terça-feira

ENTRE SEGREDOS E MENTIRAS

ENTRE SEGREDOS E MENTIRAS (All good things, 2010, Groundswell Productions/Hit the Ground Running Films, 101min) Direção: Andrew Jarecki. Roteiro: Marcus Hinchey, Marc Smerling. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: David Rosenbloom, Shelby Siegel. Música: Rob Simonsen. Figurino: Michael Clancy. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Richard Devine. Produção executiva: Barbara A. Hall, Michelle Krumm, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Janice Williams. Produção: Andrew Jarecki, Michael London, Bruna Papandrea, Marc Smerling. Elenco: Ryan Gosling, Kirsten Dunst, Frank Langella, Lily Rabe, Kristen Wiig, Diane Venora, Philip Baker Hall, Michael Esper, Trini Alvarado. Estreia: 03/12/10

O cineasta Andrew Jarecki tornou-se conhecido no meio cinematográfico graças ao excelente "Na captura dos Friedmans", de 2003, que concorreu ao Oscar de melhor documentário ao retratar o pesadelo de uma família acusada injustamente de abuso sexual infantil. Sua forma direta e seca de narrativa, um dos maiores méritos do filme, é perceptível também em seu primeiro (e até agora único) longa-metragem de ficção: mesmo inspirado em um crime real ocorrido na Nova York de 1982 e que permanece sem solução ainda hoje, "Entre segredos e mentiras" encontra força mesmo é em sua narrativa bem construída, que alterna elementos de suspense clássico com drama familiar. Enfatizando ora um gênero, ora outro, o roteiro consegue até mesmo driblar as armadilhas que uma narração em off apresenta a seus realizadores, utilizando-a como um trunfo a mais em um filme que se escora basicamente em outros dois enormes: os protagonistas Ryan Gosling e Kirsten Dunst.

Dunst, que estava saindo de uma séria crise de depressão quando leu o roteiro, aceitou participar do filme, apesar do tom baixo-astral que domina boa parte da trama: ela interpreta a bela e jovem Katie, que teve o azar de se apaixonar perdidamente por David Marks (Gosling), filho caçula de um bem-sucedido empresário do ramo imobiliário de Nova York (Frank Langella, à vontade no papel de vilão). Tímido, reservado e com sérios problemas psicológicos - enfatizados pelo trágico suicídio da mãe quando ele ainda era uma criança - David tenta desesperadamente fugir dos domínios familiares, e seu casamento com Katie - de família modesta e com ambições de tornar-se médica - o incentiva a seguir o próprio rumo. Conforme o tempo passa, porém, a relação entre os dois vai ficando mais e mais tensa, com a instabilidade do rapaz tornando o cotidiano dos dois cada vez mais perigoso e imprevisível. Quando Katie desaparece misteriosamente depois de uma briga, então, todas as suspeitas recaem sobre seu marido, que resolve mudar de identidade e esconder-se da polícia e evitar publicidade.

Explorando com sutileza o desequilíbrio de David, a direção de Jarecki possibilita à Ryan Gosling uma interpretação repleta de nuances, mostrando mais uma vez o grande talento do ator canadense, capaz de falar com um simples olhar mais do que muitos contemporâneos com páginas e páginas de diálogos. Suas cenas com Kirsten Dunst - em uma atuação contida, recheada de silêncios raivosos e desesperados - são cercadas de uma atmosfera rarefeita, em que a paixão e a felicidade são aos poucos substituídas pela tensão e violência. Mesmo quando o filme muda de rumo - com David assumindo uma nova identidade - e passa a seguir uma direção um tanto bizarra (e quase inverossímil), o minucioso trabalho de Gosling impede que o público deixe de acreditar na história, mantendo a atenção em uma história inacreditável e dotada de uma melancolia quase palpável, valorizada pela fotografia do veterano Michael Seresin e pela trilha sonora que destaca os momentos de maior tensão - como a sensacional sequência em que David invade uma festa familiar para arrancar do lugar (pelos cabelos!!) a esposa já desiludida com o casamento.

Sem medo de eleger como protagonista um homem psicologicamente afetado, instável e com tendências claras à violência - e de contar a história com um viés imparcial e desprovido de julgamentos morais - o filme de Andrew Jarecki conquista a plateia pela coragem em transformar uma história de amor em um drama de terror doméstico sem apelar para sustos desnecessários ou clichês do gênero. "Entre segredos e mentiras" é um filme muito acima da média, que explora a contento tanto sua trama - forte e densa - quanto seus atores - intensos e exímios intérpretes da alma humana.

Nenhum comentário:

JADE

  JADE (Jade, 1995, Paramount Pictures, 95min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem...