator que deu vida a personagens antológicas como Michael Corleone e Serpico, dedicou-se ao teatro, sua maior paixão. Seu retorno, em 1989, pode não ter sido em um filme com potencial de Oscar ou algo parecido, mas provou que seu carisma ainda tinha fãs o suficiente para lotar salas de cinema. "Vítimas de uma paixão", o veículo que o devolveu às telas, é um policial eficiente que adiciona ao gênero um elemento que viraria moeda corrente poucos anos depois: uma alta carga erótica.

Ainda que bem menos explícito do que "Instinto selvagem", por exemplo, "Vítimas de uma paixão" recorre a tórridas cenas entre seus protagonistas, mas, ao contrário do filme que elevou Sharon Stone ao status de musa sexy absoluta dos anos 90, aqui as cenas de sexo funcionam não para estabelecer um estado de dominação física, mas principalmente como um canal para deixar claro as carências de suas personagens centrais, ambos perdidos em um mar não de amor como diz a canção-título, mas de solidão e melancolia. Se não, vejamos.


Frank Keller (vivido por um Pacino menos agressivo e mais sutil) é um policial de Nova York que ainda não aceitou o fato de perder a esposa para um colega de trabalho (Richard Jenkins). Utilizando o álcool como válvula de escape para suas noites tediosas, ele acaba envolvido na investigação de uma série de crimes: homens que publicaram anúncios em jornal procurando mulheres estão sendo assassinados a tiros, enquanto um disco de 48rpm com a canção "Sea of love" jaz no toca-discos. Para pegar a assassina, Keller e seu parceiro tem a ideia de publicar anúncios, também, e assim, de posse das impressões digitais das suspeitas, chegar até a criminosa. No entanto, o policial, solitário e triste, se apaixona por Helen (Ellen Barkin), uma mãe solteira que trabalha como vendedora de sapatos e, no auge de seus sentimentos, passa a negar, inclusive pra si mesmo, que ela pode ser a responsável por todas as mortes.



O mais inteligente do roteiro do escritor Richard Price é a sua opção em não fixar-se única e exclusivamente na investigação policial nem tampouco na relação íntima entre Keller e Helen. Ao equilibrar esses dois polos da ação, ele consegue tanto agradar aos fãs de filmes policiais quanto àqueles que procuram algo mais no gênero - no caso, um estudo, ainda que não exatamente profunda, como convém, da solidão. Os dois protagonistas são pessoas comuns que tentam, cada um a sua maneira, sobreviver em um mundo individualista, com seus problemas pessoais ameaçando perigosamente sua felicidade. Enquanto a plateia acompanha a busca pela violenta assassina de homens solitários, o filme de Harold Becker aproveita para contar uma pungente história de amor e falta de esperança.

"Vítimas de uma paixão" não é - e nem se pretende - um filme para ficar marcado na mente da audiência como uma obra-prima do gênero. Mas ao fugir do feijão-com-arroz básico, atinge um patamar acima dos seus congêneres. E contar com Al Pacino como protagonista é sempre uma ajuda e tanto!

segunda-feira

HARRY & SALLY, FEITOS UM PARA O OUTRO

HARRY & SALLY, FEITOS UM PARA O OUTRO (When Harry met Sally, 1989, Castle Rock Entertainment, 96min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Nora Ephron. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Robert Leighton. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Jane Musky/George R.Nelson, Sabrina Wright-Basile. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção: Rob Reiner, Andrew Schneiman. Elenco: Billy Cristal, Meg Ryan, Carrie Fisher, Bruno Kirby. Estreia: 21/7/89

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Não há dúvida de que "Harry e Sally, feitos um para o outro" deve muito a Woody Allen. Por mais que em sua essência o filme de Rob Reiner seja milhares de vezes mais romântico do que qualquer trabalho do veterano diretor nova-iorquino - com a possível exceção do doce "Manhattan" -, suas semelhanças são tão óbvias que só resta ao espectador - mesmo os detratores do cineasta - sorrir frente a essa carinhosa e bem-sucedida homenagem.

