sexta-feira

BESAME MUCHO


BESAME MUCHO (Besame mucho, 1987, Francisco Ramalho Júnior Filmes/HB Filmes, 108min) Direção: Francisco Ramalho Jr.. Roteiro: Francisco Ramalho Jr.,Mário Prata, peça teatral de Mário Prata. Fotografia: José Tadeu Ribeiro. Montagem: Mauro Alice. Música: Wagner Tiso. Figurino: Domingos Fuschini. Direção de arte/cenários: Marcos Weinstock. Produção: Hector Babenco, Francisco Ramalho Jr.. Elenco: Antônio Fagundes, José Wilker, Christiane Torloni, Glória Pires, Giulia Gam, Paulo Betti, Isabel Ribeiro. Estreia: 13/8/87

Montada pela primeira vez em 1982 nos palcos de São Paulo - e no ano seguinte no Rio de Janeiro -, a peça teatral "Besame mucho", de Mário Prata, não demorou a chegar às telas de cinema. Adaptada pelo cineasta Francisco Ramalho Jr e pelo próprio Prata, a história com traços autobiográficos estreou em agosto de 1987, embalada pelos prêmios (roteiro e figurino) do Festival de Gramado e pela popularidade de seu elenco principal, formado por astros globais. Com um texto nostálgico e uma produção caprichada, acabou por se tornar um dos filmes nacionais mais queridos de sua temporada - apesar de raramente ser lembrado pela crítica ou até mesmo pelo público em listas de principais produções do cinema brasileiro, deixa a sensação, após os créditos finais, de um passatempo inofensivo dos mais agradáveis.

A trama criada por Prata não é das mais originais: ao acompanhar a trajetória de dois casais de amigos durante vinte anos, o dramaturgo não chega a aprofundar psicologicamente seus personagens nem tampouco apelar para reviravoltas dramáticas que possam provocar grandes catarses. Porém, é na sua estrutura que a peça (e o filme, acertadamente fiel) surpreende: ao começar a ação no final dos anos 1980 e regredindo até o fatídico 1964, o roteiro substitui a pergunta clássica "o que vai acontecer?" pela menos óbvia "como eles chegaram até esse ponto?". Dessa forma, Prata desnuda idiossincrasias, hipocrisias e inseguranças de seus protagonistas com um acento cômico que permite ao público envolver-se com o enredo sem questionar suas possíveis falhas. Além disso, aproveita para apontar, com inteligência, a mudança dos comportamentos sociais e políticos do país durante um de seus períodos mais críticos através de personagens que, de uma maneira ou outra, são afetados por tais transformações. 

 

Quando o filme começa, Xico (José Wilker) e Olga (Glória Pires) estão se divorciando, depois de uma crise longa e desgastante. Ele é um premiado autor de teatro, mas sem que ninguém saiba, sua principal peça, "Besame mucho", foi escrita, na verdade, por sua mulher - que, na juventude, passou da alienação política a um auto-exílio durante a ditadura militar. Em sentido oposto, o quase idealista Tuca (Antônio Fagundes) tornou-se um empresário de sucesso, crescendo financeiramente em sua cidadezinha natal ao lado da mulher, Dina (Christiane Torloni), que abandonou a rigidez moral da adolescência para embarcar em uma série de fantasias eróticas com o marido, como forma de enterrar um passado de frustrações sexuais. A partir desse primeiro momento, o filme começa a regredir cronologicamente e apresentar os dois casais na construção de seus relacionamentos, suas carreiras e vidas sentimentais - até chegar ao tenebroso 31 de março de 1964, data em que suas próprias relações interpessoais também chegam a um impasse - o primeiro de muitos que ainda lhes atormentariam a existência.

Se o texto de Mário Prata parece mais apropriado ao palco do que às telas de cinema - uma linguagem mais direta e simples que nem sempre se conecta perfeitamente à sua adaptação -, a direção de Francisco Ramalho Jr. explora com precisão seu maior trunfo: o elenco. Aproveitando-se do tom mais leve de seus personagens, Antônio Fagundes e Christiane Torloni brilham com uma química previamente testada na televisão (e que voltariam a repetir em trabalhos futuros). José Wilker e Glória Pires, vivendo um casal com mais nuances dramáticas, brincam sem medo com todas as incoerências de Xico e Olga, provavelmente os mais alterados pela dinâmica da sociedade e da vida de uma cidade grande. Entre os coadjuvantes, Paulo Betti e Giulia Gam quase roubam a cena com momentos de humor equilibrado entre o ingênuo e o picante. Soma-se a isso a percepção triste de que o Brasil de 1964 não está tão distante assim do Brasil de 2022 - com a sombra folclórica de uma ameaça comunista que só existia (e existe) na paranoia da direita. É essa pitada de ironia (involuntária, uma vez que a peça estreou quando havia a ilusão de que o passado já estava enterrado de vez) que faz com que "Besame mucho" deixe de ser apenas uma comédia dramática sobre a imaturidade masculina e a evolução (ou não) da sociedade e se torne quase um lembrete de quão cíclicas são as mudanças no mundo.

quinta-feira

MEN: FACES DO MEDO


MEN: FACES DO MEDO (Men, 2022, A24 Productions, 100min) Direção e roteiro: Alex Garland. Fotografia: Rob Hardy. Montagem: Jake Roberts. Música: Ben Salisbury. Figurino: Lisa Duncan. Direção de arte/cenários: Mark Digby. Produção: Andrew Macdonald, Allon Reich. Elenco: Jesse Buckley, Rory Kinnear, Paapa  Essiedu, Gayle Rankin. Estreia: 20/5/2022 (Canadá)

Aviso de utilidade pública: a quem procura um filme de terror tradicional - com sustos orquestrados com o objetivo de fazer o espectador pular da poltrona - ou uma trama de suspense que funcione como um quebra-cabeças - cujas peças façam sentido nos últimos minutos -, "Men: faces do medo" não é o programa mais indicado. Sim, ele assusta em alguns momentos. Sim, ele propõe um intrincado jogo psicológico. Mas, apesar do terço final apelar para uma violência gráfica quase desconcertante, ele não é um produto comercial puro e simples que busca o sangue gratuito. E infelizmente, apesar de envolver a plateia com uma série de questões promissoras, frustra ao não respondê-las a contento. Ao entregar mais perguntas que respostas, Garland se aproxima, paradoxalmente, de uma superficialidade que quase compromete todas as qualidades do filme - que  não são poucas e são redentoras.

Visualmente "Men" é um desbunde. A fotografia excepcional de Rob Hardy enche os olhos a cada sequência, com um colorido vibrante que acentua o tom de pesadelo que percorre todos os 100 minutos de projeção. O cenário bucólico do interior inglês é um achado, por contrapor a vastidão de seu verde com a sensação claustrofóbica experimentada pela protagonista. E merece aplausos a equipe capaz de conceber os efeitos visuais do ato final - perturbadores, doentios e radicalmente ousados até mesmo quando se sabe que a produtora do filme (A24) é aquela que revelou ao mundo os nomes de Robert Eggers e Ari Aster, responsáveis por um novo sopro de criatividade no cinema de terror: o espectador pode sentir-se incomodado, desconfortável ou enojado, mas é impossível que fique incólume ao que vê. Nesse ponto, pode-se dizer que "Men" é um casamento entre o horror visual de David Cronenberg e o suspense psicológico de David Lynch - acrescido de uma temática das mais relevantes e uma atriz com talento suficiente para segurar até mesmo os momentos mais bizarros da narrativa.

 


Indicada ao Oscar de atriz coadjuvante por seu trabalho em "A filha perdida" (2021), Jesse Buckley assume, em "Men", o posto de protagonista absoluta. Ela vive Harper, uma mulher traumatizada com a morte violenta do ex-marido abusivo (que pode ou não ter cometido suicídio) que resolve afastar-se da civilização para por os pensamentos em ordem e procurar um pouco de paz de espírito. Para isso, ela aluga uma confortável e isolada casa de campo no interior da Inglaterra. Seu objetivo, porém, começa a parecer um tanto utópico logo que ela chega ao local: perseguida por uma estranha figura nua que chega a invadir a propriedade, Harper não demora a perceber que o corporativismo masculino é regra na cidade - qua aparentemente não tem mulheres entre seus habitantes. Sufocada pelo ambiente patriarcal que passa a cercá-la (nem mesmo o padre ou o policial encarregado de protegê-la parecem confiáveis), a atormentada viúva se vê diante da angústia de estar à mercê de pessoas que também a ameaçam - e ir embora de repente não parece a melhor solução.

