segunda-feira

E AGORA, MEU AMOR?

E AGORA, MEU AMOR? (Fools rush in, 1997, Columbia Pictures, 109min) Direção: Andy Tennant. Roteiro: Katherine Reback, estória de Joan Taylor, Katherine Reback. Fotografia: Robbie Greenberg. Montagem: Roger Bondelli. Música: Alan Silvestri. Figurino: Kimberly A. Tillman. Direção de arte/cenários: Edward Pisoni/Leslie Morales. Produção executiva: Michael McDonnell. Produção: Doug Draizin. Elenco: Matthew Perry, Salma Hayek, Jill Claybourgh, Jon Tenney, Carlos Gomez, Siobhan Fallon, John Bennett Perry. Estreia: 14/02/97

No começo de 1997, poucos programas de tv eram tão populares e queridos quanto "Friends" - cujo sucesso só fez aumentar ainda mais nas temporadas seguintes. Nenhuma surpresa, portanto, que seus astros tentassem o caminho natural rumo em direção ao cinema, ainda considerado um veículo mais nobre e com mais status. Enquanto Jennifer Aniston já começava a brilhar em comédias românticas - como "Nosso tipo de mulher" (1996) e "Paixão de ocasião" (1997) -, Courteney Cox ganhava ainda mais fama com o primeiro capítulo de "Pânico" (1996) e Lisa Kudrow apostava na comédia, com "Romy & Michelle" (1997), o elenco masculino buscava arduamente ser reconhecido além de seus personagens mais célebres. Se David Schwimmer havia tentado a sorte no elogiado mas pouco visto "O primeiro amor de um homem" (1996) - ao lado de uma Gwyneth Paltrow pré-Oscar - foi Matthew Perry quem deu o passo mais bem-sucedido. Tudo bem que "E agora, meu amor?" não foi um sucesso avassalador de bilheteria - nem tampouco chegou a fazer barulho nas cerimônias de premiação do ano -, mas o romance dirigido por Andy Tennant conseguiu mostrar, ainda que de forma tímida, que o intérprete do sardônico Chandler Bing tinha mais a oferecer do que piadas ininterruptas. 

Simples e inofensivo, o filme de Tennant - que se especializaria em comédias românticas no decorrer dos anos 2000 - serve como um veículo perfeito para o carisma de Perry, um ator simpático e talentoso, capaz de provocar a identificação do público masculino sem maiores dificuldades. Na trama, ele interpreta Alex Whitman, um homem comum, que trabalha como supervisor no mercado de construção civil enquanto leva uma vida quase tediosa, se envolvendo aqui e ali em relações fugazes e sem profundidade. Uma dessas relações acontece durante uma viagem a Las Vegas, quando ele conhece a mexicana Isabel Fuentes (Salma Hayek) e passa a noite com ela. O que parecia apenas mais um caso passageiro logo se revela algo mais complicado, porém: alguns meses depois do encontro, a bela fotógrafa ressurge em sua vida com a notícia de que está grávida. Atônito com a novidade - e ciente de que a jovem não tem o menor interesse em interromper a gravidez, por motivos religiosos e morais -, Alex a pede em casamento. Mesmo diante do fato de que se conhecem muito pouco e que suas diferenças culturais e sociais podem ser um empecilho para o relacionamento, os dois se casam - e descobrem, com o passar dos meses, que estavam certos quanto às dificuldades de um compromisso tão precoce.

 

Se há alguma diferença entre "E agora, meu amor?" e dezenas de filmes do gênero é em sua tentativa - nem sempre feliz, mas bem intencionada - de retratar o choque cultural que nasce do encontro entre Alex e Isabel, duas pessoas de mundos cuja distância pode ser facilmente subestimada em um primeiro olhar. Alex tem uma relação quase distante com os pais (interpretados por Jill Claybourgh e John Bennett Perry, pai de Matthew também na vida real), enquanto Isabel tem a família - numerosa, ruidosa e onipresente - como base de sua existência. Isabel é católica fervorosa - e seu novo marido não é exatamente um sujeito religioso. Alex tem planos profissionais que pedem que ele more em Nova York; a futura mãe de seu filho não tem a menor intenção de abandonar Las Vegas e seu clamoroso clã. Tais diferenças - administráveis em um namoro, mas pouco remediáveis quando se começa uma família - formam o conflito que é praticamente todo o roteiro do filme. O problema é que, apesar de talentosa, a dupla central falha no principal: não há química entre o casal, e a paixão que surge entre eles soa pouco crível, tornando difícil o principal objetivo de uma comédia romântica, que é torcer pelo casal de protagonistas.

"E agora, meu amor?" é, na verdade, e em seu favor, um entretenimento despretensioso, que cumpre o que promete. Se não consegue ultrapassar os limites do mediano é somente porque o roteiro foge de qualquer ousadia narrativa e/ou profundidade dramática. Salma Hayek é linda - e em papel oferecido à Jennifer Lopez, que o recusou para estar em "Anaconda" (1997) -, mas não é exatamente uma atriz de grandes recursos (levaria ainda quase meia década para concorrer ao Oscar por "Frida" (2002)) e Matthew Perry, simpático e carismático, faz o que pode para extrair substância de um personagem muito aquém de seu talento cômico - e, segundo ele, foi durante as filmagens que um acidente de jetski aprofundou ainda mais seu vício em remédios controlados, problema que o atormentou durante décadas. Leve (até demais), "E agora, meu amor?" é o programa ideal para os fãs dos atores e do gênero. Mas não entrega mais do que se poderia esperar.

sexta-feira

TRÊS SOLTEIRÕES E UM BEBÊ

 


TRÊS SOLTEIRÕES E UM BEBÊ (Three men and a baby, 1987, Touchstone Pictures, 102min) Direção: Leonard Nimoy. Roteiro: James Orr, Jim Cruickshank, original de Coline Serreau. Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Michael A. Stevenson. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Larry Wells. Direção de arte/cenários: Peter Larkin/Jacques M. Bradette, Hilton Rosemarin. Produção executiva: Jean-François Lepetit. Produção: Robert W. Cort, Ted Field. Elenco: Tom Selleck, Steve Guttenberg, Ted Danson, Nancy Travis, Margaret Colin, Alexandra Amini. Estreia: 23/11/87

Em 1985, uma singela comédia francesa sobre um trio de amigos solteiros que tem sua rotina transformada com a chegada inesperada de uma menina recém-nascida pegou o mundo de surpresa e se tornou um dos maiores sucessos da temporada - não apenas em seu país de origem, mas também no mercado norte-americano, normalmente avesso a produções realizadas fora de seu domínio. Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, "Três homens e um bebê", escrito e dirigido por Coline Serreau, não demorou a chamar a atenção dos estúdios de Hollywood, que viram na trama elementos que casavam perfeitamente com a agenda conservadora do governo Reagan. Parte de um ciclo que festejava o casamento e a família e que gerou filmes como "Presente de grego" (1987), "Ela vai ter um bebê" (1989) e "Olha quem está falando" (1989) - além do polêmico "Atração fatal" (1987), um verdadeiro libelo pró-matrimônio, disfarçado sob um verniz de thriller -, o remake do filme de Serreau encontrou na Touchstone Pictures o lugar ideal para ser desenvolvido, depois de passar pela TriStar e pela Universal: nada como uma ramificação da Disney, afinal, para abrigar um projeto tão inofensivo. E, como não poderia deixar de acontecer, "Três solteirões e um bebê" repetiu, nas bilheterias americanas (e mundiais) o sucesso de seu original e foi ainda mais além, terminando a temporada com uma renda superior a 160 milhões de dólares - um êxito incontestável que permitiu, três anos depois, a realização de uma sequência desnecessária e de pouca repercussão, "Três solteirões e uma pequena dama".

O projeto do remake da comédia francesa contava, em seus primeiros momentos, com a presença da própria Coline Serreau - que chegou a participar da escolha dos atores principais (um processo longo que cogitou os nomes de praticamente todo e qualquer astro ou potencial astro da época). Sua saída de cena deu lugar a Leonard Nimoy - cuja experiência como diretor (restrita a dois longas de "Jornada nas estrelas", um telefilme e alguns episódios de telesséries) não foi suficiente para evitar desgastes com o elenco masculino, frequentemente questionando seus métodos de trabalho. E se a direção de Nimoy não chega a ser brilhante ou dotada de uma criatividade capaz de amenizar a fragilidade do roteiro, tampouco compromete o resultado final. Simpático mas superficial, "Três solteirões e um bebê" diverte (ao menos em sua primeira metade), encanta (graças à simpatia das pequenas Lisa e Michelle Blair) e pode até emocionar aos mais sensíveis, mas carece de personalidade e, afora sua premissa interessante, é pouco memorável e até mesmo decepcionante  - principalmente fora do contexto social em que foi lançado.


