A
FORTALEZA (Fortress, 1985, HBO Films, 85min) Direção: Arch Nicholson.
Roteiro: Everett De Roche, romance de Gabrielle Lord. Fotografia: David
Connell. Montagem: Ralph Strasser. Música: Danny Beckerman. Direção de
arte: Philip Warner. Produção executiva: Hector Crawford, Ian Crawford,
Terry Stapleton. Produção: Raymond Menmuir. Elenco: Rachel Ward, Sean
Garlick, Elaine Cusick, Laurie Moran, Marc Gray, Rebecca Rigg, Richard
Terrill. Estreia: 24/11/85
Hoje em dia é comum que
produções televisivas alcancem níveis de qualidade compatíveis com
aqueles realizados para o cinema, graças especialmente a emissoras como a
HBO. Algumas décadas atrás, no entanto, filmes feitos especificamente
para a TV não tinham o mesmo status, sendo frequentemente ligados a
atores e diretores cujas carreiras não tinham o mesmo prestígio de
antes. "A fortaleza", rodado na Austrália e estrelado por Rachel Ward -
que havia arrancado suspiros da ala masculina com sua atuação em
"Paixões violentas" (84) - faz parte dessa época, mas é impressionante
como, mesmo com as limitações impostas pelo veículo, consegue prender a
atenção e proporcionar à audiência um espetáculo que, se não chega a ser
brilhante, ao menos é competente e eficiente a ponto de contar bem uma
história envolvente e imprevisível.
Ward,
em seu primeiro papel pós-"Paixões violentas" está convincente como
Sally Jones, a professora não muito satisfeita de uma pequena cidade
rural da Austrália que mora com os pais de um aluno e não vê a hora de
acabar o ano letivo para buscar novos objetivos profissionais. Sua
tranquila e tediosa rotina se vê drasticamente modificada, no entanto,
em um dia que começa aparentemente igual a todos os outros: um grupo de
quatro homens mascarados invade a escola e a sequestra, juntamente com
seus oito alunos (cujas idades variam dos seis aos quatorze anos). Com a
intenção de pedir um resgate por suas vidas, os criminosos os escondem
em uma caverna, mas nenhum dos reféns - a começar pela professora e pelo
rebelde Sid (Sean Garlick) - pretendem resignar-se à sua condição e
começam a engendrar um plano de fuga que os colocará em rota de colisão
com a violência e a truculência de seus sequestradores.
Dirigido
por Arch Nicholson, um veterano em produções televisivas, que assinou
episódios de séries como "Missão impossível" (a versão anos 80) e que
morreu em 1990 aos 49 anos de idade, "A fortaleza" tem a seu favor um
roteiro conciso e interessante, baseado em uma história real acontecida
em 1972, quando quatro homens sequestraram uma professora e sua classe e
descobriram, tarde demais, que o grupo havia conseguido fugir apesar da
densa floresta que os cercava. O filme, por sua vez, expande a história
original, dando à relação entre Sally e seus alunos um viés mais
familiar, com um arco dramático mais rico do que aconteceu na vida real:
não apenas a professora passa a sentir-se mais próxima dos alunos com
quem mantinha um certo distanciamento emocional como as próprias
crianças descobrem dentro de si uma coragem desconhecida - além de uma
tendência para a violência e a crueldade que só explode nas sequências
finais.
Fosse direcionado para o cinema e tivesse no
comando um diretor mais ousado e criativo, certamente "A fortaleza"
teria um impacto muito maior em seu resultado final. Apesar disso - e
das restrições inerentes ao veículo, especialmente nos anos 80, quando o
limite entre o que podia ou não ser mostrado na televisão ainda era
muito mais apertado - o filme de Nicholson consegue sobressair-se de
seus congêneres graças ao trabalho de Rachel Ward e do roteiro, que flui
com bom ritmo e senso de clímax. É um divertimento correto, levando-se
em consideração as circunstâncias de sua realização, e pode
tranquilamente servir como um entretenimento ligeiro.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
quinta-feira
quarta-feira
A GAROTA DE ROSA-SHOCKING
A GAROTA DE ROSA-SHOCKING (Pretty in pink, 1986, Paramount
Pictures, 96min) Direção e roteiro: John Hughes. Fotografia: Tak
Fujimoto. Montagem: Richard Marks. Música: Michael Gore. Figurino:
Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John W. Corso/Jennifer Polito,
Bruce Weintraub. Produção executiva: Michael Chinich, John Hughes.
Produção: Lauren Shuler. Elenco: Molly Ringwald, Andrew McCarthy, Jon
Cryer, Harry Dean Stanton, James Spader, Annie Potts. Estreia: 28/02/86
Musa absoluta do diretor John Hughes e da vasta maioria dos adolescentes frequentadores das salas de cinema e das videolocadoras dos anos 80, a ruiva Molly Ringwald considera "A garota de rosa-shocking", sua terceira colaboração com Hughes - depois de "Gatinhas e gatões" (84) e "Clube dos cinco" (85) - como a sua preferida. Antes de romper profissionalmente com o cineasta ao recusar um papel em seu "Alguém muito especial" (87), Ringwald era a cara de sua geração, algo assim como o James Dean feminino dos anos 80 - sem sua rebeldia e o carisma imortal, no entanto. Suas personagens, sempre estudantes do colegial lidando com problemas típicos de sua idade, refletiam nas telas as angústias de seu tempo, rodeadas por pôsteres de bandas, vestidas com figurinos inacreditavelmente cafonas sob o ponto de vista atual e sonorizadas por nomes icônicos como The Smiths, Eccho & The Bunnymen, New Order e OMD. E esse seu trabalho com o diretor-símbolo do gênero não foge à regra, mostrando definitivamente que em time que está ganhando não se mexe: "A garota de rosa-shocking" mais uma vez usa e abusa dos clichês das comédias românticas adolescentes sem ao menos ter vergonha disso. E justamente por isso funciona mais uma vez.
Agora Ringwald interpreta Andie Walsh, uma jovem pobre que vive sozinha com o pai desempregado (Harry Dean Stanton dando credibilidade ao projeto) e trabalha em uma loja de discos ao lado da amiga mais velha, Iona (Annie Potts). Inteligente e criativa a ponto de criar suas próprias roupas - e ser prodigamente ridicularizada por isso pela ala das patricinhas de sua escola - Andie não é exatamente a mais popular das garotas, mas isso não impede que Blane (Andrew McCarthy), o rapaz dos seus sonhos, a convide para sair. O surpreendente convite deixa Andie nas nuvens, mas acaba sendo uma enorme decepção para Duckie (Jon Cryer, da série "Two and half men"), seu melhor amigo, que é apaixonado por ela desde a infância mas tem medo de declarar-se. A relação entre Andie e Blane, porém, irá esbarrar em outros empecilhos: além de Duckie não estar nem um pouco feliz com a história e de Steff (James Spader), amigo de Blane, não poupar esforços para destruir o romance nascente, eles precisam lidar com suas diferenças sociais e inseguranças.
O roteiro de "A garota de rosa-shocking" talvez seja o mais fraco dentre os clássicos de John Hughes, o que não acaba de jeito nenhum com o prazer de assistí-lo (ou revisitá-lo, vez ou outra). A inocência característica da obra do diretor permanece uma delícia, diante de tantas comédias contemporâneas que insistem na escatologia e na baixaria para conquistar o espectador. O romantismo, que pode soar datado mas permanece terno e íntegro, ainda é um dos seus pontos altos, estabelecendo como base da trama um triângulo amoroso que causou polêmica já em seu lançamento: o final que chegou aos cinemas é diferente daquele imaginado por Hughes, que não foi bem aceito nas exibições-teste e substituido mesmo contra a sua vontade - e que o levou a lançar "Alguém muito especial" (aquele filme que Ringwald não topou fazer) no ano seguinte. Especula-se que, caso o elenco escolhido tivesse sido diferente (Robert Downey Jr. fez teste para viver Duckie e Charlie Sheen para interpretar Blane), essa situação poderia ter sido invertida, mas o fato é que, como está, o filme marcou uma geração e é difícil imaginar um final diferente, quer se concorde com ele ou não.
Tendo moldado, junto com outros filmes similares, toda uma geração de cinéfilos adolescentes que ainda não eram obrigados a uma dieta de filmes de super-heróis, "A garota de rosa-shocking" ficou na mente de seu público-alvo graças a algumas cenas inesquecíveis, como o encontro entre Andie e Blane no baile do final (ao som da clássica "If you leave", da banda OMD) e à interpretação sempre na medida certa de Molly Ringwald - que infelizmente não teve a mesma sorte na carreira de atriz adulta. Pode não ser um grande filme, não ter ganho Oscar e não fazer parte da lista das obras que mudaram a sétima arte, mas tem lugar garantido no coração dos fãs, que não se emocionaram à toa com as confusões sentimentais de sua adorável protagonista.
Musa absoluta do diretor John Hughes e da vasta maioria dos adolescentes frequentadores das salas de cinema e das videolocadoras dos anos 80, a ruiva Molly Ringwald considera "A garota de rosa-shocking", sua terceira colaboração com Hughes - depois de "Gatinhas e gatões" (84) e "Clube dos cinco" (85) - como a sua preferida. Antes de romper profissionalmente com o cineasta ao recusar um papel em seu "Alguém muito especial" (87), Ringwald era a cara de sua geração, algo assim como o James Dean feminino dos anos 80 - sem sua rebeldia e o carisma imortal, no entanto. Suas personagens, sempre estudantes do colegial lidando com problemas típicos de sua idade, refletiam nas telas as angústias de seu tempo, rodeadas por pôsteres de bandas, vestidas com figurinos inacreditavelmente cafonas sob o ponto de vista atual e sonorizadas por nomes icônicos como The Smiths, Eccho & The Bunnymen, New Order e OMD. E esse seu trabalho com o diretor-símbolo do gênero não foge à regra, mostrando definitivamente que em time que está ganhando não se mexe: "A garota de rosa-shocking" mais uma vez usa e abusa dos clichês das comédias românticas adolescentes sem ao menos ter vergonha disso. E justamente por isso funciona mais uma vez.
Agora Ringwald interpreta Andie Walsh, uma jovem pobre que vive sozinha com o pai desempregado (Harry Dean Stanton dando credibilidade ao projeto) e trabalha em uma loja de discos ao lado da amiga mais velha, Iona (Annie Potts). Inteligente e criativa a ponto de criar suas próprias roupas - e ser prodigamente ridicularizada por isso pela ala das patricinhas de sua escola - Andie não é exatamente a mais popular das garotas, mas isso não impede que Blane (Andrew McCarthy), o rapaz dos seus sonhos, a convide para sair. O surpreendente convite deixa Andie nas nuvens, mas acaba sendo uma enorme decepção para Duckie (Jon Cryer, da série "Two and half men"), seu melhor amigo, que é apaixonado por ela desde a infância mas tem medo de declarar-se. A relação entre Andie e Blane, porém, irá esbarrar em outros empecilhos: além de Duckie não estar nem um pouco feliz com a história e de Steff (James Spader), amigo de Blane, não poupar esforços para destruir o romance nascente, eles precisam lidar com suas diferenças sociais e inseguranças.
O roteiro de "A garota de rosa-shocking" talvez seja o mais fraco dentre os clássicos de John Hughes, o que não acaba de jeito nenhum com o prazer de assistí-lo (ou revisitá-lo, vez ou outra). A inocência característica da obra do diretor permanece uma delícia, diante de tantas comédias contemporâneas que insistem na escatologia e na baixaria para conquistar o espectador. O romantismo, que pode soar datado mas permanece terno e íntegro, ainda é um dos seus pontos altos, estabelecendo como base da trama um triângulo amoroso que causou polêmica já em seu lançamento: o final que chegou aos cinemas é diferente daquele imaginado por Hughes, que não foi bem aceito nas exibições-teste e substituido mesmo contra a sua vontade - e que o levou a lançar "Alguém muito especial" (aquele filme que Ringwald não topou fazer) no ano seguinte. Especula-se que, caso o elenco escolhido tivesse sido diferente (Robert Downey Jr. fez teste para viver Duckie e Charlie Sheen para interpretar Blane), essa situação poderia ter sido invertida, mas o fato é que, como está, o filme marcou uma geração e é difícil imaginar um final diferente, quer se concorde com ele ou não.
Tendo moldado, junto com outros filmes similares, toda uma geração de cinéfilos adolescentes que ainda não eram obrigados a uma dieta de filmes de super-heróis, "A garota de rosa-shocking" ficou na mente de seu público-alvo graças a algumas cenas inesquecíveis, como o encontro entre Andie e Blane no baile do final (ao som da clássica "If you leave", da banda OMD) e à interpretação sempre na medida certa de Molly Ringwald - que infelizmente não teve a mesma sorte na carreira de atriz adulta. Pode não ser um grande filme, não ter ganho Oscar e não fazer parte da lista das obras que mudaram a sétima arte, mas tem lugar garantido no coração dos fãs, que não se emocionaram à toa com as confusões sentimentais de sua adorável protagonista.
terça-feira
A HONRA DO PODEROSO PRIZZI
A HONRA DO PODEROSO PRIZZI (Prizzi's honor, 1985, ABC Motion
Pictures, 130min) Direção: John Huston. Roteiro: Richard Condon, Janet
Roach, romance de Richard Condon. Fotografia: Andrzej Bartkowiak.
Montagem: Kaja Fehr, Rudi Fehr. Música: Alex North. Figurino: Donfeld.
Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Bruce Weintraub. Produção:
John Foreman. Elenco: Jack Nicholson, Kathleen Turner, Robert Loggia,
John Randolph, William Hickey, Anjelica Huston, Lawrence Tierney, Lee
Richardson. Estreia: 13/6/85
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Huston), Ator (Jack Nicholson), Ator Coadjuvante (William Hickey), Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston)
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Comédia/Musical, Diretor (John Huston), Ator Comédia/Musical (Jack Nicholson), Atriz Comédia/Musical (Kathleen Turner)
Penúltimo filme da carreira de John Huston - o derradeiro seria "Os vivos e os mortos" (88), adaptado de conto de James Joyce - e último realizado nos EUA, "A honra do poderoso Prizzi" surpreende pela energia imposta pelo então quase octogenário cineasta a uma trama que mistura no mesmo caldeirão um filme de máfia, uma comédia de humor negro e uma crítica à hipocrisia da sociedade patriarcal e machista da América. Adaptado de um romance de Richard Condon, o filme foi lançado às pressas nos EUA porque o estúdio considerava que o material não tinha estofo comercial, mas acabou sendo contrariado pelas críticas mais do que positivas, pelo sucesso de público e, melhor ainda, pelas generosas oito indicações ao Oscar - e pela estatueta mais do que justa abocanhada por Anjelica Huston, que ficou com o papel oferecido a atrizes tão díspares quanto Mia Farrow, Demi Moore e Michelle Pfeiffer e provou que era mais do que simplesmente a filha do diretor e namorada de Jack Nicholson.