Os dois primeiros atos de "Men" são um primor de surrealismo e tensão, sublinhados pelo clima feérico oferecidos pela fotografia de Hardy, que passa, sem escalas, do deslumbramento ao assombro - ao comer uma maçã da árvore diante da propriedade, Harper parece ter dado início a seu pesadelo, como uma forma de punição. A partir daí a sensação de perigo iminente aumenta de forma exponencial, conduzindo a personagem (e o espectador) por um labirinto de medo e constante insegurança. É admirável, também, a ideia de fazer com que todos os personagens masculinos do filme (com exceção do falecido marido de Harper) sejam interpretados pelo mesmo Rory Kinnear, em um efeito perturbador e que remete à ideia de que, afinal de contas, todos os homens são iguais. Essa teoria, reiterada durante todo o filme, pode até parecer, a princípio, simplória e superficial, mas é ela quem dá o tom de toda a produção e reafirma o desamparo a que toda mulher está propensa em um mundo que lhe é normalmente hostil. É um conceito interessante e a maneira com que é proposto no filme é aberto às mais variadas interpretações - que estão ligadas também, segundo o próprio cineasta, às duas imagens religiosas encontradas por Harper na igreja local e cujos significados podem explicar boa parte dos enigmas criados pelo roteiro.

É sempre empolgante quando um filme ousa e empurra os limites do espectador - sejam eles quais forem. Da mesma forma, é louvável quando uma produção cinematográfica expande seus domínios a outras formas de arte. Porém, quando um filme exige um conhecimento prévio (e relativamente inacessível ao público médio) para que se faça entender, há algo de errado em sua concepção. Esse é o maior problema de "Men": lançar perguntas no ar e não fazer muita questão de que suas respostas sejam compreendidas. É admirável a ousadia de Alex Garland - um diretor que aos poucos vem se firmando como um realizador com coisas a dizer - em desafiar a lógica do mercado e provocar a plateia às raias do insuportável. Mas até mesmo ousadia em excesso pode atrapalhar boas ideias, e é isso que acontece com seu terceiro longa: genialmente concebido, fantasticamente realizado, mas incapaz de satisfazer seu principal consumidor. Ainda assim, um filme muito acima da média e destinado a tornar-se cult com o passar do tempo.

quarta-feira

BOA SORTE, LEO GRANDE


BOA SORTE, LEO GRANDE (Good luck to you, Leo Grande, 2022, Searchlight Pictures, 97min) Direção: Sophie Hyde. Roteiro: Katy Brand. Fotografia e montagem: Bryan Mason. Música: Stephen Rennicks. Figurino: Sian Jenkins. Direção de arte/cenários: Miren Marañon/Fiona Albrow. Produção executiva: Katy Brand, Julian Gleek, Mark Gooder, Sophie Hyde, Nadia Khamlichi, Nessa McGill, Martin Metz, Alison Thompson. Produção: Debbie Gray, Adrian Politowski. Elenco: Emma Thompson, Daryl McCormack, Isabella Laughland. Estreia: 22/01/2022 (Festival de Sundance)

Em uma época em que mulheres são apedrejadas virtualmente por ousarem desafiar os limites impostos pela sociedade a sua idade e criticadas nem tão virtualmente assim por sua busca pela liberdade sexual e sentimental, não deixa de ser uma grande ousadia o lançamento de um filme como "Boa sorte, Leo Grande": com uma visão predominantemente feminina a respeito de assuntos relevantes e urgentes, o filme de Sophie Hyde é um triunfo em todos os pontos, capaz de fazer rir, pensar e emocionar através de uma estrutura aparentemente simples que esconde uma profundidade rara no cinema comercial. Ao tratar com naturalidade temas como sexo, solidão, família e hipocrisia, o roteiro de Katy Brand transforma o que poderia ser um tedioso e autoindulgente discurso em uma pérola de sofisticação e sensibilidade.

Que não se espere, em "Boa sorte, Leo Grande", piadas escatológicas e/ou fáceis, ainda que o roteiro não se furte a brincar com os contrastes entre seus protagonistas e suas idiossincrasias. Como em uma boa peça de teatro, seus personagens vão revelando aos poucos suas facetas, permitindo a eles mesmos - e ao público - que suas reais motivações e sentimentos só surjam nos momentos mais precisos. Alternando-se no domínio das conversas, a professora aposentada Nancy (Emma Thompson) e o garoto de programa Leo Grande (Daryl McCormack) desfilam, em pouco mais de uma hora e meia, seus sonhos e frustrações, em uma relação que permite tal profundidade somente por s saber efêmera - a princípio nenhum dos dois sabe a verdadeira identidade do outro, escondidos que estão sob as máscaras que a situação exige. Ela é uma viúva que sempre viveu sob as normas impostas por sua religiosidade e criação conservadora; ele disfarça sua profissão sui generis sob um verniz intelectual e gentil que o protege dos preconceitos inerentes à função. Ela quer conhecer, na prática, tudo aquilo de que apenas ouviu falar em sua vida sexual insossa - e tem inclusive uma lista escrita de tais desejos; ele sofre com a rejeição da mãe e oferece aos clientes mais do que apenas momentos de prazer físico - lhes oferta também o ombro amigo,e se mostra disposto a ouvir o quanto for necessário. Nenhum deles é imune à solidão - e aí está o pulo do gato do filme.

 

Tanto Nancy quanto Leo podem parecer, nos primeiros minutos, uma perigosa soma de clichês. Basta alguns momentos, no entanto, para que a inteligência do texto de Brand e a elegãncia da direção de Sophie Hyde apontem um caminho diferente para a narrativa. Sim, com exceção de uma única sequência perto do clímax, toda a ação se passa em um quarto de hotel, mas limitar "Boa sorte, Leo Grande" a teatro filmado é negar à construção estética de Hyde todos os seus inúmeros méritos. A fotografia de Bryan Mason (igualmente responsável pela edição enxuta) acompanha não só as mudanças climáticas e temporais, mas também a evolução do relacionamento entre os personagens. A trilha sonora, discreta, paira no ar como um comentário sutil aos diálogos, e o figurino serve como a confirmação visual à personalidade de cada um em cena. Leo, por exemplo, não abusa do previsível estilo sexy que poderia lhe definir, optando por uma sobriedade surpreendente - assim como Nancy, conservadora e tímida, aos poucos vai se permitindo uma liberdade maior até mesmo para se vestir.

Mas nada funcionaria em "Boa sorte, Leo Grande" se não fosse Emma Thompson. Uma das maiores atrizes de sua geração, a vencedora de dois Oscar - um deles pelo roteiro de "Razão e sensibilidade" (1995) - confirma sua versatilidade e maturidade artística ao abraçar uma personagem complexa com toda a intensidade de sua experiência. Ao injetar humanidade em uma protagonista cujos defeitos são óbvios e pouco adoráveis - ainda que explicáveis por sua criação machista e religiosa -, Thompson ultrapassa os limites da simples atuação e entrega ao espectador o retrato de uma pessoa verdadeira, repleta de falhas mas dotada de uma humanidade quase palpável. É uma de suas atuações mais memoráveis, merecidamente cotada para mais uma indicação à estatueta dourada. Resta saber se a Academia será tão corajosa quanto ela em homenagear um filme que celebra o prazer feminino como forma de libertação: ao aparecer completamente nua em cena, Thompson não apenas se liberta das amarras de uma ditadura estética claustrofóbica, mas também ensina o amor próprio, a autoconfiança e a liberdade de ser quem se é. Se isso não é empoderamento não sei o que mais pode ser...

terça-feira

DESERTO PARTICULAR


DESERTO PARTICULAR (Deserto particular, 2021, Fado Filmes/Anacoluto/Grafo Audiovisual, 121min) Direção: Aly Muritiba. Roteiro: Aly Muritiba, Henrique dos Santos. Fotografia: Luis Armando Arteaga. Montagem: Patricia Saramago. Música: Felipe Ayres. Figurino: Isbella Brasileiro. Direção de arte/cenários: Fabiola Bonofiglio, Marcos Pedroso. Produção executiva: Vasco Esteves, João Fonseca, Raiane Rodrigues, Chris Spode. Produção: Gonçalo Galvão Teles, Luis Galvão Teles, Antonio Gonçalves Júnior, Aly Muritiba. Elenco: Antonio Saboia, Pedro Fasanaro, Thomas Aquino, Laila Garin, Zezita Matos, Flávio Bauraqui. Estreia: 02/9/2021 (Festival de Veneza)

É difícil falar sobre "Deserto particular" sem tropeçar em spoilers. Por mais que o filme se sustente independentemente da reviravolta que acontece em sua metade - o que fica nítido em uma revisão - e se mantenha como um dos exemplares mais empolgantes do cinema brasileiro das últimas décadas, é crucial que se mantenha em segredo um dos pontos vitais de seu roteiro, sob pena não de estragar a experiência, mas de privar o espectador do prazer de descoberta que tanto nos emociona quanto eletriza.

É difícil falar de "Deserto particular" sem elogiar o roteiro enxuto, por vezes claustrofóbico, de Aly Muritiba e Henrique dos Santos, que mergulha o público em uma narrativa quase seca, que vai se expandindo até quase irromper em uma enxurrada de sensações conflitantes. Ao contrapor masculino/feminino, sudeste/nordeste, força/fragilidade, os autores - merecidamente premiados com o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2022 - abraçam sem medo as dicotomias que regem o país, retratando-as em relações interpessoais jamais previsíveis e calcadas em um suspense psicológico dos mais admiráveis. Criando personagens verossímeis e nada óbvios, Muritiba e Henrique fogem do maniqueísmo ao dotar seus protagonistas tanto de qualidades quanto de defeitos e aproximá-los da plateia mesmo quando cometem erros quase imperdoáveis.