 

Entre as dez maiores bilheterias de 1987, ano em que "Três solteirões e um bebê" foi lançado, havia espaço para comédias românticas ("Feitiço da lua" e "Dirty dancing: ritmo quente"), filmes de ação ("Predador" e "Máquina mortífera) e sequências de sucessos já previamente testados ("Um tira da pesada 2" e "007: marcado para a morte"). Buscando uma parcela do público que preferia frequentar as salas de exibição para relaxar e se divertir sem maiores exigências, filmes como o remake comandado por Nimoy tentavam driblar a violência que enchia o cofre dos estúdios ao oferecer produções que pudessem agradar à família inteira - ou seja, sem sexo, sem sangue, sem mortes a rodo ou palavrões ofensivos. "Três solteirões" caiu como uma luva em tais intenções, ao explorar uma situação capaz de arrancar sorrisos até do mais cínico espectador. O problema nem era o fato de exagerar na construção quase infantil de seus protagonistas - um trio de heterossexuais metidos a conquistadores e incapazes da tarefa mais simples do dia-a-dia -, mas sim seu fracasso em expandir a piada única no qual todo o roteiro era baseado. Acrescentar à história uma desnecessária subtrama envolvendo tráfico de drogas não apenas truncava o ritmo a partir da metade - também, de certa forma, tornava quase incoerente seu discurso de "filme família (além de não convencer e ser chata). Retomar o rumo em seus minutos finais - um tanto inverossímeis - até conserta um pouco as coisas, mas qualquer um com um mínimo de exigência percebe que, apesar da premissa adorável, o filme é simplesmente bobo.

A trama segue as aventuras de três amigos que dividem um belo e amplo apartamento em Manhattan: o arquiteto Peter Mitchell (Tom Selleck em papel que chegou a ser considerado para Chevy Chase, Steve Martin, Bill Murray, Jack Nicholson, Paul Hogan e, pasmem, Arnold Schwarzenegger), o cartunista Michael Kellan (Steve Guttenberg, que ganhou o papel de nomes como Tom Hanks, Michael Keaton, John Travolta e Bruce Willis) e o ator Jack Holden (Ted Danson no lugar de Michael J. Fox, Tony Danza, Jeff Daniels, Danny Glover, Kevin Kline, Gary Oldman, Bill Pullman e Dennis Quaid) moram juntos e convivem pacificamente com suas rotinas que envolvem muitas mulheres, festas e absolutamente nenhum compromisso amoroso mais sério. As coisas mudam de figura quando, durante uma viagem de Jack a trabalho, seus amigos descobrem, à porta de sua casa, um bebê de poucos meses, deixado no local por uma antiga namorada. Enquanto lidam com as novas responsabilidades, os colegas acabam se apaixonando pela menina - mesmo que isso atrapalhe suas carreiras, seus fugazes relacionamentos e até seus valores. Quando a mãe do bebê ameaça retomar a filha, porém, eles se sentem incapazes de abrir mão de quem já consideram parte da família.

Sim, é agradável. Sim, o bebê é adorável e algumas situações são realmente engraçadas - especialmente no primeiro ato. E sim, a química entre os três atores centrais (no auge de sua popularidade) funciona como um relógio. Mas no final das contas, é pouco. O roteiro é quase preguiçoso, o desenvolvimento dos personagens é raso (nenhum dos protagonistas soa como alguém de verdade) e, como já dito, algumas subtramas atrapalham o ritmo da história. Porém, quem não se importa com tais "detalhes" terá, certamente, quase duas horas de um entretenimento inofensivo e esquecível.

quinta-feira

O GRANDE DITADOR


O GRANDE DITADOR (The great dictator, 1940, Charles Chaplin Productions, 125min) Direção e roteiro: Charles Chaplin. Fotografia: Karl Struss, Roland Totheroh. Montagem: Willard Nico. Música: Charles Chaplin, Meredith Wilson. Direção de arte/cenários: J. Russell Spencer/Edward G. Boyle. Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Jack Oackie, Reginald Gardiner, Henry Daniell, Billy Gilbert, Grace Hayle. Estreia: 15/10/40

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Charles Chaplin), Ator Coadjuvante (Jackie Oackie), Roteiro Original, Trilha Sonora Original

Por um bom tempo Charles Chaplin desejou realizar um filme sobre Napoleão Bonaparte - e em 1936 já tinha inclusive um script em mente para dar vazão à sua ambição. A ascensão política de Adolf Hitler e Benito Mussollini, no entanto, mudou seus planos: ciente da persona dramática e exagerada do ditador alemão e de suas possibilidades cômicas - além de ter sido alertado do fato de dividir com ele algumas características físicas -, Chaplin resolveu desenvolver uma trama que ridicularizasse o nascente nazismo e seu líder. Nascia, assim, "O grande ditador", que se tornaria o maior sucesso de bilheteria de sua carreira e um dos maiores clássicos do cinema. Indicado a cinco Oscar - incluindo melhor filme, ator e roteiro original - e celebrado como uma obra-prima corajosa e visionária, o filme não escapou de polêmicas à época de seu lançamento (e muito tempo depois) e sobrevive, até hoje, como uma das realizações fundamentais de seu criador, um dos ícones do cinema m udo.

Primeiro filme totalmente falado de Chaplin, "O grande ditador" começou a incomodar antes mesmo de iniciar suas filmagens. Com medo das represálias que um tema político poderia acarretar em um momento tão crítico, os estúdios tentavam demover o cineasta da ideia de fazer um filme que tinha como protagonista uma representação pouco disfarçada de um dos líderes mundiais. Incentivado por ninguém menos que Franklin D. Roosevelt, porém - que mandou um representante oficial para lhe dar apoio -, Chaplin foi adiante e financiou sozinho uma produção arriscada, demorada (539 dias de filmagens) e cujo sucesso era completamente imprevisível. Mais adiante, o diretor/ator/produtor declararia que, caso soubesse da extensão das atrocidades cometidas em nome de Hitler, jamais teria feito piada sobre o assunto - uma informação negada por pessoas próximas a ele, que afirmam que o avanço do nazismo não o impediu de manter inalterado seu objetivo de criar uma comédia sobre um assunto tão sério. É fato, porém, que quando a produção começou de verdade, em 1937, a violência nazista ainda estava muito aquém daquela que seria nítida em 1940, quando o filme finalmente viu a luz dos refletores - nove meses depois do lançamento de "You natzy spy!", curta-metragem estrelado pelos Três Patetas que entrou para a história como a primeira sátira anti-nazismo do cinema.

 

Depois de pronto, "O grande ditador" tampouco deixou de gerar controvérsia, por motivos óbvios. Banido da Espanha, onde só pode estrear em 1976, meses depois da morte de Francisco Franco, e de todos os países ocupados pela Alemanha, o filme acabou sendo abraçado pelo governo britânico como uma valiosa peça de propaganda - uma bem-vinda mudança de atitude que só aconteceu com a entrada do país na guerra contra Hitler e seus aliados. Nem o próprio Hitler, aliás, segundo consta, deixou de assistir o trabalho de Chaplin: biografias de Eva Braun afirmam, por exemplo, que o veto da produção em todo o território alemão (que vigorou até 1958) não impediu o chanceler germânico de assistir à comédia no mínimo duas vezes - e se divertir com ela. O mesmo não aconteceu, no entanto, com um grupo de soldados que teve a oportunidade de conferir o resultado em uma sessão nos Balcãs - com uma cópia contrabandeada da Grécia, membros da resistência apresentaram o filme aos fieis seguidores de Hitler (ignorantes do conteúdo até depois do começo da sessão) e testemunharam uma revolta que, conforme relatos, resultou até mesmo em tiros em direção à tela. Um resultado até mesmo previsível - principalmente em vista do enorme sucesso comercial do filme, cuja mensagem final, de paz e liberdade, destoavam completamente da beligerante ideologia nazista. 

Mas nem só de ideologia e crítica social vive um filme, e "O grande ditador" é, acima de tudo, excelente cinema. Sem abrir mão de seu genial talento para o humor físico, Charles Chaplin se aproveitou das vantagens do som para criar uma obra-prima que mescla, de forma magistral, sequências visuais impagáveis - especialmente em sua primeira metade e na célebre cena em que o ditador dança com um globo - com piadas verbais fascinantes - os discursos do histérico Hynkel, completamente nonsense, são inesquecíveis. A declaração final do protagonista (o barbeiro judeu confundido com o ditador) não tornou-se um clássico à toa: insistindo em mantê-la na edição definitiva - apesar de conselhos contrários -, Chaplin deixou clara e indelével sua posição em relação à guerra e ao fascismo. Se hoje seu discurso soa tristemente atual, pode-se dizer que, à época, ajudou a construir a ideia de que o cineasta era simpatizante do comunismo - fato que o levou ao exílio voluntário, anos mais tarde. Indicado ao Oscar de melhor ator, perderia para James Stewart (por "Núpcias de escândalo") e só retornaria à cerimônia da Academia em 1972, para receber um prêmio honorário em homenagem à sua contribuição ao cinema. Em 1973, voltou a concorrer - pela trilha sonora de "Luzes da ribalta", realizado em 1952 mas lançado em Los Angeles somente vinte anos mais tarde - e, no Natal de 1977, morreu tranquilamente em sua casa na Suíça, deixando um legado inestimável a públicos de todas as gerações.