Nicholson, aliás, está em um de seus desempenhos mais discretos, sem o arsenal de caras e bocas que marcaram sua carreira - e também recebeu uma justa indicação ao Oscar. Ele vive Charley Partanna, o afilhado do poderoso Don Corrado Prizzi (William Hickey), chefe de um das mais poderosas famílias mafiosas dos EUA. Trabalhando para a família como matador, ele também tem relações com o passado da neta de Corrado, a ousada Maerose (Anjelica Huston), com quem mantinha um relacionamento que acabou com uma tumultuada separação e a expulsão dela do rígido clã. Em uma festa de casamento, Partanna cai de amores pela bela Irene Walker (Kathleen Turner), que está em Nova York a negócios. Os dois iniciam um tórrido romance que acaba em casamento, mas logo as coisas se mostram bem mais complicadas do que pareciam a princípio, já que ambos tem a mesma profissão e não demora para que sejam contratados para matar um ao outro.
Com um roteiro brilhante co-escrito pelo autor do romance que lhe deu origem, "A honra do poderoso Prizzi" brinca com os clichês dos filmes de máfia sem nunca deixar de prestar-lhe os devidos tributos de cânones essenciais da cultura cinematográfica americana. Evitando a violência explícita - mesmo as cenas de morte tem um pé no surreal, o que as deixa no mínimo bizarras - e utilizando um senso de humor mordaz que encontra em seus atores os intérpretes ideais, Huston conduz as reviravoltas de seu filme com a segurança de um cineasta que sabe melhor do que ninguém - a julgar por sua cinematografia cínica e quase cruel - como funciona a alma daqueles cidadãos cujas regras são ditadas por seus próprios interesses e ambições. Um dos últimos diretores da velha guarda de Hollywood, ele não deixa de lado a elegância nem mesmo quando seus personagens agem de forma egoísta ou violenta. Pode-se até dizer que "Prizzi" é um filme de gângster sem sangue algum - até mesmo em seu clímax existe uma discrição à moda antiga, como se seguisse a máxima de Hitchcock, que dizia que um assassinato
"A honra do poderoso Prizzi" chegou ao Oscar enfrentando a concorrência quase injusta de "Entre dois amores", de Sydney Pollack, que com suas características de épico romântico deixou todos os indicados do ano comendo poeira, incluindo o belíssimo "A cor púrpura", de Steven Spielberg. Mesmo tendo o aval do Golden Globe, onde teve sorte bem melhor, o filme de Huston ficou apenas com a estatueta de Anjelica, o que nem de longe reflete suas inúmeras qualidades. Um retrato bem-humorado do mundo da máfia mas que jamais abandona seu jeitão de filme de gângster, é uma pequena obra-prima de um dos mais importantes cineastas da história do cinema ianque e, de quebra, apresenta uma química de ouro entre Jack Nicholson, Anjelica Huston e Kathleen Turner. Um filme para quem gosta de cinemão.
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Huston), Ator (Jack Nicholson), Ator Coadjuvante (William Hickey), Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston)
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Comédia/Musical, Diretor (John Huston), Ator Comédia/Musical (Jack Nicholson), Atriz Comédia/Musical (Kathleen Turner)
Penúltimo filme da carreira de John Huston - o derradeiro seria "Os vivos e os mortos" (88), adaptado de conto de James Joyce - e último realizado nos EUA, "A honra do poderoso Prizzi" surpreende pela energia imposta pelo então quase octogenário cineasta a uma trama que mistura no mesmo caldeirão um filme de máfia, uma comédia de humor negro e uma crítica à hipocrisia da sociedade patriarcal e machista da América. Adaptado de um romance de Richard Condon, o filme foi lançado às pressas nos EUA porque o estúdio considerava que o material não tinha estofo comercial, mas acabou sendo contrariado pelas críticas mais do que positivas, pelo sucesso de público e, melhor ainda, pelas generosas oito indicações ao Oscar - e pela estatueta mais do que justa abocanhada por Anjelica Huston, que ficou com o papel oferecido a atrizes tão díspares quanto Mia Farrow, Demi Moore e Michelle Pfeiffer e provou que era mais do que simplesmente a filha do diretor e namorada de Jack Nicholson.
Nicholson, aliás, está em um de seus desempenhos mais discretos, sem o arsenal de caras e bocas que marcaram sua carreira - e também recebeu uma justa indicação ao Oscar. Ele vive Charley Partanna, o afilhado do poderoso Don Corrado Prizzi (William Hickey), chefe de um das mais poderosas famílias mafiosas dos EUA. Trabalhando para a família como matador, ele também tem relações com o passado da neta de Corrado, a ousada Maerose (Anjelica Huston), com quem mantinha um relacionamento que acabou com uma tumultuada separação e a expulsão dela do rígido clã. Em uma festa de casamento, Partanna cai de amores pela bela Irene Walker (Kathleen Turner), que está em Nova York a negócios. Os dois iniciam um tórrido romance que acaba em casamento, mas logo as coisas se mostram bem mais complicadas do que pareciam a princípio, já que ambos tem a mesma profissão e não demora para que sejam contratados para matar um ao outro.
Com um roteiro brilhante co-escrito pelo autor do romance que lhe deu origem, "A honra do poderoso Prizzi" brinca com os clichês dos filmes de máfia sem nunca deixar de prestar-lhe os devidos tributos de cânones essenciais da cultura cinematográfica americana. Evitando a violência explícita - mesmo as cenas de morte tem um pé no surreal, o que as deixa no mínimo bizarras - e utilizando um senso de humor mordaz que encontra em seus atores os intérpretes ideais, Huston conduz as reviravoltas de seu filme com a segurança de um cineasta que sabe melhor do que ninguém - a julgar por sua cinematografia cínica e quase cruel - como funciona a alma daqueles cidadãos cujas regras são ditadas por seus próprios interesses e ambições. Um dos últimos diretores da velha guarda de Hollywood, ele não deixa de lado a elegância nem mesmo quando seus personagens agem de forma egoísta ou violenta. Pode-se até dizer que "Prizzi" é um filme de gângster sem sangue algum - até mesmo em seu clímax existe uma discrição à moda antiga, como se seguisse a máxima de Hitchcock, que dizia que um assassinato
"A honra do poderoso Prizzi" chegou ao Oscar enfrentando a concorrência quase injusta de "Entre dois amores", de Sydney Pollack, que com suas características de épico romântico deixou todos os indicados do ano comendo poeira, incluindo o belíssimo "A cor púrpura", de Steven Spielberg. Mesmo tendo o aval do Golden Globe, onde teve sorte bem melhor, o filme de Huston ficou apenas com a estatueta de Anjelica, o que nem de longe reflete suas inúmeras qualidades. Um retrato bem-humorado do mundo da máfia mas que jamais abandona seu jeitão de filme de gângster, é uma pequena obra-prima de um dos mais importantes cineastas da história do cinema ianque e, de quebra, apresenta uma química de ouro entre Jack Nicholson, Anjelica Huston e Kathleen Turner. Um filme para quem gosta de cinemão.
segunda-feira
A MOSCA
A MOSCA (The fly, 1986, SLM Productions/Brooksfilms/20th Century
Fox, 96min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Charles Edward Pogue,
David Cronenberg, conto de George Langelaan. Fotografia: Mark Irwin.
Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise
Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Elinor Rose Galbraith.
Produção: Stuart Cornfeld. Elenco: Jeff Goldblum, Geena Davis, John
Getz, Joy Boushel. Estreia: 15/8/86
Vencedor do Oscar de Maquiagem
Em 1958, uma aterrorizante ficção científica estrelada por Vincent Price, "A mosca da cabeça branca", tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de seu estúdio (20th Century Fox). Quase trinta anos mais tarde, o conto de George Langelaan que a inspirou voltou a assustar - ou mais precisamente enojar - a audiência: com mais recursos de tecnologia, um cineasta inclinado a exagerar no horror visual, mais dinheiro que seu antecessor e rebatizado simplesmente como "A mosca", a reinvenção do canadense David Cronenberg da história de Langelaan novamente levou multidões aos cinemas (custou estimados 15 milhões de dólares e rendeu mais de 40 somente no mercado doméstico), rendeu uma continuação inferior e deu ao ator Jeff Goldblum o papel mais marcante de sua carreira - e que quase foi parar nas mãos de Michael Keaton - além de dar à sua então namorada Geena Davis um de seus primeiros papéis importantes.
A história de "A mosca" é bem típica dos clichês das ficções científicas paranóicas dos anos 50, mas recheada com efeitos visuais e de maquiagem extremamente eficientes (a maquiagem de Chris Walas chegou a levar o Oscar da categoria) e refogada com uma violência gráfica que trai a presença de Cronenberg por trás do projeto (como seria o filme sob o comando de Tim Burton, o primeiro diretor a ser considerado, é uma incógnita). Substituindo os sustos por sequências de nojeira explícita - característica que havia abandonado em seu filme anterior, "A hora da zona morta" (83) - o cineasta leva o espectador a uma viagem pelo pesadelo maior de qualquer cientista (tornar-se vítima involuntária do próprio trabalho) sem pausas para respirar. E poucas vezes o conceito de cientista maluco foi levado a circunstâncias tão extremas como as mostradas na trágica história do cientista maluco (e não o são todos?) Seth Brundle.
Brundle é, como todos os cientistas retratados na ficção, um ser antissocial, dedicado quase que às raias da obsessão por sua nova experiência: uma máquina de teletransporte que irá, segundo ele mesmo, revolucionar a ciência mundial. Registrando suas experiências lado a lado com a jornalista Veronica Quaife (Geena Davis) - com quem eventualmente acaba se relacionando também amorosamente - ele esbarra em algumas dificuldades técnicas, como a impossibilidade de teletransportar seres vivos (em uma de suas tentativas ele acaba virando um babuíno literalmente pelo avesso). Suas experiências, porém, começam a dar resultado e, em uma noite em que está alcoolizado e enciumado da relação de Veronica com um ex-namorado que também é seu editor, Brundle resolve testar seus experimentos nele mesmo. Sem que perceba, junto com ele na máquina de teletransporte entra uma mosca. Em seguida, depois de considerar a experiência um êxito, ele começa a perceber mudanças em seu organismo (força física avantajada, fòlego maior, exagerada necessidade de açúcar e pelos duros que crescem através de um ferimento nas costas). Quando as coisas começam a sair do controle - ele começa a perder os dentes e as unhas, por exemplo - ele investiga o registro de suas atividades no computador e descobre estarrecido que suas moléculas foram fundidas às do inseto, o que acabará por levá-lo a uma metamorfose completa.
Se até então o filme de Cronenberg apenas flertava com o horror, a partir daí não existe mais limites para sua fascinação pelo doentio. O diretor aproveita o roteiro para expor sem subterfúgios algumas das cenas mais nojentas do cinema da década de 80 (e quiçá de muito tempo depois): babuínos eviscerados, vômitos, pus, membros podres, fraturas expostas... tudo que pode servir à trama enquanto perturba a plateia é utilizado por ele que, no entanto, em momento algum deixa de lado sua preocupação em manter a coerência interna da história, principalmente em termos de personagens: mesmo quando se vê em vias de transformar-se de vez em uma mosca, Brundle ainda tem laivos de ser humano, apaixonado por Veronica e preocupado com o bebê que ela espera. Ela, por sua vez, se vê dividida entre manter a lealdade ao homem que ama mesmo quando ele não passa mais de um arremedo do que foi (e passa a ameaçá-la com mais uma de suas ideias radicais). Para isso, conta muito a química entre Jeff Goldblum e Geena Davis (um casal de verdade à época das filmagens) e o talento inquestionável do cineasta em arrancar de seus atores interpretações convincentes mesmo em situações que beiram o surreal - característica que ele ainda exploraria muito mais futuramente, em filmes bastante controversos.
"A mosca" é um grande filme de ficção científica por vários motivos. Primeiro, porque se leva a sério, coisa que muitas produções contemporâneas não fazem. Depois, porque é tecnicamente competente a ponto de ainda hoje impressionar pelos efeitos e pela maquiagem. E por fim, tem uma história forte e personagens críveis, que não soam como estereótipos mal-desenvolvidos, além de contar com bons atores defendendo seus papéis. O fracasso de sua continuação não chega a surpreender, uma vez que não tem todos esses elementos. Melhor ficar com a primeira parte e se impressionar em como se mantém atual apesar da tecnologia.
Vencedor do Oscar de Maquiagem
Em 1958, uma aterrorizante ficção científica estrelada por Vincent Price, "A mosca da cabeça branca", tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de seu estúdio (20th Century Fox). Quase trinta anos mais tarde, o conto de George Langelaan que a inspirou voltou a assustar - ou mais precisamente enojar - a audiência: com mais recursos de tecnologia, um cineasta inclinado a exagerar no horror visual, mais dinheiro que seu antecessor e rebatizado simplesmente como "A mosca", a reinvenção do canadense David Cronenberg da história de Langelaan novamente levou multidões aos cinemas (custou estimados 15 milhões de dólares e rendeu mais de 40 somente no mercado doméstico), rendeu uma continuação inferior e deu ao ator Jeff Goldblum o papel mais marcante de sua carreira - e que quase foi parar nas mãos de Michael Keaton - além de dar à sua então namorada Geena Davis um de seus primeiros papéis importantes.
A história de "A mosca" é bem típica dos clichês das ficções científicas paranóicas dos anos 50, mas recheada com efeitos visuais e de maquiagem extremamente eficientes (a maquiagem de Chris Walas chegou a levar o Oscar da categoria) e refogada com uma violência gráfica que trai a presença de Cronenberg por trás do projeto (como seria o filme sob o comando de Tim Burton, o primeiro diretor a ser considerado, é uma incógnita). Substituindo os sustos por sequências de nojeira explícita - característica que havia abandonado em seu filme anterior, "A hora da zona morta" (83) - o cineasta leva o espectador a uma viagem pelo pesadelo maior de qualquer cientista (tornar-se vítima involuntária do próprio trabalho) sem pausas para respirar. E poucas vezes o conceito de cientista maluco foi levado a circunstâncias tão extremas como as mostradas na trágica história do cientista maluco (e não o são todos?) Seth Brundle.