 


É difícil falar de "Deserto particular" sem aplaudir seu elenco. Se o estreante Pedro Fasanaro quase rouba a cena com uma atuação corajosa que escapa com louvor das armadilhas a que poderia ser submetido com seu surpreendente Robson, seu entorno é igualmente impecável - desde Thomas Aquino como seu fiel escudeiro Fernando, dono de alguns diálogos impagáveis, até a ótima Zezita Matos como sua imprevisível avó. E qualquer elogio que se faça a Antonio Saboia por seu desempenho como o protagonista Daniel provavelmente será insuficiente para dimensionar a extensão de sua façanha. Em duas horas de duração, Saboia transita - muitas vezes sem qualquer aviso prévio - por uma vasta gama de sentimentos, intercalando momentos de fúria, dor, amor, solidão, frustração e tesão com a segurança de um grande (e ainda subestimado) ator. Sua construção de Daniel -um policial afastado da corporação depois de um episódio de violência - envolve desde a expressão corporal exemplar (não apenas sua musculatura, mas também sua postura fala mais do que qualquer monólogo) até a atenção a seu semblante (normalmente sisudo mas capaz do mais apaixonado sorriso quando necessário).

É difícil falar de "Deserto particular" sem admirar a direção inteligente de Aly Muritiba. Ao equilibrar seu cuidado com os atores com o senso estético que remete a road movies célebres como "Paris, Texas" (1984), o cineasta, responsável pelos premiados "Ferrugem" (2018) e "Jesus Kid" (2021) constrói uma atmosfera repleta de sensualidade e tensão, onde cada cena, cada sequência, cada linha de diálogo levam a um estado de completo envolvimento da plateia, a quem não resta alternativa senão entregar-se completamente a uma história de amor, obsessão e tolerância contada com, acima de tudo, respeito por seus protagonistas: como uma testemunha neutra dos acontecimentos, sua câmera praticamente lê a alma dos personagens, atormentados por suas paixões irreparáveis e medos irreprimíveis. Não bastasse tudo isso, Muritiba ainda encerra seu filme com um hino pop capaz de entusiasmar o mais renitente espectador:é impossível ficar incólume a "Total eclipse of the heart", que, na voz rouca de Bonnie Tyler, ilustra com perfeição os meandros da história de amor entre Daniel e Sara.

Por fim, é impossível falar de "Deserto particular" sem lamentar que não tenha chegado a figurar entre os indicados ao Oscar de melhor filme internacional, vaga que tentou depois de selecionado pelo comitê responsável. Ao falar sobre amor e tolerância em um período tão lúgubre na cultura nacional, teria sido um alento - e um justo reconhecimento a suas qualidades - vê-lo disputando a estatueta da Academia. Como nem só de prêmios e reconhecimentos internacionais, porém, "Deserto particular" se mantém como uma obra fundamental da arte brasileira. Bravo!

sexta-feira

MEDIDA PROVISÓRIA


MEDIDA PROVISÓRIA (Medida provisória, 2020, Lereby, 103min) Direção: Lázaro Ramos. Roteiro: Lázaro Ramos, Lusa Silvestre, Aldri Anunciação, Elísio Lopes Jr., peça teatral "Namíbia, não", de Aldri Anunciação. Fotografia: Adrian Teijido. Montagem: Diana Vasconcellos. Música: Kiko de Souza, Plínio Profeta, Rincon Sapiência. Figurino: Alex Brollo. Direção de arte/cenários: Tiago Marques Teixeira. Produção executiva: Mariza Figueiredo. Produção: Daniel Filho, Tânia Rocha. Elenco: Alfred Enoch, Taís Araújo, Seu Jorge, Adriana Esteves, Renata Sorrah, Emicida, Mariana Xavier, Flávio Bauraqui. Estreia: 03/10/2020 (Festival de Moscou)

É bem provável que, no panorama cultural brasileiro do momento, não pudesse haver alguém mais apropriado do que Lázaro Ramos para assinar a direção do filme "Medida provisória": ativista dos mais incansáveis da luta contra o racismo e pela preservação da cultura negra, Ramos se aproveita inteligentemente de sua visibilidade como artista global para pautar temas que, em mãos menos sensíveis, poderiam facilmente descambar para a militância oca e/ou oportunista. Se na peça teatral “No topo da montanha”, de Katori Hall – que estreou em 2015 e lotou teatros pelo país todo desde então – ele vivia Martin Luther King em seus últimos momentos de vida, em seu primeiro trabalho como cineasta ele reafirma seu compromisso com a causa da negritude com ainda mais contundência – a ponto de ter incomodado o governo e seus pretensos representantes culturais e ter atrasado seu lançamento comercial. A boa notícia é que, além de ter dado voz a uma história de interesse humano raro, o ator/diretor não deixou de lado seu talento como narrador, construindo uma obra cinematográfica consistente e aterradora.

A peça teatral em que "Medida provisória" se baseia, "Namíbia, Não", de Aldri Anunciação, foi montada pela primeira vez em 2011 – e é chocante como, nos dez anos que separam sua encarnação dos palcos de sua versão para as telas, as coisas não apenas não evoluíram como sofreram um revés brutal. O que há alguns anos poderia soar como uma distopia um tanto distante, hoje em dia surpreende por retratar, sem muitos retoques, uma realidade violenta e atroz que persegue, acua e mata com o aval de parte da população autodescrita como “cidadãos de bem” – muito bem representada, no filme, por uma (mais uma vez) brilhante Renata Sorrah. Discriminação disfarçada de boas intenções é o que move a trama de Medida Provisória – que encontra na direção segura de Lázaro Ramos terreno fértil para discussões relevantes e questionamentos urgentes.

 

A trama do filme se passa em um futuro pouco distante, onde o governo, sob a falácia de reparação histórica – mas com objetivos claríssimos de limpeza étnica – inicia a deportação de todos os cidadãos negros do país para a África. A ideia, logicamente, por sua natureza autoritária e discriminatória, não é aceita passivamente por todos – enquanto alguns brasileiros embarcam de boa vontade e com esperanças de uma nova vida, outros, cientes de suas raízes nacionais e de seu direito à cidadania, batem de frente com o poder estabelecido. Dentre eles, está o jovem advogado Antonio (Alfred Enoch, conhecido pela série "How To Get Away With Murder") e sua esposa, a médica Capitu (Taís Araújo): separados pelas circunstâncias, cada um deles resiste como pode à novidade; ele se recusa a abandonar o apartamento onde mora e se transforma em símbolo de luta; ela, grávida de poucas semanas, se junta a um grupo de opositores à nova medida (uma espécie de quilombo, rebatizado de afrobunker) para organizar uma forma de defesa mais radical. Nesse meio-tempo, batalhas sangrentas ocupam as ruas e o racismo velado da sociedade vem à tona, forçando a uma ruptura de graves consequências.

Seria muito mais confortável ao espectador médio assistir a "Medida provisória" como um filme de ficção científica, como uma espécie de pesadelo cruel e impossível. No entanto, não deixa de ser extremamente incômodo perceber que o que está sendo transmitido na tela diante de nossos olhos é uma metáfora pouco disfarçada de uma situação cada vez menos distante. Felizmente Lázaro Ramos não apela para o sentimentalismo ou a violência gratuita, optando pelo tom de fábula (ainda que realista) e acreditando na potência da trama e de seus personagens – a ponto de ousar fazer um paralelo entre os diferentes tipos de intolerância racial e social. Amparado por um elenco de ouro – Adriana Esteves deita e rola como uma Damares tão cínica e cruel quanto a verdadeira e Seu Jorge quase rouba a cena como o primo do protagonista, dono de uma das cenas mais fortes da produção – e por uma edição ágil e sucinta, "Medida provisória" não funciona apenas como mensagem. É, também, cinema de primeira linha.

quinta-feira

PAIXÃO DE OCASIÃO


PAIXÃO DE OCASIÃO (Picture perfect, 1997, Warner Bros, 121min) Direção: Glenn Gordon Caron. Roteiro: Arleen Sorkin, Paul Slansky, Glenn Cordon Caron, estória de Arleen Sorkin, Paul Slansky, May Quigley. Fotografia: Paul Sarossy. Montagem: Robert Reitano. Música: Carter Burwell. Figurino: Jane Robinson. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Debra Schutt. Produção executiva: William Teitler. Produção: Erwin Stoff. Elenco: Jennifer Aniston, Kevin Bacon, Jay Mohr, Olympia Dukakis, Illeana Douglas, Kevin Dunn. Estreia: 01/8/97

Comédias românticas, via de regra, seguem algumas fórmulas - já consagradas e sem as quais os fãs do gênero se sentiriam órfãos. Uma dessas fórmulas (talvez a mais utilizada, mas sempre eficiente) é seguida quase à risca em "Paixão de ocasião", um dos primeiros sucessos no cinema de Jennifer Aniston - então já famosa por "Friends" mas ainda antes de seu célebre casamento com Brad Pitt. Dirigido por Glenn Gordon Caron, produtor executivo de televisão, mas com poucos trabalhos como cineasta, o filme, simpático e agradável, serviu para comprovar o carisma de Aniston, que se tornaria, com o passar dos anos, a mais bem sucedida integrante do elenco da série (ao menos na tela grande). Mesmo sem apresentar maiores novidades em seu enredo - e talvez justamente por isso -, a história de um triângulo amoroso surgido através de um mal entendido conquistou o público (em especial o feminino) com sua mistura de humor, romance, belas paisagens e uma trilha sonora moderna - em suma, a receita completa para uma bela sessão da tarde despretensiosa.