 

quarta-feira

NINOTCHKA


NINOTCHKA (Ninotchka, 1939, MGM, 110min) Direção: Ernst Lubitsch. Roteiro: Charles Brackett, Billy Wilder, Walter Reisch, história original de Melchior Lengyel. Fotografia: William H. Daniels. Montagem: Gene Ruggiero. Música: Werner R. Heymann. Figurino: Adrian. Direção de arte/cenários: Cedric Gibbons/Edwin B. Willis. Elenco: Greta Garbo, Melvyn Douglas, Ina Claire, Bela Lugosi, Sig Ruman, Felix Bressart, Alexander Granach. Estreia: 23/11/39

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Greta Garbo), História Original, Roteiro Original

Quando Greta Garbo lançou seu primeiro filme falado, "Anna Christie", em 1930, o departamento de marketing da MGM não demorou a utilizar-se de tal evento para divulgar a produção - "Garbo fala!", lia-se em todo lugar. Quando, nove anos mais tarde o estúdio a confirmou na primeira comédia de sua carreira em Hollywood, não chegou a ser nenhuma surpresa que a mesma tática bem-sucedida fosse reciclada. Com o novo slogan "Garbo ri!", a campanha publicitária de "Ninotchka" despertou a curiosidade do público, que, seduzido mais uma vez pela bela e misteriosa estrela sueca, transformou o filme de Ernst Lubitsch em um dos grandes sucessos de bilheteria do ano e um dos maiores êxitos comerciais da atriz - que acabou perdendo o Oscar para Vivien Leigh ("... E o vento levou") mas mostrou à sua legião de fãs  e aos severos críticos um inesperado e insuspeito timing cômico. Lançado no mágico ano de 1939, junto com clássicos absolutos, como "O mágico de Oz", "No tempo das diligências", "A mulher faz o homem", "O morro dos ventos uivantes" e "A regra do jogo" - além do já citado "... E o vento levou" - "Ninotchka" é uma deliciosa comédia romântica, com diálogos espirituosos, um elenco impecável e uma direção elegante - que ameniza com folga a visão um tanto estereotipada da Rússia comunista.

A trama começa quando três oficiais russos chegam à Paris dos anos 1930 com o objetivo de vender joias da grã-duquesa Swana (Ina Claire), expropriadas pelo governo. O atrapalhado grupo vê seu objetivo interrompido, no entanto, pela proprietária do tesouro, que deseja ter de volta o que lhe pertence. Para isso, ela pede ajuda ao melífluo Leon D'Algout (Melvyn Douglas), que acaba por seduzir o trio - com visual emprestado de Trotsky, Lenin e Dzerzhinsky - com os luxos e os prazeres do mundo capitalista. A demora dos agentes em retornar à Rússia incomoda seus superiores, que decide então mandar à capital francesa uma oficial rígida e incorruptível, Ninotchka (Greta Garbo). Determinada a cumprir sua missão no menor período de tempo possível, a bela russa acaba por cair, inadvertidamente, nos braços de Leon, que se apaixona por sua personalidade séria e quase inatingível. Sem saber que ele está por trás do atraso na solução de seus problemas profissionais, Ninotchka se deixa conquistar - e quanto mais demora a venda das joias, mais complicada fica a sua situação amorosa.

 

Não é difícil perceber, no roteiro irônico e mordaz de "Ninotchka", a personalidade do futuro cineasta Billy Wilder e de seu habitual parceiro, Charles Brackett. Chamados por Lubitsch para reescrever o texto original - de autoria de Gottfried Reinhardt e S. N. Behrman -, a dupla de roteiristas uniu-se a Walter Reisch e criou uma pequena obra-prima. Com um humor sardônico que não perdoa nada e nem ninguém, a trama de "Ninotchka" nada tem de política, apenas utilizando-se de um pano de fundo sócio-histórico para contar uma história de amor que vence qualquer tipo de idealismo. Se por um lado faz piada dos estereótipos russos, também não poupa a pretensa superioridade capitalista - e enfatiza, com inteligência, o choque cultural entre seus protagonistas. Tal particularidade encontra na direção de Lubitsch a tradução perfeita - o cineasta jamais tenta ser maior que o enredo e seus personagens - e em seu elenco a personificação exata. Se Melvyn Douglas está preciso na sua interpretação do galante D'Algout - a ponto de sua dubiedade ser mais um charme do que um defeito -, é Greta Garbo quem engole tudo à sua volta, com seu magnetismo único a serviço de uma das personagens mais icônicas do cinema americano. A cena em que Ninotchka finalmente vê sua rigidez quebrada e solta uma gargalhada é, sem favor, antológica - não por acaso, ilustra o cartaz do filme e reitera seu slogan publicitário.

Banido na URSS por razões óbvias, "Ninotchka" sobrevive à prova do tempo principalmente por sua narrativa moderna, leve e inteligente. Não deixa de ser irônico saber que a presença de Ernst Lubitsch na cadeira de de diretor foi resultado da saída de George Cukor, que abandonou o projeto para comandar "... E o vento levou" - do qual também saiu para dar lugar a Victor Fleming. Grande responsável pelo tom sofisticado do resultado final de "Ninotchka", Lubitsch, nascido na Alemanha em 1892, se tornou um dos grandes cineastas da era de ouro de Hollywood, conhecido por comédias românticas como "A loja da esquina" (1940) - refilmado em 1998 como "Mensagem para você", estrelado por Tom Hanks e Meg Ryan -, "Ser ou não ser" (1942) e "O diabo disse não" (1943) - que lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Conhecido pelo que se convencionou chamar de "o toque Lubitsch", ofereceu a "Ninotchka" uma personalidade rara - algo que faltou em seu remake musical "Meias de seda", estrelado por Cyd Charisse e Fred Astaire em 1957. Nada contra a dupla, mas ninguém melhor que Greta Garbo e sua postura para dar viva à misteriosa Ninotchka.

 

terça-feira

A CAIXA DE PANDORA


A CAIXA DE PANDORA (Die busche der Pandora, 1929, Nero-Film AG, 109min) Direção: Georg Wilhelm Pabst. Roteiro: Ladislaus Vajda, peças teatrais de Frank Wedekind. Fotografia: Gunther Krampf. Montagem: Joseph Fleisler. Figurino: Gottlieb Hesch. Direção de arte/cenários: Andrej Andrejew/Hesh. Produção: Heinz Landsman. Elenco: Louise Brooks, Fritz Kortner, Franz Lederer, Carl Goetz, Krafft-Raschig, Alice Roberts. Estreia: 30/01/29

Ao assumir o papel da amoral Lulu em "A caixa de Pandora" - a adaptação feita por Georg Wilhelm Pabst das peças teatrais de Frank Wedekind - a norte-americana Louise Brooks tornou-se, de imediato, um símbolo sexual duradouro, um marco no erotismo no cinema e uma imagem indelével da cinematografia alemã das primeiras décadas do século XX. Sua presença magnética e sua expressividade fascinante, no entanto, não foram sempre unanimidade, principalmente junto aos conterrâneos de Pabst e Wedekind -  ultrajados pelo fato de uma estrangeira viver uma personagem tão arraigada na cultura germânica, os fãs do texto original demoraram a reconhecer em Brooks a principal característica de Lulu: sua sensualidade latente, sempre à beira da ruína (própria ou alheia). Bastou, porém, a estreia, para que quaisquer detratores reconhecessem o óbvio: ali estava, diante de seus olhos, uma das mais certeiras personificações do que se convencionou chamar de mulher fatal - e o nascimento de um mito que, entre altos e baixos, atravessaria o tempo e povoaria o imaginário popular de inúmeras gerações.

Mesmo com o casamento perfeito entre personagem e atriz, no entanto, "A caixa de Pandora" não foi um sucesso imediato - em parte porque, em seus estertores, o cinema mudo perdia boa parte de público para os filmes falados, já em franca ascensão, e em parte porque a crítica em si não chegou a ser exatamente efusiva a respeito de suas qualidades. Foi somente cinquenta anos depois de sua estreia, em 1979, que uma plateia bem mais entusiasta o redescobriu, graças a uma reportagem do britânico Kenneth Tynan para a revista New Yorker: a matéria "The girl in the black helmet" apresentava Louise Brooks a uma nova geração - com ela surgia um novo interesse por sua carreira, e por conseguinte, por seus trabalhos na Europa. Incentivado pela própria atriz - que comparecia a sessões de relançamento e alimentava o culto à sua personalidade -, o renascimento de seu filme mais famoso revelou uma obra-prima esquecida pelo tempo e abriu as portas para novas manifestações culturais baseadas em seu material original, como a peça teatral "Lulu", de 1997, que misturava, na mesma montagem, os textos de Wedekind, referências ao filme de Pabst e elementos da vida de Brooks.

 

Brooks, aliás, por pouco não ficou de fora de "A caixa de Pandora". Apesar de escolhida por Pabst depois que o cineasta conferiu seu trabalho em "Uma noiva em cada porto" (1928), a atriz viu-se obrigada a declinar do convite por problemas contratuais com a Paramount Pictures, que não concordou em liberá-la para as filmagens fora dos EUA. Sem poder contar com a atriz de sua preferência, o cineasta alemão teve de contentar-se com uma segunda opção, uma conterrânea chamada Marlene Dietrich. Na última hora, porém, o destino interveio: Brooks foi dispensada pela Paramount por problemas de salário e Dietrich acabou indo parar nos sets de "O anjo azul" (1930), de Josef von Sternberg - e ofereceu um desempenho inesquecível que a colocou merecidamente no rol das grandes estrelas do cinema. Brooks, por sua vez, iniciou uma série de três filmes na Europa - onde, segundo ela mesma, tinha mais liberdade e era mais desafiada artisticamente do que em Hollywood - e, apesar de alguns problemas na produção (seu colega de cena Fritz Kortner, por exemplo, não fazia parte de sua lista de admiradores), ditou moda e influenciou o comportamento feminino do final dos anos 1930 com sua exuberante Lulu.