Escrito por Nora Ephron - que mais tarde seria a diretora de outras duas comédias românticas estreladas por Meg Ryan, "Sintonia de amor" e "Mensagem para você" - o roteiro de "Harry e Sally" é um perfeito equilíbrio entre uma engraçadíssima comédia de costumes (sociais, sentimentais) e uma doce (mas nunca piegas) história de amor. É um exemplo mais que perfeito de filme destinado a tornar-se clássico e atemporal, principalmente devido a seus diálogos luminosos, seus insights inspirados e à perfeita escalação da dupla central de atores. Em nenhum outro momento de suas carreiras, Meg Ryan e Billy Cristal foram tão felizes quanto aqui. Mais do que qualquer outra coisa, eles são, na memória do público, para sempre, Sally Albright e Harry Burns.

Sally Albright é uma jovem bonita, inteligente e com séria tendência a ser controladora - a ponto de fazer pedidos em restaurantes de forma extremamente detalhista. Harry Burns é um homem também inteligente, mas dado a crises de melancolia e pessimismo - a ponto de ler sempre a última página de um livro logo que o compra, para o caso de morrer antes de chegar ao seu final. Eles se conhecem em 1977, quando viajam no mesmo carro de Chicago a Nova York, para onde estão se mudando. Durante a viagem nenhum deles fica com a melhor das impressões do outro e se despedem sem maiores dramas. Cinco anos depois, já formada em jornalismo a namorada de um assessor político, Sally encontra Harry - de casamento marcado - em uma viagem de avião e novamente eles não se sentem particularmente tristes quando chegam a seu destino. É somente alguns anos depois que eles se reencontram e - contrariando a máxima de Harry que diz que homens e mulheres não podem ser amigos sem que haja sexo no meio - iniciam uma promissora amizade. Apoiando um ao outro em suas relações equivocadas, dividindo noites solitárias e sem querer promovendo casais, eles são os últimos a perceber que estão se apaixonando aos poucos.


Fotografada com uma beleza de tirar o fôlego em uma Nova York iluminada e cercada por uma trilha sonora repleta de standars do jazz cantadas por Harry Connick Jr., a história de amor entre Harry e Sally é contada com bom humor, leveza e as pitadas de sarcasmo e ironia de que a mente aguçada de Nora Ephron é capaz. Ao criar uma Sally bastante calcada em sua própria personalidade - reza a lenda que uma aeromoça perguntou-lhe se ela havia assistido ao filme quando ela começou a detalhar a maneira como queria seu prato durante um vôo - Ephron criou uma personagem cativante, simpaticamente irritante e dotada de uma voz própria, lindamente interpretada por Meg Ryan no auge de seu carisma e beleza. E Harry, do alto de sua auto-suficiência de macho, também é capaz de verter lágrimas pelo amor de uma mulher, o que o aproxima eficazmente do coração da plateia - seja ela masculina ou feminina. A química entre os quatro - personagens e atores - é de ouro, e são esses detalhes - roteiro esperto e um elenco impecável - que fazem com que "Harry e Sally" seja o modelo para todas as comédias românticas feitas desde então.

Dono de pelo menos uma cena antológica - a do falso orgasmo de Sally em um restaurante lotado - e repleto de diálogos que soam como música, "Harry e Sally" é provavelmente a melhor comédia romântica da história.

domingo

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS (Dead Poets Society, 1989, Touchstone Pictures, 128min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Tom Schulman. Fotografia: John Seale. Montagem: William Anderson. Música: Maurice Jarre. Direção de arte/cenários: Wendy Stites/John Anderson. Casting: Howard Feuer. Produção: Steven Haft, Paul Junger Witt, Tony Thomas. Elenco: Robin Williams, Ethan Hawke, Robert Sean Leonard, Josh Charles, Kurtwood Smith, Melora Walters. Estreia: 09/6/89

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Peter Weir), Ator (Robin Williams), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