Kate (Jennifer Aniston) é uma jovem de 28 anos que trabalha em uma agência de publicidade de Nova York, ao lado do homem por quem é apaixonada, o galante Sam (Kevin Bacon). Ainda solteira apesar dos apelos de sua dramática mãe, Rita (Olympia Dukakis), que não vê a hora de ser avó, Kate está praticamente desistindo da vida amorosa quando percebe que nem mesmo sua vida profissional está andando pra frente devido a seu estado civil. Deixada de lado em uma campanha milionária somente por ser solteira - de acordo com seus chefes ela não tem a estabilidade necessária para que confiem a ela uma responsabilidade maior -, Kate acaba aceitando fazer parte de uma mentira criada por sua amiga e colega de trabalho Darcy (Illeana Douglas): de uma hora para outra, o cinegrafista Nick (Jay Mohr) - que vive de filmar eventos particulares em Massachussets - se torna seu noivo, graças a uma fotografia casual tirada em um casamento. Para manter a mentira, Kate convida Nick para visitá-la e acompanhá-la em um jantar de negócios - ele se apaixona de verdade por ela, que não percebe a situação por ainda estar obcecada por Sam, que repentinamente também passa a sentir-se atraído pela colega capaz de trair o noivo para ficar com ele.

 

As situações criadas pelo roteiro de "Paixão de ocasião" são deliciosas, tanto no que diz respeito aos problemas criados na vida de Kate por sua mentira quanto por seu encontro com Nick, que se demonstra uma pessoa adorável e muito mais apaixonante do que ela poderia prever. Ao contrário de seus colegas nova-iorquinos, esnobes e consumidos pelas carreiras, ela vê, no rapaz, alguém sensível e capaz de oferecer mais do que conversas sobre mercado financeiro e estabilidade profissional: delicado e atencioso, Nick é a antítese de Sam, egoísta, autocentrado e que só percebe Kate quando tem certeza de que ela, comprometida, não lhe cobrará mais do que noites de sexo escondido. Enquanto um mal entendido leva a outro, no entanto, a trama perde a oportunidade de discutir temas relevantes, como a posição da mulher no mercado de trabalho e o preconceito contra mulheres solteiras e independentes. Não chega a ser um demérito - afinal não parece ser a intenção do roteiro - mas soa a uma oportunidade perdida ignorar uma premissa tão cheia de possibilidades, principalmente porque, conforme é mostrado logo nas primeiras cenas, Kate é tão talentosa quanto qualquer um de sua agência, sendo casada ou solteira. Mas essa discussão praticamente inexiste no filme - e, levando-se em conta de que se trata de uma comédia romântica com o objetivo simples de entreter e deixar a plateia com um sorriso nos lábios, é algo perdoável e compreensível.

"Paixão de ocasião" é, para os ávidos consumidores do gênero, uma delícia. Atores fotogênicos e talentosos, um roteiro que não exige demais dos neurônios, um roteiro que trabalha os clichês com segurança e carinho e uma direção que não tenta sobrepujar os elementos de que dispõe. Correto e sem grandes deslizes, Glenn Gordon Caron - cujo maior crédito em cinema é "Love affair: segredos do coração" (1994), remake de "Tarde demais para esquecer" (1957) - conduz seu filme com elegância e, mesmo que pudesse inserir um pouco mais de leveza a seu ritmo, faz dele um programa sem contra-indicações. Em seu primeiro papel principal em um gênero que fez a glória de Meg Ryan, Jennifer Aniston mostra personalidade própria e carisma o bastante para alçar voos mais ambiciosos - como seu elogiado desempenho em "Cake: uma razão para viver", lançado em 2015 e que comprovou seu talento dramático.

quarta-feira

A COR DA NOITE

 

A COR DA NOITE (Color of night, 1994, Cinergi Pictures Entertainment/Hollywood Pictures, 121min) Direção: Richard Rush. Roteiro: Matthew Chapman, Billy Ray, estória de Billy Ray. Fotografia: Dietrich Lohmann. Montagem: Jack Hofstra. Música: Dominic Frontiere. Figurino: Jacki Arthur. Direção de arte/cenários: James L. Schoppe/Cynthia McCormack. Produção executiva: Andrew G. Vajna. Produção: Buzz Feitshans, David Matalon. Elenco: Bruce Willis, Jane March, Ruben Blades, Brad Dourif, Lesley Ann Warren, Lance Henriksen, Scott Bakula, Kevin J. O'Connor, Andrew Lowery, Eriq La Salle, Kathleen Wilhoite. Estreia: 19/8/94

Uma trama policial com direito a reviravoltas e pistas falsas; um astro de grande apelo popular; uma jovem e promissora estrela com um cult movie no currículo; e cenas ousadas o bastante para incomodar aos mais conservadores e atrair o público ávido por ver nas telas sequências capazes de falar aos mais básicos instintos. Parecia não haver erro na receita de "A cor da noite", que unia o carisma de Bruce Willis, a sensualidade de Jane March - revelada no polêmico "O amante" (1992) - e um enredo que misturava violência, psicanálise e generosas doses de sexo. Porém, as coisas não saíram conforme o esperado: apesar da bela carreira posterior, no mercado de vídeo, o filme decepcionou - e muito - nas bilheterias e não foi exatamente bem recebido pela crítica. Considerado por March como o filme que atrapalhou sua trajetória como atriz, "A cor da noite" tem, na origem de seu fracasso comercial, um vigoroso embate de bastidores, que prejudicou e tornou ainda mais frágil um projeto arriscado por si só.

Produzido pelo bem-sucedido Andrew G. Vajna - cujos créditos à época já contavam com sucessos de bilheteria como os três primeiros filmes de Sylvester Stallone como Rambo e "O vingador do futuro" (1990), com Arnold Schwarzenegger, e de prestígio, como "Coração satânico" (1986) e "Alucinações do passado" (1990) -, "A cor da noite" chegou ao diretor Richard Rush como uma espécie de pedido de desculpas de Vajna pelos problemas ocorridos durante a produção de "Air América: loucos pelo perigo" (1990), quando o veterano cineasta e roteirista teve o projeto arrancado de suas mãos depois de anos de desenvolvimento. O que deveria ter sido uma bandeira branca, no entanto, piorou ainda mais a situação: ciente de que teria direito ao corte final, Rush descobriu, talvez tarde demais, que teria sua visão sobrepujada aos interesses do produtor. Pior ainda: foi quase demitido logo depois das filmagens (o que é proibido pelo sindicato de diretores) e viu seu trabalho retalhado ao chegar às telas. Com o fiasco do filme nas bilheterias, não demorou para que um jogo de empurra-empurra chegasse à imprensa, com um culpando o outro pelo naufrágio da produção e Rush defendendo sua versão 18 minutos mais longa do que a lançada comercialmente, que, segundo ele, apelava para a nudez gratuita e sufocava o enredo. Rush provavelmente sabia o que estava dizendo: uma comparação entre as duas versões, feita por alguns críticos e uma plateia selecionada em San Francisco concordou com o cineasta de que a sua edição melhorava - e muito - o resultado final.

 

A questão, no entanto, é que, deixada de lado a guerra entre Vajna e Rush, "A cor da noite" é um filme que não chega a se sustentar completamente. A trama central é interessante e sua resolução é até mesmo crível - dentro de seu universo dramático e ficcional -, mas é inegável que a produção soa um tanto artificial, com personagens clichês e sim, um foco na sexualidade que só se justifica pelo sucesso financeiro de filmes como "Instinto selvagem" (1992), que lotou as salas de cinema e transformou Sharon Stone no maior símbolo sexual feminino da década. O roteiro, criado por Billy Ray e re-escrito com Matthew Chapman (que posteriormente estaria por trás do script de "Flores raras", de Bruno Barreto) não consegue escapar das armadilhas comuns ao gênero, abrindo possibilidades intrigantes mas nem sempre aprofundando-as a contento - chega a ser risível a forma com que os pacientes do protagonista são apresentados, mal oferecendo a seus (bons) intérpretes a chance de melhor desenvolvê-los. Atores talentosos como Brad Dourif, Lance Henriksen e Lesley Ann Warren são desperdiçados em diálogos rasos e uma direção pouco criativa - para não dizer preguiçosa. E clímax, que se pretendia chocante e/ou surpreendente, esbarra no tom morno da atuação de Bruce Willis - um bom ator quando bem dirigido, como bem mostraram Quentin Tarantino e M. Night Shyamalan.