Mas, no final das contas, sobre o que é o filme "A caixa de Pandora"? Apesar do título remeter ao mito grego, a trama se passa em uma Berlim decadente e amoral, onde a bela Lulu (interpretada por Brooks com o equilíbrio certo entre inocência e vulgaridade) faz uso do poder de sua sensualidade para dominar os homens (e até algumas mulheres) à sua volta. É essa sua força destruidora que a aproxima do poderoso Ludwig Schon (Fritz Kortner), um editor milionário que, mesmo apaixonado por ela, se recusa a um compromisso mais sério por causa de sua diferença de classes sociais. Depois de seduzir até mesmo o filho de Schon, o romântico Alwa (Franz Lederer), a sexy dançarina consegue levar seu velho amante ao altar, mas uma tragédia acaba levando-a a empreender uma fuga desesperada. No caminho, ao lado de seu velho protetor Schigolch (Carl Gotz), de Alwa e da Condessa Geschwitz (Alice Roberts) - todos envolvidos por seu poder de sedução -, Lulu se vê obrigada a uma nova vida, ao mesmo tempo excitante e perigosa.

Com uma bela fotografia de Gunther Krampf, um roteiro ousado de Ladislaus Vajda e personagens complexos, que fogem do maniqueísmo e dos clichês, "A caixa de Pandora" não figura à toa na lista dos maiores clássicos do cinema europeu da história. Apostando em uma sensualidade amoral que deixaria os estúdios de Hollywood chocados - em especial com o advento do famigerado Código Hays, que limitou brutalmente os avanços comportamentais nos filmes norte-americanos a partir de 1930 -, Georg Wilhelm Pabst desafiou as regras e marcou um gol de placa, deixando seu nome marcado para sempre na memória do público.

 

segunda-feira

TREM-BALA


TREM-BALA (Bullet train, 2022, Sony Pictures Entertainment, 127min) Direção: David Leitch. Roteiro: Zak Olkewicz, romance de Kôtarô Isaka. Fotografia: Jonathan Sela. Montagem: Elisabet Ronaldsdóttir. Música: Dominic Lewis. Figurino: Sarah Evelyn. Direção de arte/cenários: David Scheunemann/Elizabeth Keenan. Produção executiva: Brent O'Connor, Ryosuke Saegusa, Kat Samick, Yuma Terada. Produção: Antoine Fuqua, David Leitch, Kelly McCormick. Elenco: Brad Pitt, Aaron Taylor-Johnson, Joey King, Brian Tyree-Henry, Andrew Koji, Hiroyuki Sanada, Michael Shannon, Bad Bunny, Logan Lerman, Sandra Bullock. Estreia: 18/7/2022 (Paris)

Publicado no Japão em 2010, o livro "Trem-bala", escrito por Kôtarô Isaka, tornou-se um fenômeno, com mais de 700 mil exemplares vendidos, e acabou, como não poderia deixar de ser, chamando a atenção de Hollywood. Com os direitos adquiridos pela Sony Pictures e produzido com um orçamento de 90 milhões de dólares, a intrincada história de cinco assassinos profissionais cujas missões se cruzam em uma inusitada viagem chegou às telas com um elenco de primeira linha, um diretor acostumado a sequências recheadas de adrenalina e a responsabilidade de devolver ao público o hábito de ir às salas de exibição depois do longo hiato provocado pela Covid-19. Com uma renda acumulada de quase 240 milhões de dólares internacionalmente, é difícil dizer que fracassou em seu intento - mas dividiu a crítica e não fez o barulho que se poderia esperar. Mesmo assim, o resultado final é um delicioso filme de ação, com inspirados momentos de humor e um visual dos mais caprichados dos últimos anos.

Na direção, que ficaria a cargo de Antoine Fuqua, o cineasta David Leitch, cujo currículo apresenta produções extremamente comerciais, como "Deadpool 2" (2018) e "Velozes e furiosos: Hobbs & Shaw (2019) - além do subestimado e estiloso "Atômica" (2017) - deixou de lado o tom mais sério proposto no projeto original para assumir sem medo o caos, o deboche e a ironia. Com diálogos rápidos, idas e vindas no tempo, cenas de luta empolgantes e personagens excêntricos, o roteiro de "Trem-bala" nem sempre é rigorosamente fiel a seu material original, mas até mesmo as alterações feitas na trama do livro servem com perfeição à visão iconoclasta de Leitch, que prescinde das definições levianas de heróis e vilões, algozes e vítimas: durante as pouco mais de duas horas de duração do filme, nada que é dito é completamente confiável e nenhuma verdade é absoluta. Tal opção pelo dúbio e pela diversão ao invés da sobriedade faz de "Trem-bala" um produto raro, um respiro muito bem-vindo a um gênero que normalmente falha em tal equilíbrio. E se a presença de Brad Pitt parece apontar para um filme calcado em um grande astro - e caro, com um cachê milionário de 20 milhões de dólares -, o desenvolvimento do roteiro insiste em sua principal característica: não há um personagem central além do trem que dá nome ao filme. 

A princípio até pode parecer que Pitt é o personagem principal da trama, já que é o maior nome do cartaz e o primeiro a surgir na tela, mas não demora para que fique perceptível que seu Ladybug é apenas uma peça em um tabuleiro repleto delas. Escalado por sua superior (cuja intérprete-surpresa surge apenas nos momentos finais) a recuperar uma maleta em um trem-bala que viaja de Tóquio a Kyoto, Ladybug - que está passando por momentos difíceis na carreira, sendo acusado de não conseguir lidar com a agressividade - embarca no veículo sem ter a menor ideia de que sua missão está longe de ser simples como parece. No mesmo local, estão outros dois assassinos de aluguel, Tangerine (Aaron Taylor-Johnson) e Lemon (Bryan Tyree Henry), e a misteriosa Prince (Joey King) - que apesar do nome, esconde uma identidade feminina e um violento trauma familiar. Contratados pelo infame mafioso White Death (Michael Shannon) para salvar seu jovem filho das mãos de sequestradores, Lemon e Tangerine acabam por cruzar o caminho de outros criminosos beligerantes e cruéis - e, no decorrer do caminho, alianças são feitas e desfeitas, fatos do passado são trazidos à tona, reviravoltas acontecem a cada parada e até uma cobra assassina parece fazer parte de uma trama cujos desdobramentos remetem a coincidências das mais bizarras.

"Trem-bala" é um filme com inúmeras qualidades, mas justamente elas podem incomodar parte dos espectadores. Seu humor - um tanto macabro e violento - não é exatamente convencional. A estrutura do roteiro - repleta de flashbacks e flash forwards -  obriga a uma atenção extra que poucos estão dispostos a conceder diante do cinema quase preguiçoso que vem sendo oferecido pelos grandes estúdios. A falta de um herói - por mais que Ladybug seja uma espécie de fio condutor da trama ele não é o protagonista absoluto - talvez confunda àqueles que buscam uma narrativa mais simples. E o visual elaborado (cortesia da fotografia admirável de Jonathan Sela) pode soar como excessivamente colorido e kitsch. Mas o fato é que, somadas todas as características que fazem dele um filme de ação que tenta fugir da pasteurização do gênero, o resultado é uma produção muito acima da média, que não perde o ritmo em momento algum, que apresenta personagens interessantes interpretados por um elenco impecável e que não hesita em oferecer sequências coreografadas com precisão cirúrgica. É divertido, inteligente e produzido com extrema competência. Quanto ao fato de ser baseado em um livro japonês e contar com atores ocidentais é uma outra discussão, mais séria e mais profunda que em nada atrapalha o prazer de ser envolvido por um filme por 127 minutos de entretenimento puro.

sexta-feira

EM BUSCA DO OURO

 


EM BUSCA DO OURO (The gold rush, 1925, Charles Chaplin Productions, 83min) Direção, roteiro, montagem, música e produção: Charles Chaplin. Fotografia: Roland Thoteroh. Música: Max Terr. Direção de arte: Charles D. Hall. Elenco: Charlie Chaplin, Mack Swain, Tom Murray, Georgia Hale, Henry Bergman, Malcolm Waite. Estreia: 26/6/1925

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Som

Quinto filme mudo de maior bilheteria da história, "Em busca do ouro" é, em opinião compartilhada por público e crítica, um dos mais completos trabalhos de Charles Chaplin. Relançado em 1942 com uma trilha sonora nova e uma narração em off substituindo os cartões com legendas, concorreu ao Oscar em duas categorias (música original e som) e reafirmou sua posição como uma obra-prima de seu criador, já então consagrado como um dos maiores astros do cinema. Inspirado por um fato histórico - as dificuldades enfrentadas por garimpeiros na corrida do ouro no Alaska e no Klondike no final do século XIX - e ciente de que poderia extrair humor mesmo de situações trágicas, o cineasta criou uma sucessão de sequências brilhantes que entraram de imediato no inconsciente coletivo de gerações e mais gerações. Realizado com o perfeccionismo típico do cineasta, com locações nas geleiras de Serra Nevada, centenas de figurantes (reais garimpeiros) e efeitos visuais ainda hoje impressionantes - como a maquete de uma cabana que é parte essencial do clímax -, "Em busca do ouro" figura, não à toa, na lista de filmes preferidos de nomes tão díspares quanto Guillermo Del Toro, Richard Attenborough e Akira Kurosawa.