Brundle é, como todos os cientistas retratados na ficção, um ser antissocial, dedicado quase que às raias da obsessão por sua nova experiência: uma máquina de teletransporte que irá, segundo ele mesmo, revolucionar a ciência mundial. Registrando suas experiências lado a lado com a jornalista Veronica Quaife (Geena Davis) - com quem eventualmente acaba se relacionando também amorosamente - ele esbarra em algumas dificuldades técnicas, como a impossibilidade de teletransportar seres vivos (em uma de suas tentativas ele acaba virando um babuíno literalmente pelo avesso). Suas experiências, porém, começam a dar resultado e, em uma noite em que está alcoolizado e enciumado da relação de Veronica com um ex-namorado que também é seu editor, Brundle resolve testar seus experimentos nele mesmo. Sem que perceba, junto com ele na máquina de teletransporte entra uma mosca. Em seguida, depois de considerar a experiência um êxito, ele começa a perceber mudanças em seu organismo (força física avantajada, fòlego maior, exagerada necessidade de açúcar e pelos duros que crescem através de um ferimento nas costas). Quando as coisas começam a sair do controle - ele começa a perder os dentes e as unhas, por exemplo - ele investiga o registro de suas atividades no computador e descobre estarrecido que suas moléculas foram fundidas às do inseto, o que acabará por levá-lo a uma metamorfose completa.
Se até então o filme de Cronenberg apenas flertava com o horror, a partir daí não existe mais limites para sua fascinação pelo doentio. O diretor aproveita o roteiro para expor sem subterfúgios algumas das cenas mais nojentas do cinema da década de 80 (e quiçá de muito tempo depois): babuínos eviscerados, vômitos, pus, membros podres, fraturas expostas... tudo que pode servir à trama enquanto perturba a plateia é utilizado por ele que, no entanto, em momento algum deixa de lado sua preocupação em manter a coerência interna da história, principalmente em termos de personagens: mesmo quando se vê em vias de transformar-se de vez em uma mosca, Brundle ainda tem laivos de ser humano, apaixonado por Veronica e preocupado com o bebê que ela espera. Ela, por sua vez, se vê dividida entre manter a lealdade ao homem que ama mesmo quando ele não passa mais de um arremedo do que foi (e passa a ameaçá-la com mais uma de suas ideias radicais). Para isso, conta muito a química entre Jeff Goldblum e Geena Davis (um casal de verdade à época das filmagens) e o talento inquestionável do cineasta em arrancar de seus atores interpretações convincentes mesmo em situações que beiram o surreal - característica que ele ainda exploraria muito mais futuramente, em filmes bastante controversos.
"A mosca" é um grande filme de ficção científica por vários motivos. Primeiro, porque se leva a sério, coisa que muitas produções contemporâneas não fazem. Depois, porque é tecnicamente competente a ponto de ainda hoje impressionar pelos efeitos e pela maquiagem. E por fim, tem uma história forte e personagens críveis, que não soam como estereótipos mal-desenvolvidos, além de contar com bons atores defendendo seus papéis. O fracasso de sua continuação não chega a surpreender, uma vez que não tem todos esses elementos. Melhor ficar com a primeira parte e se impressionar em como se mantém atual apesar da tecnologia.
domingo
A DIFÍCIL ARTE DE AMAR
A DIFÍCIL ARTE DE AMAR (Heartburn, 1986, Paramount Pictures,
108min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Nora Ephron, livro de Nora
Ephron. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Sam O'Steen. Música:
Carly Simon. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Tony
Walton/Susan Bode. Produção: Robert Greenhut, Mike Nichols. Elenco: Jack
Nicholson, Meryl Streep, Jeff Daniels, Maureen Stapleton, Stockard
Channing, Richard Masur, Catherine O'Hara, Kevin Spacey, Joanna Gleason,
Mercedes Ruehl. Estreia: 25/7/86
Segundo trabalho de Meryl Streep sob o comando de Mike Nichols e um roteiro de Nora Ephron - o primeiro foi "Silkwood, o retrato de uma coragem" (83), que lhe deu uma indicação ao Oscar - "A difícil arte de amar" é a adaptação de um livro da própria Ephron, que pôs no papel, em forma de ficção, a real história de seu casamento com o jornalista Carl Bernstein, o mesmo que, junto com Bob Woodward, expôs o escândalo Watergate e obrigou a renúncia do presidente Richard Nixon (e foi vivido por Dustin Hoffman no filme "Todos os homens do presidente" (86)). Mais conhecido pela bela canção-tema de Carly Simon, "Coming around again", o filme de Nichols é uma amarga e cínica análise de um relacionamento pouco saudável, que aposta no texto ácido de Ephron e no talento de Streep e Jack Nicholson para transformar o que poderia facilmente se tornar uma longa diatribe contra a instituição do casamento em um drama realista, ainda que com a mordacidade típica da roteirista e a elegância de sempre da direção de Nichols.
Quando o filme começa, a escritora nova-iorquina Rachel Samstat (Meryl Streep) e o jornalista Mark Formn (Jack Nicholson, substituindo Mandy Patinkin depois de dois dias de filmagens) se conhecem no casamento de um amigo em comum. Mesmo já tendo passado por relacionamentos não muito felizes, ambos acabam se apaixonando e, depois de deixar as reservas a respeito do assunto de lado, resolvem também subir ao altar. Como todo casal apaixonado, eles compram uma casa - que mais os estressa do que os deixa felizes, graças à sua interminável reforma - e tentam administrar a relação, já que ele continua trabalhando, mas ela abandonou o emprego para mudar-se com ele para Washington. A familia não demora a aumentar, mas nem mesmo a filha pequena impede Mark de embarcar em um caso extraconjugal que ameaça jogar tudo por terra. Traída, Rachel acaba por perdoar o marido, mas a confiança abalada mostra-se cada vez mais ameaçadora à tranquilidade do casal, especialmente com uma segunda gravidez na jogada.
Não é de surpreender que o roteiro de Ephron, assim como o livro que lhe deu origem, ponha a maior parcela de culpa no fracasso do casamento entre Rachel e Mark no jornalista, uma vez que a trama é contada quase do ponto de vista da personagem de Streep (que, mais uma vez, está soberba), mas é preciso admirar a forma como Nichols tenta fugir da tentação de apontar qualquer dedo, mostrando que em qualquer relação existe dois lados a considerar. Ter Jack Nicholson como a segunda metade do casal não atrapalha em nada, apesar do eterno ar cínico do ator complicar quando seu personagem tenta convencer Rachel - e por contrapartida a audiência inteira - de seu arrependimento. Mark Forman não é um papel simpático, e Nicholson faz o que pode para que a alta dose de maniqueísmo imposta pelo roteiro não prejudique sua comunicação com o público - não foi à toa que Dustin Hoffman recusou o papel, talvez também para não reviver com Meryl Streep um casamento fracasso como o que viveram em "Kramer x Kramer" (79). Segundo o roteiro, não existe algoz mais fatal para uma relação do que o adultério, mesmo que o tédio, a frutração profissional e a falta de tesão também estejam na equação, e esse quase simplismo acaba sendo o calcanhar de Aquiles do filme.
Com o talento de Ephron em tirar humor das mais trágicas e sérias situações - talento esse que ficaria patente com o sucesso de suas comédias românticas "Sintonia de amor" (93) e "Mensagem pra você" (98) - seria de esperar que "A difícil arte de amar" fosse um tanto menos pessimista. No entanto, como forma de catarse, é inegável que a radiografia da relação estragada entre Rachel e Mark funciona às mil maravilhas. Com diálogos escritos com extrema fluência - característica de Ephron - e interpretados por um elenco de sonhos que inclui ainda Jeff Daniels, Stockard Channing, o cineasta Milos Forman e um estreante Kevin Spacey em uma ponta impagável, o roteiro tem ritmo, consistência e um senso de verdade que somente uma história real que não apela para o sentimentalismo de doenças terminais consegue, o filme de Mike Nichols ainda por cima tem a luxuosa participação da trilha sonora charmosa de Carly Simon, que comenta a história com sua voz inconfundível e delicia o espectador. É ela um dos principais motivos para se assistir ao filme - se é que preciso motivos além de Meryl Streep e Jack Nicholson.
Segundo trabalho de Meryl Streep sob o comando de Mike Nichols e um roteiro de Nora Ephron - o primeiro foi "Silkwood, o retrato de uma coragem" (83), que lhe deu uma indicação ao Oscar - "A difícil arte de amar" é a adaptação de um livro da própria Ephron, que pôs no papel, em forma de ficção, a real história de seu casamento com o jornalista Carl Bernstein, o mesmo que, junto com Bob Woodward, expôs o escândalo Watergate e obrigou a renúncia do presidente Richard Nixon (e foi vivido por Dustin Hoffman no filme "Todos os homens do presidente" (86)). Mais conhecido pela bela canção-tema de Carly Simon, "Coming around again", o filme de Nichols é uma amarga e cínica análise de um relacionamento pouco saudável, que aposta no texto ácido de Ephron e no talento de Streep e Jack Nicholson para transformar o que poderia facilmente se tornar uma longa diatribe contra a instituição do casamento em um drama realista, ainda que com a mordacidade típica da roteirista e a elegância de sempre da direção de Nichols.
Quando o filme começa, a escritora nova-iorquina Rachel Samstat (Meryl Streep) e o jornalista Mark Formn (Jack Nicholson, substituindo Mandy Patinkin depois de dois dias de filmagens) se conhecem no casamento de um amigo em comum. Mesmo já tendo passado por relacionamentos não muito felizes, ambos acabam se apaixonando e, depois de deixar as reservas a respeito do assunto de lado, resolvem também subir ao altar. Como todo casal apaixonado, eles compram uma casa - que mais os estressa do que os deixa felizes, graças à sua interminável reforma - e tentam administrar a relação, já que ele continua trabalhando, mas ela abandonou o emprego para mudar-se com ele para Washington. A familia não demora a aumentar, mas nem mesmo a filha pequena impede Mark de embarcar em um caso extraconjugal que ameaça jogar tudo por terra. Traída, Rachel acaba por perdoar o marido, mas a confiança abalada mostra-se cada vez mais ameaçadora à tranquilidade do casal, especialmente com uma segunda gravidez na jogada.
Não é de surpreender que o roteiro de Ephron, assim como o livro que lhe deu origem, ponha a maior parcela de culpa no fracasso do casamento entre Rachel e Mark no jornalista, uma vez que a trama é contada quase do ponto de vista da personagem de Streep (que, mais uma vez, está soberba), mas é preciso admirar a forma como Nichols tenta fugir da tentação de apontar qualquer dedo, mostrando que em qualquer relação existe dois lados a considerar. Ter Jack Nicholson como a segunda metade do casal não atrapalha em nada, apesar do eterno ar cínico do ator complicar quando seu personagem tenta convencer Rachel - e por contrapartida a audiência inteira - de seu arrependimento. Mark Forman não é um papel simpático, e Nicholson faz o que pode para que a alta dose de maniqueísmo imposta pelo roteiro não prejudique sua comunicação com o público - não foi à toa que Dustin Hoffman recusou o papel, talvez também para não reviver com Meryl Streep um casamento fracasso como o que viveram em "Kramer x Kramer" (79). Segundo o roteiro, não existe algoz mais fatal para uma relação do que o adultério, mesmo que o tédio, a frutração profissional e a falta de tesão também estejam na equação, e esse quase simplismo acaba sendo o calcanhar de Aquiles do filme.
Com o talento de Ephron em tirar humor das mais trágicas e sérias situações - talento esse que ficaria patente com o sucesso de suas comédias românticas "Sintonia de amor" (93) e "Mensagem pra você" (98) - seria de esperar que "A difícil arte de amar" fosse um tanto menos pessimista. No entanto, como forma de catarse, é inegável que a radiografia da relação estragada entre Rachel e Mark funciona às mil maravilhas. Com diálogos escritos com extrema fluência - característica de Ephron - e interpretados por um elenco de sonhos que inclui ainda Jeff Daniels, Stockard Channing, o cineasta Milos Forman e um estreante Kevin Spacey em uma ponta impagável, o roteiro tem ritmo, consistência e um senso de verdade que somente uma história real que não apela para o sentimentalismo de doenças terminais consegue, o filme de Mike Nichols ainda por cima tem a luxuosa participação da trilha sonora charmosa de Carly Simon, que comenta a história com sua voz inconfundível e delicia o espectador. É ela um dos principais motivos para se assistir ao filme - se é que preciso motivos além de Meryl Streep e Jack Nicholson.
sábado
O PRIMEIRO ANO DO RESTO DE NOSSAS VIDAS
O PRIMEIRO ANO DO RESTO DE NOSSAS VIDAS (St. Elmo's fire, 1985,
Columbia Pictures, 110min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Joel
Schumacher, Carl Kurlander. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem:
Richard Marks. Música: David Foster. Figurino: Susan Becker. Direção de
arte/cenários: William Sandell/Robert Gould, Charles M. Graffeo.
Produção executiva: Bernard Schwartz, Ned Tanen. Produção: Lauren
Shuler. Elenco: Emilio Estevez, Rob Lowe, Andrew McCarthy, Demi Moore,
Judd Nelson, Ally Sheedy, Mare Winningham, Martin Balsam, Andie
MacDowell. Estreia: 28/6/85
Billy Hicks (Rob Lowe) é um jovem irresponsável, casado precocemente e que sonha em viver da música, além de ser o objeto de desejo de sua colega de faculdade, Wendy (Mare Winningham), uma judia rica que trabalha em um centro de assistência social e sonha entregar a ele sua virgindade, apesar dos esforços de sua família para que se case com um rapaz com suas mesmas condições financeiras e religiosas. Jules (Demi Moore) é uma patricinha que não tem uma relação das melhores com o pai e a madrasta e procura refúgio nas drogas e no álcool, além de ter um caso amoroso com seu chefe casado. Alec Newbarry (Judd Nelson) é um assistente político em vias de mudar de ideologia graças ao poder do dinheiro - e assim poder casar-se com a namorada, Leslie Hunter (Ally Sheedy), que busca reconhecimento profissional e desconhece tanto as escapadelas sexuais do namorado quanto a paixão que desperta em outro colega, Kevin Dolenz (Andrew McCarthy), que todos desconfiam ser gay. E Kirby Keler (Emilio Estevez) trabalha como garçom no St. Elmo's, o bar onde todos confraternizam frequentemente e reafirmam suas relações de amizade - enquanto tenta conquistar o amor de Dale Biberman (Andie MacDowell), uma médica que ele conhece e ama desde os tempos da faculdade.