A trama de "A cor da noite" é, a princípio, empolgante: Bill Capa (Bruce Willis), um psicanalista de Nova York que, traumatizado com o suicídio de uma paciente diante de seus olhos, resolve passar um tempo com um colega de Los Angeles, Bob Moore (Scott Bakula). Quando Moore é assassinado violentamente, o detetive encarregado do caso, Hector Martinez (Rubén Blades), sugere a Capa que assuma o grupo de analisados da vítima, com o objetivo de descobrir se algum deles é o culpado. Mesmo temeroso em voltar a clinicar, Capa aceita a ideia e passa a prestar atenção nos cinco problemáticos pacientes de Moore, todos eles plenamente capazes de cometer um crime. Nesse meio tempo, Capa acaba seduzido pela bela e misteriosa Rose (Jane March), que pode ou não estar ligada ao caso, ainda que indiretamente.

Para quem procura um filme policial convencional, com alguns momentos de ação e um final relativamente surpreendente, "A cor da noite" é um programa e tanto. Porém, para o público mais exigente não deixa de ser uma decepção: não apenas as cenas de sexo são pouco inventivas como a trama falha em envolver de forma satisfatória - sem falar na armadilha criada pelo próprio enredo, quando precisa esconder algo que só faz sentido quando mostrado claramente. No final das contas, pode ser considerado, como bem disse a publicação oficial dos Framboesas de Ouro, um dos 100 filmes ruins mais divertidos já feitos.

terça-feira

8MM: OITO MILÍMETROS



8MM: OITO MILÍMETROS (8mm, 1999, Columbia Pictures, 123min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Andrew Kevin Walker. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Mark Stevens. Música: Mychael Danna. Figurino: Mona May. Direção de arte/cenários: Gary Wissner/Gary Fettis. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo. Produção: Judy Hofflund, Gavin Polone, Joel Schumacher. Elenco: Nicolas Cage, Joaquin Phoenix, James Gandolfini, Peter Stormare, Catherine Keener, Anthony Heald. Estreia: 19/02/99 (Festival de Berlim)

Quando o projeto de "8mm: oito milímetros" chegou à Sony Pictures, no final dos anos 1990, era, ao mesmo tempo, extremamente promissor (para os fãs de um cinema adulto e corajoso) e potencialmente perigoso (para um estúdio cioso de suas finanças): escrito pelo mesmo Andrew Kevin Walker que deu ao mundo o primoroso "Seven: os sete crimes capitais" (1995), o roteiro do filme mergulhava o protagonista no sombrio universo dos snuff movies (produções amadoras em que assassinatos são cometidos diante da câmera) e conduzia a plateia em um labirinto de medo, repulsa e violência. A ideia era fazer um filme perturbador, sem grandes concessões comerciais e, se possível, buscando um público mais adulto e exigente. Porém, quando finalmente chegou às telas, em fevereiro de 1999, com um atraso de dois meses em relação a seu cronograma original, "8mm" em pouco lembrava sua gênese: dirigido por Joel Schumacher e estrelado por Nicolas Cage no auge do sucesso popular, o filme apresentou-se aos espectadores como um filme policial competente e sério, mas bem longe da ousadia pretendida por seu criador: ficou no meio do caminho entre o thriller claustrofóbico que sonhava ser e o filme de ação formulaico capaz de amealhar fortunas que era a pretensão de seu estúdio.

Antes que o explosivo material chegasse às mãos de Joel Schumacher - ainda não recuperado das rumorosas críticas a seu "Batman & Robin" (1997) e disposto a correr riscos profissionais em produções que fugissem de blockbusters previsíveis -, nomes fortes da indústria chegaram a ser cogitados pela Sony Pictures. Caso de Paul Verhoeven, William Friedkin e até mesmo David Fincher, que poderia repetir a parceria com o roteirista Andrew Kevin Walker. Quando Schumacher embarcou, a ideia do estúdio ainda era manter o tom pesado do roteiro original e apostar em uma produção radicalmente oposta ao mainstream - e para isso contavam com a presença do ator Russell Crowe no elenco: alçado à categoria de astro graças ao merecido sucesso de "Los Angeles: cidade proibida" (1997), Crowe poderia oferecer ao filme uma credibilidade rara e equilibrar os riscos de rejeição de uma plateia não acostumada a radicalidades. No entanto, em Hollywood raramente as coisas caminham da forma previsível, e depois de um bom tempo à procura de um astro para encabeçar o elenco - e gente como Mel Gibson, John Travolta, Bruce Willis e Nick Nolte chegaram a ser lembrados pelos produtores -, um nome forte surgiu no horizonte. Recentemente premiado com o Oscar de melhor ator por "Despedida em Las Vegas" (1995) e estampando os cartazes de êxitos de bilheteria, como "A outra face" (1997) e "Cidade dos anjos" (1998), Nicolas Cage demonstrava interesse em assumir a protagonização do longa e, com isso, aumentar suas chances de lotar as salas de exibição. O dilema de Schumacher estava armado: uma produção mais barata, quase experimental, com um ator de prestígio, ou um filme policial tradicional, de orçamento generoso, com um astro de primeira grandeza? Não é preciso ser especialista em mercado para adivinhar a opção da Sony Pictures.

 

A entrada da Cage no projeto, no entanto, não significou o fim dos problemas. Indignado com as mudanças propostas por Schumacher para atenuar o tom sombrio do roteiro, Andrew Kevin Walker simplesmente abandonou o projeto, deixando as alterações nas mãos do diretor e de Nicholas Kazan. Ciente de que tais mudanças se faziam necessárias para que o orçamento de estimados 40 milhões de dólares se pagasse nas bilheterias, Schumacher deixou de lado o desejo de chocar a plateia e abraçou a ideia de realizar mais um sucesso financeiro. Não se pode dizer que falhou, mas os quase 100 milhões arrecadados internacionalmente dizem mais sobre seu potencial comercial do que a respeito de suas qualidades artísticas. É óbvio que o diretor consegue se sair bem na condução do filme - há muito mais nele de "Um dia de fúria" (1992) do que de suas versões de Batman, por exemplo -, mas sua falha em escapar dos clichês não deixa de incomodar. Enquanto acompanha o protagonista em sua busca pela verdade e conduz o espectador em um universo insalubre e desconfortável, o cineasta demonstra uma maturidade e um senso de ritmo e tensão admiráveis - auxiliado pela presença de um Joaquin Phoenix ainda jovem mas já extremamente eficiente, em papel recusado por Mark Wahlberg, Mas é perceptível também a quebra de coerência no terço final, quando o roteiro parte da ação cerebral para o confronto físico: é razoavelmente climático, mas formulaico e previsível em excesso. Agrada ao público que busca uma catarse, mas frustra àqueles que esperam desfechos menos banais.

"8mm" ocupa, dentro da carreira de Joel Schumacher, um lugar interessante: foge de seus dramas lacrimosos e superficiais, passa longe de seus equivocados filmes de super-heróis e ousa um pouco mais que suas boas adaptações de John Grisham, mas não chega à quase perfeição de "Um dia de fúria" - esta sim uma produção corajosa e consistente. A trama que leva o detetive particular Tom Welles (interpretado por um Nicolas Cage correto mas sem maiores lances de genialidade) a penetrar no mundo da pornografia ilegal é interessante e se demonstra sufocante por boa parte das duas horas de projeção, e é impossível não perceber a excelência da trilha sonora de Mychael Danna e a inteligência da edição de Mark Stevens - truncada, não óbvia, desconfortável. São elementos que se destacam em uma produção acima da média mas que não alcança jamais todo o potencial de sua proposta inicial. Uma pena que não houve a coragem necessária para seguir à risca o roteiro de Andrew Kevin Walker e manter Russell Crowe no papel central: história poderia ter sido feita.

sexta-feira

SEM MEDO DE VIVER


SEM MEDO DE VIVER (Fearless, 1993, Warner Bros, 122min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Rafael Yglesias, romance de sua autoria. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: William Anderson, Armen Minasian, Lee Smith. Música: Maurice Jarre. Figurino: Marilyn Matthews. Direção de arte/cenários: John Stoddart/John Anderson. Produção: Mark Rosenberg, Paula Weinstein. Elenco: Jeff Bridges, Isabella Rossellini, John Turturro, Rosie Perez, Benicio Del Toro, Tom Hulce. Estreia: 15/10/93

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Rosie Perez)

De vez em quando uma receita com todos os ingredientes certos pode não ter o resultado esperado, por  razões as mais variadas. Cinema, então, apesar de frequentemente usar e abusar de fórmulas já testadas previamente, é uma incógnita: para cada produção que confirma a validade de elementos já devidamente consagrados, outras várias avisam de que nem sempre a confluência de fatores bem-sucedidos é garantia de sucesso. É o caso de "Sem medo de viver", lançado pela Warner no final de 1993 com evidentes intenções de chegar ao Oscar - com um diretor de prestígio, um ator principal dos mais bem quistos na indústria e um tema capaz de suscitar discussões e quiça lágrimas, o filme viu frustrados seus planos quando foi praticamente ignorado pela Academia (concorreu a apenas uma estatueta) e naufragou nas bilheterias, arrecadando pouco menos de sete milhões de dólares pelo mundo. Com o passar dos anos, porém, e com o apoio da crítica, acabou por adquirir o status de cult, encontrando seu público e passando a ser considerado uma pérola escondida na filmografia dos envolvidos. 