Considerado por Chaplin como o filme pelo qual ele gostaria de ser lembrado, "Em busca do ouro" teve problemas de ordem pessoal durante o processo de filmagens. Tudo começou quando o diretor iniciou um romance clandestino com Lita Grey, de apenas 16 anos de idade. Apaixonado, ele escreveu o principal papel feminino para sua nova atriz principal, mas foi obrigado a suspender as filmagens quando ela descobriu-se grávida. Durante os três meses de paralisação, Chaplin testou outras possibilidades - entre elas a futura estrela Carole Lombard - e chegou até Georgia Hale, que assumiu, então, o papel de Georgia, a dançarina por quem o protagonista cai de amores depois em um clube de dança. O casamento do diretor e Grey nasceu fadado ao fracasso - apesar dos dois filhos que tiveram durante seu relacionamento - e não demorou para que o insaciável cineasta se sentisse atraído também pela nova descoberta artística. O romance entre os dois surgiu durante as filmagens - mas acabou de tal modo que, no relançamento do filme, em 1942, o longo beijo final dos dois personagens acabou de fora da edição.


 

Caído em domínio público em 1953 devido a negligência do espólio de Chaplin, "Em busca do ouro" apresenta, em pouco mais de uma hora de duração, algumas das cenas mais lembradas da carreira do diretor. A dança dos pãezinhos, a refeição em que o protagonista serve os próprios sapatos (feitos de alcaçuz e que levou três dias para ser finalizada, levando-o a um hospital com um choque de glicose), a sequência em que seu companheiro (faminto) o imagina como um frango assado, a briga no salão de dança e a luta para que a cabana não despenque de um precipício durante uma tempestade de neve são momentos do mais puro humor chapliniano. Realizadas em uma época sem efeitos digitais e os recursos modernos, são um exemplo de execução e se mantém até hoje, quase um século depois, tão frescas e divertidas quanto antes. Provando-se ainda um talento ímpar para atingir todo tipo de público, Chaplin consegue fazer rir crianças e adultos, independente de classe social ou credo religioso - um alcance fenomenal sem precedentes e ainda sem herdeiros naturais.

Primeiro filme estrelado por Chaplin para a United Artists, estúdio do qual era sócio, "Em busca do ouro" reforça sua capacidade de transformar até mesmo situações extremas em fontes de humor e poesia. Inserindo seus personagens em um cenário onde podem acontecer ataques de urso, tempestades de neve, fome extrema, quedas em despenhadeiros e outros perigos naturais (e outros ainda causados pelos seres humanos que os cercam), o ator/diretor/produtor/roteirista encontra formas criativas de buscar a gargalhada (ou, no pior dos casos, um sorriso de ternura) e marcar de maneira indelével (mais uma vez) seu nome na história do cinema mundial - sem dizer uma única palavra.

quinta-feira

O GAROTO

 


O GAROTO (The kid, 1921, Charles Chaplin Productions, 68min) Direção,roteiro, montagem e produção: Charles Chaplin. Fotografia: Roland Totheroh. Direção de arte: Charles D. Hall. Elenco: Charlie Chaplin, Jackie Coogan, Edna Purviance, Carl Miller. Estreia: 16/01/21

A epígrafe de "O garoto" - "Um filme com um sorriso - e talvez uma lágrima" - é, sem dúvida, bastante apropriado. O primeiro longa-metragem de Charles Chaplin, depois de vários curtas geniais e aplaudidos unanimemente, é um conjunto perfeito de todos os elementos que sua filmografia englobaria a partir de então: humor físico de alta precisão, uma dose de sentimentalismo, uma simplicidade franciscana (que escondia as dificuldades oriundas do perfeccionismo do diretor) e a capacidade de extrair poesia da mais prosaica situação. Filmada por um período de cinco meses e meio - filmagens tão longas que incomodaram os financiadores do projeto, apavorados com a demora de finalização -, a primeira obra-prima de Chaplin foi realizada durante um período conturbado da vida pessoal do cineasta, que passava pelo divórcio de sua primeira mulher, Mildred Harris, e o fato de retratar o cotidiano pobre e miserável de pessoas em situação precária de vida provavelmente faz de "O garoto" um dos filmes mais pessoais e autobiográficos de sua carreira. 

Oriundo de uma infância de privações e dificuldades financeiras e emocionais, Charles Chaplin encontrou em Carlitos o alter-ego ideal: pobre, sem passado e/ou futuro, sozinho no mundo e invariavelmente solitário (mesmo quando acompanhado). Em "O garoto" seu protagonista não está sozinho - afinal sua vida encontra uma razão quando se depara com um bebê abandonado em um beco -, mas, apesar disso, vive na iminente possibilidade de perdê-lo para a justiça. Pobre, vivendo em condições quase insalubres (mas repleta de amor e afeto), ele ainda encontra espaço para ensinar ao menino, quando um pouco maior, maneiras pouco nobres de sobreviver às intempéries financeiras: trabalhando como vendedor de vidros, ele conta com a criança para que quebre as vidraças da cidade, por coincidência no exato momento em que ele está passando pelo local. Os moradores não percebem o esquema, mas o vagabundo criado por Chaplin não passa incólume ao olho da lei, representada na figura de um policial com cara de poucos amigos - um estereótipo frequente na obra do diretor. Além disso, outra ameaça surge repentinamente no horizonte da inusitada família: a mãe do menino, que o deixou para trás na juventude, hoje uma atriz consagrada, procura reencontrá-lo para compensar os anos de ausência.


 

Se "O garoto" apresenta a essência do cinema de Charles Chaplin, muito se deve à química impecável entre o astro e seu colega mirim, o pequeno Jackie Coogan, descoberto pelo cineasta durante um número de vaudeville com seu pai, também artista e parte do elenco do filme (em três papéis pequenos): expressivo e talentoso, o pequeno Coogan acabou passando por problemas financeiros antes mesmo de atingir a idade adulta, explorado pela mãe e pelo padrasto. Ainda antes de voltar a tornar-se famoso - como o Tio Fester da série "A família Monstro", dos anos 1960 - chegou a contar com o auxílio do próprio Chaplin, com quem se encontrou pela última vez em 1972, quando o cineasta retornou a Hollywood para receber seu único Oscar (e um ano depois do relançamento de seu filme, com nova edição e nova trilha sonora). E não apenas Coogan teve sua vida atrelada a de de Chaplin além do campo profissional. Uma das atrizes que trabalhavam como extra em "O garoto" - Lita Grey, que interpreta um dos anjos na sequência de sonho no final da produção, e que tinha apenas 12 anos durante as filmagens - se tornou esposa do celebrado diretor depois de, aos 16 anos de idade, descobrir que seu romance com Chaplin resultou em uma gravidez (o casamento durou dois anos e gerou dois filhos).

Mas, a despeito de seus bastidores e dramas fora das telas, "O garoto" se  mantém, mesmo mais de um século depois de seu lançamento, como uma obra quase irretocável. Quase? Sim. Apesar de oferecer momentos do mais puro lirismo, cenas de estampar um sorriso no rosto do mais taciturno espectador e fixar na memória do público uma dupla memorável de protagonistas, o filme se estende além do que precisava, com uma sequência onírica que só se justifica pela necessidade de alcançar o tempo que o define como longa-metragem. Tal pecadilho, no entanto, não atrapalha em nada o prazer de ver (ou rever) uma das comédias mais doces e sentimentais da história do cinema - e que, não é à toa, figura no topo das preferências de muitos fãs de Chaplin - como o cineasta Wayne Wang, que o considera seu filme preferido. Certamente muita gente acompanha a opinião de Wang.

quarta-feira

O CASAMENTO DOS MEUS SONHOS


O CASAMENTO DOS MEUS SONHOS (The wedding planner, 2001, Columbia Pictures, 103min) Direão: Adam Shankman. Roteiro: Pamela Falk, Michael Ellis. Fotografia: Julio Macat. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: Mervyn Warren. Figurino: Pamela Whiters. Direção de arte/cenários: Bob Ziembicki/Barbara Munch. Produção executiva: Moritz Borman, Guy East, Nina R. Sadowsky, Chris Sievernich, Nigel Sinclair. Produção: Peter Abrams, Deborah Del Prete, Jennifer Gibgot, Robert L. Levy, Gigi Pritzker. Elenco: Jennifer Lopez, Matthew McConaughey, Bridgette Wilson-Sampras, Judy Greer, Justin Chambers, Kathy Najimi, Alex Rocco, Joanna Gleason, Kevin Pollack. Estreia: 26/01/2001

No começo dos anos 2000, Jennifer Lopez já era uma estrela. Em seu currículo como atriz já constavam produções com diretores consagrados, como Francis Ford Coppola ("Jack", de 1996), Oliver Stone ("Reviravolta", de 1997) e Steven Soderbergh ("Irresistível paixão", de 1998) e elogios da crítica especializada por seu trabalho em "Selena" (1996). Como cantora, já havia vendido mais de 8 milhões de cópias com seu álbum de estreia, "On the 6" (1999) e estava lançando seu segundo trabalho, "J.Lo" - que tinha expectativas de se tornar um sucesso ainda maior. Portanto, quando "O casamento dos meus sonhos" estreou, em janeiro de 2001, seu nome no cartaz de um filme já era um atrativo e tanto - e levando-se em conta que seu parceiro de cena, Matthew McConaughey, também já tinha um fã-clube feminino dos maiores, não chegou a ser surpresa a bilheteria acima dos 90 milhões de dólares do filme no mercado internacional. Mesmo sem apresentar nenhuma novidade e seguindo à risca a receita das comédias românticas, o filme de Adam Shankman provou que, mesmo contra tecnologias de ponta e estratégias milionárias de marketing, histórias de amor ingênuas e superficiais sempre terão espaço junto a seu público fiel.