É preciso dar a mão à palmatória: de vez em quando o público médio consegue surpreender até o mais cético dos especialistas em mercado. Foi isso que aconteceu com "Sociedade dos poetas mortos". Lançado no mesmo ano - e na mesma temporada competitiva - que "Indiana Jones e a última cruzada" e o marketing agressivo e espalhafatoso do primeiro "Batman" de Tim Burton, o belo filme dirigido pelo australiano Peter Weir não só conseguiu a proeza de concorrer a 4 importantes Oscar - filme, direção, ator e roteiro original - como ainda por cima arrecadou quase 100 milhões de dólares somente nos EUA. Mesmo contando com a protagonização de Robin Williams, então um astro considerável, o sucesso do filme foi uma grande surpresa principalmente devido a uma particularidade: ao contrário de explosões, humor escatológico e sexo selvagem, a trama de Tom Schulman versava sobre poesia, amizade, esperança e sonhos despedaçados. Ou seja, nada que chamasse a atenção do público, pelo menos aparentemente.

Passada em 1959 - portanto, antes de dois maiores traumas norte-americanos da época, o assassinato de Kennedy e a guerra do Vietnã - a história criada por Schulman é um primor de delicadeza e inteligência, nunca abusando desses ingredientes e equilibrando-os com o carisma radiante de Williams (merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Ator). Na época ainda conhecido por seus papéis em comédias como "Popeye" (o fracassado projeto de Robert Altman), o ator dá um show de sutileza ao interpretar John Keating, um professor de Literatura que transforma a vida de um grupo de alunos em uma escola preparatória para rapazes, a tradicional Welton Academy. Substituindo um mestre aposentado, ele surpreende a todos com métodos heterodoxos de ensino. Logo em sua primeira aula, ele manda que todos arranquem as páginas iniciais de um livro de poesia, afirmando que medir a poesia através de gráficos não é a forma correta de se apreciá-la. A partir daí, declama Shakespeare imitando John Wayne e Marlon Brando, recita Thoreau e Walt Whitman sem empolação e, com isso incentiva os meninos a recriarem um projeto de seus tempos de estudante: a Sociedade dos Poetas Mortos. Inspirado por Keating, o tímido Todd Anderson (Ethan Hawke) tenta fugir de seu medo do mundo, o romântico Knox Overstreet (Josh Charles) vai em busca de conquistar o amor da mulher que ama e o ultraprotegido Neil Perry (Robert Sean Leonard) desafia os pais para lutar por seu sonho de ser ator de teatro.


O impacto emocional de "Sociedade dos poetas mortos" é imenso, graças a uma conjunção de fatores que faz dele um dos mais comoventes dramas "de professor" já realizados por Hollywood. O roteiro preciso, simples e catártico de Tom Schulman levou o Oscar da categoria por merecimento inegável. A belíssima fotografia de John Seale, que retrata as quatro estações do ano com singeleza ímpar é de encher os olhos. A trilha sonora de Maurice Jarre conquista pela mistura perfeita entre composições próprias e música clássica de primeira linha. A direção de arte é primorosa e a direção de Weir é provavelmente a melhor de sua carreira (e isso que falamos do homem por trás de "A testemunha" e o posterior "O show de Truman"). Mas é em seu elenco impecável que "Sociedade dos poetas mortos" marca o maior gol de todos.

Se como John Keating Robin Williams provou sem sombra de dúvida que é um grande ator, são seus coadjuvantes que ficam na memória dos espectadores. Williams é generoso ao abrir espaço para seus colegas de cena, responsáveis por alguns dos momentos mais arrepiantes do longa. Como Todd Anderson, Ethan Hawke demonstra uma maturidade surpreendente e como Neil Perry, o estreante Robert Sean Leonard conquista a audiência cena a cena, até chegar a seu dramático clímax - de deixar qualquer um com o rosto lavado de lágrimas.O que Keating ensina a seus alunos - e por conseguinte ao público - é viver com lealdade a seus ideais, com esperança e com ideias próprias. Incomodou seus superiores. Encantou as plateias.

sábado

INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA


INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA (Indiana Jones and the last crusade, 1989, Paramount Pictures, 127min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Jeffrey Boam, história de George Lucas, Menno Meyjes. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Joanna Johnston, Anthony Powell. Direção de arte/cenários: Elliot Scott/Peter Howitt. Casting: Maggie Carter, Mike Fenton, Valorie Massalas, Judy Taylor. Produção executiva: George Lucas, Frank Marshall. Roteiro: Robert Watts. Elenco: Harrison Ford, Sean Connery, Denholm Elliot, Allison Doody, River Phoenix, John Rhys-Davies. Estreia: 24/85/89