Baseado no romance "Fearless", de Rafael Yglesias, publicado no mesmo ano de lançamento do filme, "Sem medo de viver" é um filme estranho: já começa com o protagonista, Max Klein (Jeff Bridges), conduzindo um grupo de atônitos sobreviventes de um desastre aéreo para longe do acidente. Não demora muito para que seu ato de heroísmo faça dele uma espécie de celebridade - uma consequência com a qual não se sente exatamente à vontade. O que o surpreende, na verdade, é sua repentina inabilidade de conexão com a esposa, Laura (Isabella Rossellini), e o filho pequeno, Jonah, e a sensação de invulnerabilidade e imortalidade. Crente de que sobreviver ao acidente foi como nascer de novo, Max quer recomeçar a vida, redescobrir sentimentos e - como parte de sua mente um tanto desequilibrada pelo trauma - testar seus novos poderes de resistir à morte. Através de Bill Perlman (John Turturro), psicólogo da companhia aérea, designado para acompanhar os passageiros que saíram vivos da tragédia, Max conhece Carla Rodrigo (Rosie Perez), uma jovem que perdeu o filho de poucos meses diante de seus olhos. Surge entre ele, com sua síndrome de super-herói, e ela, com seu exarcebado sentimento de culpa, uma relação inesperada.

 

Dois grandes trunfos fazem com que "Sem medo de viver" escape das armadilhas lacrimosas em que poderia cair. Um deles é a direção do australiano Peter Weir, um dos cineastas mais consistentes a aportar em Hollywood na década de 1980 - depois de sucessivos êxitos de crítica em sua terra natal, como "Picnic na montanha misteriosa" (1975) e "Gallipoli" (1981), em 1993 ele já tinha concorrido ao Oscar de direção por "A testemunha" (1985) e "Sociedade dos poetas mortos" (1989). O segundo deles é a atuação inspirada de Jeff Bridges, que ficou com o papel inicialmente pensado para Mel Gibson (parceiro do diretor em "Gallipolli" e "O ano em que vivemos em perigo" (1984)) e lhe deu uma profundidade comovente. Bridges, que chegou a declarar o filme como um de seus trabalhos preferidos, imprime a Max Klein uma verdade que impede que o roteiro - escrito pelo mesmo Rafael Yglesias autor do romance que lhe deu origem - descambe para a inverossimilhança. Por mais improváveis que sejam algumas atitudes do protagonista, a presença de Bridges equilibra a balança e conduz a história de redenção, desespero e culpa de forma sensível e sem apelar excessivamente ao dramalhão. Apesar da história em si ser bastante pesada - especialmente a trama que envolve Rosie Perez -, a mão elegante de Weir é sentida especialmente em sequências mais lúdicas, como o clímax final e a cena de abertura. Sem cair na tentação de dar tudo mastigadinho à plateia, o diretor a convida à reflexão - e talvez este tenha sido o problema de "Sem medo de viver" junto à pouco ousada Academia.

Ao homenagear apenas Rosie Perez com uma indicação - ela perdeu a estatueta para a pequena Anna Paquin, por "O piano" (1993) -, a Academia perdeu a oportunidade de aplaudir a soberba interpretação de Jeff Bridges, a direção econômica e poética de Weir e a trilha sonora eficiente de Maurice Jarre. Mesmo que não esteja no mesmo nível dos melhores trabalhos do diretor - "A testemunha", "Sociedade dos poetas mortos" e o posterior "O show de Truman: o show da vida" (1998) -, "Sem medo de viver" é um belo filme, envolvente e intrigante na medida certa. Não é uma obra-prima, mas é capaz de tocar alguns corações mais sensíveis e confirmar seu realizador como uma das mais interessantes aquisições internacionais de Hollywood.

quinta-feira

AS CRIATURAS ATRÁS DAS PAREDES


AS CRIATURAS ATRÁS DAS PAREDES (The people under the stairs, 1991, Universal Pictures, 102min) Direção e roteiro: Wes Craven. Fotografia: Sandi Sissel. Montagem: James Coblentz. Música: Don Peake. Figurino: Ileane Meltzer. Direção de arte/cenários: Bryan Jones/Molly Flanegin. Produção executiva: Wes Craven, Shep Gordon. Produção: Stuart M. Besser, Marianne Maddalena. Elenco: Brandon Adams, Ving Rhames, Everett McGill, Wendy Robie, A. J. Langer, Sean Whalen. Estreia: 01/11/91

Tudo começou no final dos anos 1970, quando Wes Craven ainda não era o cineasta consagrado por "A hora do pesadelo" (1984) mas já tinha no currículo "Aniversário maldito" (1972) e "Quadrilha de sádicos" (1977): uma matéria publicada em um jornal da Califórnia falava sobre o caso bizarro e assustador de vários adolescentes mantidos em cativeiro por seus pais, que nunca permitiram que eles tivessem acesso ao mundo exterior. Seus pais, considerados cidadãos normais da classe média de Los Angeles, nunca haviam despertado qualquer tipo de suspeita entre sua vizinhança até que, chamada para atender uma ocorrência de possível invasão, a polícia descobriu um assustador caso de cárcere privado. Impressionado com a história, Craven imediatamente dedicou-se a escrever um argumento de 80 páginas. Mais de dez anos depois, já navegando nos louros do merecido sucesso de seu Freddy Krueger, Craven transformou tal sinopse em um filme que, apesar de não compartilhar da mesma popularidade de seus trabalhos anteriores - e os posteriores exemplares da série "Pânico" - conquistou seus fãs com uma narrativa surpreendente e ousada, com um protagonista inusitado e momentos de legítimo suspense.

O personagem principal de "As criaturas atrás das paredes" é Fool (Brandon Adams), um garoto negro de 13 anos de idade passando pelo pior período de sua curta vida: a mãe está seriamente doente a ponto de não conseguir sequer levantar da cama e sua família tem os dias contados para pagar os alugueis atrasados caso não queiram ser despejados pelo cruel proprietário de seu apartamento (Everett McGill). Sem encontrar saída para resolver ao menos o problema financeiro que o assombra, Fool se deixa levar pela conversa de LeRoy (Ving Rhames), namorado de sua irmã. Segundo ele, o proprietário de seu apartamento tem escondido, em sua casa, um grande tesouro em moedas de ouro, o que poderia ser muito útil em sua difícil situação. Certo de que ajudar LeRoy a invadir a propriedade de seu insensível senhorio é o melhor a fazer, o menino concorda em participar de um ousado plano que os colocará diante da solução de seus problemas. Logo depois de entrar na casa, porém, Fool percebe que está muito encrencado. Além de maltratarem sua filha adolescente, Alice (A. J. Langer), o senhorio e sua cruel esposa (Wendy Robie), mantém presos, dentro das paredes da propriedade, um grupo de adolescentes, crianças e jovens - todos aprisionados depois de não seguirem os desejos doentios de seus raptores.

 

Realizado em 1991, quando Craven já praticamente não tinha mais o controle criativo de seu personagem mais famoso, "As criaturas atrás das paredes" mostrou que seu talento em surpreender a audiência se mantinha absolutamente intocado: sem abrir mão de sustos e personagens bizarros, o cineasta conduz o espectador em uma experiência das mais satisfatórias no gênero. Tudo graças a um roteiro que vai introduzindo seus elementos aos poucos, com uma atmosfera claustrofóbica cada vez mais densa e um par de vilões dos mais empolgantes, interpretados por Everett McGill e Wendy Robie, também casados na série "Twin Peaks". Ainda que ocasionalmente caricata - em uma escolha artística acertada -, a dupla de criminosos (cujos nomes jamais são citados em cena, já que se chamam por Pai e Mãe) é um dos trunfos do filme: cruéis e desumanos, sim, mas dotados de uma quase inabilidade em lidar com oponentes inesperados, como Fool e seus comparsas. Aliás, não deixa de ser irônico que todos os adultos do filme sejam facilmente suplantados pelas crianças e adolescentes que os confrontam: não é LeRoy nem seu comparsa que ameaçam a rotina de crimes da mansão, mas sim o pequeno Fool, a sofrida Alice e as tais criaturas atrás das paredes - bem caracterizadas mas nunca excessivamente assustadoras, já que se tornam, no decorrer da sessão, os heróis da história.

É surpreendente como Wes Craven consegue, em "As criaturas atrás das paredes", manter a atenção do espectador mesmo depois de um pretenso clímax no meio do filme - ao invés de perder o ritmo, a produção parece iniciar um novo e ainda mais violento capítulo. Sem apelar para sangue aos borbotões - ainda que não fuja de sequências bem gráficas - e confiando na empatia da plateia em relação a Fool e seus aliados, o diretor comprova que nem sempre é preciso ter grandes astros estampando os cartazes para levar público às salas de exibição. Sem nenhum ator conhecido no elenco, seu filme, que custou exíguos 6 milhões de dólares, recuperou o orçamento em poucos dias de exibição e ultrapassou a marca de 30 milhões de arrecadação mundial. Apostando em protagonistas negros (o jovem Brandon Adams fez parte do musical "Moonwalker", de Michael Jackson, e Ving Rhames poucos anos depois ganharia o mundo como o vilão Marcellus Wallace, de "Pulp fiction: tempo de violência") e em uma trama que poderia facilmente descambar para o grotesco, Craven acabou por abrir caminho para, em 1994, retomar as rédeas de sua mais famosa criação, em "O novo pesadelo: o retorno de Freddy Krueger". 