Esses são os sete protagonistas de "O primeiro ano do resto de nossas vidas", primeiro sucesso de Joel Schumacher como diretor - depois de anos como figurinista e diretor de arte e de dois trabalhos pouco vistos. Seguindo um nicho um bocado mais maduro do que aquele que se dedicava a adolescentes atormentados por dúvidas existenciais e românticas, o roteiro explora (sem maiores profundidades mas de forma simpática e fotogênica) um grupo mais velho de personagens, recém-saídos da universidade mais ainda perdidos em relação a seu espaço no mundo - não deixa de ser irônico que no mesmo ano de seu lançamento, três de seus atores (Emilio Estevez, Ally Sheedy e Judd Nelson) também estivessem no sucesso "Clube dos cinco", de John Hughes, onde interpretavam colegiais. Também é uma ironia inconsciente que, apesar de todos os personagens estarem na casa dos vinte e poucos anos, seus problemas serem bem pouco diferentes daqueles enfrentados por Molly Ringwald e companhia nos filmes de Hughes, sendo substituídos apenas por questões relativas à elevação da faixa etária: saem as dúvidas sobre as faculdades a serem cursadas e entram as dificuldades de se colocar no mercado de trabalho; ficam pra trás as tentativas de se encaixar em um mundo hostil às diferenças e entra em cena a luta para manter a individualidade; acaba o desespero para encontrar o amor e inicia a batalha para manter um relacionamento adulto e longe das tentações físicas que surgem a cada esquina. Mesmo que não seja um cineasta espetacular, Schumacher tem o mérito de conseguir interpretações corretas de seu elenco de astros juvenis mesmo com os problemas pessoais de Demi Moore (que na vida real vivia problema semelhante à de sua personagem ficctícia, envolvida com drogas) e a inexperiência de muitos deles.
Lançado em uma época do cinema hollywoodiano onde um novo grupo de jovens atores começava a dar as cartas - mesmo que muitos deles não tenha conseguido fazer a transição de promessa a ator respeitado - "O primeiro ano do resto de nossas vidas" faz uso de todas as qualidades e defeitos da rapaziada. Fica evidente, por exemplo, o quanto Emilio Estevez se sobressai, mesmo com um personagem cujo maior drama é o de tentar seduzir uma antiga paixão, mais velha e com outras prioridades na vida. Mare Winningham se esforça como a virginal Wendy - mesmo estando grávida durante as filmagens - e seria indicada ao Oscar de coadjuvante em 1996 por "Georgia" e Ally Sheedy, mesmo sendo a mais talentosa do elenco, também seria prejudicada por complicações com as drogas, interrompendo o que poderia ter sido uma brilhante carreira. Demi Moore e Rob Lowe desfilam sua beleza pela tela, não sendo muito mais exigidos do que isso, ainda que nenhum deles seja exatamente um ator ruim. E Judd Nelson convence em um papel bastante diferente do valentão rebelde que interpretou em "Clube dos cinco" e que lhe deu fama junto ao público jovem. Na ponta de tudo, Andrew McCarthy também não se sai mal como o galã incompreendido apaixonado pela mulher de um amigo. Juntos, eles tem uma química que é, senão o principal elemento do filme, ao menos o combustível que o mantém em fogo constante até o final mezzo melancólico mezzo otimista.
Equilibrando um tom caloroso - resquícios do sempre inspirador "O reencontro" (83) - com momentos de um cinismo típico da geração yuppie dos anos 80, "O primeiro ano do resto de nossas vidas" tornou-se, de certa forma, o retrato de uma parcela da juventude norte-americana de sua época, ainda que não aprofunde a maioria de seus questionamentos e paire superficialmente sobre muitas questões que mereceriam maior atenção. No entanto, funciona como retrato de um cinema específico, de um momento também restrito e de exemplo de como um elenco bem escolhido pode fazer metade do serviço quando se fala de cinema. Imaginem só se Jodie Foster tivesse aceito viver Jules!!!
Billy Hicks (Rob Lowe) é um jovem irresponsável, casado precocemente e que sonha em viver da música, além de ser o objeto de desejo de sua colega de faculdade, Wendy (Mare Winningham), uma judia rica que trabalha em um centro de assistência social e sonha entregar a ele sua virgindade, apesar dos esforços de sua família para que se case com um rapaz com suas mesmas condições financeiras e religiosas. Jules (Demi Moore) é uma patricinha que não tem uma relação das melhores com o pai e a madrasta e procura refúgio nas drogas e no álcool, além de ter um caso amoroso com seu chefe casado. Alec Newbarry (Judd Nelson) é um assistente político em vias de mudar de ideologia graças ao poder do dinheiro - e assim poder casar-se com a namorada, Leslie Hunter (Ally Sheedy), que busca reconhecimento profissional e desconhece tanto as escapadelas sexuais do namorado quanto a paixão que desperta em outro colega, Kevin Dolenz (Andrew McCarthy), que todos desconfiam ser gay. E Kirby Keler (Emilio Estevez) trabalha como garçom no St. Elmo's, o bar onde todos confraternizam frequentemente e reafirmam suas relações de amizade - enquanto tenta conquistar o amor de Dale Biberman (Andie MacDowell), uma médica que ele conhece e ama desde os tempos da faculdade.
Esses são os sete protagonistas de "O primeiro ano do resto de nossas vidas", primeiro sucesso de Joel Schumacher como diretor - depois de anos como figurinista e diretor de arte e de dois trabalhos pouco vistos. Seguindo um nicho um bocado mais maduro do que aquele que se dedicava a adolescentes atormentados por dúvidas existenciais e românticas, o roteiro explora (sem maiores profundidades mas de forma simpática e fotogênica) um grupo mais velho de personagens, recém-saídos da universidade mais ainda perdidos em relação a seu espaço no mundo - não deixa de ser irônico que no mesmo ano de seu lançamento, três de seus atores (Emilio Estevez, Ally Sheedy e Judd Nelson) também estivessem no sucesso "Clube dos cinco", de John Hughes, onde interpretavam colegiais. Também é uma ironia inconsciente que, apesar de todos os personagens estarem na casa dos vinte e poucos anos, seus problemas serem bem pouco diferentes daqueles enfrentados por Molly Ringwald e companhia nos filmes de Hughes, sendo substituídos apenas por questões relativas à elevação da faixa etária: saem as dúvidas sobre as faculdades a serem cursadas e entram as dificuldades de se colocar no mercado de trabalho; ficam pra trás as tentativas de se encaixar em um mundo hostil às diferenças e entra em cena a luta para manter a individualidade; acaba o desespero para encontrar o amor e inicia a batalha para manter um relacionamento adulto e longe das tentações físicas que surgem a cada esquina. Mesmo que não seja um cineasta espetacular, Schumacher tem o mérito de conseguir interpretações corretas de seu elenco de astros juvenis mesmo com os problemas pessoais de Demi Moore (que na vida real vivia problema semelhante à de sua personagem ficctícia, envolvida com drogas) e a inexperiência de muitos deles.
Lançado em uma época do cinema hollywoodiano onde um novo grupo de jovens atores começava a dar as cartas - mesmo que muitos deles não tenha conseguido fazer a transição de promessa a ator respeitado - "O primeiro ano do resto de nossas vidas" faz uso de todas as qualidades e defeitos da rapaziada. Fica evidente, por exemplo, o quanto Emilio Estevez se sobressai, mesmo com um personagem cujo maior drama é o de tentar seduzir uma antiga paixão, mais velha e com outras prioridades na vida. Mare Winningham se esforça como a virginal Wendy - mesmo estando grávida durante as filmagens - e seria indicada ao Oscar de coadjuvante em 1996 por "Georgia" e Ally Sheedy, mesmo sendo a mais talentosa do elenco, também seria prejudicada por complicações com as drogas, interrompendo o que poderia ter sido uma brilhante carreira. Demi Moore e Rob Lowe desfilam sua beleza pela tela, não sendo muito mais exigidos do que isso, ainda que nenhum deles seja exatamente um ator ruim. E Judd Nelson convence em um papel bastante diferente do valentão rebelde que interpretou em "Clube dos cinco" e que lhe deu fama junto ao público jovem. Na ponta de tudo, Andrew McCarthy também não se sai mal como o galã incompreendido apaixonado pela mulher de um amigo. Juntos, eles tem uma química que é, senão o principal elemento do filme, ao menos o combustível que o mantém em fogo constante até o final mezzo melancólico mezzo otimista.
Equilibrando um tom caloroso - resquícios do sempre inspirador "O reencontro" (83) - com momentos de um cinismo típico da geração yuppie dos anos 80, "O primeiro ano do resto de nossas vidas" tornou-se, de certa forma, o retrato de uma parcela da juventude norte-americana de sua época, ainda que não aprofunde a maioria de seus questionamentos e paire superficialmente sobre muitas questões que mereceriam maior atenção. No entanto, funciona como retrato de um cinema específico, de um momento também restrito e de exemplo de como um elenco bem escolhido pode fazer metade do serviço quando se fala de cinema. Imaginem só se Jodie Foster tivesse aceito viver Jules!!!
sexta-feira
A HORA DA ZONA MORTA
A HORA DA ZONA MORTA (Dead zone, 1983, Dino de Laurentiis Company, 103min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Jeffrey Boam, romance de Stephen King. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Ronald Sanders. Música: Michael Kamen. Figurino: Olga Dimitrov. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Tom Coulter. Produção: Debra Hill. Elenco: Christopher Walken, Brooke Adams, Martin Sheen, Tom Skerrit, Colleen Dewhurst, Nicholas Campbell, Herbert Lom. Estreia: 21/10/83
Stephen King começou a firmar-se como um nome quente dentro da indústria hollywoodiana quando o sucesso de bilheteria de "Carrie, a estranha" (76), de Brian DePalma e o prestígio de "O iluminado" (80), de Stanley Kubrick comprovaram que por trás de uma boa história de terror poderia haver inteligência e criatividade. Por isso não deixou de ser surpreendente quando o nome do canadense David Cronenberg foi anunciado como o diretor de "A hora da zona morta", mais um romance de King a ser adaptado para as telas no início da década de 80: conhecido por filmes pouco afeitos à sutilezas, como os polêmicos "Enraivecida, na fúria do sexo" (77) e "Scanners, sua mente pode destruir" (81), o cineasta acabou por convencer até mesmo o mais pessimista fã do escritor, porém, quando sua adaptação finalmente foi lançada, no final de 1983. Não só a trama chegou às telas da forma mais fiel possível como Cronenberg conseguiu imprimir a ela uma personalidade e um suspense que funcionam em todos os níveis. Estrelado pelo sempre sinistro Christopher Walken - já oscarizado pelo soldado neurótico de "O franco-atirador" (78) - o filme mantém a atenção da plateia desde seu início angustiante até suas climáticas cenas finais, além de contar uma história recheada o suficiente de ganchos e personagens interessantes.
Walken - em papel que King queria que fosse de Bill Murray, veja só - interpreta Johnny Smith, um professor de inglês de Castle Rock, uma pequena cidade do Maine (que se tornaria cenário preferido de várias histórias de Stephen King a partir de então). Em uma noite chuvosa qualquer, ele deixa sua noiva, Sarah (Brooke Adams), em casa e sofre um grave acidente de carro que o deixa em coma profundo por cinco anos. Depois de acordar - e perceber que sua vida não tem mais condições de ser a mesma, uma vez que Sarah já está casada com outro homem e é mãe de um bebê - Johnny descobre ainda que sua situação lhe presenteou com o estranho dom da clarividência: ao tocar nas pessoas, ele tem o poder de descobrir coisas tais como um incêndio na casa de uma enfermeira, a verdade sobre o desaparecimento da mãe de seu médico (perdida desde a II Guerra Mundial) e, mais importante ainda, é procurado pelo xerife (Tom Skerrit) para ajudar na busca de um assassino serial. Tamanha pressão o acaba levando a esconder-se de todos os que conhece, até que seu caminho se cruza com Greg Stillson (Martin Sheen), um político popular que é candidato ao Senado e pode não ser tão honesto quanto deseja parecer.
Realmente, para quem conhece a obra de David Cronenberg - que posteriormente ainda cometeria filmes que causaram extrema controvérsia, como "Mistérios e paixões" (91) e "Crash, estranhos prazeres" (96) - seu trabalho em "A hora da zona morta" chega a ser convencional. Sem nunca abrir mãos das convenções de um gênero tão pouco aberto a inovações narrativas, o cineasta mantém o interesse do público apostando suas fichas na atuação na medida exata de Christopher Walken, cujo rosto naturalmente ambíguo transmite todas as vastas sensações de seu personagem, um herói trágico na tradição de uma Cassandra grega. O suspense crescente, que Cronenberg manipula com extrema consciência, é construído com detalhes, nunca deixando de lado o drama inerente a uma existência como a de Johnny, eternamente na corda bamba entre o horror e a tragédia. E é também importante para tamanha precisão no suspense a trilha sonora discreta mas eficaz do veterano Michael Kamen, que jamais anuncia os momentos de maior tensão, preferindo, ao contrário, comentá-los conforme a ação vai se delineando diante dos olhos do espectador.
Uma das melhores adaptações de um livro de terror de Stephen King para as telas, "A hora da zona morta" se beneficia também do fato de saber terminar. Ao contrário de várias futuras transições da obra do escritor, que são estragadas por finais sem sentido ou forçados, o filme de David Cronenberg tem um desfecho climático, coerente e emocionante, valorizado pela atuação brilhante de Martin Sheen, que equilibra com inteligência a canastrice comum aos políticos demagogos com uma riqueza de nuances que deixa a audiência à espera de seu próximo movimento - que nunca é aquele esperado, o que dá ao filme sua sensação de imprevisibilidade que faz dele uma experiência ainda hoje bastante intrigante.