3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros

Um dos maiores problemas encontrados por Hollywood quando se trata de realizar continuações de seus maiores sucessos de bilheteria chama-se criatividade. Dificilmente sequências de filmes bem-sucedidos encontram equilíbrio entre crítica e público, afundando em auto-referências e o pior de tudo, preguiça. Felizmente Steven Spielberg pode ser considerado tudo, menos sem criatividade e preguiçoso. Talvez por isso "Indiana Jones e a última cruzada", terceiro capítulo da saga do mais famoso arqueólogo do cinema tenha conseguido o feito de agradar a gregos e troianos - diferentemente da segunda parte, que foi considerada violenta demais para o público infanto-juvenil. Desta vez, Spíelberg não errou a mão em nada: a receita tem muita ação, bom humor, um pouco de romance e o melhor de tudo, duas novidades empolgantes no elenco.

Rejeitando a regra que diz que não se mexe em time que está ganhando, o diretor acrescentou à vitoriosa fórmula dos filmes anteriores duas aquisições de gerações diferentes, visando atingir todas as faixas de público: o veterano Sean Connery e o jovem River Phoenix juntam-se a Harrison Ford, Denholm Elliot e John Rhys-Davies em duas horas de um entretenimento saudável, divertido e que não deve absolutamente nada a seus predecessores. "Indiana Jones e a última cruzada" é uma digna exceção à regra que dita que continuações são sempre sofríveis.


A trama de "A última cruzada" se passa três anos depois das aventuras do primeiro filme. O nazismo ainda é uma ameaça à paz mundial e Indiana Jones recebe a missão de encontrar mais um artefato religioso que pode conceder poderes sobrenaturais. Enquanto no primeiro capítulo ele corria atrás da Arca Perdida que continha os Dez Mandamentos, desta vez ele precisa localizar o Cálice Sagrado utilizado por Cristo na última ceia, objeto que, segundo a lenda, pode dar a imortalidade a seu dono. Intrigado com a possibilidade, logo ele se vê praticamente obrigado a embarcar na aventura, ao descobrir que seu pai, Henry Jones (vivido por Connery) desapareceu em vias de saber a exata localização do ambicionado cálice.

Assim como nas aventuras anteriores de Indiana Jones, o público é brindado com um filme que, a despeito de suas sequências de ação ininterruptas, não descuida em momento algum do roteiro, repleto de diálogos saborosos e inteligentes. Ao eleger novamente como vilões os nazistas, Spielberg e cia mais uma vez acertam o alvo - o Mal como entidade não poderia ser melhor representado, afinal. Sem que muito sangue seja derramado - pelo menos em frente às câmeras - o Bem triunfa, como convém ao estilo escapista criado pelo cineasta em "Os caçadores da Arca Perdida" e meio esquecido em "O templo da perdição". Ao resgatar o espírito mais leve da primeira aventura de Jones, "A última cruzada" resgata também o bom-humor que lhe fazia falta. E para isso, a escalação de Sean Connery mostrou-se providencial.

Escalado até mesmo como forma de homenagem aos filmes de 007 que inspiraram a criação da personagem Indiana Jones, Connery rouba as cenas em que aparece, como um pai jovial, conquistador e tão dado a aventuras quanto o filho. O fato dos dois dividirem a atenção da mesma mulher (interpretada por Alisson Doody) é sintomático. Aqui, Indiana Jones não é o centro das atenções: ele divide tudo com seu progenitor.