Tornado cult movie por excelência, "As criaturas atrás das paredes" parecia morar no coração de Craven: antes de sua morte, em 2015, ele estava por trás da produção de um remake televisivo do filme, a ser transmitido pelo SyFy Channel e dirigido por F. Javier Gutiérrez, projeto que não parece ter ido para a frente depois de sua partida.

quarta-feira

ASSÉDIO SEXUAL


ASSÉDIO SEXUAL (Disclosure, 1994, Warner Bros., 128min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Paul Attanasio, romance de Michael Crichton. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Stu Linder. Música: Ennio Morricone. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Garrett Lewis. Produção executiva: Peter Giuliano. Produção: Michael Crichton, Barry Levinson. Elenco: Michael Douglas, Demi Moore, Donald Sutherland, Caroline Goodall, Roma Maffia, Dylan Baker, Dennis Miller. Donal Logue. Estreia: 28/11/94

Não tinha como dar errado. Em 1994, quando foi lançado, o filme "Assédio sexual" apresentava todos os ingredientes de um grande sucesso: além do tema polêmico, contava com a assinatura de Barry Levinson (diretor oscarizado por "Rain Man", de 1988, e indicado novamente à estatueta, por "Bugsy", de 1991), uma história criada por Michael Crichton (cujo "Jurassic Park" acabava de ser adaptado às telas por Steven Spielberg e se tornava uma das maiores bilheterias da história) e a presença de dois astros de primeira grandeza, Michael Douglas e Demi Moore. E não deu - pelo menos em parte. Com mais de 200 milhões de dólares de arrecadação mundial, a produção deu o que falar em mesas de bar, em artigos de jornal e em reuniões de família, colocando em pauta um assunto ainda delicado (cuja interessante inversão de papéis ajudou no marketing espontâneo) e reforçando a popularidade de seus atores principais. Porém, à parte sua controvérsia e o talento dos envolvidos, o filme de Levinson não deixa de ser uma decepção àqueles que procuram um bom drama de tribunal: superficial e com sérios problemas de foco, "Assédio sexual" é um passatempo correto, mas que perdeu a chance de se tornar um clássico de seu tempo.

Não deixou de ser uma jogada de mestre mudar o foco do romance "Disclosure", de Michael Crichton, para buscar as plateias que lotaram as salas de exibição para ver Michael Douglas sofrendo as consequências de seu caso extraconjugal em "Atração fatal" (1987) ou Demi Moore despertando a luxúria do milionário Robert Redford em "Proposta indecente" (1993) - ambos dirigidos, por coincidência ou não, por Adrian Lyne. Cientes de que o público formaria filas para ver a normalmente delicada Demi assediando sem meias-palavras o frequentemente garanhão Douglas, os produtores transformaram uma subtrama do livro de Crichton em tema principal - e relegaram a história central do romance, que girava em torno de intrigas corporativas em uma empresa de tecnologia, a segundo plano. A estratégia se mostrou acertada em termos comerciais, mas, como efeito colateral, enfatizou a fragilidade com que o escritor desenvolveu o tema. Nem mesmo um roteirista experiente como Paul Attanasio - indicado ao Oscar por "Quiz show: a verdade dos bastidores" (1994) - foi capaz de disfarçar a inconsistência de tamanha alteração de foco: o que era para ser o grande trunfo do filme acabou esvaziado por uma reviravolta anticlimática que funcionou nas páginas mas se despedaçou nas telas.

 

A trama do filme gira em torno de Tom Sanders (Michael Douglas), gerente de uma importante empresa de tecnologia de Seattle, às vésperas de uma fusão milionária que a colocará dentre as grandes companhias do mundo. No dia em que esperava ser promovido a vice-presidente, porém, o pacato Tom, pai de família correto e leal, é pego de surpresa ao reencontrar uma antiga namorada, Meredith Johnson (Demi Moore): não apenas ela vai trabalhar na mesma empresa que ele, como é anunciada no cargo que seria seu. Frustrado e com medo de perder o emprego ao qual se dedica incansavelmente, Tom entra em uma situação ainda mais delicada quando, depois do expediente, em uma reunião com a bela e decidida executiva, é quase forçado a fazer sexo com ela. No dia seguinte, a coisa fica pior: invertendo completamente os fatos, Meredith o acusa de assédio sexual - e caberá a ele provar que uma mulher linda, sensual e poderosa teria necessidade de obrigar um homem a envolver-se com ela. Nem mesmo seu antigo chefe, Bob Garvin (Donald Sutherland), acredita em sua versão, e as consequências do embate poderão acabar com sua carreira e sua família.

Não há grandes problemas em "Assédio sexual", assim como tampouco há grandes qualidades. A impressão que se tem é que todos estão no piloto automático. A direção de Barry Levinson é burocrática - mesmo a comentada cena do assédio não se decide entre ser quente ou incômoda. Michael Douglas faz muito pouco além do corriqueiro, sem oferecer muitas nuances a sua performance, correta mas sem brilho. Nem a trilha sonora do celebrado Ennio Morricone consegue ser marcante, sublinhando apenas com eficiência as sequências propostas pelo roteiro mas nunca chegando à excelência que lhe é costumeira. Quem acaba se beneficiando desse resultado morno é Demi Moore, que se destaca mesmo com uma personagem tão maniqueísta quanto Meredith Johnson. Na pele da antagonista principal - papel para o qual foram consideradas Michelle Pfeiffer, Geena Davis e Annette Bening -, Demi coroava um período fértil para uma carreira que pouco depois cairia em um melancólico limbo, alavancado por fracassos de bilheteria como "Striptease" (1996) e "Até o limite da honra" (1997). Linda e esforçada, é ela quem se sobressai em uma produção apenas mediana e sem brilho.

terça-feira

EU, EU MESMO E IRENE


EU, EU MESMO E IRENE (Me, myself & Irene, 2000, 20thCentury Fox, 116min) Direção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly. Roteiro: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Mike Cerrone. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Lee Scott, Pete Yorn. Figurino: Pamela Withers.Direção de arte/cenários: Sidney J. Bartholomew Jr./Scott Jacobson. Produção executiva: Tom Schulman, Charles B. Wessler. Produção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Bradley Thomas. Elenco: Jim Carrey, Renée Zellweger, Chris Cooper, Robert Forster, Richard Jenkins. Estreia: 15/6/2000

Sutileza nunca foi o forte de Bobby e Peter Farrely. Desde que apareceram no radar de Hollywood com "Débi & Lóide: dois idiotas em apuros" (1994), os irmãos não pararam de apelar para a vulgaridade como forma de fazer as plateias gargalharem sem que fosse preciso acionar o cérebro. Atingiram o auge do sucesso com "Quem vai ficar com Mary?" (1998), em que aproveitaram a popularidade e o carisma de Cameron Diaz para um desfile de piadas infames com o verniz de credibilidade oferecido por um grande estúdio (a 20th Century Fox) e se tornaram nomes quentes na indústria. Porém, até mesmo aqueles que fingiam não ver o excesso de grosserias visuais e verbais de seus primeiros filmes não deixaram de ficar chocados com a absoluta falta de noção apresentada em "Eu, eu mesmo e Irene". Estrelado pelo mesmo Jim Carrey de "Débi & Lóide" e valorizado pela presença da sempre ótima Renée Zellweger, o terceiro longa dos Farrelly não poupa o espectador de piadas constrangedoras que atingem todo e qualquer tipo de minoria - racial, étnica ou médica -, mas esbarra perigosamente em sua falta de limites. Mesmo com uma bilheteria polpuda de quase 150 milhões de dólares, a comédia quase romântica dos Farrelly encontrou severa resistência em sua estreia, e foi criticado justamente por aquilo que parecia ser o ponto forte dos cineastas: o humor politicamente incorreto.

Quem primeiro chiou a respeito do filme foram as associações de familiares de portadores de esquizofrenia, que não gostaram nem um pouco de ver a doença tratada como piada - principalmente da forma avassaladoramente histriônica apresentada por Jim Carrey no auge de seu sucesso no gênero. Depois disso, vieram reclamações sobre como o filme debochava de anões, negros e albinos - se quisesse, qualquer um poderia encontrar motivos justos para queixas. A grande questão, porém,  descontado o absoluto desprezo da dupla de realizadores por um mísero traço de sofisticação, é o fato de que, apesar de seguir quase à risca a fórmula dos primeiros filmes dos cineastas, "Eu, eu mesmo e Irene" não é nem de longe tão engraçado quanto eles. Primeiro por forçar piadas que soam deslocadas e nem sempre funcionam. E principalmente porque, ao contrário de seus trabalhos anteriores, elas estão diluídas em uma trama que exige mais do espectador do que simplesmente risadas - por vezes, a história (fraca) que envolve os personagens fica tão confusa que sobra pouco tempo para rir.