Assumindo o lugar de Sarah Michelle Gellar - que não conseguiu conciliar as filmagens com as gravações da série "Buffy: a caça-vampiros" - e Minnie Driver (segundo afirmações da atriz em entrevistas), Jennifer Lopez não precisa fazer muito esforço no papel principal do filme. Ela interpreta Mary Fiore, uma bem-sucedida organizadora de casamentos que se esforça para tornar-se sócia da empresa onde trabalha, enquanto luta para superar o traumático fim de seu relacionamento. Jovem e bonita, ela é, também, constantemente pressionada pelo pai viúvo a encontrar um novo amor - a ponto de fugir dos avanços do bem intencionado amigo de infância Massimo (Justin Chambers, que anos depois se tornaria astro com a série "Grey's Anatomy"). Dedicada à carreira, Mary vê na milionária Fran Donnolly (Bridget Wilson-Sampras) a chance de finalmente atingir seus objetivos profissionais: planejar a festa de seu casamento parece o caminho certo para o sucesso. Porém, seu encontro com o médico Steve Edison (Matthew McConaughey) vira tudo do avesso: apaixonada, Mary vê no rapaz o homem ideal para resolver sua vida romântica, mas descobre, decepcionada, que ele é o noivo de sua mais promissora cliente.


 

Apostando nos clichês e sem medo de contar uma história sem nenhuma grande novidade, o roteiro de "O casamento dos meus sonhos"serve, na verdade, como um veículo para o estrelato de Jennifer Lopez: bela, carismática e dotada de um razoável timing cômico, Lopez deita e rola com uma personagem que não lhe exige mais do que fazer exatamente isso: ser bela, carismática e exercitar seus dotes em comédia - que, se não chegam a ser brilhantes, funcionam como um relógio. O roteiro não aprofunda nenhum personagem e nenhum conflito (como é comum aos filmes do gênero), mas a direção de Shankman - que em 2007 assinaria a versão para as telas do musical "Hairspray: em busca da fama" - se equilibra entre o burocrático e o elegante, disfarçando a fragilidade do enredo e até de algumas soluções um tanto quanto apressadas. É também uma pena que o filme não aproveite o talento de coadjuvantes como Kathy Najimi (que pouco aparece como a dona da empresa da protagonista), Judy Greer (especialista em roubar a cena mesmo em papéis pequenos) e Joanna Gleason (na pele da mãe da noiva que está em vias de ver o futuro marido nos braços de sua organizadora de casamentos). Nem mesmo Bridget Wilson-Sampras tem muito o que fazer, eclipsada pela química entre Lopez e Matthew McConaughey - que substituiu Brendan Fraser no último minuto e viu fortalecido seu status de galã romântico.

Responsável pelo cancelamento de um projeto semelhante que seria protagonizado por Jennifer Love Hewitt, "O casamento dos meus sonhos" é o que pode se chamar de filme-conforto. Seus personagens são velhos conhecidos do público-alvo (a romântica sonhadora com azar no amor, o galã comprometido com a mulher errada, a antagonista fútil), a história é previsível até o osso, a trilha sonora é suave e com uma canção feita para vender discos (a canção que toca nos créditos finais é "Love don't coast a thing", da própria Jennifer Lopez) e os coadjuvantes servem como contraponto humorístico à trama romântica. Se não entrega mais do que propõe é justamente por sua intenção em servir à plateia como mais uma coleção de clichês a que sua plateia possa recorrer quando necessitar de duas horas de diversão sem compromisso. "O casamento dos meus sonhos" é o equivalente cinematográfico de uma caixa de bombons ou um pote de sorvete nos momentos de crise. Esperar mais dele é um erro, mas aceitar suas limitações é o caminho para um passatempo agradável e leve.

 

terça-feira

A PIOR PESSOA DO MUNDO


A PIOR PESSOA DO MUNDO (Verdens verste menneske, 2021, Oslo Pictures/MK2 Productions/Film i Vast, 128min) Direção: Joachim Trier. Roteiro: Joachim Trier, Eskil Vogt. Fotografia: Kasper Tuxen. Montagem: Olivier Bugge Coutté. Música: Ola Flottum. Figurino: Ellen Daheli Ystehede. Direção de arte/cenários: Roger Rosenberg/Mirjam Veske. Produção executiva: Dyveke Bjorkly Graver, Tom Kjeseth, Joachim Trier, Eskil Vogt. Produção: Andrea Beretsen Ottmar, Thomas Robsahm. Elenco: Renate Reinsve, Anders Danielsen Lie, Herbert Nordrum. Estreia: 08/7/2021 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Internacional, Roteiro Original

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Renate Reinsve) 

Ao contrário do que podem fazer acreditar as redes sociais e os filmes tipicamente hollywoodianos, a vida não é feita de escolhas fáceis. Optar por um caminho - seja ele profissional, romântico ou familiar - significa, por definição, que é preciso abandonar todos os outros, e isso é, ninguém pode negar, definitivamente árduo e doloroso. Nessa trajetória rumo ao amadurecimento, feridas são abertas, pessoas são magoadas e é constante a sensação de que a felicidade de uns provavelmente será a infelicidade de outros. E é justamente esse sentimento de angústia que atormenta a vida de Julie, a protagonista da comédia dramática "A pior pessoa do mundo" - que representou a Noruega na disputa pela estatueta de melhor filme internacional no Oscar 2022. Indicado também na categoria de roteiro original, o filme de Joachim Trier aposta na aparente simplicidade de sua trama para envolver o espectador em uma narrativa que equilibra com rara felicidade um humor sutil, um drama que dribla miraculosamente o sentimentalismo e elementos de comédia romântica - sem que se transforme, no processo, em uma mixórdia de gêneros aleatórios. Inteligente e verossímil, é também, a prova cabal de que o cinema fora de Hollywood há muito deixou de lado o rótulo de hermético ou intelectual.

Julie - interpretada por Renate Reinsve, premiada como melhor atriz no Festival de Cannes 2021 - está chegando aos trinta anos e se encontra em várias encruzilhadas. Profissionalmente não consegue decidir-se definitivamente por nenhuma carreira - medicina, psicologia e fotografia são suas opções, com maior tendência à última. Familiarmente, sente-se presa à mágoa que sente por ser preterida pelo próprio pai. E romanticamente, então, é ainda pior. Envolvida seriamente com Aksel (Anders Danielsen Lie) - alguns anos mais novo e quadrinista profissional -, ela percebe, angustiada, que não compartilha com ele os desejos de formar uma nova família. Tal situação a leva a sentir-se atraída por Eivind (Herbert Nordrum), um barista com quem se sente mais à vontade e mais próxima do que pode se chamar de felicidade. Porém, as coisas não são assim tão fáceis - e qualquer decisão que toma a leva por caminhos que podem não ter mais volta. Incapaz de sentir-se totalmente firme dos rumos de sua vida e por consequência agindo de forma a machucar a quem ama, Julie por vezes se torna o que mais temia: a pior pessoa do mundo.