E é impossível negar também o excelente prólogo criado para explicar alguns detalhes da biografia do protagonista. Na pele de River Phoenix, Jones aos 16 anos sofre o acidente que lhe deixa a cicatriz no queixo, encontra pela primeira vez seu famoso chicote e passa a sofrer de seu conhecido terror de cobras. Como uma espécie de preparação para a série de TV "O jovem Indiana Jones" (injusto fracasso), esses primeiros quinze minutos são a cereja de um bolo saboroso e que deixa um gostinho de quero mais - infelizmente esse mais viria somente quase vinte anos depois...

sexta-feira

ATRAÇÃO MORTAL

ATRAÇÃO MORTAL (Heathers, 1989, New World Pictures, 103min) Direção: Michael Lehmann. Roteiro: Daniel Waters. Fotografia: Francis Kenny. Montagem: Norman Hollyn. Música: David Newman. Figurino: Rudy Dillon. Direção de arte: Jon Hutman. Casting: Sally Dennison. Produção executiva: Christopher Webster. Produção: Denise Di Novi. Elenco: Winona Ryder, Christian Slater, Shannen Doherty, Lisanne Falk, Kim Walker. Estreia: 31/3/89

Houve uma época em que Winona Ryder e Christian Slater eram promessas em Hollywood. Ryder até que não foi mal, chegando a ser indicada a dois Oscar e sendo dirigida por nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e Woody Allen, antes de começar a figurar mais nas páginas policiais do que no caderno de cultura. Mas Slater nunca chegou a tornar-se um astro de primeira grandeza, apesar de chegar quase lá com filmes como "Entrevista com o vampiro" (em que ficou com o papel de River Phoenix após sua inesperada morte). Quando se assiste a "Atração mortal" fica claro o motivo pelo qual as coisas não correram como o esperado para ele. A comédia adolescente de humor negro dirigida por Michael Lehmann (hoje diretor de vários episódios da bem-sucedida série de TV "True blood") recebeu elogios rasgados em sua estreia, levou um Independent Spirit Award de "Melhor Primeiro Filme" e tornou-se cult. Mas visto com a distância dos anos, é um filme que só vale mesmo pelas intenções e pela presença de Winona.

O filme, escrito por Daniel Waters - que nunca escreveu coisa que prestasse, a julgar pelo roteiro de "Hudson Hawk", com Bruce Willis - se passa em uma escola secundária americana, cenário típico dos filmes de John Hughes. No entanto, ao contrário de "A garota de rosa shocking", por exemplo, a protagonista, Veronica Sawyer (Ryder) não é uma adolescente que sonha passivamente em ser notada e amada. Veronica faz parte da turma das Heathers, três jovens belas, populares e invejadas de sua escola. Sentindo-se mal em aprontar com os colegas considerados inferiores pelas amigas, ela conhece e se apaixona por JD (Slater), um rapaz rebelde e metido a conquistador. Durante uma brincadeira que eles resolvem fazer com a líder do grupo, eles acidentalmente acabam matando-a e para despistar, forjam uma cena de suicídio. A partir daí, JD tenta convencer Veronica a matar todos os seus desafetos escolares, sempre deixando indícios que eles mesmos atentaram contra a própria vida.



Na verdade, a ideia de "Atração mortal" é bastante interessante e inteligente. A trama brinca com o vazio de uma geração regada a Coca-cola e shopping-centers e usa e abusa da ironia para provar seu ponto de vista. O problema é que muitas vezes tudo soa como uma piada extendida demais, com um ritmo prejudicado por uma edição que se pretende modernosa mas que incomoda devido a sua falta de timing. O final também sofre de uma espécie de esquizofrenia, com um tom substancialmente diferente do empregado em seus primeiros dois terços. Se era pra ser irônico, não funcionou.

Mas é Christian Slater quem, definitivamente, incomoda mais. Copiando descaradamente os trejeitos de Jack Nicholson, ele parece esquecer que, além de ter um estilo próprio, Nicholson tem talento e inteligência. Atuando com as sobrancelhas mais do que com o cérebro, Slater criou uma personagem irritantemente cool, que em nenhum momento seduz a plateia ou a convence de seus ideiais. Sua interpretação risível parece até contaminar a deliciosa Winona, que tenta o possível e o impossível para destacar-se em meio a tanto sarcasmo mal direcionado.