 

O personagem central do filme é Charlie Baileygates, um pacato policial de Rhode Island, cumpridor das leis, afável a ponto de ser tratado como capacho por quase todo mundo e um pai dedicado de trigêmeos que são a prova do adultério da ex-esposa. Continuamente abusado em sua boa-fé, ingenuidade e bondade, um dia Charlie deixa escapar uma nova personalidade: bruto, desbocado, vulgar e sem filtros, Hank assusta os moradores da pequena cidade e principalmente seus colegas de trabalho. Ciente dessa nova condição psíquica de Charlie - administrável quando devidamente medicada -, seu superior, Coronel Partington (Robert Forster) lhe dá uma missão simples: acompanhar com segurança, até o estado de Nova York, a forasteira Irene Walker (Renée Zellweger), presa por dívidas com a polícia rodoviária. No caminho, porém, Charlie descobre que Irene está na mira de policiais corruptos e um ex-namorado tóxico, que farão de tudo para eliminá-la. Intercalando momentos bons com outros dominados por Hank, ele se apaixona pela bela fugitiva e passa a disputá-la com seu grosseiro alterego.

Assumindo o papel central depois que Jack Black pulou fora do projeto, Jim Carrey deita e rola em sua mais absoluta zona de conforto. Seu talento para o humor físico serve como uma luva para as insanidades do roteiro - terminado por Mike Cerrone em 1991 e posteriormente adequado ao estilo dos irmãos Farrelly pelos próprios diretores - e é difícil imaginar outro ator com a coragem suficiente de participar, em uma fase já de grande prestígio na carreira, de algumas sequências francamente duvidosas (sem spoilers, basta citar um momento com uma mãe amamentando um bebê e outro com uma vaca atropelada no meio da estrada). Renée Zellweger está encantadora como Irene Walker, mas tem pouco a fazer diante das atrocidades comandadas por Carrey (com quem namorou durante as filmagens), e o elenco coadjuvante conta com nomes consagrados por indicações ou vitórias no Oscar (Chris Cooper, Richard Jenkins, Robert Forster). Nada disso impede, no entanto, que "Eu, eu mesmo e Irene" fique na história mais como um filme que talvez tenha ido longe demais em seu conceito de humor a qualquer preço do que por suas qualidades artísticas e/ou cômicas. Não à toa, os próprios Farrelly o consideram seu pior filme - e isso que depois eles ainda virariam sua metralhadora giratória para obesos ("O amor é cego", de 2000) e gêmeos siameses ("Ligado em você", de 2003), até Peter deixar de lado seu pendor para o politicamente incorreto, e cometer "Green Book: O Guia", que levou o Oscar de melhor filme de 2018 ao falar sobre racismo (mesmo que sob um ponto de vista branco e pouco profundo).

segunda-feira

CORAÇÃO DE CAÇADOR


CORAÇÃO DE CAÇADOR (White hunter, black heart, 1990, Warner Bros, 112min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Peter Viertel, James Bridges, Burt Kennedy, romance de Peter Viertel. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Joel Cox. Música: Lennie Niehaus. Figurino: John Mollo. Direção de arte/cenários: John Graysmark/Peter Howitt. Produção executiva: David Valdes. Produção: Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood, Jeff Fahey, George Dzundza, Marisa Berenson, Richard Vanstone. Estreia: 16/5/90 (Festival de Cannes)

Quando Clint Eastwood decidiu realizar a cinebiografia do músico Charlie Parker, poucos levaram fé que o responsável por filmes como "Impacto fulminante" (1983) e "O cavaleiro solitário" (1985) - produções centradas na adrenalina e em personagens durões - seria capaz de transmitir nas telas a complexa personalidade de um dos ícones do jazz. O sucesso de crítica de "Bird" (1988), porém, mostrou que, por trás da figura quase pétrea do cineasta, havia alguém com sensibilidade o bastante para romper a barreira do cinema de ação/policial/guerra. Embalado por tal inesperado prestígio, o já veterano Eastwood (ainda não consagrado com os Oscar de diretor que conquistaria poucos anos depois) chegou à Warner com uma proposta que, a princípio, contemplaria o melhor de dois mundos: ele oferecia seus préstimos para comandar mais um potencial êxito de bilheteria e, em troca, o estúdio bancaria a produção de um de seus então projetos de estimação. Proposta feita, proposta aceita, e em 1990, dois filmes com a assinatura do eterno Dirty Harry chegaram às telas: o convencional e quase derivativo "Rookie: um profissional do perigo" e "Coração de caçador", que se tornaria um dos maiores fracassos comerciais do ator/diretor/produtor - ao mesmo tempo em que arrancaria entusiasmados elogios da crítica. 

Publicado em 1953, o romance "White hunter black heart", de Peter Viertel, é, a rigor, uma obra de ficção. Porém, logo em seu lançamento ficou claro para todos que se tratava de uma reimaginação a respeito dos bastidores das filmagens do clássico "Uma aventura na África", dirigido por John Huston e lançado em 1951. O filme, que deu a Humphrey Bogart seu único Oscar, teve uma produção conturbada, e Viertel, amigo de Huston, foi um de seus roteiristas, ainda que não creditado oficialmente. Testemunha de boa parte dos problemas da realização do filme, escreveu seu livro disfarçando os nomes dos envolvidos e alterando pequenos detalhes - providências insuficientes para evitar que o livro se tornasse quase um relato oficial, apesar dos protestos de gente que esteve no olho do furacão, como a estrela Katharine Hepburn, ela própria autora de um livro sobre o assunto, chamado "The African Queen, or How I went to Africa with Bogie, Bacall and Huston and almost lost my mind". Hepburn questionou boa parte da narrativa de Viertel, mas o fato é que, apesar de sua posição privilegiada junto à equipe, é uma personagem bastante secundária no filme de Eastwood - o foco de "Coração de caçador" é, conforme o título dá uma boa pista, a obsessão de John Huston (ou, em sua versão fictícia, John Wilson) em caçar um elefante durante sua estadia nas locações africanas.

 

A trama do filme se passa em 1951 e começa quando o famoso cineasta John Wilson (interpretado pelo próprio Clint Eastwood, em atuação discreta e com maneirismos imitando o célebre John Huston) convence seu produtor, Paul Landers (George Dzundza), a financiar seu arriscado novo projeto, "The African Trader", escrito por seu amigo Pete Verrill (Jeff Fahey). Apesar de estar afundado em dívidas e ser considerado excêntrico em excesso, Wilson acaba recebendo sinal verde e parte para a África com o roteirista e a equipe. O que ninguém sabe, porém - com exceção de Verrill - é que, mais até do que realizar sua nova obra cinematográfica, o que Wilson realmente deseja é matar um elefante durante um safári. Contando com a ajuda de guias locais, atrasando o cronograma e aproveitando a estação chuvosa como desculpa para o adiamento das filmagens, ele mergulha profundamente em sua obsessão - a ponto de preocupar os colegas e arriscar a própria vida. Enquanto a equipe aguarda o começo dos trabalhos, Wilson lida placidamente com a preocupação de Landers - que chega à locação disposto a forçar o começo dos trabalhos.

Lançado no Festival de Cannes de 1990, "Coração de caçador" agradou à crítica, que viu nele ecos de um Clint Eastwood mais maduro como cineasta, mas naufragou solenemente nas bilheterias. Talvez reflexo de um tema não exatamente popular, seu fracasso comercial não eclipsou, no entanto, as qualidades de seu resultado artístico. Magnificamente fotografado por Jack N. Green - ajudado pelas belas paisagens do Zimbabue - e com uma trilha sonora exuberante de Lennie Niehaus, colaborador frequente de Eastwood antes que ele mesmo passasse a cuidar da música de seus filmes, o 14º longa-metragem do diretor é uma bela homenagem às idiossincrasias do ser humano em geral - Wilson não se preocupava com coisas como ecologia mas não pensa duas vezes em sair no soco com racistas/nazistas e afins - e de John Huston em particular. Mesmo não tendo conhecido o veterano diretor pessoalmente, Eastwood o revive em uma caracterização caprichada, aprovada até mesmo por sua filha, Anjelica, com quem viria a trabalhar em "Dívida de sangue" (2002) - não muito longe do tom durão de seus personagens mais famosos, o diretor/ator/produtor abraça novos horizontes e novos temas em uma carreira que ainda daria muitos frutos e muitos sucessos. 

Em tempo: o filme que Eastwood fez para a Warner como parte do acordo para realização de "Coração de caçador" também não foi propriamente um grande êxito financeiro: "Rookie: um profissional do perigo", estrelado por ele mesmo, Charlie Sheen e Sônia Braga faturou pouco mais de 21 milhões de dólares no mercado doméstico (EUA e Canadá), contra um custo de aproximadamente 30 milhões. Já seu filme seguinte, "Os imperdoáveis" (1992) mudaria sua carreira para sempre, com um estrondoso sucesso comercial e o primeiro Oscar de melhor filme e direção.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...