 

O roteiro de "A pior pessoa do mundo" é um achado. Tanto pode seguir a cartilha do naturalismo, criando personagens verossímeis e situações facilmente identificáveis por qualquer espectador quanto pode apostar no caminho contrário - o primeiro encontro real entre Julie e Eivind, por exemplo, acontece enquanto o mundo à sua volta parece estático, como se não existisse de verdade. Os personagens criados por Joachim Trier e Eskil Vogt são, ao mesmo tempo, adoráveis e falíveis - dotados, portanto, de defeitos e qualidades intrinsecamente humanos. E a atuação de seu elenco, tanto principal quanto coadjuvante, é digna de aplausos entusiasmados. Se Anders Danielsen Lie chama a atenção com um personagem complexo e multidimensional - com direito a reviravoltas dramáticas e até mesmo um surpreendente nu frontal -, é Renate Reinsve que faz do filme uma pequena obra-prima: escolhida pelo diretor às vésperas de abandonar a carreira de atriz e investir no ramo da marcenaria (!!), Reinsve simplesmente torna Julie uma das mais fortes protagonistas femininos do cinema das últimas décadas. Dotada de uma série aparentemente inesgotável de nuances, a jovem vencedora do Festival de Cannes consegue até mesmo mudar de feições, de acordo com cada momento da trama: sexy, insegura, ousada, traumatizada, angustiada, decidida, apaixonada.... sempre que Julie está em cena, seus sentimentos são facilmente reconhecidos no rosto comum (mas nem por isso esquecível) de sua intérprete. Como se fosse uma página em branco, pronta para transmitir os anseios de sua personagem, Reinsve rouba o filme inteiro para si - não à toa, é sua imagem que estampa o principal cartaz da produção e sua personalidade a inspiração para a história.

"A pior pessoa do mundo" é um filme delicioso, uma prova inconteste de que a simplicidade narrativa nem sempre significa pobreza de ideias ou falta de criatividade. Ao retratar gente cujos desejos e traumas refletem os mesmos que qualquer um da plateia, a trama de Joachim Trier acaba por devolver ao público tanto sua capacidade de refletir quanto de sonhar, sem deixar de, nesse meio-tempo, lembrar que o cinema não serve apenas como válvula de escape ou sessão de terapia: perfeitamente equilibrado entre esses dois pontos, é, segundo palavras do diretor, "uma comédia romântica feita para aqueles que não gostam de comédias românticas". Ou seja, é a vida real com verniz de fantasia - não aliena completamente e não machuca com profundidade. Imperdível!


sexta-feira

CYRANO


CYRANO (Cyrano, 2021, MGM Pictures/Working Title Films/BRON Studios, 123min) Direção: Joe Wright. Roteiro: Erica Schmidt, musical de sua autoria, peça teatral original de Edmond Rostand. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Valerio Bonelli. Música: Aaron Dessner, Bryce Dessner. Figurino: Massino Cantini Parrini, Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Matt Berninger, Carin Besser, Jason Cloth, Aaron Dessner, Bryce Dessner, Aaron L. Gilbert, Erica Schmidt, Sheeraz Shah, Kevin Ulrich, Lucas Webb, Sarah-Jane Robinson. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Guy Helley. Elenco: Peter Dinklage, Haley Bennett, Kelvin Harrison Jr., Ben Mendelsohn, Monica Dolan, Glen Hansard. Estreia: 02/9/2021 (Festival de Telluride)

Indicado ao Oscar de Figurino

Escrita por Edmond Rostand em 1897, "Cyrano de Bergerac" tornou-se, com o passar do tempo, uma das peças teatrais mais montadas da história - e um ícone cultural dos mais duradouros, atravessando gerações sempre com o mesmo sucesso. Parte da responsabilidade de tal perenidade deve-se ao cinema, que em várias ocasiões aproveitou-se para adaptar o texto do dramaturgo francês para as telas - caso da versão estrelada por José Ferrer em 1950 (que deu ao ator o Oscar da categoria) e da transposição estrelada por Gérard Depardieu em 1990 (que também foi indicada à estatueta de melhor ator). A mais nova tradução de Rostand para o público cinéfilo, lançada em 2021, prova que, apesar de tudo, a força de sua história ainda se presta a novos olhares e inovações estilísticas. Dirigido por Joe Wright, "Cyrano" não apenas ousa em transformar a tragédia em musical como altera o principal elemento do texto, fazendo de seu protagonista não um homem que sofre com um nariz descomunal, mas um talentoso soldado torturado por sua condição de anão. Beneficiado com o talento inegável de Peter Dinklage - aproveitando o sucesso de seu trabalho na série "Game of thrones" -, o Cyrano de Wright em nada deixa a desejar em relação a seus antecessores, apesar de ter sido praticamente ignorado pela Academia e outras cerimônias de premiação.

Na verdade, a versão de Wright é uma adaptação indireta do clássico de Rostand. Sua origem é a reinvenção do texto original, criada pela dramaturga Erica Schmidt e montada em 2018 em Connecticut - e no ano seguinte em teatros off-Broadway, em Nova York. Sem a necessidade de uma fidelidade absoluta ao clássico, o cineasta - autor de adaptações de obras como "Orgulho e preconceito" (2005) e "Anna Karenina" (2012), além do excepcional "Desejo e reparação" (2007) - explora todas as possibilidades visuais da trama com uma liberdade encantadora e uma sensibilidade irresistível. Até mesmo seus artifícios para modernizar a forma de contar a história - e evitar o tédio que um texto em versos poderia causar a um público menos paciente - soam orgânicos e inteligentes, valorizados por uma reconstituição de época cuidadosa e uma fotografia (de Seamus McGarvey) cujo maior mérito é não tentar se sobrepor à trama e aos personagens. As canções - em especial a bela "Close my eyes", com a participação de Glen Hansard, do filme "Apenas uma vez" (2007) - conseguem integrar-se à narrativa com elegância ímpar, e se a escalação de Dinklage para o papel-título soa genial, o mesmo pode ser dito da escolha de Kelvin Harrison Jr. para viver o galã Christian - pela primeira vez um ator negro assume (ao menos nas telas) o papel do antagonista romântico (e involuntário) da história de amor entre Cyrano e a bela Roxanne.


 

Apesar das alterações oriundas da adaptação feita por Schmidt - que é casada com o ator Peter Dinklage -, a trama do filme permanece, em sua essência, a mesma: o protagonista é o romântico e sensível Cyrano, apaixonado pela doce Roxanne (Haley Bennett), e que esconde de todos o seu amor, ciente de que sua aparência física jamais permitirá uma aproximação maior entre eles. Corajoso e dotado de grande inteligência, o enamorado soldado francês vê sua situação ficar ainda mais complicada quando um colega, Christian (Kelvin Harrison Jr.), também cai de amores pela bela e voluntariosa jovem. Bonito mas sem muito conteúdo intelectual, Christian recorre a Cyrano para que este escreva versos sentimentais que possam conquistá-la: a farsa dá certo, e Roxanne se deixa seduzir, sem desconfiar que, na verdade, está encantada pela alma de seu velho amigo. Tudo poderia seguir indefinidamente se não fosse um outro problema no caminho do inusitado triângulo amoroso: o poder de um outro apaixonado por Roxanne, que, rejeitado, resolve mandar Christian (e Cyrano) para o campo de batalha.

Sem contar com um orçamento milionário que poderia lhe colocar como um grande épico - em especial nas cenas de batalha, cuja economia é muito bem disfarçada pelo talento do cineasta em criar soluções visuais criativas -, "Cyrano" acabou por passar quase despercebido pelo grande público, perdido entre as produções com maior visibilidade e marketing. Joe Wright - um diretor que entende como poucos as engrenagens do cinemão clássico - extrai o máximo do que lhe é oferecido, brindando o espectador com um espetáculo de extremo bom gosto, ainda que sem a opulência que se poderia esperar de uma produção de época. Com um começo um tanto confuso - um problema que se resolve muito a contento logo em seguida - e a sensação de estranhamento em relação à inclusão de canções em um material tão conhecido, o filme acaba por envolver principalmente pelo talento inquestionável de seu elenco, pela inteligência em contornar o que poderiam ser problemas e pela sensibilidade de uma história atemporal e emocionante. E é impossível não se deixar conquistar pelo carisma de Peter Dinklage, um Cyrano de Bergerac com todos os atributos para ingressar no rol de seus mais clássicos intérpretes.

 

quinta-feira

O BOM PATRÃO

 


O BOM PATRÃO (El buen patrón, 2021, Básculas Blanco/Crea SGR/ICAA, 116min) Direção e roteiro: Fernando León de Aranoa. Fotografia: Pau Esteve Birba. Montagem: Vanessa Marimbert. Música: Zeltia Montes. Figurino: Fernando García. Direção de arte/cenários: César Macarrón. Produção executiva: Pilar de Heras, Marisa Fernández Armenteros, Laura Fernández Espeso, Eva Garrido, Patricia de Muns. Produção: Fernando León de Aranoa, Javer Méndez, Jaume Roures. Elenco: Javier Bardem, Manolo Solo, Almudena Amor, Óscar de La Fuente, Sonia Almarcha, Fernando Albizu, Tarik Rimli. Estreia: 21/9/2021

A Balanças Blancos é uma tradicional fábrica, com décadas de história e a reputação de ser um dos ambientes de trabalho mais generosos do país. Seu presidente, Blanco (Javier Barden), inclusive, insiste em declarar que seus funcionários são como membros da família e que são eles os maiores responsáveis por seus sucesso e perenidade. Às vésperas da visita de uma comissão que poderá escolher a empresa para receber um diploma de excelência, porém, a aparência de exemplar tranquilidade do local começa a ruir. Em pouco mais de uma semana, caberá a Blanco lidar com uma série de problemas de ordem pessoal e profissional que põem em xeque sua capacidade de liderar não apenas seus empregados, mas principalmente suas relações familiares e de amizade. E tudo começa com dois acontecimentos aparentemente sem conexão: a tentativa de ajudar o filho delinquente de um antigo operário ao dar-lhe um emprego na loja da mulher e a demissão de outro empregado, que, revoltado, inicia uma manifestação na frente do prédio da empresa, acompanhado dos filhos pequenos e chamando cada vez mais a atenção da mídia.