Stephen King começou a firmar-se como um nome quente dentro da indústria hollywoodiana quando o sucesso de bilheteria de "Carrie, a estranha" (76), de Brian DePalma e o prestígio de "O iluminado" (80), de Stanley Kubrick comprovaram que por trás de uma boa história de terror poderia haver inteligência e criatividade. Por isso não deixou de ser surpreendente quando o nome do canadense David Cronenberg foi anunciado como o diretor de "A hora da zona morta", mais um romance de King a ser adaptado para as telas no início da década de 80: conhecido por filmes pouco afeitos à sutilezas, como os polêmicos "Enraivecida, na fúria do sexo" (77) e "Scanners, sua mente pode destruir" (81), o cineasta acabou por convencer até mesmo o mais pessimista fã do escritor, porém, quando sua adaptação finalmente foi lançada, no final de 1983. Não só a trama chegou às telas da forma mais fiel possível como Cronenberg conseguiu imprimir a ela uma personalidade e um suspense que funcionam em todos os níveis. Estrelado pelo sempre sinistro Christopher Walken - já oscarizado pelo soldado neurótico de "O franco-atirador" (78) - o filme mantém a atenção da plateia desde seu início angustiante até suas climáticas cenas finais, além de contar uma história recheada o suficiente de ganchos e personagens interessantes.
Walken - em papel que King queria que fosse de Bill Murray, veja só - interpreta Johnny Smith, um professor de inglês de Castle Rock, uma pequena cidade do Maine (que se tornaria cenário preferido de várias histórias de Stephen King a partir de então). Em uma noite chuvosa qualquer, ele deixa sua noiva, Sarah (Brooke Adams), em casa e sofre um grave acidente de carro que o deixa em coma profundo por cinco anos. Depois de acordar - e perceber que sua vida não tem mais condições de ser a mesma, uma vez que Sarah já está casada com outro homem e é mãe de um bebê - Johnny descobre ainda que sua situação lhe presenteou com o estranho dom da clarividência: ao tocar nas pessoas, ele tem o poder de descobrir coisas tais como um incêndio na casa de uma enfermeira, a verdade sobre o desaparecimento da mãe de seu médico (perdida desde a II Guerra Mundial) e, mais importante ainda, é procurado pelo xerife (Tom Skerrit) para ajudar na busca de um assassino serial. Tamanha pressão o acaba levando a esconder-se de todos os que conhece, até que seu caminho se cruza com Greg Stillson (Martin Sheen), um político popular que é candidato ao Senado e pode não ser tão honesto quanto deseja parecer.
Realmente, para quem conhece a obra de David Cronenberg - que posteriormente ainda cometeria filmes que causaram extrema controvérsia, como "Mistérios e paixões" (91) e "Crash, estranhos prazeres" (96) - seu trabalho em "A hora da zona morta" chega a ser convencional. Sem nunca abrir mãos das convenções de um gênero tão pouco aberto a inovações narrativas, o cineasta mantém o interesse do público apostando suas fichas na atuação na medida exata de Christopher Walken, cujo rosto naturalmente ambíguo transmite todas as vastas sensações de seu personagem, um herói trágico na tradição de uma Cassandra grega. O suspense crescente, que Cronenberg manipula com extrema consciência, é construído com detalhes, nunca deixando de lado o drama inerente a uma existência como a de Johnny, eternamente na corda bamba entre o horror e a tragédia. E é também importante para tamanha precisão no suspense a trilha sonora discreta mas eficaz do veterano Michael Kamen, que jamais anuncia os momentos de maior tensão, preferindo, ao contrário, comentá-los conforme a ação vai se delineando diante dos olhos do espectador.
Uma das melhores adaptações de um livro de terror de Stephen King para as telas, "A hora da zona morta" se beneficia também do fato de saber terminar. Ao contrário de várias futuras transições da obra do escritor, que são estragadas por finais sem sentido ou forçados, o filme de David Cronenberg tem um desfecho climático, coerente e emocionante, valorizado pela atuação brilhante de Martin Sheen, que equilibra com inteligência a canastrice comum aos políticos demagogos com uma riqueza de nuances que deixa a audiência à espera de seu próximo movimento - que nunca é aquele esperado, o que dá ao filme sua sensação de imprevisibilidade que faz dele uma experiência ainda hoje bastante intrigante.
quinta-feira
DEPOIS DE HORAS
DEPOIS DE HORAS (After hours, 1985, Geffen Company, 97min) Direção:
Martin Scorsese. Roteiro: Joseph Minion. Fotografia: Michael Ballhaus.
Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Howard Shore. Figurino: Rita
Ryack. Direção de arte/cenários: Jeffrey Townsend/Leslie Pope. Produção:
Robert F. Colesberry, Griffin Dunne, Amy Robinson. Elenco: Griffin
Dunne, Rosanna Arquette, Linda Fiorentino, John Heard, Catherine O'Hara,
Teri Garr, Verna Bloom, Bronson Pichot, Will Patton. Elenco: 13/8/85
É quase impensável que um filme como "Depois de horas", uma das comédias de humor negro mais geniais da história do cinema americano da década de 80 - e quiçá de muito tempo antes e depois - seja considerado um "Scorsese menor". Inspirado nos filmes de Hitchcock e levado em tom de paródia, o filme produzido e estrelado pelo ator Griffin Dunne (que depois sentaria na cadeira de diretor em algumas ocasiões) é, nas palavras de seu cineasta, uma descida ao inferno. Mas tal descida é realizada com tal senso de humor bizarro e surrealismo que é difícil não embarcar na jornada de seu protagonista, arrastado sem maiores avisos para uma terra hostil e onde tudo pode acontecer - o SoHo nova-iorquino da época dos yuppies e artistas modernos. É lá que, em uma noite das mais longas já retratadas pelo cinema, o pacato Paul Hackett, em busca de momentos de amor (ou sexo ou qualquer coisa que o valha), encontra um país não das maravilhas, mas do sadomasoquismo, da solidão e de mal-entendidos que podem significar a morte e a violência.
Primeiro roteiro de Joseph Minion - que o escreveu como tese final de seu curso na Faculdade de Columbia - "Depois de horas" chegou às mãos de Scorsese depois que suas tentativas de realizar "A última tentação de Cristo" chegaram a um impasse e o liberaram para dirigir um projeto menor. Substituindo Tim Burton - o diretor escolhido como a segunda opção - o cineasta, que vinha de filmes considerados mais densos, como "Taxi driver" (76) e "Touro indomável" (80) e enfrentava o fracasso de seu mais recente trabalho, a incompreendida comédia dramática "O rei da comédia" (83), viu a oportunidade como a chance de ilustrar a sua ideia de que somos todos peões com cujas vidas os deuses - se eles existem - pouco se importam. Surgia, assim, uma das comédias mais assustadoramente angustiantes de sua carreira - e mais um de seus filmes injustamente relegados a segundo plano em uma brilhante carreira.
Griffin Dunne - visto anteriormente em "Um lobisomem americano em Londres" (81), de Joe Landis - está especialmente perfeito como o certinho e previsível Paul Hackett, o revisor de uma editora que leva uma entediante vida profissional e pessoal que vê seu mundo virar do avesso depois de um inocente flerte com a simpática Marcy (Patricia Arquette) em uma lanchonete. Lendo "Trópico de Câncer", de Henry Miller, ele inicia com ela uma conversa que acaba em uma troca de números de telefone e com sua decisão de visitá-la na casa de uma amiga que mora no SoHo, a artista plástica Kiki Bridges (Linda Fiorentino), que trabalha com papel-marchê e tem amigos no submundo sadomasoquista do bairro. Depois de saber um pouco mais a respeito da atribulada vida de Marcy, Paul - que perdeu sua única nota de vinte dólares no caminho para o encontro - acaba impedido de voltar pra casa e conhece uma galeria inusitada de personagens que, cada um à sua maneira particular e bizarra, fazem parte do mesmo círculo sinistro de relações. A noite - interminável, chuvosa e feérica - não demora a se transformar em um pesadelo kafkiano quando ele passa a ser perseguido, confundido com um ladrão que vem atacando a vizinhança.
Comédia que dispensa gargalhadas, "Depois de horas" mostra um senso de humor negro com que a obra de Scorsese até então havia apenas flertado discretamente. A câmera frequentemente nervosa do diretor - com a ajuda de seus habituais colaboradores Michael Ballhaus na fotografia e Thelma Schoonmaker na edição - acompanha os angustiados passos de seu protagonista como uma testemunha imparcial, brilhando apenas em pequenos detalhes, como o suspense que cria em situações corriqueiras, como o mero acender de uma lâmpada e as tentativas desesperadas de convencer o bilheteiro do metrô a deixar-lhe embarcar de volta para o aconchego de seu apartamento yuppie. Scorsese deita e rola com todas os entraves no caminho de Paul Hackett, envolvendo o espectador em um labirinto aparentemente sem saída que culmina com um desfecho absurdamente coerente com seu desenvolvimento atípico. É um filme irônico, repleto de sacadas inteligentes, que mistura Hitchcock, Henry Miller, Kafka e o submundo da arte moderna oitentista sem soar arrogante ou condescendente. É uma pequena obra-prima, e como tal deveria ser reconhecida, mesmo que tardiamente.
É quase impensável que um filme como "Depois de horas", uma das comédias de humor negro mais geniais da história do cinema americano da década de 80 - e quiçá de muito tempo antes e depois - seja considerado um "Scorsese menor". Inspirado nos filmes de Hitchcock e levado em tom de paródia, o filme produzido e estrelado pelo ator Griffin Dunne (que depois sentaria na cadeira de diretor em algumas ocasiões) é, nas palavras de seu cineasta, uma descida ao inferno. Mas tal descida é realizada com tal senso de humor bizarro e surrealismo que é difícil não embarcar na jornada de seu protagonista, arrastado sem maiores avisos para uma terra hostil e onde tudo pode acontecer - o SoHo nova-iorquino da época dos yuppies e artistas modernos. É lá que, em uma noite das mais longas já retratadas pelo cinema, o pacato Paul Hackett, em busca de momentos de amor (ou sexo ou qualquer coisa que o valha), encontra um país não das maravilhas, mas do sadomasoquismo, da solidão e de mal-entendidos que podem significar a morte e a violência.
Primeiro roteiro de Joseph Minion - que o escreveu como tese final de seu curso na Faculdade de Columbia - "Depois de horas" chegou às mãos de Scorsese depois que suas tentativas de realizar "A última tentação de Cristo" chegaram a um impasse e o liberaram para dirigir um projeto menor. Substituindo Tim Burton - o diretor escolhido como a segunda opção - o cineasta, que vinha de filmes considerados mais densos, como "Taxi driver" (76) e "Touro indomável" (80) e enfrentava o fracasso de seu mais recente trabalho, a incompreendida comédia dramática "O rei da comédia" (83), viu a oportunidade como a chance de ilustrar a sua ideia de que somos todos peões com cujas vidas os deuses - se eles existem - pouco se importam. Surgia, assim, uma das comédias mais assustadoramente angustiantes de sua carreira - e mais um de seus filmes injustamente relegados a segundo plano em uma brilhante carreira.
Griffin Dunne - visto anteriormente em "Um lobisomem americano em Londres" (81), de Joe Landis - está especialmente perfeito como o certinho e previsível Paul Hackett, o revisor de uma editora que leva uma entediante vida profissional e pessoal que vê seu mundo virar do avesso depois de um inocente flerte com a simpática Marcy (Patricia Arquette) em uma lanchonete. Lendo "Trópico de Câncer", de Henry Miller, ele inicia com ela uma conversa que acaba em uma troca de números de telefone e com sua decisão de visitá-la na casa de uma amiga que mora no SoHo, a artista plástica Kiki Bridges (Linda Fiorentino), que trabalha com papel-marchê e tem amigos no submundo sadomasoquista do bairro. Depois de saber um pouco mais a respeito da atribulada vida de Marcy, Paul - que perdeu sua única nota de vinte dólares no caminho para o encontro - acaba impedido de voltar pra casa e conhece uma galeria inusitada de personagens que, cada um à sua maneira particular e bizarra, fazem parte do mesmo círculo sinistro de relações. A noite - interminável, chuvosa e feérica - não demora a se transformar em um pesadelo kafkiano quando ele passa a ser perseguido, confundido com um ladrão que vem atacando a vizinhança.
Comédia que dispensa gargalhadas, "Depois de horas" mostra um senso de humor negro com que a obra de Scorsese até então havia apenas flertado discretamente. A câmera frequentemente nervosa do diretor - com a ajuda de seus habituais colaboradores Michael Ballhaus na fotografia e Thelma Schoonmaker na edição - acompanha os angustiados passos de seu protagonista como uma testemunha imparcial, brilhando apenas em pequenos detalhes, como o suspense que cria em situações corriqueiras, como o mero acender de uma lâmpada e as tentativas desesperadas de convencer o bilheteiro do metrô a deixar-lhe embarcar de volta para o aconchego de seu apartamento yuppie. Scorsese deita e rola com todas os entraves no caminho de Paul Hackett, envolvendo o espectador em um labirinto aparentemente sem saída que culmina com um desfecho absurdamente coerente com seu desenvolvimento atípico. É um filme irônico, repleto de sacadas inteligentes, que mistura Hitchcock, Henry Miller, Kafka e o submundo da arte moderna oitentista sem soar arrogante ou condescendente. É uma pequena obra-prima, e como tal deveria ser reconhecida, mesmo que tardiamente.
quarta-feira
GOSTO DE SANGUE
Nada como começar com o pé direito. Filme de estreia dos irmãos Coen - que uma década e meia mais tarde se consagrariam com os Oscar de filme, direção e roteiro com "Onde os fracos não tem vez" (07) - o policial noir "Gosto de sangue" já mostra, de forma crua, criativa e surpreendente todos os elementos que fariam a fama dos cineastas no futuro. Ao lado de um roteiro mirabolante e cheio de surpresas, estão presentes a direção primorosa de atores, a movimentação frenética e imprevisível da câmera e a paixão inconteste pelo cinema em si, homenageado através da utilização dos signos e ingredientes de um dos gêneros mais queridos pelos cinéfilos - e que seria novamente revisitado por eles em obras de narrativa mais sofisticada, como "Ajuste final" (90) e "O homem que não estava lá" (01). No fundo apenas uma história de policial que remete a clássicos da literatura pulp, mas banhada a sangue, suor e uma certa dose de humor negro, o primeiro filme dos Coen é uma pequena amostra do extraordinário talento com que os irmãos iriam presentear os fãs da sétima arte dali em diante.