"Atração mortal" pode parecer atraente em um primeiro momento e talvez o seja, para quem não se importar com o "charme" trash que carrega em todas as cenas. Tem uma ideia bastante apropriada e uma estrela começando sua ascensão. Mas não merece toda a aura cult que o rodeia.

quinta-feira

CEMITÉRIO MALDITO

CEMITÉRIO MALDITO (Pet sematary, 1989, Paramount Pictures, 103min) Direção: Mary Lambert. Roteiro: Stephen King, romance "O cemitério", do mesmo autor. Fotografia: Peter Stein. Montagem: Daniel P. Hanley, Mike Hill. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Michael Z. Hanan/Kathe Klopp. Casting: Pamela Basker, Fern Champion. Produção executiva: Tim Zinnemann. Produção: Richard P. Rubinstein. Elenco: Dale Midkiff, Fred Gwyne, Denise Crosby. Estreia: 21/4/89

Constantemente insatisfeito com as adaptações cinematográficas feitas a partir de seu trabalho - insatisfação que incluía até mesmo sucessos como "O iluminado", de Stanley Kubrick e "Carrie, a estranha", de Brian DePalma- o escritor Stephen King resolveu tomar as rédeas de sua carreira nas telas com a adaptação de seu romance "O cemitério". Dirigido por Mary Lambert, cujo currículo apresentava como ápice o videoclipe "Like a prayer", de Madonna, "Cemitério maldito" não só foi roteirizado por King como ainda mostra o autor em uma participação especial, como um pastor. Lambert não pode ser sequer comparada com Kubrick e DePalma, mas é injusto negar que seu filme tem várias qualidades que agradaram plenamente os fãs do gênero - além de lhe dar a chance de dirigir um segundo e desnecessário capítulo, lançado alguns anos depois. Como é comum acontecer nas versões para o cinema da obra do escritor de terror mais cultuado do século XX,

A história começa quando a família do médico Louis Creed (Dale Midkiff) muda-se para uma cidadezinha do Maine para que ele comece a trabalhar em uma faculdade local. Logo que chegam eles conhecem e fazem amizade com um velho vizinho, o misterioso Jud (Fred Gwyne) e descobrem que atrás de sua propriedade existe um cemitério de animais. Depois que o gato de sua filha pequena morre, Louis fica sabendo que existe também um cemitério indígena, de onde os mortos podem voltar à vida, ainda que transformados pela experiência da morte. Quando uma tragédia se abate sobre a família, com a morte do pequeno Gage, atropelado por um caminhão, o médico toma uma decisão radical para trazer seu filho de volta à vida.


Prejudicado pela falta de empatia do casal central - péssimos atores sem nenhum carisma -, o filme, que tem o visual datado como qualquer produto dos anos 80, peca também por não desenvolver a contento todas as possibilidades da interessante premissa inicial. A discussão sobre vida e morte, que poderia tranqüilamente ser inserida de maneira inteligente e até comovente é passada a largo por um roteiro que prefere deter-se em sustos fáceis (alguns funcionam muito bem, outros nem tanto). O terço final do filme, depois da ressurreição de Gage, por exemplo, é de um superficialismo constrangedor, que enfraquece o conjunto e leva a um desfecho que, ao invés de ser angustiante chega a ser risível.

Nem tudo está perdido, no entanto. Em muitos momentos Lambert consegue transmitir tensão e suspense, o que se espera de um filme do gênero. Fred Gwyne, da série “Família Monstro” tem o visual apropriado a sua misteriosa personagem e os flashbacks que pontuam a trama, ao invés de atrapalhar o ritmo, como normalmente acontece, tornam a história ainda mais interessante (a subtrama que fala sobre a falecida irmã da protagonista, vítima de meningite espinhal é apavorante, por exemplo). Mas é difícil para os espectadores não exatamente apaixonados pelo gênero se envolver a contento com a trama, principalmente por causa do elenco fraquíssimo.

No final das contas, "Cemitério maldito" cumpre o que promete aos fãs, ainda que com uma superficialidade que pode incomodar quem procura algo mais. E para quem gosta de música pesada os créditos finais ainda têm uma surpresa: o hit “Pet sematary”, composto especialmente para o filme pelo grupo Ramones.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...