Recordista histórico em indicações ao Goya - o Oscar espanhol -, com vinte indicações, "O bom patrão" levou seis estatuetas, incluindo melhor filme, direção, ator e roteiro original. Não chega a ser surpresa, quando se assiste à produção de Fernando León de Aranoa: um equilíbrio perfeito entre comédia e drama - com pitadas de suspense e uma dose generosa de crítica social -, o filme apresenta um protagonista falível e humanamente verossímil que ganha o público justamente por seus erros. Lógico que o carisma e o talento de Javier Bardem ajudam muito nesse quesito, mas o roteiro delicioso é tão repleto de camadas, de detalhes e de ironias que é difícil não se deixar envolver sem muito esforço. Contada em capítulos - cada um dedicado a um dia da atribulada semana de Blanco -, a trama de Aranoa vai se tornando, aos poucos, um acúmulo de situações problemáticas que apenas empurram a plateia em direção à empatia quase absoluta pelo personagem central, mesmo sendo ele desprovido de muitos escrúpulos. O que começa com um certo humor sombrio vai gradualmente assumindo contornos trágicos - e a direção firme do cineasta dribla magistralmente as armadilhas que surgem a cada cena, além de distanciar-se do tom de deboche explícito que a trama poderia assumir e aproximá-la de uma fábula repleta de cinismo sobre o mundo capitalista e a hipocrisia da sociedade como um todo.

 


Se não, vejamos: incomodado com a presença incômoda do ex-funcionário - que acampa, junto com os filhos, diante da fábrica, munido de um megafone e de uma vontade férrea de chamar toda a atenção possível da mídia -, Blanco faz o possível e o impossível para removê-lo da vista da comissão governamental, que pode aparecer a qualquer dia para inspecionar a empresa e confirmar seu status de exemplar. Para isso, não hesita em apelar para a lei - e até para meios heterodoxos e violentos a ponto de piorar ainda mais a situação. Não bastasse isso, o empresário precisa lidar com a queda de rendimento de seu braço direito, Miralles (Manolo Solo), que está deixando a crise em seu casamento atrapalhar a vida profissional - e é evidente que Blanco irá se intrometer nas relações extraconjugais do casal para tentar resolver as contendas, mesmo que para isso tenha que envolver outras pessoas na questão. Por fim, o incansável patrão se deixa seduzir pela nova estagiária, a jovem Liliana (Almudena Amor), apenas para descobrir que tal romance casual pode ter desdobramentos inusitados - e quase cruéis.

Dominado por um espetacular Javier Bardem - que apesar disso deixa espaço de sobra para interpretações superlativas de todo o elenco, mesmo aqueles em participações pequenas -, "O bom patrão" é uma amostra de que o cinema espanhol sobrevive muito bem mesmo sem a sombra de Pedro Almodóvar, seu maior representante junto ao público médio. Fernando León de Aranoa é um cineasta que conduz sua história com um visual sóbrio, um humor quase sofisticado e sutileza, deixando entrever nas entrelinhas uma crítica contundente ao sistema de classes e ao jogo social da burguesia - no discurso de Blanco, todos formam uma mesma família, mas na prática, conforme os interesses vão se revelando, as regras mudam e deixam notar um tecido que está esperando o primeiro puxão para romper completamente. Blanco tenta demonstrar, por todo o filme, uma falsa sensação de controle, mas não é preciso muito para que sua aflição transpire por uma série de atos desesperados que, ao invés de ajudar, apenas pioram o quadro. Os risos que "O bom patrão" desperta são nervosos, quase cínicos - e é isso que faz dele uma joia rara, um filme que, de modo inteligente, une o riso e a reflexão como forma de entretenimento da mais alta qualidade.

quarta-feira

ARGENTINA, 1985

 


ARGENTINA, 1985 (Argentina, 1985, 2022, La Unión de los Ríos/Kenya Films/Infinity Hills, 140min) Direção: Santiago Mitre. Roteiro: Santiago Mitre, Mariano Llinás, Martín Mauregui (colaborador). Fotografia: Javier Julia. Montagem: Andrés Pepe Estrada. Música: Pedro Osuna. Figurino: Mônica Toschi. Direção de arte/cenários: Micaela Saiegh. Produção executiva: Phin Glynn, Cindy Teperman. Produção: Victoria Alonso, Santiago Carabante, Chino Darín, Ricardo Darín, Axel Kuschevatzky, Agustina Llambi Campbell, Santiago Mitre, Federico Posternak, Ana Taleb. Elenco: Ricardo Darín, Peter Lanzani, Alejandra Fletchner, Paula Ransenberg. Estreia: 03/9/2021 (Festival de Veneza)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Internacional

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional 


As cicatrizes que a ditadura militar deixou na sociedade argentina ainda se fazem sentir no país, mesmo depois de quatro décadas após seu final. Pelo menos é que dizem filmes como "A história oficial" (1985), de Luis Puenzo - que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro - e o novo "Argentina, 1985", o fascinante petardo do diretor Santiago Mitre que concorreu ao Oscar 2023 na mesma categoria. Porém, enquanto a obra-prima de Puenzo direcionava suas câmeras a um olhar mais particular sobre o trágico período político encerrado em 1983 (com a história de uma professora descobrindo as origens de sua pequena filha adotiva), a produção de Mitre se debruça explicitamente sobre os crimes cometidos pelos militares - estupros, assassinatos, torturas - para fazer uma espécie de inventário de suas atrocidades e, por consequência, alertar sobre os perigos de que voltem a acontecer. Momentoso, sóbrio e inteligente, o filme, estrelado pelo sempre ótimo Ricardo Darín, surge na hora apropriada, mas seu sucesso não deve ser creditado somente à sua importância política: "Argentina, 1985" é cinema de primeira linha, um filmaço que consegue unir, em duas horas e meia de projeção, entretenimento e relevância histórica.

O filme de Mitre elege como protagonista o promotor público Julio Strassera (Ricardo Darín), escalado para ser o responsável pelo julgamento dos militares de alta patente acusados da violenta repressão  contra os críticos ao governo ditatorial que dominou o país entre 1963 e 1983. Contando com o apoio do jovem advogado Luis Moreno Ocampo (Juan Pedro Lanzani) - que entra em rota de colisão com a família, formada por apoiadores do regime - e um grupo de estagiários cuja vontade de ganhar a causa é inversamente proporcional a sua pouca idade, Strassera aceita a missão contra a vontade, ciente das consequências de um julgamento tão polêmico. Porém, conforme as sessões avançam e as ameaças contra ele, sua mulher e seus filhos aumentam, ele vê aumentar cada vez mais sua sede de justiça - especialmente diante de depoimentos contundentes das vítimas, que estabelecem um grau de crueldade e violência impossíveis de ignorar. Strassera sabe que a condenação dos réus é a única forma de evitar que tal atrocidade venha a repetir-se.

 

Fugindo do tom semi-documental que fatalmente acomete produções de teor político, "Argentina, 1985" não abre mão, no entanto, de deixar bem clara as suas intenções de desenterrar o passado sombrio do país. O roteiro, perfeitamente equilibrado entre dramas pessoais e questões jurídicas que jamais descambam para a verborragia técnica que poderia afastar o espectador, não hesita em explicitar, através de testemunhas e documentos, toda a fúria sanguinária de homens que tentavam, através da força física e psicológica, destruir seus inimigos políticos da forma mais vil. São momentos como esses, em que vítimas narram suas dores, que fazem do filme de Santiago Mitre um petardo histórico e emocional, em contraponto à frieza de todas as sequências em que são discutidos detalhes de bastidores. Em especial no terço final da produção, o cineasta parece abraçar definitivamente o desejo de comover a plateia, encaminhando-a para um clímax arrepiante e, melhor ainda, perfeitamente acurado e fiel aos fatos.

É admirável que o roteiro de "Argentina, 1985" - escrito por Mitre e Mariano Llinás - consiga a façanha de ser, ao mesmo tempo, informativo e dramaticamente consistente. Apesar de dedicar boa parte de sua narrativa a um estudo fidedigno dos processos jurídicos retratados e dos documentos oficiais, a trama encontra espaço suficiente para humanizar seus protagonistas e aproximá-los do espectador mais comum. Enquanto Strassera precisa lidar com as ameaças que sofre para abandonar o julgamento - em sequências tensas e editadas com precisão -, Ocampo sente na pele as consequências de enfrentar um sistema de violência ao tornar-se um pária dentro da própria família. Para isso, o diretor recebe o auxílio impecável de um elenco exemplar, liderado por Ricardo Darín, mais uma vez brilhante: um dos produtores do filme (ao lado do filho, o também ator Chino Darín), o astro mais popular do cinema argentino faz mais um gol de placa - e com o Golden Globe em mãos, voltou com prestígio à cerimônia da Academia, que em 2010 premiou o hoje quase clássico "O segredo dos seus olhos". Forte e tocante, "Argentina, 1985" é nada menos que obrigatório.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...