O cenário é o Texas, árido como fica o coração de Julian Marty (Dan Hedaya), o proprietário de um bar, quando tem a confirmação de que sua esposa, Abby (Frances McDormand) o está traindo com um funcionário, o jovem Ray (John Getz). Indignado com a traição, ele contrata o mesmo detetive particular que lhe forneceu as provas do adultério, Loren Visser (M. Emmet Walsh), para acabar com o novo casal. Com a promessa de abocanhar dez mil dólares, o detetive aceita a missão. O problema é que quando dinheiro está em jogo as coisas nunca são simples, e o que aparentava ser apenas uma história de traição e morte se transforma rapidamente em um jogo de trapaças e surpresas, onde ninguém é o que realmente mostra aos outros - e a morte pode não ser algo tão definitivo quanto soa. A partir daí, vítimas e criminosos passam a confundir os papéis, embaralhando as cartas até o final surpreendente, onde apenas o mais esperto (ou sortudo) sobreviverá.
Em "Gosto de sangue", os irmãos Coen brindam o público com cenas de grande inventividade visual. Se em "Onde os fracos não tem vez" eles surpreenderam a audiência com a ausência de uma trilha sonora, aqui eles se permitem criar uma longa sequência sem diálogos, sublinhando a tensão de uma situação sui generis apenas com a iluminação dos faróis de um carro e o desespero de um dos personagens, que se vê diante de um dilema que somente em seus filmes faz sentido, apesar do inusitado. Com ângulos sempre desenhados de forma a seduzir a plateia e extrair de cada momento a melhor solução visual, a fotografia de Barry Sonnenfeld - que posteriormente passaria à carreira de diretor com os dois capítulos de "A família Addams" - é um componente a mais na execução de uma trama que jamais deixa o espectador descansar das surpresas. A edição ágil - cortesia dos próprios diretores com o pseudônimo de Roderick Jaynes e de Don Wiegmann - e a trilha sonora, repleta de canções típicas da região onde se passa a história, ilustram com ainda mais poder o conto de ganância e luxúria que se desenrola na tela, ainda que o sexo (relativamente discreto) esteja ligado de forma indelével à culpa e à violência que envolve a todos.
Uma das estreias mais alvissareiras da história do cinema, "Gosto de sangue" conquista pela inteligência com que trata seu público. Apresentando uma Frances McDormand bela como nunca - ela ficou com o papel (a escolhida nos testes, Holly Hunter teve que abandonar o projeto por compromissos teatrais) e com o diretor, com quem casou-se após as filmagens - e um M. Emmet Walsh diabólico no limite da loucura, o filme conta uma história de amor e vingança que passa como um vento avassalador, que destroi a quem estiver no caminho. Uma pequena obra-prima.
terça-feira
GATINHAS E GATÕES
GATINHAS E GATÕES (Sixteen candles, 1984, Universal Pictures,
93min) Direção e roteiro: John Hughes. Fotografia: Bobby Byrne.
Montagem: Edward Warschilka. Música: Ira Newborn. Direção de
arte/cenários: John W. Corso/Jennifer Polito. Produção executiva: Ned
Tanen. Produção: Hilton A. Green. Elenco: Molly Ringwald, Anthony
Michael Hall, Michael Schoeffling, Paul Dooley, Justin Henry, Haviland
Morris, Gedde Watanabe, John Cusack, Joan Cusack, Carlin Glynn, Liane
Curtis, Jami Gertz, Zelda Rubinstein. Estreia: 04/5/84
Se existia um cineasta na década de 80 que entendia o que se passava nas cabeças e nos corações dos adolescentes, esse cineasta era John Hughes. Com uma pequena série de comédias românticas estreladas por sua musa Molly Ringwald - que começou com "Gatinhas e gatões" e inclui "Clube dos cinco" e "A garota de rosa-shocking" (que ele escreveu e Howard Deutch dirigiu), além de "Curtindo a vida adoidado", sem sua atriz-símbolo - ele marcou toda uma geração de jovens, que conseguia enxergar na tela seus medos, suas dúvidas e seus desejos retratados com carinho e um senso de humor delicado que equilibrava ingenuidade e picardia. Tratando de assuntos que interessavam a seu público-alvo, como sexualidade, relações familiares e dúvidas existenciais, seus filmes encantavam principalmente por causa da linguagem simples, da despretensão e da escolha certeira de seus elencos. Representada especialmente por Molly Ringwald, que chegou a ser capa da revista Time por conta de seu sucesso nas obras do diretor, a adolescência vista pelos olhos de John Hughes conquistou lugar de honra na história do cinema pop americano.
A trama de "Gatinhas e gatões" é de uma simplicidade comovente: no dia de seu aniversário de dezesseis anos, a adolescente Samantha Baker (Molly Ringwald, que conseguiu o papel contra Laura Dern) acorda decepcionada com o fato de não ver no espelho nenhuma diferença em relação ao dia anterior. Porém, uma outra decepção, ainda maior, acontece quando ninguém em sua casa lembra da data, para ela tão importante por representar um passo a mais em direção à idade adulta: focados no casamento de sua irmã mais velha, seus pais, irmãos e avós nem mesmo a cumprimentam pela data, o que a deixa arrasada. Para piorar seu dia - já completamente arrasado pela indiferença familiar - ela não consegue deixar de lado sua paixão avassaladora pelo popular Jake Ryan (Michael Schoeffling, que depois faria par romântico com Winona Ryder em "Minha mãe é uma sereia"), comprometido com uma patricinha mais velha e insensível. Em uma festa da escola - onde é obrigada a levar o intercambista chinês que mora com seus avós e que descobre as maravilhas do mundo ocidental da maneira mais direta possível - Sam ainda precisa lidar com o assédio de Ted (Anthony Michael Hall), um nerd que apostou com seus amigos (entre os quais um jovem John Cusack) que conseguiria seduzí-la. Surge entre os dois uma inusitada amizade, que os ajudará, a ambos, a terminar a noite bastante diferentes de como a começaram.
Assistir a "Gatinhas e gatões" equivale a uma boa viagem no tempo: tudo que havia de mais típico de sua época está presente em cena. O figurino exagerado - o chapéu que a protagonista usa no início do filme virou moda entre sua faixa etária - encontra eco na trilha sonora deliciosa (com Spandau Ballet e David Bowie entre os ilustres participantes) e nas referências culturais espalhadas pelo cenário, como pôsteres de bandas oitentistas como Culture Club, que decoram o quarto de Samantha. Até mesmo o que hoje é considerado clichê no gênero - festas radicais, estereótipos juvenis, final feliz - surge na trama, que é temperada por cenas de um humor ingênuo e que funciona às mil maravilhas mesmo depois de tanto tempo. A então novata Joan Cusack, por exemplo, nem precisa falar muito para levar a audiência às gargalhadas na pele de uma estudante presa em um aparelho ortopédico que a impede de coisas básicas como beber água ou tomar cerveja de uma latinha: Cusack já apostava no tipo de humor que a levaria a concorrer ao Oscar de coadjuvante em duas ocasiões, além de contracenar com o irmão, John, que na década seguinte se tornaria um dos mais confiáveis atores de Hollywood.
E por falar em atores, pode parecer impossível imaginar o triângulo central de "Gatinhas e gatões" formado por outros que não Ringwald, Anthony Michael Hall (que ainda fez parte de "Clube dos cinco" e "Mulher nota 1000", não dirigido por Hughes) e Michael Schoeffling, mas não deixa de ser interessante pensar em como seria o resultado se outros testados para os papéis tivessem conseguido passar. Além de Laura Dern como Samantha, o público poderia ter tido a oportunidade de ver Viggo Mortensen como o galã Jake Ryan e Jim Carrey (!!!) como o nerd Ted. Felizmente Hughes fez as escolhas certas - e ainda lançou um dos gêneros mais queridos da década de 80. Com "Gatinhas e gatões" surgiram os filmes de adolescentes em crise que tanto apaixonaram a juventude em seu tempo. Só por isso já merece todos os louvores.
Se existia um cineasta na década de 80 que entendia o que se passava nas cabeças e nos corações dos adolescentes, esse cineasta era John Hughes. Com uma pequena série de comédias românticas estreladas por sua musa Molly Ringwald - que começou com "Gatinhas e gatões" e inclui "Clube dos cinco" e "A garota de rosa-shocking" (que ele escreveu e Howard Deutch dirigiu), além de "Curtindo a vida adoidado", sem sua atriz-símbolo - ele marcou toda uma geração de jovens, que conseguia enxergar na tela seus medos, suas dúvidas e seus desejos retratados com carinho e um senso de humor delicado que equilibrava ingenuidade e picardia. Tratando de assuntos que interessavam a seu público-alvo, como sexualidade, relações familiares e dúvidas existenciais, seus filmes encantavam principalmente por causa da linguagem simples, da despretensão e da escolha certeira de seus elencos. Representada especialmente por Molly Ringwald, que chegou a ser capa da revista Time por conta de seu sucesso nas obras do diretor, a adolescência vista pelos olhos de John Hughes conquistou lugar de honra na história do cinema pop americano.
A trama de "Gatinhas e gatões" é de uma simplicidade comovente: no dia de seu aniversário de dezesseis anos, a adolescente Samantha Baker (Molly Ringwald, que conseguiu o papel contra Laura Dern) acorda decepcionada com o fato de não ver no espelho nenhuma diferença em relação ao dia anterior. Porém, uma outra decepção, ainda maior, acontece quando ninguém em sua casa lembra da data, para ela tão importante por representar um passo a mais em direção à idade adulta: focados no casamento de sua irmã mais velha, seus pais, irmãos e avós nem mesmo a cumprimentam pela data, o que a deixa arrasada. Para piorar seu dia - já completamente arrasado pela indiferença familiar - ela não consegue deixar de lado sua paixão avassaladora pelo popular Jake Ryan (Michael Schoeffling, que depois faria par romântico com Winona Ryder em "Minha mãe é uma sereia"), comprometido com uma patricinha mais velha e insensível. Em uma festa da escola - onde é obrigada a levar o intercambista chinês que mora com seus avós e que descobre as maravilhas do mundo ocidental da maneira mais direta possível - Sam ainda precisa lidar com o assédio de Ted (Anthony Michael Hall), um nerd que apostou com seus amigos (entre os quais um jovem John Cusack) que conseguiria seduzí-la. Surge entre os dois uma inusitada amizade, que os ajudará, a ambos, a terminar a noite bastante diferentes de como a começaram.
Assistir a "Gatinhas e gatões" equivale a uma boa viagem no tempo: tudo que havia de mais típico de sua época está presente em cena. O figurino exagerado - o chapéu que a protagonista usa no início do filme virou moda entre sua faixa etária - encontra eco na trilha sonora deliciosa (com Spandau Ballet e David Bowie entre os ilustres participantes) e nas referências culturais espalhadas pelo cenário, como pôsteres de bandas oitentistas como Culture Club, que decoram o quarto de Samantha. Até mesmo o que hoje é considerado clichê no gênero - festas radicais, estereótipos juvenis, final feliz - surge na trama, que é temperada por cenas de um humor ingênuo e que funciona às mil maravilhas mesmo depois de tanto tempo. A então novata Joan Cusack, por exemplo, nem precisa falar muito para levar a audiência às gargalhadas na pele de uma estudante presa em um aparelho ortopédico que a impede de coisas básicas como beber água ou tomar cerveja de uma latinha: Cusack já apostava no tipo de humor que a levaria a concorrer ao Oscar de coadjuvante em duas ocasiões, além de contracenar com o irmão, John, que na década seguinte se tornaria um dos mais confiáveis atores de Hollywood.
E por falar em atores, pode parecer impossível imaginar o triângulo central de "Gatinhas e gatões" formado por outros que não Ringwald, Anthony Michael Hall (que ainda fez parte de "Clube dos cinco" e "Mulher nota 1000", não dirigido por Hughes) e Michael Schoeffling, mas não deixa de ser interessante pensar em como seria o resultado se outros testados para os papéis tivessem conseguido passar. Além de Laura Dern como Samantha, o público poderia ter tido a oportunidade de ver Viggo Mortensen como o galã Jake Ryan e Jim Carrey (!!!) como o nerd Ted. Felizmente Hughes fez as escolhas certas - e ainda lançou um dos gêneros mais queridos da década de 80. Com "Gatinhas e gatões" surgiram os filmes de adolescentes em crise que tanto apaixonaram a juventude em seu tempo. Só por isso já merece todos os louvores.
segunda-feira
A DAMA DE VERMELHO
A DAMA DE VERMELHO (The woman in red, 1984, MGM Pictures, 87min) Direção: Gene Wilder. Roteiro: Gene Wilder, roteiro original do filme "Un elephant ca trompe enormement", de Yves Robert, Jean-Loup Dabadie. Fotografia: Fred Schuler. Montagem: Christopher Greenbury. Música: John Morris. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: David L. Snyder/Peg Cummings. Produção executiva: Jack Frost Sanders. Produção: Victor Drai. Elenco: Gene Wilder, Kelly Le Brok, Charles Grodin, Judith Ivey, Gilda Radner, Joseph Bologna, Michael Huddleston. Elenco: 14/8/83
Vencedor do Oscar de Melhor Canção ("I just called to say 'I love you'")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("I just called to say 'I love you'")
O ator Gene Wilder todo mundo conhece: é aquele que fez o Willy Wonka da primeira versão de "A fantástica fábrica de chocolates" (71), a raposa da adaptação musical de "O pequeno príncipe" (74) e o homem casado que se apaixonava por uma ovelha em "Tudo que você sempre quis saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar)" (72), de Woody Allen. O cineasta Gene Wilder, porém, é bem menos conhecido, até mesmo pelos mais calorosos fãs da sétima arte: com apenas três filmes no currículo, Wilder conheceu o sucesso já em seu segundo trabalho, a refilmagem de uma comédia francesa de 1976 que tratava, de forma irônica, dos dessabores do adultério na vida de um homem comum. Com o título de "A dama de vermelho", seu filme acabou dando um Oscar de melhor canção a Stevie Wonder (a deliciosa "I just called to say 'I love you'") e revelando a belíssima Kelly Le Brok, que fez apenas mais um filme relativamente importante na carreira (a comédia adolescente "Mulher nota 1000"), casou-se com Steven Segal e hoje é apenas mais um nome da década de 80 que sumiu sem deixar maiores vestígios.
Com sua cara de nerd desesperado, Wilder nem precisa fazer muita força para despertar risadas com seu personagem, Theodore Pierce, um profissional da publicidade que, bem casado e pai de família exemplar, cai de amores pela bela modelo Charlotte (Kelly Le Brok parecidíssima com Liv Tyler) no momento em que a vê pela primeira vez, tendo sua saia vermelha levantada à la Marilyn Monroe. Excitado pela possibilidade de levá-la pra cama, Theodore começa uma rede de mentiras e mal-entendidos que envolve uma das secretárias de sua agência (a esposa de Wilder, a ótima Gilda Radner) e seus melhores amigos - um dos quais teve seu casamento posto em risco devido a suas próprias escapadelas sexuais. Mesmo sabendo das consequências que sua traição pode acarretar, incluindo o fim de sua relação com a aparentemente dócil Didi (Judith Ivey), Pierce embarca sem pensar duas vezes na tentativa de conquistar a estonteante dama de vermelho.
As trapalhadas de Pierce atrás de Charlotte - que incluem uma sessão desastrada em um salão de beleza e uma tentativa de cavalgar em um haras milionário - são a base de "A dama de vermelho", cujo roteiro também é escrito por Wilder. Durante dois terços do filme, não cabe mais a Le Brock do que desfilar sua beleza pela tela e dizer meia-dúzia de palavras, enquanto o show pertence ao ator, que deita e rola com as possibilidades da trama, especialmente quando encontra com Gilda Radner, a secretária que se torna sua inimiga mortal depois de um encontro mal-sucedido. Mesmo sem dizer uma palavra, Radner, com seu timing perfeito, é capaz de fazer rir justamente por seu silêncio raivoso, como uma Glenn Close de "Atração fatal" sem as cenas de sexo, mas com a mesma sede de vingança. E é também interessante a maneira como Wilder ilustra seu conto sobre adultério com histórias paralelas pouco auspiciosas - que, no entanto, não o demovem um centímetro de seu desejo lúbrico e arriscado.
Ligeira e leve - apesar do tema, Wilder jamais carrega as tintas no erotismo ou na vulgaridade para a qual poderia facilmente descambar caso fosse menos inteligente e mais afeito a risadas fáceis - "A dama de vermelho" é uma comédia sem contra-indicações. É agradável, engraçada de verdade, simpática e, mais importante do que tudo, jamais cai na tentação de julgar seus personagens, tornando-os mais críveis do que se espera em uma comédia (apesar de Le Brock descrever o protagonista como "bonitinho", é possível deixar esse pequeno lapso escapar graças à empatia dos atores e dos personagens). No final das contas, é um clássico da "Sessão da Tarde", o que diz muito sobre sua ingenuidade em tempos tão explícitos quanto os de hoje. Uma sessão nostálgica e divertida.
Vencedor do Oscar de Melhor Canção ("I just called to say 'I love you'")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("I just called to say 'I love you'")
O ator Gene Wilder todo mundo conhece: é aquele que fez o Willy Wonka da primeira versão de "A fantástica fábrica de chocolates" (71), a raposa da adaptação musical de "O pequeno príncipe" (74) e o homem casado que se apaixonava por uma ovelha em "Tudo que você sempre quis saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar)" (72), de Woody Allen. O cineasta Gene Wilder, porém, é bem menos conhecido, até mesmo pelos mais calorosos fãs da sétima arte: com apenas três filmes no currículo, Wilder conheceu o sucesso já em seu segundo trabalho, a refilmagem de uma comédia francesa de 1976 que tratava, de forma irônica, dos dessabores do adultério na vida de um homem comum. Com o título de "A dama de vermelho", seu filme acabou dando um Oscar de melhor canção a Stevie Wonder (a deliciosa "I just called to say 'I love you'") e revelando a belíssima Kelly Le Brok, que fez apenas mais um filme relativamente importante na carreira (a comédia adolescente "Mulher nota 1000"), casou-se com Steven Segal e hoje é apenas mais um nome da década de 80 que sumiu sem deixar maiores vestígios.
Com sua cara de nerd desesperado, Wilder nem precisa fazer muita força para despertar risadas com seu personagem, Theodore Pierce, um profissional da publicidade que, bem casado e pai de família exemplar, cai de amores pela bela modelo Charlotte (Kelly Le Brok parecidíssima com Liv Tyler) no momento em que a vê pela primeira vez, tendo sua saia vermelha levantada à la Marilyn Monroe. Excitado pela possibilidade de levá-la pra cama, Theodore começa uma rede de mentiras e mal-entendidos que envolve uma das secretárias de sua agência (a esposa de Wilder, a ótima Gilda Radner) e seus melhores amigos - um dos quais teve seu casamento posto em risco devido a suas próprias escapadelas sexuais. Mesmo sabendo das consequências que sua traição pode acarretar, incluindo o fim de sua relação com a aparentemente dócil Didi (Judith Ivey), Pierce embarca sem pensar duas vezes na tentativa de conquistar a estonteante dama de vermelho.
As trapalhadas de Pierce atrás de Charlotte - que incluem uma sessão desastrada em um salão de beleza e uma tentativa de cavalgar em um haras milionário - são a base de "A dama de vermelho", cujo roteiro também é escrito por Wilder. Durante dois terços do filme, não cabe mais a Le Brock do que desfilar sua beleza pela tela e dizer meia-dúzia de palavras, enquanto o show pertence ao ator, que deita e rola com as possibilidades da trama, especialmente quando encontra com Gilda Radner, a secretária que se torna sua inimiga mortal depois de um encontro mal-sucedido. Mesmo sem dizer uma palavra, Radner, com seu timing perfeito, é capaz de fazer rir justamente por seu silêncio raivoso, como uma Glenn Close de "Atração fatal" sem as cenas de sexo, mas com a mesma sede de vingança. E é também interessante a maneira como Wilder ilustra seu conto sobre adultério com histórias paralelas pouco auspiciosas - que, no entanto, não o demovem um centímetro de seu desejo lúbrico e arriscado.
Ligeira e leve - apesar do tema, Wilder jamais carrega as tintas no erotismo ou na vulgaridade para a qual poderia facilmente descambar caso fosse menos inteligente e mais afeito a risadas fáceis - "A dama de vermelho" é uma comédia sem contra-indicações. É agradável, engraçada de verdade, simpática e, mais importante do que tudo, jamais cai na tentação de julgar seus personagens, tornando-os mais críveis do que se espera em uma comédia (apesar de Le Brock descrever o protagonista como "bonitinho", é possível deixar esse pequeno lapso escapar graças à empatia dos atores e dos personagens). No final das contas, é um clássico da "Sessão da Tarde", o que diz muito sobre sua ingenuidade em tempos tão explícitos quanto os de hoje. Uma sessão nostálgica e divertida.
domingo
SILKWOOD, O RETRATO DE UMA CORAGEM
SILKWOOD, O RETRATO DE UMA CORAGEM (Silkwood, 1983, ABC Motion Picture, 131min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Nora Ephron, Alice Arlen. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Sam O'Steen. Música: Georges Delerue. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandestein/Richard James. Produção executiva: Larry Cano, Buzz Hirsch. Produção: Michael Hausman, Mike Nichols. Elenco: Meryl Streep, Kurt Russell, Cher, Craig T. Nelson, Ron Silver, Diana Scarwid, David Strathairn, Fred Ward, Bruce McGill, Will Patton Estreia: 14/12/83
5 indicações ao Oscar: Diretor (Mike Nichols), Atriz (Meryl Streep), Atriz Coadjuvante (Cher), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Cher)
Ao contrário do que acontece no Brasil, nos EUA o negócio dos sindicatos profissionais é coisa bastante séria, a ponto de nomes como Jimmy Hoffa - presidente do sindicato dos caminhoneiros - e Norma Rae - nome fictício de uma moradora do sul do país que tornou-se líder sindicalista da indústria têxtil - tenham servido de inspiração para filmes estrelados por gente graúda (Jack Nicholson no primeiro e Sally Field, no papel que lhe deu seu primeiro Oscar, no segundo). Nos anos 80, quando a paranoia nuclear estava no ar, ameaçando a população com uma tragédia invisível - e que deu origem a uma espécie de ciclo que inclui o polêmico "Síndrome da China" (79), estrelado por Michael Douglas e Jane Fonda- o cineasta Mike Nichols resolveu juntar os dois temas em um mesmo filme, baseado em um história real ocorrida meros nove anos antes. "Silkwood, o retrato de uma coragem", estrelado por Meryl Streep - e que foi o primeiro roteiro da futuramente célebre Nora Ephron a chegar às telas - concorreu a cinco Oscar, incluindo diretor e atriz (a quinta indicação de Streep, já então duplamente premiada com a estatueta), mas teve o azar de concorrer com o furacão "Laços de ternura" e saiu da festa com as mãos abanando. Isso não diminiu sua importância, sua qualidade e, melhor ainda, sua força como denúncia e drama.
Quem torce o nariz para filmes sobre coisas como sindicatos, no entanto, não precisa se preocupar. O roteiro de Ephron - co-escrito com Alice Arlen e também indicado ao Oscar - não se detém apenas na trajetória de sua protagonista Karen Silkwood rumo à conscientização política e social, mas abre bastante espaço também para seus dramas pessoais, que incluem um casamento falido, a distância que mantém dos três filhos e os relacionamentos com o colega de trabalho Drew (um jovem Kurt Russell) - com quem mantém um romance - e a amiga Dolly (a cantora Cher, começando a ser respeitada como atriz em papel que lhe rendeu um Golden Globe de coadjuvante), além de dar ênfase especial à sua luta para denunciar a maneira torpe com que a indústria de processamento de plutônio de sua cidade natal, Oklahoma, escondia de seus funcionários o enorme perigo de contaminação que eles corriam manipulando o material. Equilibrando essas duas pontas - a familiar e a profissional - é que o roteiro se torna especial, desviando-se do caminho fácil do sensacionalismo e conquistando o espectador pelo desenho de seus personagens.
Mike Nichols, um cineasta acostumado a apontar suas lentes para personagens complexos e arrancar de seus atores desempenhos nunca aquém de fabulosos, conta a história de Karen Silkwood em seu próprio ritmo, convidando aos poucos a audiência a estabelecer intimidade com sua protagonista, uma mulher comum, com um casamento fracassado no currículo, um relacionamento amoroso que é motivo de falatório entre seus colegas de trabalho e uma amizade com uma lésbica que é apaixonada por ela. Sua vida dá uma guinada quando ela é acusada de contaminar seu local de trabalho (uma usina de tratamento de plutônio) para conseguir um fim-de-semana de folga, o que desencadeia uma onda inesperada de contaminação que atinge uma funcionária mais idosa e a ela própria. Com a ajuda de um sindicato - de quem se torna líder, para desgosto de seu namorado - ela parte para o ataque, com planos de denunciar o caso. Sua nova atitude, porém, causa polêmica entre seus companheiros de trabalho, que sabem que o fechamento da indústria também os levaria ao desemprego.
"Silkwood" é um drama com a cara de sua época: engajado, relevante e realizado com paixão. Se Meryl Streep dispensa qualquer comentário com mais uma interpretação impecável, seus coadjuvantes merecem igual respeito. Kurt Russell injeta personalidade a um personagem que poderia ficar em um melancólico segundo plano em mãos menos competentes - a cena em que ele percebe que está perdendo Karen para a militância e quiçá para o líder sindical vivido por Ron Silver é um exemplo da discrição eficaz de seu desempenho. E Cher, até então conhecida como cantora, sai-se muito bem como Dolly, a amiga homossexual da protagonista, que é responsável por um dos momentos mais ternos do filme. Em pouco tempo, ela se tornaria uma atriz respeitada, a ponto de levar um Oscar pela comédia romântica "Feitiço da lua" e aqui, ela mostra que sua persona excêntrica em nada atrapalha seu talento dramático. Ela é um motivo a mais para se assistir a "Silkwood", que, além dela, apresenta uma verdadeira e revoltante história real. Merece uma conferida.
5 indicações ao Oscar: Diretor (Mike Nichols), Atriz (Meryl Streep), Atriz Coadjuvante (Cher), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Cher)
Ao contrário do que acontece no Brasil, nos EUA o negócio dos sindicatos profissionais é coisa bastante séria, a ponto de nomes como Jimmy Hoffa - presidente do sindicato dos caminhoneiros - e Norma Rae - nome fictício de uma moradora do sul do país que tornou-se líder sindicalista da indústria têxtil - tenham servido de inspiração para filmes estrelados por gente graúda (Jack Nicholson no primeiro e Sally Field, no papel que lhe deu seu primeiro Oscar, no segundo). Nos anos 80, quando a paranoia nuclear estava no ar, ameaçando a população com uma tragédia invisível - e que deu origem a uma espécie de ciclo que inclui o polêmico "Síndrome da China" (79), estrelado por Michael Douglas e Jane Fonda- o cineasta Mike Nichols resolveu juntar os dois temas em um mesmo filme, baseado em um história real ocorrida meros nove anos antes. "Silkwood, o retrato de uma coragem", estrelado por Meryl Streep - e que foi o primeiro roteiro da futuramente célebre Nora Ephron a chegar às telas - concorreu a cinco Oscar, incluindo diretor e atriz (a quinta indicação de Streep, já então duplamente premiada com a estatueta), mas teve o azar de concorrer com o furacão "Laços de ternura" e saiu da festa com as mãos abanando. Isso não diminiu sua importância, sua qualidade e, melhor ainda, sua força como denúncia e drama.
Quem torce o nariz para filmes sobre coisas como sindicatos, no entanto, não precisa se preocupar. O roteiro de Ephron - co-escrito com Alice Arlen e também indicado ao Oscar - não se detém apenas na trajetória de sua protagonista Karen Silkwood rumo à conscientização política e social, mas abre bastante espaço também para seus dramas pessoais, que incluem um casamento falido, a distância que mantém dos três filhos e os relacionamentos com o colega de trabalho Drew (um jovem Kurt Russell) - com quem mantém um romance - e a amiga Dolly (a cantora Cher, começando a ser respeitada como atriz em papel que lhe rendeu um Golden Globe de coadjuvante), além de dar ênfase especial à sua luta para denunciar a maneira torpe com que a indústria de processamento de plutônio de sua cidade natal, Oklahoma, escondia de seus funcionários o enorme perigo de contaminação que eles corriam manipulando o material. Equilibrando essas duas pontas - a familiar e a profissional - é que o roteiro se torna especial, desviando-se do caminho fácil do sensacionalismo e conquistando o espectador pelo desenho de seus personagens.
Mike Nichols, um cineasta acostumado a apontar suas lentes para personagens complexos e arrancar de seus atores desempenhos nunca aquém de fabulosos, conta a história de Karen Silkwood em seu próprio ritmo, convidando aos poucos a audiência a estabelecer intimidade com sua protagonista, uma mulher comum, com um casamento fracassado no currículo, um relacionamento amoroso que é motivo de falatório entre seus colegas de trabalho e uma amizade com uma lésbica que é apaixonada por ela. Sua vida dá uma guinada quando ela é acusada de contaminar seu local de trabalho (uma usina de tratamento de plutônio) para conseguir um fim-de-semana de folga, o que desencadeia uma onda inesperada de contaminação que atinge uma funcionária mais idosa e a ela própria. Com a ajuda de um sindicato - de quem se torna líder, para desgosto de seu namorado - ela parte para o ataque, com planos de denunciar o caso. Sua nova atitude, porém, causa polêmica entre seus companheiros de trabalho, que sabem que o fechamento da indústria também os levaria ao desemprego.
"Silkwood" é um drama com a cara de sua época: engajado, relevante e realizado com paixão. Se Meryl Streep dispensa qualquer comentário com mais uma interpretação impecável, seus coadjuvantes merecem igual respeito. Kurt Russell injeta personalidade a um personagem que poderia ficar em um melancólico segundo plano em mãos menos competentes - a cena em que ele percebe que está perdendo Karen para a militância e quiçá para o líder sindical vivido por Ron Silver é um exemplo da discrição eficaz de seu desempenho. E Cher, até então conhecida como cantora, sai-se muito bem como Dolly, a amiga homossexual da protagonista, que é responsável por um dos momentos mais ternos do filme. Em pouco tempo, ela se tornaria uma atriz respeitada, a ponto de levar um Oscar pela comédia romântica "Feitiço da lua" e aqui, ela mostra que sua persona excêntrica em nada atrapalha seu talento dramático. Ela é um motivo a mais para se assistir a "Silkwood", que, além dela, apresenta uma verdadeira e revoltante história real. Merece uma conferida.
sábado
O REENCONTRO
O REENCONTRO (The big chill, 1983, Columbia Pictures, 105min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Lawrence Kasdan, Barbara Benedek. Fotografia: John Bailey. Montagem: Carol Littleton. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Ida Random/George Gaines. Produção executiva: Lawrence Kasdan, Marcia Nasatir. Produção: Michael Shamberg. Elenco: Glenn Close, Kevin Kline, William Hurt, Tom Berenger, Jeff Goldblum, Jobeth Williams, Mary Kay Place, Meg Tilly. Estreia: 09/9/83
3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Glenn Close), Roteiro Original
Um grupo de amigos, unidos na juventude idealista, são obrigados a confrontarem o que fizeram de suas vidas quando voltam a se encontrar, no funeral de um deles. Tal reunião, logicamente, traz à tona frustrações profissionais, romances interrompidos e a sensação de que o tempo, cruel e implacável, pode tê-los transformados naquilo que eles mais desprezavam: membros capitalistas de um sistema que afrontava suas aspirações pessoais. Essa história, que hoje é velha conhecida dos fãs de cinema, foi tratada de diversas maneiras, tanto em tom cômico quanto em nuances dramáticas, em filmes com inúmeros graus de qualidade. Mas o pai de todos eles, aquele que deu origem a esse quase sub-gênero do cinema mundial (até mesmo a França bebeu em sua fonte, recentemente, com o belo "Até a eternidade", dirigido pelo ator Guillaume Caunet) é o já clássico "O reencontro", lançado por Lawrence Kasdan em 1983. Co-roteirista de "Os caçadores da arca perdida" (81) e "O império contra-ataca" (80), dentre outros sucessos, e diretor do elogiado "Corpos ardentes" (81), Kasdan escreveu seu roteiro inspirado em colegas com quem conviveu durante seus anos de universidade, o que dá a ele um senso de verdade poucas vezes visto em seus congêneres. Resultado: três indicações ao Oscar - incluindo filme e roteiro original - e uma aura de doce melancolia que se mantém fresca e atual mesmo depois de três décadas.
Para contar sua história de perdas e emoções, Kasdan teve a sorte de reunir um elenco extraordinário, com nomes populares do cinema americano de sua época que teriam, pelos próximos anos, um sucesso ainda maior, com indicações (e vitórias) no Oscar e enormes êxitos de bilheteria. Glenn Close - que chegou a concorrer ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho, de certa forma representando o elenco inteiro - faria em breve "Atração fatal" (87) e "Ligações perigosas" (88), que também lhe levaram ao caminho da estatueta, que foi mais simpática com William Hurt - premiado como melhor ator por "O beijo da mulher-aranha" (85) - e Kevin Kline - que amealhou o prêmio de coadjuvante por "Um peixe chamado Wanda" (88). Tom Berenger concorreu também como coadjuvante por "Platoon" (86), e Jeff Goldblum tornou-se sinônimo de sucesso na década de 90 por seu trabalho nos blockbusters "Jurassic Park" (93) e "Independence day" (96). Juntos a Jobeth Williams - a mãe de família de "Poltergeist, o fenômeno" (82), Mary Kay Place e Meg Tilly - que também chegaria a concorrer ao prêmio da Academia como a freira acusada de matar seu filho recém-nascido em "Agnes de Deus" (85) - eles formam um time imbatível, capaz de prender a atenção do público mesmo com uma trama sem maiores lances e acontecimentos dramáticos. "O reencontro" é um filme de pequenos momentos, recheado de um inusitado senso de humor, ritmo adequado, cenas emocionantes e uma deliciosa trilha sonora que busca nos anos 60 sua matéria-prima.
Kevin Costner chegou a filmar algumas cenas com Alex, o suicida cuja morte catalisa o reencontro do título, mas teve suas cenas cortadas na edição final - Kasdan o recompensaria futuramente lhe dando um papel importante nos faroestes "Silverado" (85) e "Wyatt Earp" (94). O fim trágico de seu personagem dá o pontapé inicial ao filme, já que seus amigos, distanciados uns dos outros por compromissos profissionais, por estilos de vida e até mesmo por alguns problemas românticos, são obrigados a uma reunião inesperada que lhes dará, depois do choque, novos pontos de vista sobre suas vidas. Harold (Kevin Kline) e Sarah (Glenn Close) parecem os mais abalados pelo suicídio de Alex, uma vez que foi cometido durante uma temporada em sua casa - e também porque ele foi o pivô de uma crise no casamento dos amigos depois de um rápido caso com Sarah. A namorada do morto, Chloe (Meg Tilly) dá a impressão de não ter se abalado tanto assim com a tragédia, como se visse de outro nível a complexa teia de relações que se desenrola diante de seus olhos no fim-de-semana que todos dividem após o funeral. Meg (Mary Kay Place) é uma advogada corporativista infeliz com sua carreira e disposta a convencer um dos amigos a ser o pai de um filho seu; Michael (Jeff Goldblum) é um repórter de amenidades que precisa lidar com o fato de ter escrito um perfil pouco elogioso de Sam Weber (Tom Berenger), ator de uma série de TV medíocre, mas de muito sucesso popular e que balança ao reencontrar Karen (Jobeth Williams), por quem sempre foi apaixonado, mas que está vivendo um casamento estável e seguro. E Nicholas (William Hurt) tenta lidar com sua experiência no Vietnã - e suas consequências - convivendo com drogas e bebida.
A forma elegante e carinhosa com que Kasdan lida com seus personagens e seus dramas é um dos maiores méritos de "O reencontro". Por mais que alguns deles não sejam exatamente simpáticos ou ajam de maneira correta ou ética, é difícil não encontrar em cada um deles um rasgo de humanidade, de verdade, de sensibilidade. Glenn Close - justificando sua indicação ao Oscar - vive talvez a personagem mais complexa, uma Sarah que ama o marido e a família e busca conviver com um erro passado ao mesmo tempo em que também encara de frente a diferença entre tudo que quis ser e o que é em seu dia-a-dia. No final, quando tenta resgatar essa mulher do passado tomando uma atitude corajosa (e um tanto polêmica), fica claro ao público que tudo que os personagens de Kasdan querem é voltar a ser o que foram na juventude: idealistas, felizes, esperançosos e rebeldes. Mas a vida passa, o tempo é implacável e os caminhos nem sempre são fáceis. E é isso que "O reencontro" demonstra, ao som de músicas que acariciam os ouvidos e diálogos saborosos recitados por atores em dias inspirados. Cinema de primeira qualidade.
3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Glenn Close), Roteiro Original
Um grupo de amigos, unidos na juventude idealista, são obrigados a confrontarem o que fizeram de suas vidas quando voltam a se encontrar, no funeral de um deles. Tal reunião, logicamente, traz à tona frustrações profissionais, romances interrompidos e a sensação de que o tempo, cruel e implacável, pode tê-los transformados naquilo que eles mais desprezavam: membros capitalistas de um sistema que afrontava suas aspirações pessoais. Essa história, que hoje é velha conhecida dos fãs de cinema, foi tratada de diversas maneiras, tanto em tom cômico quanto em nuances dramáticas, em filmes com inúmeros graus de qualidade. Mas o pai de todos eles, aquele que deu origem a esse quase sub-gênero do cinema mundial (até mesmo a França bebeu em sua fonte, recentemente, com o belo "Até a eternidade", dirigido pelo ator Guillaume Caunet) é o já clássico "O reencontro", lançado por Lawrence Kasdan em 1983. Co-roteirista de "Os caçadores da arca perdida" (81) e "O império contra-ataca" (80), dentre outros sucessos, e diretor do elogiado "Corpos ardentes" (81), Kasdan escreveu seu roteiro inspirado em colegas com quem conviveu durante seus anos de universidade, o que dá a ele um senso de verdade poucas vezes visto em seus congêneres. Resultado: três indicações ao Oscar - incluindo filme e roteiro original - e uma aura de doce melancolia que se mantém fresca e atual mesmo depois de três décadas.
Para contar sua história de perdas e emoções, Kasdan teve a sorte de reunir um elenco extraordinário, com nomes populares do cinema americano de sua época que teriam, pelos próximos anos, um sucesso ainda maior, com indicações (e vitórias) no Oscar e enormes êxitos de bilheteria. Glenn Close - que chegou a concorrer ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho, de certa forma representando o elenco inteiro - faria em breve "Atração fatal" (87) e "Ligações perigosas" (88), que também lhe levaram ao caminho da estatueta, que foi mais simpática com William Hurt - premiado como melhor ator por "O beijo da mulher-aranha" (85) - e Kevin Kline - que amealhou o prêmio de coadjuvante por "Um peixe chamado Wanda" (88). Tom Berenger concorreu também como coadjuvante por "Platoon" (86), e Jeff Goldblum tornou-se sinônimo de sucesso na década de 90 por seu trabalho nos blockbusters "Jurassic Park" (93) e "Independence day" (96). Juntos a Jobeth Williams - a mãe de família de "Poltergeist, o fenômeno" (82), Mary Kay Place e Meg Tilly - que também chegaria a concorrer ao prêmio da Academia como a freira acusada de matar seu filho recém-nascido em "Agnes de Deus" (85) - eles formam um time imbatível, capaz de prender a atenção do público mesmo com uma trama sem maiores lances e acontecimentos dramáticos. "O reencontro" é um filme de pequenos momentos, recheado de um inusitado senso de humor, ritmo adequado, cenas emocionantes e uma deliciosa trilha sonora que busca nos anos 60 sua matéria-prima.
Kevin Costner chegou a filmar algumas cenas com Alex, o suicida cuja morte catalisa o reencontro do título, mas teve suas cenas cortadas na edição final - Kasdan o recompensaria futuramente lhe dando um papel importante nos faroestes "Silverado" (85) e "Wyatt Earp" (94). O fim trágico de seu personagem dá o pontapé inicial ao filme, já que seus amigos, distanciados uns dos outros por compromissos profissionais, por estilos de vida e até mesmo por alguns problemas românticos, são obrigados a uma reunião inesperada que lhes dará, depois do choque, novos pontos de vista sobre suas vidas. Harold (Kevin Kline) e Sarah (Glenn Close) parecem os mais abalados pelo suicídio de Alex, uma vez que foi cometido durante uma temporada em sua casa - e também porque ele foi o pivô de uma crise no casamento dos amigos depois de um rápido caso com Sarah. A namorada do morto, Chloe (Meg Tilly) dá a impressão de não ter se abalado tanto assim com a tragédia, como se visse de outro nível a complexa teia de relações que se desenrola diante de seus olhos no fim-de-semana que todos dividem após o funeral. Meg (Mary Kay Place) é uma advogada corporativista infeliz com sua carreira e disposta a convencer um dos amigos a ser o pai de um filho seu; Michael (Jeff Goldblum) é um repórter de amenidades que precisa lidar com o fato de ter escrito um perfil pouco elogioso de Sam Weber (Tom Berenger), ator de uma série de TV medíocre, mas de muito sucesso popular e que balança ao reencontrar Karen (Jobeth Williams), por quem sempre foi apaixonado, mas que está vivendo um casamento estável e seguro. E Nicholas (William Hurt) tenta lidar com sua experiência no Vietnã - e suas consequências - convivendo com drogas e bebida.
A forma elegante e carinhosa com que Kasdan lida com seus personagens e seus dramas é um dos maiores méritos de "O reencontro". Por mais que alguns deles não sejam exatamente simpáticos ou ajam de maneira correta ou ética, é difícil não encontrar em cada um deles um rasgo de humanidade, de verdade, de sensibilidade. Glenn Close - justificando sua indicação ao Oscar - vive talvez a personagem mais complexa, uma Sarah que ama o marido e a família e busca conviver com um erro passado ao mesmo tempo em que também encara de frente a diferença entre tudo que quis ser e o que é em seu dia-a-dia. No final, quando tenta resgatar essa mulher do passado tomando uma atitude corajosa (e um tanto polêmica), fica claro ao público que tudo que os personagens de Kasdan querem é voltar a ser o que foram na juventude: idealistas, felizes, esperançosos e rebeldes. Mas a vida passa, o tempo é implacável e os caminhos nem sempre são fáceis. E é isso que "O reencontro" demonstra, ao som de músicas que acariciam os ouvidos e diálogos saborosos recitados por atores em dias inspirados. Cinema de primeira qualidade.
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